Archive for the ‘África’ Category

baobás da cultura

02/06/2020

Mory Kanté foi mais uma vítima da pandemia. De forma indireta: ele morava na Guiné mas fazia tratamento médico na França. Na impossibilidade de viajar, com a Europa em lockdown, os cuidados foram interrompidos e a piora da sua saúde foi fulminante. Tinha 70 anos, poderia ainda fazer muita música boa, e continuar nos encantando com sua voz, sua kora e sua sofisticada cultura de griot mandinga modernista. Como nos encantava desde criança e nos anos 1970 como membro da mítica Super Rail Band do Hotel da Estação de Bamako.

Tive a honra e sorte de entrevistar Mory Kanté no momento em que sua música Yé ké yé ké era primeiro lugar nas paradas de sucesso de países como Holanda e Israel. Uma novidade enorme no cenário pop global: parecia que a diversidade tinha chegado para ficar. Eu era parte da equipe do documentário African Pop. Estávamos em Paris, depois de passar por Lagos, Kinshasa e Dacar. A capital francesa tinha se tornado também a capital daquilo que poderia ter sido chamado de “sono mondiale” se o rótulo “world music” não tivesse vencido a guerra cultural.

A entrevista aconteceu no pequeno apartamento onde Mory Kanté morava, num conjunto habitacional da periferia parisiense. Estranho contraste: não havia elevador, subimos o equipamento por escadas escuras, grafitadas, com cheiro de urina, tudo isso para chegar a um ritual surpreendente: Mory Kanté estava recebendo um nobre da Guiné, que viajara para a França apenas para comemorar seu sucesso pop. A presença de uma equipe da TV brasileira aumentava a pompa e circunstância da ocasião. Foi uma noite de rituais, muitos discursos em mandinga e cantoria até de madrugada. Lugar certo, na hora certa. Beleza pura. Sou só boa recordação e profundo agradecimento agora.

A primeira gravação de African Pop, se me lembro bem, foi uma entrevista com Manu Dibango, este sim vítima direta da pandemia, no camarim do Canecão, quando ele estava no Rio promovendo seu maravilhoso disco Afrijazzy (que som poderoso ainda tem). Outra grande honra: Manu Dibango de Soul Makossa, uma das melhores músicas de todos os tempos, ou de Electric Africa, a celebração de novas tecnologias africanas.

Como disse Youssou N’Dour (que entrevistei na passagem de som do concerto do SOS Racisme em estádio de Dacar – depois assisti seu show da plateia, ao lado de uma turma tuareg): Mory Kanté é um baobá da cultura. Mestre. Manu Dibango também. Que bom que temos seus discos para nos consolar, para dançar, para pensar e seguir em frente.

Ranil, Analog Africa

17/05/2020

Descubro que Ranil é mais uma das vítimas da pandemia quase ao mesmo tempo em que escuto a excelente compilação de sua música que o selo Analog Africa acaba de lançar. Ele foi um dos principais inventores da cumbia amazônica, também conhecida por chicha ou cumbia psicodélica (um ramo da rede de estilos de apropriações da guitarra elétrica, e da surf music, que a grande floresta, e sua comunicação ribeirinha, também fertilizou – incluindo obviamente a guitarrada paraense). Estava na ativa, produzindo maravilhas dançantes e viajantes, desde os anos 1960. Era conhecido mais na região de Iquitos (que recentemente virou um dos epicentros de outro tipo de “psicodelia”: o “turismo” da ayahuasca), sua cidade natal (da qual tentou ser prefeito – informações difíceis de sem encontradas em pesquisa online, mostrando que há ainda zonas bem fora do radar da onipresente internet). Pena que não vai aproveitar a maior acessibilidade de sua obra, via Analog Africa. Mas é nosso dever espalhar suas criações por todos os lugares (lutando também pela sobrevivência da floresta, e de povos da floresta, que há milênios inventam estratégias sofisticadas para misturar bem natureza e cultura). Poucas músicas podem ser mais alegres.

Aṕroveito para celebrar também a obra da Analog Africa. Sua breve existência, de 2006 para cá, mostra perfeitamente como paixões pessoais podem virar projetos eficientes em rescrever a imaginação geral, injetando coisas boas na caretice do mundo. Samy Ben Redjeb, o fundador, viajou muito para África como instrutor de mergulho e comissário de bordo da Lufthansa (ele é tunisiano, criado na Alemanha). Colecionava discos que dificilmente circulavam fora de seus países. Queria que aquelas pérolas fossem melhor conhecidas. Conseguiu. Montou uma gravadora que já fez muito mais gente entender que a Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou, do Benin (que tive a honra de ajudar a trazer para tocar no Brasil num Percpan), ou a Dur-Dur, da Somália, estão entre as bandas mais incríveis de todos os tempos no planeta.

Apesar do nome, a Analog Africa também lança discos de outros continentes. Inclusive discos de grandes artistas brasileiros que são quase impossíveis de serem encontrados por aqui. Como as compilações do Mestre Cupijó. Ou de outros músicos paraenses: a Jambu (bateu agora uma saudade da pizza de jambu do Café Imaginário que havia em Belém…) tem, por exemplo, a faixa Xangô, assinada por Magalhães e Sua Guitarra (tem também Pai Xangô, de Pinduca, e um Carimbó para Yemanjá, de Orlando Pereira, revelando a forte presença da África na Amazônia). Recomendo especialmente o disco do Mestre Camarão, sanfoneiro pernambucano da pesada, música para levantar qualquer astral.

Angélique Kidjo

28/04/2020

#GlassMinute é uma série para tempos de pandemia publicada por Philip Glass em suas redes sociais. São vídeos curtos, 1 minuto cada, mostrando artistas de todo o mundo se relacionando com suas composições. Ontem apareceu a figura e a voz imponentes de Angélique Kidjo cantando a parte da Sinfonia n° 12 (composta por Glass inspirada no disco Lodger de David Bowie) onde ouvimos a letra de Red Sails.

Pensei em Numa Ciro com seu canto a capella. Até a roupa tem semelhanças: uma Numa Ciro subitamente negra e africana, ao mesmo tempo a capella e acompanhada por orquestra sinfônica. (Aproveito para perguntar: quando Numa Ciro lançará seu excelente primeiro disco, onde o a capella aparece apenas na abertura e nas faixas seguintes é substituído por canto acompanhado por muitos instrumentos, tudo com brilhante produção de Lan Lanh?)

Pensei também na carreira cada vez mais excelente/brilhante da própria Angélique Kidjo. Quero elogiar principalmente seus dois discos mais recentes. Em 2018 lançou Remain in light, sua ousada versão para o disco do Talking Heads, regravado faixa a faixa. Em 2019 foi a vez de Celia, com suas versões para músicas gravadas por Célia Cruz (preciso tirar onda: tive a honra de entrevistar a rainha da salsa para uma série de programas de TV chamada Baila Caribe), acompanhada até pelo Sons of Kemet.

Os dois discos dão um nó no debate sobre apropriação cultural. Atualizam as transações rizomáticas do Atlântico Negro de forma surpreendente. A música afrocubana fez a viagem de volta sobre o oceano via ondas curtas (elas ainda existem?) e discos de 78rpm e foi copiada por músicos de Kinshasa na invenção da rumba zairense, acontecimento fundamental para todo o pop africano. O som de Fela Kuti, com sua releitura iorubá de James Brown, foi fundamental para a produção de Remain in light com Brian Eno. Angélique Kidjo torna essas conexões mais evidentes ainda, ou totalmente explícitas como como ao misturar o refrão de Lady de Fela Kuti com o “I’m still waiting” de Crosseyed and painless. Ou ao escolher várias canções que falam de candomblé/santeria para o repertório de Celia (Angélique Kidjo é iorubá pelo lado materno).

Idas e vindas, fluxos e refluxos, inclusive neste #GlassMinute de ontem: o disco Lodger, que também tem colaboração de Brian Eno, é o mais “africano” da discografia de Bowie, mesmo pensando no drum’n’bass de Earthling.

Angélique Kidjo sabe de tudo isso, e leva tudo isso adiante, com inteligência, criatividade e novas misturas impressionantes.

(Tenho tentado escrever sobre outras coisas, coisas fortes, animadoras. Mas está bem difícil.)

imigrantes

04/04/2018

Prova recente dos benefícios da imigração para a inovação cultural: o número crescente de filhos de imigrantes nigerianos que já se tornaram criadores centrais no mundo das artes dos EUA. O nome de Chimamanda Ngozi Adichie é talvez o mais conhecido desta turma poderosa. Ela já recebeu até aquela bolsa para gênios da Fundação MacArthur, além de ter feito discurso feminista em hit da Beyoncé. Mas há muito mais gente de mesma situação étnica-social-transgeográfica começando a ocupar a lista dos artistas americanos mais influentes do momento. Estou aqui para falar de Nnedi Okorafor e Chino Amobi. (Informação adicional: os três – Chimamanda, Nnedi e Chino – têm pais, além de nigerianos, da etnia igbo. Mas lembro agora de um quarto nome, não menos influente, o do escritor Teju Cole, que é iorubá.)

Acabo de ler a trilogia Binti, de Nnedi Okorafor. O terceiro livro foi lançado em janeiro. São todos curtinhos. Tanto que o primeiro ganhou os prêmios Hugo e Nebula – para quem não sabe: os mais importantes da ficção científica – para “novellas”. Podem portanto ser lidos de enfiada, com fiz com enorme prazer. Minhas últimas leituras de FC tinham sido os calhamaços de Kim Stanley Robinson, a trilogia do “problema dos três corpos” de Cixin Liu, e o “Seveneves” de Neil Stephenson, todos extraordinários, mas que fundiram meus miolos com doses cavalares de ciência duríssima, de mecânica orbital a genética aplicada. Há essa tendência na FC do século XXI (um pouco menos em Cixin Liu) de só escrever sobre o que pode realmente acontecer respeitando todas as leis científicas. As viagens demoram séculos, a gravidade dentro das naves não pode ser fruto de um passe de mágica etc. Então foi ótimo e relaxante reencontrar a magia (ainda mais com base panafricana) do tudo é possível em Nnedi Okorafor. Mesmo com as questões que levam a personagem Binti, garota fascinante, a primeira de seu povo a viajar pela galáxia, a viver a maior crise de identidade de todos os tempos, consequência de violentas mestiçagens alienígenas.

Importante ver uma mulher negra, com base cultural tão africana, se tornar um dos principais escritores de FC de agora. Nnedi não nasceu nerd, não lia FC na adolescência. Mas nas férias com os pais na Nigéria dos anos 1990 descobriu uma Africa tecnológica (celulares nas aldeias remotas etc.) que não estava retratada em literatura alguma. Escrever FC foi o atalho que encontrou para pensar/debater essa realidade. Deu certo. Hoje não para de trabalhar. Atrai convites os mais variados e impressionantes. George R. R. Martin, o criador de Game of Thrones, está produzindo uma série baseada em “Quem teme a morte“, um dos primeiros sucessos de Nnedi, para a HBO. Ela também já escreveu para a franquia “Guerra nas estrelas” e vai publicar uma história em quadrinhos com o Pantera Negra. Todo mundo quer tirar uma casquinha de sua imaginação pós-imigrante de discípula africana de Octavia Butler.

Chino Amobi também é fã de Octavia Butler. Sua música pode ser ouvida como, entre muitas outras possibilidades, FC. Seu primeiro álbum, Paradiso (o inferno de Dante e o gótico de Edgar Allan Poe em forma de muito barulho bom), foi eleito o melhor lançamento do ano passado pelo time de críticos reunido pela revista The Wire, a publicação mais importante para quem se interessa pelo futuro da música, ou pelo lado mais experimental da arte dos sons. Isso garante influência por décadas a seguir. Além de cuidar de seu próprio trabalho, Chino é um dos três afropolitas fundadores da NON Worldwide, república resistente tipo a Kalakuta do Fela Kuti, mas sem sede física, movimento virtual com ações concretas (em pistas de dança, museus, galerias etc.) que fortalece as carreiras e batalhas de novos criadores da diáspora africana. Foi através da NON que entrei em contato, por exemplo, com a dupla FAKA (uma delas se chama Fela Gucci), arte transtudo da África do Sul.

Tudo animador, revigorante. Isso se junta às novidades constantes da filosofia africana, também migrantes, desterritorializantes. Imagine o que o mundo estaria perdendo se a imigração fosse realmente proibida, e todos os países vivessem cercados por “walls”.

batizado

15/02/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 14/02/2014

Amanhã só escutarei zouk bass para comemorar um ano do batismo desse “gênero musical”. Exatamente no dia 15/02/2013 a cerimônia aconteceu com toda solenidade dançante em clube de Lisboa. Mais importante: foi transmitida pela Boiler Room, a tv online autointitulada “o principal show de música underground do mundo”. Quem comandava a festa era o Buraka Som Sistema. Seu set começou com “Tarraxo na parede”, do DZC Deejay, coletivo baseado na cidade de Setúbal. O reverendo foi o MC Kalaf Ângelo, do Buraka (e uma das pessoas mais bacanas e inteligentes do planeta), que – ao som das primeiras batidas eletrônicas – celebrou ao microfone em inglês (sua audiência era global): “we call it zouk bass”. Pronto. Repercussão imediata em todos os continentes. O registro do batizado tem mais de 300 mil visualizações no YouTube.

Doze meses depois: já tenho material suficiente para passar as 24 horas deste sábado ouvindo apenas zouk bass. Em 2013, só o site da gravadora Mad Decent disponibilizou três compilações chamadas Zouk Bass, com faixas produzidas nas mais diferentes latitudes/longitudes. As previsões para 2014 indicam enxurradas de lançamentos. Semana passada o Público, jornal lusitano, decretou em manchete de matéria com lista enorme de estreantes: “Há um novo som a bater na cidade”. O DJ UMB, no blog referência Generation Bass (também selo musical e “instituição”), anunciou: “2014 vai ser um grande ano” com novas direções para o “gênero”.

Coloco aspas envolvendo a palavra gênero porque é difícil definir suas características propriamente musicais, apontando suas diferenças com relação a todas as outras novidades que confundem alegremente nossos passos nas pistas de dança mais avançadas. Na verdade, o MC Kalaf apenas criou “brand” bem sucedido para identificar a mais nova mutação numa longa história musical. O título da música que abriu o set do Buraka não era “tarraxo” à toa. Tarraxo, ou tarraxinha (que vem com tudo no próximo carnaval baiano, até em sucesso de Cláudia Leitte com Luiz Caldas), denomina a maneira angolana de se apropriar do zouk, música criada pelos antilhanos entre a França e Guadeloupe/Martinica, que fez retumbante sucesso na África nos anos 1980.

Acompanho com enorme interesse a trajetória do zouk desde aquela época. Cheguei até a publicar aqui no Segundo Caderno, em fevereiro de 1987, entrevista com Jocelyne Béroard depois da apresentação de seu grupo Kassav’ (inventor do zouk) no Recife. Foi incrível ver a reação da plateia que nunca tinha ouvido as músicas tocadas no palco. Todo mundo dançando lambada. Explicação fácil: a lambada brasileira nasceu com LPs piratas, lançados por gravadoras paraenses, de música caribenha, inclusive a cadence das Antilhas Francesas. O zouk era uma modernização pop (turbinada pelo baixo funk sublime de George Décimus) da cadence.

Quando visitei a África em 1988, o zouk era o ritmo do momento, com excursão triunfal do Kassav’ lotando inclusive o maior estádio de Luanda (há registros no YouTube). Não demorou muito para a criação de híbridos locais, assim como acontecera com a música cubana antes, elemento fundamental para o highlife de Gana ou para, obviamente, a rumba congolesa (que depois se misturou ao zouk). Essa interação cultural muito dinâmica no Atlântico Negro é fenômeno secular.

Nos anos 1990 passei em Cabo Verde e percebi que a música mais popular em todas as suas ilhas era a versão local do zouk mais romântico, o zouk love, cantada em crioulo. A RDP África, rádio de Lisboa que podia ser escutada no FM de todos os países africanos de língua portuguesa (em um de seus programas, ouvi também, andando por mercado de Bissau, entrevista com Paulo Coelho), cuidou de difundir o zouk caboverdiano em Angola. Ali, uma vertente mais percussiva deu no kuduro, outra mais melodiosa deu no tarraxo, para casais dançarem juntinhos. Os imigrantes africanos levaram esses sons para Portugal e lá fizeram novas misturas, agora com moombahton e trap. Deu no zouk bass.

O Buraka Som Sistema (tenho orgulho de ser responsável por sua primeira apresentação no Rio, começando pelas bordas: no festival Baile Skol eles só tocaram em Campo Grande e Duque de Caxias) atua na função de curadoria de todas essas novidades, com poder para transformá-las em tendências planetárias. Antes do zouk bass, o site Enchufada (quartel-general do Buraka) já tinha espalhado o tuki venezuelano pelo mundo. Esse tipo de circulação cultural agora é muito veloz. Não há mais nova cena artística, mesmo na periferia da periferia, que não ganhe visibilidade imediata. Outro candidato ao novo cool: “todo mundo antenado” só fala agora na “rasteirinha”, o tarraxo do funk carioca, antes de qualquer jornal brasileiro saudar devidamente a novidade.


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