Archive for the ‘África’ Category

batizado

15/02/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 14/02/2014

Amanhã só escutarei zouk bass para comemorar um ano do batismo desse “gênero musical”. Exatamente no dia 15/02/2013 a cerimônia aconteceu com toda solenidade dançante em clube de Lisboa. Mais importante: foi transmitida pela Boiler Room, a tv online autointitulada “o principal show de música underground do mundo”. Quem comandava a festa era o Buraka Som Sistema. Seu set começou com “Tarraxo na parede”, do DZC Deejay, coletivo baseado na cidade de Setúbal. O reverendo foi o MC Kalaf Ângelo, do Buraka (e uma das pessoas mais bacanas e inteligentes do planeta), que – ao som das primeiras batidas eletrônicas – celebrou ao microfone em inglês (sua audiência era global): “we call it zouk bass”. Pronto. Repercussão imediata em todos os continentes. O registro do batizado tem mais de 300 mil visualizações no YouTube.

Doze meses depois: já tenho material suficiente para passar as 24 horas deste sábado ouvindo apenas zouk bass. Em 2013, só o site da gravadora Mad Decent disponibilizou três compilações chamadas Zouk Bass, com faixas produzidas nas mais diferentes latitudes/longitudes. As previsões para 2014 indicam enxurradas de lançamentos. Semana passada o Público, jornal lusitano, decretou em manchete de matéria com lista enorme de estreantes: “Há um novo som a bater na cidade”. O DJ UMB, no blog referência Generation Bass (também selo musical e “instituição”), anunciou: “2014 vai ser um grande ano” com novas direções para o “gênero”.

Coloco aspas envolvendo a palavra gênero porque é difícil definir suas características propriamente musicais, apontando suas diferenças com relação a todas as outras novidades que confundem alegremente nossos passos nas pistas de dança mais avançadas. Na verdade, o MC Kalaf apenas criou “brand” bem sucedido para identificar a mais nova mutação numa longa história musical. O título da música que abriu o set do Buraka não era “tarraxo” à toa. Tarraxo, ou tarraxinha (que vem com tudo no próximo carnaval baiano, até em sucesso de Cláudia Leitte com Luiz Caldas), denomina a maneira angolana de se apropriar do zouk, música criada pelos antilhanos entre a França e Guadeloupe/Martinica, que fez retumbante sucesso na África nos anos 1980.

Acompanho com enorme interesse a trajetória do zouk desde aquela época. Cheguei até a publicar aqui no Segundo Caderno, em fevereiro de 1987, entrevista com Jocelyne Béroard depois da apresentação de seu grupo Kassav’ (inventor do zouk) no Recife. Foi incrível ver a reação da plateia que nunca tinha ouvido as músicas tocadas no palco. Todo mundo dançando lambada. Explicação fácil: a lambada brasileira nasceu com LPs piratas, lançados por gravadoras paraenses, de música caribenha, inclusive a cadence das Antilhas Francesas. O zouk era uma modernização pop (turbinada pelo baixo funk sublime de George Décimus) da cadence.

Quando visitei a África em 1988, o zouk era o ritmo do momento, com excursão triunfal do Kassav’ lotando inclusive o maior estádio de Luanda (há registros no YouTube). Não demorou muito para a criação de híbridos locais, assim como acontecera com a música cubana antes, elemento fundamental para o highlife de Gana ou para, obviamente, a rumba congolesa (que depois se misturou ao zouk). Essa interação cultural muito dinâmica no Atlântico Negro é fenômeno secular.

Nos anos 1990 passei em Cabo Verde e percebi que a música mais popular em todas as suas ilhas era a versão local do zouk mais romântico, o zouk love, cantada em crioulo. A RDP África, rádio de Lisboa que podia ser escutada no FM de todos os países africanos de língua portuguesa (em um de seus programas, ouvi também, andando por mercado de Bissau, entrevista com Paulo Coelho), cuidou de difundir o zouk caboverdiano em Angola. Ali, uma vertente mais percussiva deu no kuduro, outra mais melodiosa deu no tarraxo, para casais dançarem juntinhos. Os imigrantes africanos levaram esses sons para Portugal e lá fizeram novas misturas, agora com moombahton e trap. Deu no zouk bass.

O Buraka Som Sistema (tenho orgulho de ser responsável por sua primeira apresentação no Rio, começando pelas bordas: no festival Baile Skol eles só tocaram em Campo Grande e Duque de Caxias) atua na função de curadoria de todas essas novidades, com poder para transformá-las em tendências planetárias. Antes do zouk bass, o site Enchufada (quartel-general do Buraka) já tinha espalhado o tuki venezuelano pelo mundo. Esse tipo de circulação cultural agora é muito veloz. Não há mais nova cena artística, mesmo na periferia da periferia, que não ganhe visibilidade imediata. Outro candidato ao novo cool: “todo mundo antenado” só fala agora na “rasteirinha”, o tarraxo do funk carioca, antes de qualquer jornal brasileiro saudar devidamente a novidade.

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para todos

20/07/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 19/07/2013

O campo de futebol é o novo rádio. Para estourar música hoje no Brasil o melhor caminho se chama Neymar. Receita: Neymar faz um gol e dança o futuro hit no gramado; o vídeo da comemoração vai para a internet, vira um dos mais compartilhados no YouTube e todas as rádios seguem seus passinhos. Na verdade, nem o gol é necessário: uma dança no vestiário filmada pelo celular já catapulta qualquer cantor de arrocha para o estrelato (Neymar – ou Cristiano Ronaldo, que dançou “Aí se eu te pego” – também sai ganhando, pois aparece conectado ao gosto da multidão, antes que a multidão saiba que tem esse gosto). A trilha da novela virou consequência e não o ponto de partida do sucesso.

Não se trata de fenômeno apenas brasileiro. O jogador Asamoah Gyan, o Baby Jet, é sempre citado em todo texto que tenta explicar o sucesso mundial do azonto, a dança surgida nas periferias de Acra, capital de Gana. Tudo foi anunciado nos estádios da Copa do Mundo da África do Sul. Agora está até nas ruas canadenses. E desde 2 de junho, data de lançamento de “Antenna” do cantor britânico-ganense Fuse ODG, passou a ocupar espaço entre os primeiros colocados – chegou ao sexto lugar – nas paradas musicais da Inglaterra, conquista raríssima (não me lembro de precedentes – talvez “Pata pata” ou “Soul makossa”?) para o pop africano, sempre isolado no gueto “world music”.

A história da divulgação de “Antenna” inclui estratégia inovadora de marketing para além do futebol. Fuse ODG – seu nome de passaporte é Richard Aboina – primeiro disponibilizou a base sonora na internet dando partida para concurso de azonto: os melhores dançarinos participariam do clipe oficial. O grupo competidor da Suiça fez um flash mob em estação ferroviária de Berna. As candidatas do Quênia se fantasiaram de matronas africanas. Comemorando o sucesso em rádios que nunca tocaram músicas africanas, Aboina apareceu em entrevista para BBC já fazendo propaganda de seu próximo lançamento: no seu boné – é claro que de aba dura – trazia a sigla TINA, abreviação de “This is new Africa”. Ele é realmente um novo africano.

Ou melhor: ninguém sabe como classificá-lo em termos de identidade. Nasceu em Londres, fez escola primária em Acra. Para o que resta da indústria fonográfica inglesa ele é africano. Em Gana, é saudado como o primeiro inglês a ganhar troféu em prêmio da música local. Talvez seja descrito melhor como exemplo bem sucedido do afropolitismo. Em coluna de 2011, citei o artigo onde a escritora (“nascida em Londres, criada em Boston, vive em Nova York, Nova Delhi, Roma” e tem família em Gana) Taiye Selasi definiu os afropolitas como pessoas que “não pertencem a uma geografia única, mas se sentem em casa em muitas.” O termo não virou título de seminários, festas, blogs apenas por modismo passageiro. Ele toca em tendência social profunda, e descreve um estilo de vida com cada vez mais adeptos.

Taiye Selasi finalmente lançou seu aguardado primeiro livro, “Ghana must go” (não resisto em fazer comentário que poderá ser interpretado como machista: nunca a foto do autor na segunda orelha revelou rosto mais bonito). A trama não poderia ser mais afropolita (com toques de Sam Shepard): reunião em Acra de quatro irmãos – entre eles dois gêmeos de beleza estonteante, tratados o tempo todo pelo iorubá ibeji – com a mãe nigeriana para o funeral do pai ganense, médico que teve início de carreira brilhante em hospital de Boston interrompida de forma cruel. Um dos filhos traz sua mulher chinesa. Um ibeji é pintor com cabelo mais rasta do que o de (e quadros mais caros do que os de) Basquiat. As referências de várias culturas (alguém tem voz de Luther Vandross) se misturam em todas as páginas com ritmo sufocantemente natural. A História (a Guerra de Biafra, o 11 de Setembro) está sempre por ali nos espreitando.

Recomendo a leitura simultânea de “Ghana must go” (título sampleado de campanha que queria expulsar os ganenses da Nigéria) e de “Jazz cosmopolitanism in Accra”, de Steven Feld, antropólogo que escreveu também sobre a vida sonora dos índios de Papua-Nova Guiné e fez documentários sobre a música – tocada com buzinas – dos motoristas dos caminhões-micro-ônibus de Acra. Entre um livro e outro a costura pode ser feita por “Cosmopolitanism”, de Kwame Anthony Appiah (filósofo ganense de Princeton), e “O cosmopolitismo do pobre”, de Silviano Santiago. Assim ficará cada vez mais claro: antes, ser cosmopolita era exclusividade de intelectuais e de gente rica (ainda hoje a conversa preferida em seus jantares demonstra como todos são íntimos das ruas de grandes cidades do planeta, onde andam “até de transporte público”); hoje, é destino imposto à maioria.

o resto do mundo

01/06/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 31/05/2013

Em 2002, a editora da Universidade das Índias Ocidentais, que tem campi na Jamaica, em Barbados e em Granada, publicou a tradução para inglês de meu livro “O mistério do samba”. Fui para Kingston acompanhar o lançamento. Conheço outros brasileiros com vistos jamaicanos carimbados no passaporte. Suas viagens foram motivadas ou por amor pelo reggae ou por desejo de resort e água fresca. Eu conheci o estúdio (ainda pré-digital) de Sly Dunbar, dei entrevista de rádio intercalada por seleção musical (toquei o samba-reggae do Olodum), mas o lugar onde passei mais tempo foi em sala de aula. Conheci vários professores com trabalhos fascinantes – repensando o lugar do Caribe no mundo – e desconhecidos no Brasil. Isso me fez ter consciência do insólito da minha condição: a recíproca certamente não era verdadeira – qual jamaicano teve livro lançado por editora universitária brasileira? E por que a resposta mais provável (“nenhum”) não nos causa mais espanto?

Estamos acostumados a só prestar atenção em pensadores estrangeiros se eles nos são apresentados por prêmios como o Nobel ou por universidades americanas ou europeias. Mesmo com relação à cultura chamada de popular, os canais de comunicação diretos com países de mesmo IDH são raros. Tudo tem que passar antes pela aprovação das metrópoles: até o kuduro (nascido em Angola, terra com intercâmbio cultural secular com o Brasil) precisou tocar em Coachela para só depois chegar na Fosfobox. Quando o assunto é produção acadêmica, o ambiente fica tão rarefeito quanto o ar no topo do Aconcágua.

Empolgado, voltando da Jamaica tentei lançar por aqui livro da Carolyn Cooper sobre letras de dancehall ou feminismo caribenho. Lancei também a ideia de seminários anuais com o objetivo de construir pontes com a vanguarda do pensamento de um país diferente por edição. Nada foi muito adiante. Muitos textos que escrevi para esta coluna provam que não abandonei esse projeto, até porque a evolução recente do mundo aponta para uma realidade cada vez mais descentralizada, onde a inovação de mais futuro – vide o modelo de negócios do pop coreano – aparece fora dos tradicionais centros de poder cultural e econômico. O Brasil mesmo – vide, por exemplo, os últimos números de “melhores do ano” da revista Art Forum (para citar o poder ainda considerável de uma publicação do ex-Centro) – ganhou projeção inédita entre caçadores de tendências de todos os tipos, da aviação à literatura.

A fragmentação da produção do novo vai ficar mais radical. Não comecei falando de Jamaica à toa. Lembrei minha viagem “universitária” de 2002 quando outro dia recebi link para matéria (publicada em site do Primeiro Mundo) sobre o simpósio “Desenvolvendo o Caribe” que aconteceu no mês passado em Kingston. Foi ali que descobri o nome de Julian Jay Robinson, ministro de Ciência, Tecnologia, Energia e Mineração do governo jamaicano. As políticas que defendeu no simpósio parecem banais (para quem está acostumado com o mundo pós-TED): transformação da sua ilha em território acolhedor para start-ups tecnológicas, com banda larguíssima e estímulo para “open data” e “open government”.

Certamente: a receita é comum (o que inclui também diagnósticos semelhantes para problemas sociais e econômicos), mas o modo variado como ela está sendo aplicada pelo mundo afora merece nossa total atenção. Estamos acostumados a fazer comparações apenas com o “caso americano”, o “caso alemão”, quando muito com o “caso japonês” e talvez as respostas que procuramos tenham mais a ver com experiências que estão sendo feitas agora em realidades bem pouco óbvias. Nesse seminário sobre o desenvolvimento do Caribe, o mais interessante era ouvir relatos sobre lugares que antes nunca eram lembrados quando o debate tinha como foco políticas públicas ou empresariais de ponta.

É isso: para os países caribenhos a lição mais importante pode vir, quem diria, do Quênia. Uma das estrelas do simpósio foi Paul Kukubo, CEO do Conselho para Tecnologia da Informação e Comunicação baseado em Nairobi, que acompanhou de perto o desenvolvimento do sistema de transferência de dinheiro por celular (créditos de tempo de ligação convertidos em créditos monetários, usados principalmente para trabalhadores das periferias urbanas mandarem dinheiro para parentes que moram em aldeias rurais sem banco nenhum nas redondezas) ou do tablet popular construído para atender necessidades bem africanas.

Claro: muitas dessas tentativas vão fracassar. Mas diversidade é boa para isso: quanto mais gente diferente tentando coisas diferentes, mais chance de acerto. Por isso é cada vez mais importante ficar olhando para onde “ninguém” mais olha

bling blue

31/03/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 30/03/2012

Dama do Bling é o melhor nome de cantora já anunciado na face da Terra ou do YouTube. Na minha exaltada opinião, só é comparável a Tati Quebra-Barraco ou Poly Styrene. Mais incrível: ela é moçambicana e sua música é fenomenal. Fico – eu que tenho a pretensão de estar em dia com novidades pop lusófono – envergonhado de confessar que só ouvi sua voz pela primeira vez há poucos dias. E por caminho tortuoso, em matéria do MTV Iggy sobre a extrema vitalidade do rap na Nigéria. O texto, sem dar importância à informação, lá numa dada hora, dizia que Sasha P, primeira dama do hip hop local, havia gravado com uma tal Dama do Bling. Meu alarme de curiosidades pós-modernas tocou com vibração máxima. Epa! Que venerável dama é essa? Como pode haver alguém no mundo com esse nome vitoriano/kraftwerkiano sem que eu tenha sido avisado?

No YouTube encontrei o clipe (produzido pela Bang Entretenimento e “direcionado pelo DJ Marcell, o melhor da África Austral”) da “Dança do remexe”, de quatro anos atrás. Era prova que eu e o Brasil estamos totalmente desatualizados: poderia ter sido hit por aqui tão poderoso quanto “Dança kuduro”, de Daddy Kall e Latino. A primeira imagem é daquele tipo chamado de “money shot” pelo business de Hollywood, filmada para fazer o queixo do público cair provando orçamento farto. Um helicóptero pousa e é recebido por uma frota Mercedes-Benz. Logo aparece a Dama do Bling rebolando com figurino, cabelo e maquiagem de Nicki Minaj (não sabe quem é? foi homenageada até com uma Barbie com a cara dela), antes de Nicki Minaj fazer sucesso. Gosto até da letra: “vamos juntos fazer o chão saltar/ Dama vai, dança, requebra, não sossega/ fecha os olhos como se fosse cabra cega”.

Tive a honra de, em 1997, ter visto o primeiro show de rap realizado em Maputo, mais precisamente no Centro Cultural Franco-Moçambicano, situado na Praça da Independência, esquina com avenida Samora Machel, a meio caminho entre as avenidas Karl Marx e Vladimir Lênin (o registro da noitada histórica faz parte do documentário Além-Mar). O que mais me impressionou, ao olhar o público vestido de Wu-Wear (marca de roupa do coletivo Wu-Tang Clan) foi constatar a velocidade da “alfabetização” da juventude local na linguagem do rap dos EUA, país que era considerado vilão número 1 pelos governos comunistas que sucederam os colonizadores portugueses. Vários garotos que entrevistei ainda tinham lembrança vívida do tempo em que até o uso de jeans era crime ideológico punido com reeducação em Niassa, a Sibéria escaldante nacional.

Esse show aconteceu antes da popularização da internet (lembro que a internet comercial brasileira só apareceu em 1995). Hoje conexões por computadores e celulares tornam possível a formação de cena de hip hop continental, como provam as parcerias da Dama do Bling com a nigeriana Sasha P (música excelente, vídeo sensacional – repare nos efeitos especiais de luta) ou a queniana Yvonne. Essa música eletrônica pan-africana já está pronta para fazer sucesso no resto do planeta. O jornal The Guardian decretou que o rap afro-híbrido é “o novo som do underground britânico” ou “a cena mais quente hoje no Reino Unido”. O DJ Abrantee deu nome para a moda: afrobeats, com s para diferenciá-lo do afrobeat de Fela Kuti e outros avós dos rappers de Lagos.

Além dos elogios sempre suspeitos dos trend hunters ingleses, há sinais mais fortes de alavancagem comercial da turma da Dama do Bling. Exemplos eloquentes: Kanye West contratou o nigeriano D’Banj – autor de Oliver Twist, o hit dançante mais divertido de 2012? – para seu selo G.O.O.D. Akon assinou com Sarkodie, de Gana. Para a geração de Fela, Franco e Ladysmith Black Mambazo, esse reconhecimento mundial demorou décadas. Hoje, a internet tornou tudo praticamente instantâneo, sem precisar da grande mídia ou das grandes gravadoras para fazer a informação circular. Agora são os “grandes” que correm atrás dos “pequenos”, e cenas culturais surpreendentes nascem – muitas vezes se beneficiando daquilo que os grandes chamam de pirataria – em todos (e entre todos) os continentes.

Há cenas que praticamente só existem na internet e nas ruas/pistas de dança, sem mediação da mídia tradicional. Veja este domingo, no Esquenta!, o MC Nego Blue acompanhado pela banda do DJ Marlboro. Nego Blue me era tão desconhecido quanto a Dama do Bling. Quem me chamou a atenção para sua música foi Renato Barreiros, que trabalhou como pesquisador nesta temporada do Esquenta! e antes teve papel importante na evolução da versão paulistana do funk carioca quando fazia parte da equipe da subprefeitura da Cidade Tiradentes, extremo leste da cidade de São Paulo. Naquele período pioneiro o poder público, ao contrário do que aconteceu no Rio, soube dialogar com o novo ritmo. Renato combateu os preconceitos dos outros políticos e organizou festivais oficiais. Quem diria: o funk carioca é hoje o som da periferia paulistana, com sotaque local.

Pena: notícias recentes mostram que a polícia chega agora nos bailes já detonando bombas de efeito moral. Tal atitude pode empurrar tudo para a marginalidade. Perde-se assim enorme oportunidade de aproximação com a nova cultura jovem. Nomes como MC Nego Blue, MC Dedê e MC Boy do Charme têm clipes com vários milhões de views no YouTube e agendas lotadas de shows já em vários estados brasileiros. O poder público não aprende com seus próprios erros e acertos. Funk vai voltar a ser sempre assunto para a secretaria de segurança, desprezado pela “cultura”?

nômade

05/11/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 28/11/2011

Peter Fry fez 70 anos na semana passada. O Brasil tem tido o privilégio de conviver com esse antropólogo de origem britânica desde 1970, quando ele aportou em Santos para ser professor na Unicamp. Um de seus livros ganhou o título “Para inglês ver”. Tomara que continue nos vendo, nos ensinando a ver e aprendendo conosco a ver por um bom tempo. Seu olhar de quem não nasceu aqui muitas vezes é o mais brasileiro de todos e nos força a cultivar, contra sonhos poderosos de identidade certinha e estável, tudo aquilo que nos torna diferentes, originais e imprevisíveis. Peter se naturalizou brasileiro, escolheu ser brasileiro, mas felizmente não perdeu o espírito nômade, inquieto, de quem se sente em casa – e quem disse que casa é sempre lugar do conforto? – no deslocamento entre Europa, África e Américas, bagunçando as fronteiras artificiais (raciais, de “gênero”, religiosas e outras) que aparecem todos os dias para separar o que deveria ficar sempre misturado – uma mistura que ganha novos significados todos os dias.

Seu nomadismo não é apenas geográfico. Peter não tem medo de trocar de continentes ou de ideias. As situações mudam, e devem mudar também as ferramentas para compreendê-las, ou mesmo para percebê-las. É preciso ter coragem para dizer que estávamos equivocados no passado, que aquela maneira antiga de ver o mundo não nos serve mais, e que chegou a hora de partir para outra, para a próxima, sem apego. Tive lição prática dessa sua estratégia saudavelmente mutante durante a defesa da minha tese de doutorado (que deu origem ao livro “O mistério do samba”), quando Peter fazia parte da banca de examinadores. Eu havia atacado um de seus textos, o clássico “Feijoada e soul food”, e pensava que isso poderia causar mal-estar, ou pelo menos debate difícil, em nosso diálogo. Para minha surpresa, ele foi logo dizendo que a crítica que eu lhe fizera era procedente, e declarou que já tinha superado aquele modo de ver as coisas.

Sua curiosidade com relação ao diferente e sua disponibilidade para mudar de visão de mundo sempre que necessário se mantêm intactas nestas sete décadas de vida – é incrível ainda hoje acompanhar sua vitalidade juvenil, depois de tantas mudanças e experiências bombásticas. Desde os primeiros momentos, literalmente: quando nasceu, os campos ingleses ao redor da maternidade estavam sendo literalmente bombardeados por aviões alemães. Sua mãe tinha saúde frágil, e Peter passou sua vida em colégios internos, tendo a educação britânica mais tradicional. Entrou para Cambridge, para ser matemático. Trocou de curso. Teve aulas, trabalhou ou teve contato próximo com alguns dos antropólogos mais importantes daquela época: Edmund Leach, Mary Douglas (que lhe ensinou a dar aulas), Jack Goody, Roger Bastide, Michel Leiris, Peter Rivière. Por acaso foi fazer pesquisa de doutorado na então Rodésia, onde aprendeu a língua shona. Por sorte foi adotado pela turma de Max Gluckman, que se interessava pelas relações da África com a modernidade “ocidental”, em todas suas contradições. Nesse período, teve oportunidade de conhecer Moçambique, ainda colônia portuguesa, e ficou fascinado com as diferenças entre as maneiras de se pensar as raças desenvolvidas pelas colonizações britânicas e portuguesas. Não via uma como melhor que a outra: eram surpreendentemente diferentes.

Na volta para a Inglaterra, não conseguiu mais se adaptar aos tons cinzas da vida britânica. Vivia deprimido. Foi aprender português numa aldeia perdida no norte de Portugal. Então soube que a Unicamp estava contratando novos professores e se mudou para o Brasil. Aqui estudou religiões e línguas afrobrasileiras, colaborou com as primeiras experiências de imprensa gay, e se mudou para o Rio onde foi professor no Museu Nacional e do IFCS, local em que ajudou a implantar importante (também para o Brasil) programa para estudantes de países africanos de língua portuguesa. Nesse meio tempo voltou para a África, como representante da Fundação Ford no Zimbábue e em Moçambique. Ali financiou projetos de pesquisa pioneira sobre transformações políticas e culturais locais. Recentemente no Brasil mergulhou de forma apaixonada no debate sobre as cotas, identificando racialismo em propostas que pretendem acabar com a discriminação por raças – vários militantes pró-cotas passaram a tratá-lo como inimigo, quando na verdade deveriam tê-lo amigo fundamental no combate ao racismo (é muito empobrecedor dividir o mundo entre prós e contras qualquer coisa – como ensina Peter o melhor da antropologia é consequência da crítica contra essencialismos rasteiros). Hoje, aposentado da universidade, é um dos principais articuladores da revista virtual Vibrant, que traduz textos de antropólogos brasileiros para aumentar a circulação de nossas ideias planeta afora, produzindo mais diferenças de visões do/no mundo. Ufa!

Relembrei várias dessas aventuras de Peter vendo os vídeos de sua entrevista que o CPDOC publicou online como parte do excelente projeto “Cientistas sociais de língua portuguesa – histórias de vida”. Há várias outras entrevistas – com Gilberto Velho, Boaventura de Sousa Santos, Janet Mondlane etc. – no site cpdoc.fgv.br/cientistassociais). Lá há também uma preciosidade: a restauração do filme “Days of rest”, que Peter dirigiu em Zâmbia, em 1969, sobre membros de uma igreja protestante que hoje chamamos de neopentecostal.


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