Archive for the ‘Argentina’ Category

Duras: d’Alessio

23/08/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 22/08/2014

1914. Talvez, para compensar os efeitos terríveis da guerra, o mundo tenha nos presenteado com grupo de pessoas muito especiais. Na semana passada, celebrei por aqui o centenário de Lina Bo Bardi. Pouco antes, o de Dorival Caymmi. Poderia talvez passar todas as colunas restantes do ano com homenagens a gente que teria a mesma idade. Octavio Paz. William Burroughs. Sun Ra. Adolfo Bioy Casares. Abdias do Nascimento. Nicanor Parra. Dylan Thomas. Martin Gardner. Julio Cortázar. Vou começar com Marguerite Duras.

2014. A revista “Cahiers du cinéma” completou 700 edições. No número comemorativo 140 pessoas – de David Cronenberg a Slavoj Zizek, passando por Kleber Mendonça Filho – escolhem momento de intensa emoção em suas relações com filmes. Se eu tivesse que responder à enquete, não teria dúvida: elegeria os instantes em que a canção título toca pela primeira vez em “India song”, uma das obras primas de Duras. Sentado na Cinemateca do MAM, eu podia sentir a brisa do movimento arrastado do ventilador de teto da sala da embaixada francesa tentando sem convicção combater o calor opressivo de Calcutá (“que calor impossível, terrível, mortal”). A música – uma das mais belas já compostas para um filme – também aparece e desaparece, em movimento circular. Desde sua primeira audição fiquei rezando para que voltasse logo.

A música parece maior que o filme. Intencionalmente. Em texto de apresentação do disco com a trilha sonora (publicado também na coletânea “Outside”, que reúne seus artigos para jornais), Duras é clara: “eu construí as imagens e as palavras em função do espaço em branco que deixara para a música”. O encontro com Carlos d’Alessio, que depois se tornaria compositor da música de – se não me engano – todos de seus filmes, foi também uma emoção arrebatadora, digna de personagem de “A doença da morte” (seu livro mais imortal?): “Para falar a verdade, não sei muito bem de onde vem Carlos d’Alessio. Dizem que é argentino, mas quando ouvi a sua música pela primeira vez, percebi que vinha de todo o mundo, vi fronteiras derrubadas, muralhas destruídas, os rios, a música, o desejo circulando livremente, e percebi que também eu era dessa nação argentina, tal como ele, Carlos d’Alessio, desse Vietnam do Sul do Pacífico; que alegria, fiquei tão feliz, pedi que compusesse a música para um de meus filmes, ele disse que sim”.

“India song”. Revi o filme várias vezes. Só encontrei a canção em disco anos depois. Era um vinil de Kip Hanrahan, que sempre atuou com diretor de cinema em seus álbuns, reunindo músicos de origens dispares para viver uma emoção única. Sua gravação de “India song” é digna do filme. Piano de Carla Bley, que também canta – divina e roucamente – em francês. Naquela época informação era bem escasso. Eu não tinha ideia de onde vinha aquela letra. Só agora, pensando em escrever esta coluna, usei o Google para saber mais. Que maravilha a instantaneidade da internet, minha alegria, minha nação-argentina-Vietnam-do-Sul-do-Pacífico. No YouTube, descobri logo a versão de Jeanne Moreau, também lindamente rouca, para essa música. Como brinde, a transcrição da letra: quem canta interroga a própria canção, que ao mesmo tempo “não significa nada” e “diz tudo”.

Seguindo o “veja também” do YouTube, fui surpreendido por gravação de “Rumba das ilhas”, outra pérola de Carlos d’Aléssio, com as vozes de Moreau e Duras repetindo diálogos das narradoras do filme “India song”. “Que ruído é esse?” “O Ganges”. Um vídeo leva ao outro. Assim encontro entrevistas que Duras deu – um cigarro atrás do outro – para divulgar o lançamento de “India song”. Aprendo que nada foi filmado na Índia, mas sim em castelo francês meio abandonado. Como a música, as imagens também são “do mundo todo”, um mundo inventado, no qual passamos a viver sempre que entramos em contato com Duras e seus “amantes”. Como Carlos d’Alessio: “deixando-nos aqui, fazendo outras músicas, outros filmes, outras canções e sempre nos amando tão fortemente, a tal ponto, que vocês nem podem imaginar.”

Não precisamos nem imaginar. Temos “India song” para ver/ouvir. Em suas várias versões (há outras) disponíveis na rede. Algo que desemboca nesta minha estranha homenagem, em torno de uma só canção. Ou em torno da música, não da palavra ou da imagem. Penso então no disco “Duras: Duchamp”, de John Zorn. Os três “livros” e o “epílogo” de “Duras” formam talvez a mais bela composição de Zorn. No encarte, os parágrafos finais de “A doença da morte”: “Um dia ela não está mais ali.” Gosto das recomendações que Duras deixou para a encenação teatral desse livro: “Que os lençois sejam já uma imagem do mar. Isso a título de indicação geral.”

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rezo por ele

03/11/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 02/11/2012

Luis Alberto Spinetta morreu no dia 8 de fevereiro. Peço desculpas pela notícia atrasada. Só soube dela recentemente. Os jornais brasileiros ignoraram o que aconteceu. Perdemos um dos principais artistas surgidos aqui neste canto do planeta, a América do Sul. Um anjo, de carne e osso. Por isso, neste Dia de Finados, interrompo a reflexão sobre o Brasil a partir do meu encontro com Brian Eno, e rezo por Spinetta. Também em retribuição a todas as vezes que ele rezou por nós. Spinetta, com Charly García, compôs “Rezo por vos”, uma das canções mais tristes e duras que já ouvi. “Rezo, rezo, rezo, rezo / Morí sin morir / Y me abracé al dolor / Y lo dejé todo por esta soledad.”

Impressionante o tempo que fiquei sem saber que ele partiu nos deixando sozinhos por aqui. Durantes anos li os suplementos No, do jornal Página 12, e Si, do Clarín, buscando novidades da cultura jovem argentina e latino-americana, tentando loucamente estabelecer pontes entre lá e cá. Desisti? Preciso reconhecer que minhas forças não são as mesmas. Unir o continente é missão quixotesca. Pouca gente no Brasil parece interessada nisso. Somos país fechado demais.

Lembro os dias de 1997 que passei em Porto Alegre como curador do festival MTV Tordesilhas. Andei pelas ruas da cidade com o pessoal das bandas Café Tacuba (México – que acaba de lançar “O objeto antes chamado disco” – o melhor título de todos os tempos?), Aterciopelados (Colômbia), Los Tres (Chile) e Illya Kuriaki and The Valderamas (Argentina – que tem Dante Spinetta, filho de Luis Alberto, como componente), todos juntos e misturados, em momento de pico criativo. Não havia música mais potente sendo produzida no mundo. Mas aquilo parecia segredo nosso, bem particular. Os gaúchos, que imaginávamos ser o público mais receptivo no Brasil para esse tipo de experiência, não apareceram no Gigantinho, o ginásio onde o festival foi realizado, mesmo com Paralamas e Skank tocando no mesmo palco (duas bandas que lotavam sozinhas outros shows na cidade).

Lembro também do tempo em que Charly Garcia morou em Copacabana, tentando encontrar algum canal de comunicação com o público brasileiro. Nossos encontros pelas ruas do Rio não eram interrompidos por ninguém. Era como se eu estivesse acompanhado por um anônimo, um total desconhecido. Pouco tempo depois, quando encontrei Charly numa esquina de Buenos Aires, tivemos logo que nos esconder no primeiro bar, pois na calçada era impossível dar dois passos sem autógrafos ou declarações de amor de fãs enlouquecidos (mesmo um motorista de caminhão que passava do outro lado daquelas largas avenidas), uma devoção que nunca vi igual diante de músicos brasileiros. Era como se o voo Galeão-Ezeiza me transportasse para Alma Ata no Cazaquistão, ou lugar semelhante com o qual temos quase nenhum intercâmbio artístico.

Mesmo Fito Páez, quando chega por aqui, ainda precisa ser apresentado com o autor daquela música cantada pelos Paralamas ou por Caetano. Será que um dia vai poder ser apenas Fito? Utopia? Não sei mais o que fazer para que isso aconteça.

Foi Fito quem me apresentou à obra de Spinetta. Os dois gravaram juntos o disco “La la la”, que tem versões fulminantemente belas para “Parte del aire” e “Gricel”. Fiquei fascinado com a outra voz, com maneirismos semelhantes aos que já tinha ouvido no disco “Giros”, de Fito, a obra que abriu meus ouvidos para a música contemporânea argentina. Não sabia quem tinha influenciado quem. Só depois descobri que Spinetta, considerado pai do rock argentino, era grande ídolo de Fito. Fui atrás de seus discos, uma coleção imensa deles, e até hoje ainda tenho alguns de seus álbuns para escutar pela primeira vez (não escuto todos de propósito, para ter sempre algo “inédito” no futuro).

Spinetta se tornou conhecido como integrante da banda Almendra, no final dos anos 1960. Seu primeiro LP sempre aparece na lista dos melhores do rock argentino. Ali já está anunciada toda sua carreira, mesmo o flerte sério com o jazz e a música eletrônica, na qual vira e revira a tradição da canção, como se fora um Chico Buarque (em fase Guinga) que ama Beatles, Rolling Stones e Beach Boys. Escute “Laura va”, desse LP “Almendra” (1969), ou “Lago de forma mia”, do CD “Pelusion of milk” (1991). Tudo é frágil, parece que vai se desmanchar no ar, parece que aquela sofisticação melódica vai dar em beco sem saída, mas milagrosamente tudo se salva com um simples “oh”.

Sensação muito estranha: para o Brasil, é como se Spinetta não tivesse vivido. Agora, depois de sua morte, rezo para possa um dia nascer em nosso imaginário com – assim termina “Rezo por vos” – “amor sagrado”.

Ordem unida: “Ya no pienses mas que tu angel partió”.


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