Archive for the ‘história’ Category

samba francês

22/11/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 21/11/2014

A tradução francesa de “O mistério do samba” acaba de ser publicada pela Riveneuve, editora parisiense. É boa maneira de comemorar os vinte anos da minha defesa da tese que deu origem a esse livro. Já havia edições em inglês, italiano e japonês, mas fiquei todo este tempo torcendo pelo lançamento na França. Afinal, em suas páginas descrevo processo de construção de identidade nacional-popular brasileira que não teria acontecido, com toda sua originalidade moderna, sem a influência de Paris.

Sorte: meu tradutor foi o antropólogo Jérôme Souty, autor de “Pierre Verger – do olhar livre ai conhecimento iniciático” (editora Terceiro Nome), obra que já analisa invenções franco-brasileiras. Quem fez nossa apresentação foi Milena Duchiade, através do telefone fixo da sua livraria, a Leonardo da Vinci, um dos mais importantes pontos de encontro de ideias do Rio de Janeiro. Sempre que aparecia por lá, ela me incentivava a batalhar pela divulgação internacional dos meus livros. Como constatava minha inabilidade nesse território, Milena tomou a iniciativa generosa de me colocar em contato com Jérôme, que por sua vez conhecia os editores da Riveneuve e o programa para traduções da Fundação Biblioteca Nacional. Para nossa surpresa, a partir dali tudo aconteceu bem rápido, como nos encontros França/Brasil descritos em “O mistério do samba”.

Escrevi pequeno “avant-propos” para a nova publicação. São apenas cinco parágrafos (um deles lamentando a impossibilidade de Gilberto Velho folhear esta versão da tese que orientou), mas consegui citar novamente lista muito parcial de convidados que provaram feijoada (e compotas de bacuri) no apartamento parisiense de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade em 1923: Cocteau, Léger, Brancusi, Satie e, claro, Cendrars. Quando me deparo com esses nomes, o que mais me intriga é outro mistério, paralelo ao do samba: quem cozinhava? Oswald? Tarsila? E as compotas de bacuri (logo bacuri!), hoje ainda difíceis de serem encontradas no Rio de Janeiro? Eram bagagens de viagens em navios transatlânticos?

O “avant-propos” também inclui uma brincadeira que aqui transformo em pergunta implicante: como Woody Allen não incluiu essas feijoadas em “Midnight in Paris”? Há negros no filme “Manhattan”? Em “Midnight to Paris” eles aparecem em papéis secundários e cenas rápidas. Mas tudo ali se passa como se a gênese da era das vanguardas fosse resultado de “affair” privado entre artistas dos EUA e europeus, narrativa estabelecida como oficial nas histórias do modernismo (que apenas recentemente estão sendo reescritas para incluir mais diversidade), até outro dia percebido como criação daquilo que depois apelidamos de Primeiro Mundo. Perdemos assim a noção do grau extremo de multiculturalismo nas encruzilhadas artísticas da Paris do início do século XX.

Fico curioso para saber se os artistas brasileiros ou cubanos, entre muitas outras nacionalidades, que viviam em Paris naquela época eram vistos por europeus como mais exóticos ou periféricos do que os americanos do norte. Lembrando: só mesmo depois da Segunda Guerra é que os EUA se transformaram em Império, vendendo também sua arte como fenômeno global (por exemplo, e sem juízo de valor, fazendo com que Gertrude Stein tenha ficado mais conhecida mundo afora do que Oswald de Andrade). Mas qual era o lugar do “resto do mundo” em torno dos anos 1920? Eram tempos em que a “descoberta” da estética africana por Picasso já deixava de ser um choque e virava modismo que tornou possível que movimentos intelectuais em outras partes do mundo valorizassem aspectos “negros” de suas culturais locais. Sim, o jazz fez sucesso em clubes parisienses. Mas fez mais sucesso do que a infinidade de ritmos apresentados por bandas cubanas?

O choque vanguardista de Paris foi impulso decisivo para que os modernistas brasileiros descobrissem também a riqueza do nascente samba e das tradições africanas neste nosso lado do Atlântico. Um dia pretendo comparar melhor o que aconteceu por aqui com situações muito semelhantes em países da América do Sul e do Caribe. Tenho mais informações sobre o exemplo cubano. Um livro como “Nacionalizando a negritude – afrocubanismo e revolução artística em Havana, 1920-1940”, de Robin D. Moore (University of Pittsburgh Press, ainda não lançado no Brasil), revela a importância que a estadia parisiense teve para a geração de Alejo Carpentier voltar para Cuba valorizando uma cultura negra que era ainda percebida com vergonha ou preconceito pela elite local, até então encantada pela imaginária pureza branca da alta cultura europeia. Assunto de sobra para a próxima coluna.

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ostentação 12014.0

01/11/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 31/10/2014

Tempos atrás, a Maison Martin Margiela era grife estabelecida fora do radar do consumo de luxo de massa (sim, luxo e massa não são mais termos contraditórios, como comprovam as bagagens de turistas Classe C vindos de Miami). Toda sua estratégia de marketing incentiva exclusividade radical, ostentação camuflada de invisibilidade, atitude de artista conceitual (obra cara contra o mercado). Por isso é surpresa acompanhar hoje sua transformação em objeto de desejo do hip hop. “Maison Margiela” é nome de música do Future, nova sensação do rap. Ou citação na letra de “Se joga” (“o swing dela” rima com “eu tô de Margiela”), pós-funk-carioca de Naldo Benny.

Talvez essa tendência – podemos chamá-la de Ostentação 2.0? – tenha sido fundada por Kanye West. Não por acaso o figurino de sua turnê mais recente, que também tem a colaboração da artista conceitual Vanessa Beecroft, pode ser pensado como desfile das peças mais “icônicas” da história da Margiela. Ítens do vestuário usado no palco foram colocadas à venda com preços amargos, mas sempre esgotaram suas tiragens limitadas. É uma confusão high/low, abundância/escassez bem característica de nossos tempos, que tem nos astros do hip hop seus principais comentaristas/arquitetos-de-sensibilidade.

Mesmo quando era cultura de gueto, e periferia ainda não tinha a centralidade cultural atual, o hip hop já construía as pontes artísticas mais improváveis entre mundos artísticos nascidos para viver sem contato uns com os outros. Sonoramente, havia a aliança entre o pop e as ferramentas menos populares da música erudita contemporânea (as colagens concretas, por exemplo). Visualmente, o grafite logo colocou as ruas nas galerias.

Indumentariamente, os rappers também anunciaram a reinvenção do mercado das grifes de luxo que aconteceria, com sucesso avassalador, nas décadas seguintes. O início dessa história está bem contado no artigo “Harlem Chic”, que o crítico Kelefa Sanneh publicou em março de 2013 na New Yorker (que maravilha que essa revista tenha seu arquivo aberto na internet – aproveite enquanto a política é mantida). Sim, havia a celebração das marcas esportivas (a dupla Run-DMC lançou hit chamada “My Adidas”), mas já nos anos 1980 grifes como Gucci ou Louis Vuitton, quando eram consumidas apenas por milionários, fizeram sua estreia em capas de LPs. Tudo por culpa de Dapper Dan, criador das melhores roupas dos primeiros rappers (e de vários traficantes da época), fazendo com as agulhas de costurar o que os DJs inventavam com as agulhas dos toca-discos: remixes juntando (contra a legislação de copyright) elementos de procedências/propriedades diferentes.

Kanye West e sua geração (terceira ou quarta na história do hip hop?) levou essa nova tradição para o próximo nível. Quando grava seus primeiros discos, o rap já não é mais periferia, mas sim o centro econômico da indústria fonográfica, com sua rede de artistas ricos e poderosos, constituindo uma nova elite do entretenimento (hoje as revistas de celebridade acompanham a vida de Jay Z/Beyoncé/Blue Ivy com tratamento de família nobre). Usar Vuitton ou Gucci não impressionava, era a regra. Kanye começou a explorar universos mais exclusivos, que não são comprados apenas com muito dinheiro. Passou a andar cercado de arquitetos, designers, artistas, que possuem outros códigos de ostentação. Daí Margiela.

Todos sabem: Kanye é megalomaníaco, egocêntrico, se acha o tal. E é o tal. Nunca verei outro show com tanto swag como aquele perfeito que apresentou no Tim Festival (para horror da crítica local) ocupando sozinho um palco imenso em viagem intergaláctica. Logo depois (ou logo antes?) da vinda para o Brasil, ele fez apresentação para o canal VH1 que depois foi lançado em disco (pena que com cortes em muitos discursos confessionais que fazia durante as músicas). Adoro o medley “Heartless/Pinocchio Story”, com sua entonação especial para versos que dizem que pode comprar Gucci/Vuitton/YSL mas nada disso poderá tirar “sua mente desta prisão”. Mas o trecho mais comovente, terapia pública sobre a tragédia desse grau de celebridade, está nos momentos finais de “Flashing lights”: “cometi erros, mas eles me fazem crescer, como se eu tivesse que lutar para ser eu mesmo, mas tenho que liderar a luta, pois isso ajuda todos a ser quem querem ser.”

Ostentação de erros que não podem ser cometidos por mais ninguém fora do círculo íntimo dos superpoderosos. Estou lendo “Antes da história”, de Alain Testart (mais uma vez obrigado pela dica, Marco Veloso). Os primeiros ricos, no neolítico, davam festas para construir megálitos. Pura ostentação. Hip hop como megálito do agora. Vitória do Bronx.

Abul Abaz

21/06/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 20/06/2014

Ontem foi dia de Corpus Christi. Em Pirenópolis, Goiás, essa data marca o início da Cavalhadinha, uma versão infantil – para menores de doze anos – da Cavalhada realizada durante as homenagens ao Divino Espírito Santo, duas semanas atrás. Como em muitas de nossas festas populares, as crianças fazem “mash-up” de elementos brincantes com procedências diferentes. Já escrevi que muitos mestres de brincadeiras brasileiras atuam com DJs misturando ousadamente várias tradições, inventando outros futuros para a vontade geral de festejar. A Cavalhadinha reúne “Imperador do Divino, Reis e Rainhas do Reinado de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, Pastorinhas, Congo e Contradança, catira feminina, Cavaleiros e Mascarados com seus cavalinhos de pau.”

De forma vigorosa, Pirenópolis realiza aquilo que Agostinho da Silva identificava como meta do “povo português”: “que a criança deve ser proclamada imperador do mundo, que é ela que tem que mandar no mundo e que é na medida em que manda que o mundo pode realmente melhorar.” Assim, todos podemos experimentar, na hora da festa, uma prévia da Idade do Espírito Santo: “do imprevisível, isto é, do gênio criador, plenamente solto de qualquer espécie de limitação.” O Divino “voa aonde quer”.

Interessante é ver essa vontade de “eliminar limitações” conectada, no cerrado brasileiro, com a reencenação de torneios medievais que, por sua vez, reencenavam descrições poéticas de batalhas entre cristãos e muçulmanos (ou mouros). Uma das fontes principais para essa memória popular foram “canções de gestas”, principalmente aquelas sobre as aventuras do imperador Carlos Magno e seus “Doze Pares da França”, a partir da emboscada em Roncesvales (na verdade, o ataque surpresa foi feito por bascos, mas a imaginação de trovadores preferiu editar a História para culpar o Islã).

Estamos em 2014, época de muitas lembranças bélicas. Além do centenário da Primeira Guerra Mundial e dos 70 anos do Dia D, talvez fosse importante guardar um tempo para recordar também os 1.200 anos da morte de Carlos Magno, provavelmente um dos criadores da ideia de Europa como civilização cristã e “ocidental”. Sua importância não pode ser menosprezada. O historiador Jacques Le Goff, que morreu este ano (tenho que escrever coluna em sua homenagem), afirma – em “A Idade Média e o dinheiro”, leitura excelente para momento de Piketty-celebridade – que Carlos Magno, em seu império, criou “um cenário muito mais bem ordenado quanto à moeda”, acabando com a descentralização da cunhagem por moedeiros, criando as bases primitivas para surgimento do capitalismo muitos séculos depois.

Mas não é sobre dinheiro que quero falar aqui. Não sei como veio parar nas minhas mãos o livro “Tornando-se Carlos Magno”, de Jeff Sypeck (professor de literatura medieval na Universidade de Maryland). São poucos os documentos históricos com informações sobre esse momento conturbado. Sypeck romanceia a partir dos dados disponíveis, mesmo tentando ir além da atmosfera carregada por mitos. Encontramos cenário bem mais complexo que aquele das cavalhadas, com divisão clara entre cristãos e mouros. As relações entre Aachen, pequena vila que se transformou em capital imperial, com os papas de Roma eram intricada rede de intrigas. No Oriente, havia Irene, comandado outro império, o bizantino, e se defendendo dos ataques de Bagdá, onde reinava o califa Harun al-Rashid. No extremo ocidental, na Península Ibérica, o Califado Omíada, expulso de Damasco para Córdoba pelos antecessores de Harun. Para lidar com tantas diferenças, Carlos Magno, além de guerreiro, foi hábil diplomata.

E que diplomacia. O trecho que mais me surpreendeu no livro trata da embaixada que Carlos Magno, procurando aliados contra Constantinopla e Córdoba, mandou para Bagdá. Dos três emissários, o único que retornou, cinco anos depois, foi um judeu chamado Isaac. Sim, um judeu, com missão de negociar com governo que controlava Jerusalém. Seus companheiros de viagem, Lantfrid e Sigimund, morreram no caminho. Porém, Isaac não voltou sozinho. Estava acompanhado por Abul Abaz, um elefante. Sua chegada em Aachen tem data precisa: 20 de julho de 802. Portanto, desconfio que não seja pura invenção de cronista maluco.

O elefante era presente do califa Harun para Carlos Magno. Causou espanto onde passava, não era um animal comum mesmo no norte da África. Imagine num barco cruzando o Mediterrâneo até aportar em Gênova, e depois atravessando paisagens alpinas. Abul Abaz, era esse o nome do elefante, virou meu herói, ponte gordinha contra o “clash” das civilizações. Deveria virar personagem da Cavalhadinha de Pirenópolis, entre os mascarados coloridos. Afinal, tradição é para ser renovada. Sempre.

somos todos erroristas

31/05/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 30/05/2013

Na coluna da sexta-feira passada fiz comentários sobre o sucesso retumbante e surpreendente do livro “O capital no século XXI”, de Thomas Piketty. Nunca, na história do planeta, um economista passou tão velozmente de culto universitário para celebridade pop. Mesmo assim, eu não estava preparado para encontrar no topo esquerdo da primeira página deste jornal, em sua edição de sábado, a seguinte manchete em tom quase policial: “Piketty acusado de erro”. O “New York Times”, o “Le Monde”, o “Frankfurter Allgemaine Zeitung”, o “Pravda” e quase todos periódicos importantes do mundo também deram destaque para a descoberta, pelo “Financial Times”, de contas e fórmulas incorretas em nosso novo “Capital”. O debate acadêmico virou paixão de massa como um lançamento da Beyoncé?

Parece que o que está em jogo é a salvação do capitalismo, cotadinho. As acusações do “Financial Times” serviriam para provar que – ufa! – não estamos condenados a crescente desigualdade, pois – se analisadas corretamente – as estatísticas não revelam uma concentração de renda crescente na mão do 1%. Pelo que consigo entender, Piketty não é Marx, nem prega o desaparecimento da burguesia. Sua proposta, com taxações maiores sobre grandes riquezas, tenta salvar do capitalismo de seus básicos instintos concentradores e, a cada vez mais curto prazo, suicidas. Toda economia precisaria de distribuição de renda para crescer e inovar. Porém (a polêmica do “Financial Times” deixa perceber), o problema principal se esconde além das contas, e se aproxima do misticismo: está todo mundo em busca de um “espírito” que faça as pessoas acreditarem que o capitalismo seja realmente capaz de produzir bem público.

Por isso, também na coluna passada, recomendei a leitura de “O novo espírito do capitalismo”, calhamaço de Luc Boltanski e Ève Chiapello que analisa as justificativas que o capitalismo criou para motivar/mobilizar multidões (operários, administradores de empresa, donos de bancos etc.) a colaborar com seu sistema de acumulação baseado em lucro (antes considerado pecado) e trabalho assalariado. Claro, o assunto ficou pop, mas no mundo pop quase ninguém tem tempo para livros de quase mil páginas. Vou ser bonzinho: tenho recomendação mais prática para quem não quiser fazer feio nos debates de bares dos 99% e restaurantes dos 1%, entre observações sobre a Copa ou sobre o desfile de Raf Simons e Sterling Ruby. Leia qualquer coisa do autor para quem Boltanski e Chiapello dedicaram seu “O novo espírito”: Albert O. Hirschman. São obras sempre curtinhas e deliciosas.

Não vou chatear ninguém resumindo aqui “As paixões e os interesses”, que em menos de 120 páginas revela como a cobiça, e consequentemente o “ganhar dinheiro”, foi sendo considerada a “menos pior” das paixões, uma paixão “calma”, que contribui para a paz coletiva (e entre as nações). Prefiro seduzir leitores com passagens mais pitorescas. Hirschman se orgulha de ser um autossubversivo, sempre alegre ao questionar os fundamentos de suas próprias ideias. Ele poderia fazer coro para o novo rap da chilena Ana Tijoux: “Somos todos erroristas”. Isto é, erramos sem parar, e muitas vezes errando é que encontramos as saídas inovadoras ou os caminhos, múltiplos, de fuga para frente.

A polêmica do “Financial Times” tornou explícito mais um Fla-Flu ideológico: agora temos também os extremistas pró e contra Piketty. Todos poderiam lucrar (hehehehe) se lessem com atenção, e coração aberto (sei que peço o impossível), o artigo “Opiniões peremptórias e democracia”, publicado no Brasil dentro da coletânea “Auto-subversão” (a edição ainda tem grafia anterior ao Acordo Ortográfico). Diante de um ambiente no qual há indiscutível “superprodução de opiniões” (e Hirschman escrevia em 1989, antes da WWW), uma pergunta nunca quer calar: seriam os indivíduos “capazes de valorizar tanto o fato de ter opinião quanto o de ter mente aberta, a combinar o júbilo por ganhar uma discussão com os prazeres de serem bons ouvintes e de ter a ‘índole persuadível’ de Jane Austen?”

Para Hirschman, os caminhos das mudanças de opinião são sempre imprevisíveis. Muitas vezes o bem comum é consequência da insistência em avaliação errada. Achamos que não há riscos, embarcamos numa canoa furada. Quando percebemos o erro já estamos em alto mar. Temos que tapar o furo em pleno movimento tempestuoso. Já gastamos tempo ou dinheiro demais para voltar atrás – e provavelmente nunca seguiríamos em frente se não estivéssemos com a corda no pescoço. Resumo: frequentemente, se não fosse o empurrão do erro, não faríamos nada e ficaríamos empacados no mesmo lugar ruim.

Mais uma citação, “com o devido respeito a Francis Fukuyama”: “o curso da história parece rumar com todo o vigor em direção contrária à visão que se tem do curso da história!” “Financial Times”, Thomas Piketty e suas turmas: todos precisam aprender com os erros dos outros.

PS: Citação importante, tambem do artigo “Opiniões peremptórias e democracia”, que não entrou na versão publicada no jornal por falta de espaço: “Contribuições recentes à teoria da democracia ressaltaram o papel da deliberação no processo democrático: para uma democracia funcionar bem e perdurar, é essencial, afirmou-se, que as opiniões não sejam formadas plenamente antes do processo de deliberação. Os participantes do processo – o público em geral e seus representantes – devem manter um grau de abertura ou de caráter experimental em suas opiniões e estar dispostos a modificá-las em consequência de argumentos que serão apresentados pelas partes oponentes e, mais simplesmente, à luz de novas informações que podem surgir no decorrer de debates públicos. Sem um processo político que manifeste pelo menos alguma aspiração a esse quadro reconhecidamente um tanto idílico, a democracia perde sua legitimidade e fica, assim, ameaçada.”

animais e vegetais

17/05/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 16/05/2014

O livro “Gentle bridges” (foi traduzido para o português?) registra conversações, realizadas em 1987, com o Dalai Lama sobre ciências da mente. O trecho que mais chamou minha atenção gira em torno do biólogo chileno Francisco Varela, um dos grandes gênios do Século XX. O Dalai Lama pergunta: “Uma bactéria é um ser senciente? A questão é importante no contexto budista, pois quando você tira a vida de um ser senciente, isso constitui uma má ação. Se esse ser tem desejo de felicidade e não quer sofrer, então tirar sua vida constitui muito sofrimento. Então é errado matar uma ameba?” A resposta de Varela é firme, mas cuidadosa, utilizando negativas em série (“eu não vejo uma maneira de escapar dessa observação”; “eu não tenho nenhuma base para dizer que o comportamento não é do mesmo tipo”…): “A ameba manifesta intrinsicamente uma diferenciação entre o que gosta e o que não gosta. Nesse sentido, há senciência.” O Dalai Lama insiste: “mesmo as plantas têm esse tipo de comportamento?” Varela repete seus argumentos. Mas ficamos sem uma conclusão: lavagens de mão com sabonete antibacteriano e refeições vegetarianas também aumentam o sofrimento já intolerável do mundo?

Vale citar mais uma fala de Varela na mesma ocasião: “As plantas parecem ficar fora do domínio da senciência porque elas não se movem; mas elas não se movem somente porque seu estilo de vida é precisamente não se mover.” Lembrei tudo isso, incluindo as leis do karma, ao ler dois artigos desconcertantes recentemente publicados. No final de abril, o jornal “New York Review of Books” trazia como chamada de capa: “Oliver Sacks: o que a plantas podem sentir”. Na sua edição de maio a revista “Piauí” traduz “A planta inteligente”, de Michael Pollan (ele vem para a FLIP 2014). Curioso: a ilustração principal para os dois textos é a mesma, retirada do livro “O templo da flora” (1799-1807), de Robert John Thornton. Sinal dos tempos? Está tudo conectado?

Outra lembrança: em 1989 encontrei, na revista francesa “Actuel”, uma sentença sombria:”estamos amaldiçoados, as plantas querem nos escravizar”. A história da vida na Terra era descrita como uma guerra épica entre os reinos animal e vegetal. Os seres clorofilados, comedores de luz, desenvolveram as drogas (pense apenas na indústria do tabaco, ou nas aulas de degustação de vinhos) para viciar os animais. Aquilo era ideia tão absurda, ou engraçada, que ganhou território fixo em minha cabeça. Agora penso: estive rindo do quê? No artigo da “Piauí” me deparo com notícias de pesquisas que podem confirmar a bad trip, só que em versão ainda bem leve: “Várias espécies, entre elas o milho e o feijão-de-lima, emitem um pedido de socorro químico quando são atacadas por lagartas. Vespas parasíticas que se encontram a certa distância localizam a origem do odor, dirigem-se à planta atacada e lentamente destroem as lagartas.”

Pollan apresenta muitos outros exemplos incríveis-fantásticos-extraordinários, revelando um campo crescente de estudos que confirma as intuições antigas de Varela, contrabandeando conceitos como comportamento, cognição e sentimento para o mundo das plantas. Mesmo o subterrâneo de uma floresta parece rede social tão animada quanto o Twitter, com compartilhamento de nutrientes e informações. (Em termos deleuzianos: as raízes vivem em devir-rizoma. Os rizomas venceram.) Até consciência sem neurônio se tornou possível. Oliver Sacks trata como hipótese científica respeitável aquela que aponta canais de íons de cálcio como rede elétrica nos vegetais. Claro, as cargas são transmitidas com velocidade bem mais lentas que aquelas atingidas pela dobradinha sódio/potássio dos nossos neurônios. Mas as plantas são slow desde sempre, muito antes da moda slow-food.

Bom nessas descobertas todas é ver que não há só guerra entre os reinos da vida. Houve, há e pode haver cada vez mais colaboração entre tão substanciais diferenças. Estou fascinado pelo livro “Usos e circulação de plantas no Brasil – Séculos XVI-XIX”, organizado pela historiadora Lorelai Kury. Não dá para entender nosso passado sem pensar também em nossa relação com os vegetais. Afinal, um dos motores das navegações lusitanas foi o desejo de especiarias, o que acabou produzindo uma “unificação biológica da Terra”. Do nosso lado, humano, houve troca intensa de conhecimentos de vários povos, desenvolvidos em boticas de colégios jesuítas, em rituais de xamãs indígenas, em jardins botânicos (o café chegou por aqui biopirateado do Jardim Botânico de Caiena).

Um dia leremos uma história do mundo onde as plantas serão protagonistas? O que quer uma planta? Por enquanto, consolo para vegetarianos: Stefano Mancuzi, botânico, decreta (no artigo de “Piauí”): “As plantas evoluíram para ser comidas; é parte de sua estratégia evolutiva.”


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