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Chile

04/10/2014

Texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 03/10/2014

 

Ana Tijoux vai se apresentar no Rio na próxima semana. Terça-feira faz show na Miranda. No dia seguinte fala no TED. Bom momento para conhecer de perto seu rap/canto/fala/militância/pensamento. Boa oportunidade para ensaiar aproximação com a melhor produção cultural contemporânea do Chile, cada vez mais influente mundo afora. Não se engane: à sombra do Aconcágua não há apenas estações de esqui de celebridades da “Caras” ou o sucesso póstumo de Bolaño. Ali, muita gente viva, com ideias novas, está criando uma das cenas artísticas mais vigorosas do planeta.

A música de Ana Tijoux é útil porta de entrada para essa cena. Até porque sempre envolve colaboração com vários outros artistas locais e de outros países, mostrando como suas criações são obras de uma turma que redefine o que é ser nacional nos dias de hoje. Não por acaso sua gravadora nos EUA chama-se Nacional Records (que mereceria ser tema de uma coluna inteira, tal sua importância para a globalização de sonoridades contemporâneas latino-americanas). E sua biografia envolve deslocamentos através de fronteiras: nasceu na França, de pais chilenos exilados, e só pôde voltar para o Chile já adolescente, em tempo para acompanhar a conturbada redemocratização do país, que tem misturado micromilagres econômicos com tensões sociais constantes.

Já citei rap de Ana Tijoux – “Somos todos erroristas”, parte de “Vengo”, seu quarto disco, de 2014 – por aqui, em texto sobre o erro segundo Albert O. Hirschman. Um trecho: “busco o erro como uma forma de resposta, um colapso seguro que pertube minha cabeça”. Filosofia beneficamente contraditória: é errando, é pertubando, é confundido identidades que a gente acerta. Na complexidade do mundo atual, a soma dos erros – e não das certezas imutáveis – torna possível a surpresa dos grandes acertos, da fuga para frente, driblando problemas aparentemente insolúveis. Os discos de Ana Tijoux são provas das vantagens desse método: cada vez estão mais perfeitos. “Vengo”, por exemplo, corre todos os riscos de terminar redondamente errado, muitas vezes tentando mixar folclore andino com hip hop. Mas o resultado é um triunfo para o rap do “sul do mundo”, como demonstra “Somos sur”, faixa que conta com a participação da palestina Shadia Mansour.

Outros chilenos são aplicados aprendizes de alquimistas dessa transformação de erros em boa música (g)local. Apenas alguns exemplos: o pop de Alex Anwandter ou de Gepe (gosto especialmente de seu sucesso “En la naturaleza”, com rap de Pedropiedra, propondo para “pessoas desta parte do mundo” uma “nova conquista experimental”) – os dois juntos gravam como a dupla Alex & Daniel. Isso para não falar de Los Tres, uma das maiores bandas de rock do subcontinente, ou de qualquer continente.

A experimentação musical tem paralelos em atividades de outras artes. No início deste ano uma mostra de novo cinema chileno realizada no Rio já exibiu obras de cineastas como Sebastian Lello, Dominga Sotomayor, Marialy Rivas e Pablo Larrain. Na literatura temos as provocações anti-realismo-mágico anunciadas, talvez pela primeira vez de forma erroristicamente organizada, pelo lançamento, em 1996, de McOndo (para quem não percebeu: título brincante que mistura “Cem anos de solidão” com Steve Jobs), coletânea de contos editada por dois chilenos, Alberto Fuguet e Sergio Gómez, contando com a participação de latino-americanos (e espanhóis) de procedências diferentes, como o argentino Rodrigo Fresán e o peruano Jaime Bayly.

E claro que a animação artística espelha inquietação que também acontece nas ruas. Um dos vídeos mais famosos de Ana Tijoux é o de “Shock”, composto por muitos retratos de estudantes-manifestantes que quase pararam o Chile durante sete meses, e mais de 100 “mobilizações”, de 2011. Havia foco bem definido, apesar da descentralização organizacional, com milhares de entidades estudantis, secundaristas e universitárias, diferentes. As palavras de ordem que davam unidade para tudo eram “reforma educacional” para “desmercantilizar” o ensino, lutando pela “gratuidade do conhecimento”.

Valeria fazer esforço para comparar o que aconteceu no Chile com as “jornadas de junho” do Brasil. Além da troca de ministro da educação, uma diferença mais a longo prazo imediatamente se destaca: alguns líderes das movimentações de rua – como Camila Vallejo e Giorgio Jackson – viraram parlamentares nas eleições seguintes. Há também formação de iniciativas como o “Compromisso por uma nova educação”, para elaboração de propostas práticas de reforma escolar no país.

Estreitar laços com o Chile, vizinho mesmo sem fronteira, é atalho para aprender com erros e acertos de novos artistas/políticos experimentais.

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zoom back camera!

13/04/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 12/04/2013

Desculpa a explicação talvez desnecessária, mas levo em consideração o fato de haver muita gente que chegou agora de outra galáxia: doodle é aquele enfeite com que o Google comemora data importante. O critério para escolha do que vai ser homenageado é tão misterioso quanto o algoritmo que torna eficiente sua ferramenta de busca. São raros os aniversários “redondos”. Este ano houve doodles celebrando os 119 e 146 anos dos nascimentos de, respectivamente, Victor Brecheret e Rubén Darío. Meu preferido de 2013 foi o que lembrava as 64 primaveras do recorde de pulo a cavalo de Alberto Larreguibel. Tento copiar o Google nesta coluna. Mas não sou tão livre. Prefiro datas com pelo menos um zero. Na semana passada escrevi sobre os 90 anos de Harry Smith. Hoje canto parabéns para os 40 anos de “A montanha sagrada” de Alejandro Jodorowsky.

Na verdade, poderia ser o quinto aniversário, pois seu produtor, brigado com o diretor, proibiu a exibição do filme por quase 35 anos. Isso só aumentou o fascínio que cerca a obra de Jodorowsky. Durante toda minha juventude ouvi falar maravilhas de “A montanha sagrada”, mas só consegui vê-lo quando me transformei no feliz proprietário da caixa de DVDs lançada em 2007 pela ABKCO Films nos EUA. Sei que há DVDs brasileiros lançados pela Silver Screen Collection. Não tenho certeza se incluem os comentários em áudio do diretor que são a principal fonte para o que vou escrever por aqui.

Quando aparecem as primeiras imagens de “A montanha sagrada”, Jodorowsky comenta: “filmei em outra vida”. Realmente, não é só outra vida do diretor, mas outra vida do mundo, que agora parece envergonhado quando se lembra do “desbunde” dos anos 1970, e tenta desqualificar tudo o que aconteceu por ali como ingenuidade. Hoje, somos irônicos demais para não ridicularizar alguém que diz algo como: “queria mudar a humanidade com meus filmes”; ou “acreditava que o cinema era melhor que LSD”. Comentando “El topo”, seu filme anterior, Jodorowsky lança pergunta que denuncia plenamente sua pretensão: “Por que no cinema não haveria algo tão importante quanto um texto sagrado?” Emenda: seu desejo é criar poderosa “aspirina metafísica”. Nestas últimas quatro décadas, fomos doutrinados a querer infinitamente menos da arte (quando muito achamos que ela pode melhorar a vida de alguns garotos da periferia, “se forem salvos do funk”).

Seria impossível, em 2013, alguém levar a sério um roteiro como o de “A montanha sagrada” a ponto de captar centenas de milhares de dólares para sua realização. No entanto, na “outra vida” imersa na fumaça de incensos hippies, até George Harrison queria atuar como o protagonista, que era inspirado no Louco do Tarot. Sua única condição: que fosse cortada cena em que teria a bunda lavada, com foco no limite da proctologia, pelo mago representado pelo diretor. Era mesmo um tempo diferente: Jodorowsky recusou o corte para manter sua integridade artística, e ainda hoje ri pensando no punhadão de dólares que perdeu com essa decisão.

Quem fez o filme não estava ali pela grana. As pessoas – atores, equipe técnica etc. – buscavam uma experiência mística que daria novo rumo para suas vidas e para o universo. Entre elas havia milionários, prostitutas, doidonas que ninguém sabia de onde vinham, o empresário do grupo Sly and The Family Stone (!), galãs do cinema mexicano, xamãs, ou Don Cherry (que compôs a trilha sonora). Era uma turma da pesada, que fazia tudo o que o diretor-guia-espiritual mandava, até viver seus piores pesadelos diante das câmeras – como o travesti nova-iorquino que tinha pavor de aranhas e deixou Jodorowsky colocar dezenas de tarântulas para passear sobre seu corpo.

Os dois terços iniciais de “A montanha sagrada” formam sequência de planos rigorosos, tudo estilizado. O final vira semidocumentário, com a câmera na mão acompanhando o elenco principal passando o maior perrengue para escalar de verdade a maior montanha do México. Quem não quer saber o final do filme que pare de ler agora. Vou entregar tudo. Quando pisaram no topo, os “atores” esperavam a iluminação prometida. Jodorowsky deixa de ser ator, e se revela como diretor do filme. Ele dá a ordem, com fórmula mágica às avessas: “zoom back camera!”. A imagem se distancia e vemos todo o aparato técnico ao redor da cena. Jodorowsky continua: “quebre a ilusão, adeus montanha sagrada, a vida real nos espera”. É como um monge zen batendo com bastão em nossas costas. Uma das grandes cenas do cinema, mesmo aparentemente contra o cinema.

Há momentos em que só penso em atualizar a ordem: “zoom back todas webcams”. Reaprendamos a ver o mundo com os olhos malucos-beleza de 40 anos atrás.


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