Archive for the ‘África do Sul’ Category

shangaan-eletrificação do mundo

30/07/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 22-07-2011

Richard “Nozinja” Methethwa, também conhecido por “Dog”, fez agradecimento público a Wills Glasspiegel, o responsável pelo lançamento de sua música fora da África do Sul: “ele me tirou da aldeia e me colocou no lugar ao qual eu pertenço.” Que lugar é esse? O palco do Rich Mix, novo centro cultural londrino – localizado no bairro vendido como o mais trendy da cidade – no qual Nozinja se apresentava pela primeira vez em solo britânico? Ou é lugar mais abstrato, aquele ocupado por celebridades mundiais, adoradas por platéias de todos os continentes? Óbvio: Nozinja estava em casa, como se nunca tivesse feito outra coisa na vida além tocar sua música pelo mundo afora, ou como se tivesse se preparado a vida inteira para aquele momento, com sentimento claro de que sua aldeia era pequena e que inevitavelmente iria se tornar influente cidadão planetário.

A transformação foi repentina. Até 2010 – apesar de produzir cerca de 50 mil discos por ano para a sua gravadora – era um nome a mais na cena musical do povo shangaan (ou tsonga – falante de uma das 11 línguas oficiais da África do Sul), ouvida apenas em aldeias pobres da fronteira com Moçambique ou nas áreas shangaan de Soweto, favela de Joanesburgo onde vivem muitos grupos étnicos que abandonam o campo para caçar dinheiro na selva urbana. Como aconteceu em tantas outras periferias globais, essa gente animada também descobriu no YouTube um espelho. Ali colocaram vídeos de suas festas de rua, inicialmente somente para comunicação aldeias-favelas. Mas não se fabrica mais isolamentos culturais como antigamente. As imagens estão na rede e podem ser consumidas por outros povos. Foi através do YouTube que Wills Glasspiegel, no seu apartamento do Brooklyn nova-iorquino, entrou em contato com a produção musical de Nozinja, que por sua vez estava criando uma nova roupagem, século XXI, para o pop shangaan.

Ninguém sabe ao certo como essas microtendências viram “virais”. Talvez Wills Glasspiegel tenha uma boa rede de amigos-formadores-de-opinião-mundial, ou talvez exista por trás de tudo uma campanha de marketing poderosa, de nova empresa secreta. Os vídeos toscos de gente dançando a rapidíssima batida (no show, Nozinja não parava de anunciar os BPMs de cada música, até chegar aos impossíveis 185) totalmente eletrônica sul-africana passaram a ser recomendados nos sites de música “antenada” mais influentes, em meados de 2010. Logo depois foi lançado, com muitos elogios na imprensa on-line e off-line, a compilação “Shangaan Electro”, destaque em várias listas de “melhores do ano”. Gosto especialmente da crítica de Bruno Silva, publicada no ótimo site português “bodyspace.net”. Repare o adorável sotaque lusitano (como gostaria de escrever assim!), que encontra justificativa estonteante mesmo para a monotonia das bases sonoras de todas as faixas, excessivamente repetitivas, ou tolas: “É um facto que todas as malhas assentam arraiais numa instrumentação idêntica, mas dada a frescura de tudo isto, acaba por nem se revelar pernicioso. Trata-se de música de dança, no sentido mais verdadeiro da palavra, onde a repetição é via para a comunhão entre o corpo que não se cansa e uma mente ao abandono. Esbatem-se as diferenças, mas permanece um corpo de obra importantíssimo, cujo entusiasmo se revela sem parcimónia.”

Agora, neste verão de 2011 no Hemisfério Norte, Nozinja excursiona triunfal por vários festivais europeus, levando platéias ao delírio (como comentou Chico Dub aqui no Segundo Caderno, em sua cobertura sobre o Sonar, de Barcelona, plataforma de lançamento para muitas modas). Ao se apresentar no anfiteatro da Fundação Calouste Gulbekian, em Lisboa, foi alvo de resenha ainda mais apoteótica do nosso querido “bodyspace.net”: “Pode-se até começar por dizer que terá sido o melhor Domingo de 2011. Ou por referenciar o ambiente familiar (em todos os sentidos) que se fazia sentir no anfiteatro da Gulbenkian. Ou mesmo que, por momentos, este país se tornou um sítio um pouco melhor para se estar. Mais do que tudo isso, foi prova cabal de que a música tem mesmo a capacidade de inflamar corações.” (Gosto de pensar na vingança do colonizado, colonizando mentalmente o ex-colonizador: a favelização do povo shangaan, povo comandante do Império de Gaza, foi obra do colonialismo português que derrotou o Imperador Gugunhana, cujo nome era também Reinaldo Frederico e morreu exilado nos Açores.)

No Rich Mix londrino, eu percebia o mesmo entusiamo na platéia. Não era platéia afropolita, como a da festa do museu Victoria & Albert comentada aqui na coluna da semana passada. Era maioria branca, mas não menos chique e dava para perceber que não podia haver público mais caçador de tendências na cidade. Todos – o show lotou dias antes – pareciam contentes por se imaginarem os primeiros a ter acesso não virtual e exclusivo ao fino da próxima bossa (se Lady Gaga for mesmo esperta fará um remix shangaan electro de “Judas”, aquela faixa harley-davison de seu disco mais recente). Mas tudo isso não deixa de ser bem estranho. A transposição do vídeo de rua para o palco europeu funciona de maneira divertida, mas capenga. Tudo bem: vivemos época de microtextos, microtendências, microcenas – e também microentusiasmos. Nada é falso, e é bom enquanto dura. Tudo é pop-up, mesmo a alegria. Sejamos bem-vindos ao lugar ao qual Nozinja pertence.

urbanidade africana

28/12/2010

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 16-07-2010

Muita gente apostou que a Copa 2010, por ter sido realizada num país africano, seria o caos. As previsões preconceituosas indicavam explosão da criminalidade, com todos os turistas como vítimas, sobretudo em Johannesburgo, ainda classificada como “anticidade” mesmo por jornalistas brasileiros. Porém, campeão anunciado, os resultados em termos de violência foram insignificantes. Na falta de notícias piores, até a maconha da amiga de Paris Hilton foi celebrizada como escândalo internacional. A África do Sul conseguiu uma vitória simbólica: no imaginário global o continente negro já ocupa outro lugar, menos estereotipado. “A Fifa se vê aliviada”? Os efeitos não são apenas de mão única. Como disse Danny Jordaan, executivo da Copa, para o New York Times: “Não houve só as pessoas vindo aqui para descobrir a África do Sul. Houve os sul-africanos descobrindo a si mesmos.” O ex-presidente Thabo Mberi também afirmou que o evento pode ser interpretado como “uma declaração para nós mesmos de que temos a capacidade de mudar.” Os encontros entre culturas diferentes, quando bem realizados, têm esta capacidade: transformam, para melhor, o modo como nos vemos e como os outros nos veem.

Visitei Johannesburgo em 1997, três anos depois das primeiras eleições livres pós-Apartheid. Estava vindo de Moçambique, onde participara da filmagens de Além-Mar, série de televisão sobre lugares do mundo onde se fala o português. Tive um dia de folga. Todos os membros da equipe quiseram conhecer os animais do Kruger Park. Eu, que não tenho muita curiosidade com relação a feras rurais, resolvi descansar sozinho na selva urbana. A oportunidade era rara: sabia que Jozi, como seus habitantes típicos carinhosamente chamam a cidade, estava hospedando uma bienal de arte contemporânea.

Fiquei num hotel perto do aeroporto. Deixei minha bagagem no quarto e sai imediatamente para pegar um táxi, que me levaria ao local de uma das exposições, no centro da cidade. Quando mostrei o endereço para o taxista zulu, ele me olhou assustado, dizendo que eu não deveria ir lá de jeito nenhum, pois seria assaltado na certa. Ou pior: seria espancado, sequestrado, e iria acordar amordaçado num barraco de Botswana, país vizinho. Minha resposta: “eu me garanto: vivo no Rio, cidade perigosíssima!” O senhor cedeu aos meus temerários desejos de arte esquisita. Mas vi que sua preocupação era sincera, tanto que não me deixou sair do carro antes de até a porta do museu para se assegurar que havia realmente uma exposição acontecendo dentro do edifício. Passei algumas horas entre obras de arte, mas na saída resolvi arriscar ainda mais, passeando pelos arredores como o único “branco” (nunca quis ser branco, mas ali não tinha como convencer ninguém da minha condição mestiça) naquelas ruas. Depois de vários quarteirões entrei numa loja de discos, onde tive conversa ótima com os donos congoleses (eles ficaram encantados quando souberam que eu conhecia Kinshasa, onde tinha visto os grandes criadores da rumba zairense ao vivo), mas não encontrei nenhum disco de kwaito, a música que descobrira no rádio do táxi e era tão nova que não tinha discos à venda (e preciso declarar: uma cidade que produziu músicas tão excelentes quanto o kwaito e a mbaqanga não pode de maneira alguma ser uma anticidade). Fui então aconselhado a sair daquele bairro imediatamente. Obedeci.

Ainda bem que estive na Bienal. A exposição tem ainda hoje importância crescente, quase mítica. Acabou com a ideia de que a África só tem arte tradicional ou folclórica, revelando dezenas de novos criadores tão modernos quanto Hélio Oiticica ou Jeff Koons. A curadoria catapultou o nome do nigeriano Okwui Enwezor para a lista de mais poderosos da arte contemporânea, levando-o a comandar, anos depois, uma edição muito importante da Documenta de Kassel. Talvez essa Bienal tenha sido um dos motivos, mesmo indireto, que levaram o arquiteto Rem Koolhaas a fazer um grande estudo sobre a urbanidade de Lagos, megalópole da Nigéria que passou a ser vista como o “futuro” das cidades do mundo todo. A visão de Koolhaas por sua vez serviu de incentivo para novas pesquisas urbanísticas em cidades da África, feita por africanos e estrangeiros, que trazem algumas das ideias mais interessantes originais do pensamento de hoje, em qualquer área. Gosto especialmente dos escritos de Achille Mbembe, sobre a “superfluidez” de Johannesburgo, e de Abdoumaliq Simone, sobre a “espectralidade” de Douala. Mas indico com entusiasmo absoluto qualquer coisa que Filip de Boeck publica sobre Kinshasa, radicalizando ainda mais as ideias de Simone (corpos e pessoas, e não edifícios, como infraestrutura – pois infraestrutura não-humana ali é miragem) e propondo uma análise das cidades como “arquiteturas do verbo”. Tomara que esse afro-pessoal passe um dia no Brasil para estudar nossas metrópoles, também produtoras de precariedade e desigualdade radicais, e ao mesmo tempo de misteriosa e resistente vitalidade cultural. Gosto sempre de olhares estrangeiros que possam desafiar nossos próprios olhares, combatendo a preguiça de refletir sobre o novo de maneira nova.

NOTÍCIAS DO OVERMUNDO: Sou sempre bem surpreendido por cada música lançada pelo MC Priguissa, de Natal. Sua base é o ragga eletrônico jamaicano, mas cheio de outras bossas: reggaeton, embolada, funk carioca, e agora também carimbó e guitarrada. Confira neste link. Lançamentos da Coletivo Records, que mapeia as ecléticas novidades da produção musical potiguar.


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