Archive for the ‘Japão’ Category

privilégio carioca

01/02/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 31/01/2014

O belo desenho de Loredano com trecho da rua do Ouvidor onde fica a Folha Seca, publicado sábado passado no caderno Prosa deste jornal, reconfirma algo que já escrevi por aqui: temos o privilégio de viver numa cidade com excelentes livrarias, de várias especialidades. Aproveito para perguntar: alguém sabe me dizer que fim levou a promessa de reabertura da Camões? Não podemos viver mais muito tempo sem lugar dedicado às editoras portuguesas. Quero resposta, mas não estou aqui para reclamar. Copio dona Yacy, que – com mais de 80 anos – declarou: “Ao contrário de muitas pessoas, não me preocupo com o fim das pequenas livrarias, tampouco com o fim do livro, assim como o conhecemos. Simplesmente não me preocupo com o futuro: prefiro agir no presente, mantendo, ainda que frente a todas as dificuldades – que não são poucas – o mesmo espírito que me levou a abrir a Malasartes.” Esta coluna é para celebrar o que existe, aqui e agora.

Começando pela existência, há três décadas, da própria Malasartes. Considero aquele cantinho do Shopping da Gávea não somente livraria infantil – uma das melhores do mundo – mas também centro cultural, patrimônio material e imaterial do Rio de Janeiro. Em meus rolezinhos pelas suas prateleiras – algumas baixinhas para ficarem ao alcance dos pequenos -, costumo descubrir obras que mudam minha vida. E não apenas naquela estante central que mistura, sempre com curadoria surpreendente, lançamentos destinados para adultos com outros para adolescentes e crianças. Muitas vezes sigo apenas as indicações de dona Yacy e suas filhas Renata e Cláudia. É família que merece a autodefinição da mãe: “livreira amiga dos livros”.

“Era uma vez” que fiquei bem amigo do discurso de Kenzaburo Oe em agradecimento ao Prêmio Nobel. Ele começa lembrando o tempo da Segunda Guerra Mundial, quando era criança e vivia isolado num vale da ilha Shikoku. Foi salvo por dois livros, duas aventuras. A primeira eu conhecia: Huckleberry Finn. Da outra nunca tinha ouvido falar: Nils Holgersson. A citação da obra sueca, assinada por Selma Lagerlöf, a primeira mulher a ganhar o Nobel literário, funcionava como agrado a seus anfitriões nórdicos. Porém, o tom de Oe demonstrava algo mais: “eu tive uma revelação que esse mundo e esse modo de vida ali eram realmente libertadores.” E ainda havia o encanto da linguagem dos pássaros e da humanidade do pequeno Nils. Foi o suficiente para despertar em mim o desejo de ler esse livro, que estava praticamente esgotado.

Então recorri aos poderes mágicos de dona Yacy. Ela não descansou enquanto não conseguiu um exemplar. Seu desejo de que eu fizesse aquela leitura era até maior que o meu. Eu já teria desistido antes. Ainda bem que dona Yacy se empenhou na tarefa. Ficam aqui meus profundos agradecimentos. Como vivi tanto tempo sem conhecer a águia Gorgo e, sobretudo, Akka de Kebnekaise, gansa centenária em quem sempre penso ao ouvir falar de catástrofe ecológica? Vontade de viajar até a Lapônia seguindo a descrição peculiar de Lagerlöf. Como esta, botânica: “embora tenha apenas uma raiz enfezada, galhinhos enfezados e folhas secas e enfezadas, a urze gosta de se imaginar uma árvore. E se comporta como uma árvore de verdade.”

Oe não é o único japonês devoto de Nils Holgersson. Aprendi depois que Mamoru Oshii, o diretor de anime já nomeado para os prêmios principais de Cannes e Veneza, assinou adaptação da obra de Lagerlöf para série de TV. Não entendo direito a razão para ainda não ter acontecido o mesmo com outra descoberta que devo à Malasartes: a Saga Otori, de Lian Hearn, que teve seu último volume, “A rede do céu é vasta”, lançado recentemente no Brasil pela Martins Fontes.

Era momento de entressafra de Harry Porter. Entrei na livraria de dona Yacy com meu sobrinho Luca ainda pré-adolescente, tentando aproveitar aquele embalo de leitura voraz, centenas de páginas de J. K. Rowling numa única noite. Cláudia Moraes, uma das filhas-sócias da Malasartes, percebeu o que estava acontecendo e colocou em nossas mãos exemplares de “O piso-rouxinol”, a estreia Otori, dizendo que era literatura juvenil rara, com personagens femininas complexas e poderosas. Eu desenvolvi amizade compulsiva com a Saga (no total são cinco volumes; o último é a volta para antes do primeiro), na qual só tocava em períodos de intervalo de trabalho, pois quando começava a ler ficava enfeitiçado pela narrativa de aventuras numa idade média japonesa paralela, onde cada herói – e tudo começa mesmo com uma batalha perdida – precisava aprender (o que inclui uma “morte significativa”) a trilhar os difíceis e contraditórios caminhos do viver bem.

Hoje estou aqui apenas para passar adiante as boas lições que aprendi na Malasartes.

PS: Neste texto, por questão de espaço no jornal,fiz a opção de falar apenas da minha relação pessoal com a Malasartes, que teve inicio já neste século, acompanhando meus sobrinhos. Mas preciso aqui homenagear também Ana Maria Machado e Maria Eugênia Silveira, fundadoras da livraria junto com Renata Moraes. Elas também foram responsáveis pela concepção da maneira original de arrumação, exposição e agrupamento dos livros nas prateleiras, que seguem basicamente o mesmo padrão desde 1979 (Ana Maria Machado trabalhou na Malasartes por 18 anos; em seu blog ela conta um pouco do início de tudo). Infelizmente não achei na internet textos com essa história mais detalhada. Se alguém souber onde encontrar mais informações, por favor deixe os links nos comentários. Sempre penso cada um dos posts deste blog apenas como pontos de partida para quem quer saber mais.

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diretor artístico

18/01/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 17/01/2014

O programa Navegador – que apresento na Globo News com Alê Youssef, José Marcelo Zacchi e Ronaldo Lemos – é a celebração de atividade que parece condenada à extinção com o predomínio de redes sociais e apps fechadas: gostamos de passear livremente pela velha internet, numa errância de um assunto/site para outro, sem saber onde vamos parar. Incentivamos que outras pessoas façam o mesmo. Por isso deixamos disponíveis todos os links comentados, para serem pontos de partidas de outras viagens. A quantidade frenética de tópicos diferentes é intencional. Não queremos esgotar cada tema, mas sim dar início a muitas e diversas conversas paralelas, que podem acontecer em qualquer lugar, inclusive nesta coluna. Por exemplo: quero retomar aqui o que falei sobre Nicola Formichetti, mais conhecido como o stylist da Lady Gaga, na edição do Navegador que pode ser vista neste link.

O pano de fundo para minha decisão de trazer seu nome à baila (prefiro usar “à baila” do que “à balha”, pois lembra mais uma dança do pensamento) era o debate, que fez algum sucesso em 2013, sobre o uso da Lei Rouanet para a captação de recursos para desfiles de moda. Nada contra a vontade geral de tornar mais claros os limites para o uso de dinheiro incentivado. Porém, muitos comentários raivosos entraram em terreno perigoso ao colocar a dúvida: moda é cultura? Ou ainda: moda é cultura relevante?

Achava que isso era polêmica de passado remoto. Não consigo pensar o melhor ou mais radical da cultura do Século XX sem incluir na lista de artistas megaimportantes nomes como Vivienne Westwood, Yohji Yamamoto ou Rei Kawakubo (da Comme des Garçons). Estou sendo até conservador, indo no correto, citando os trabalhos aceitos em meios intelectuais ou da Grande Arte. Yamamoto já foi centro de documentário de Win Wenders, honra só obtida por Pina Bausch e Nicholas Ray. Kawakubo e Westwood têm verbetes na The Heilbrunn Timeline of Art History do museu Metropolitan de Nova York. Outras pessoas são mais liberais. Veja o que o pintor Julian Schnabel escreveu sobre Azzedine Alaïa na última Art Issue da revista Interview: “é um escultor que desenha com tesouras.”

Nichola Formichetti é um passo além. Ele não é nem um estilista, mas um “stylist”. Não sei se há termo em português para diferenciar os dois trabalhos. O estilista cria as roupas, inventa os conceitos para as coleções. O “stylist” até bem pouco tempo parecia ocupar uma posição secundária, combinando peças e acessórios para sessões de fotografias ou desfiles. Não mais, talvez sinal dos tempos em que curadores (os que juntam as criações dos outros) são tão criativos quanto os criadores “de primeira instância” (podemos discutir, em outro momento, se há mesmo essa primeira instância já que a arte contemporânea tem sido, há tempos, um jogo – severo ou lúdico, tanto faz – de citações).

Filho de pai piloto de avião italiano e mãe aeromoça japonesa, Formichetti foi criado na ponte aérea Roma-Tóquio. Depois estudou arquitetura em Londres, mas abriu lojas de roupas “alternativas” e logo começou a trabalhar como stylist nos editoriais de moda da revista Dazed and Confused, onde teve carreira meteórica chegando a ser diretor criativo. Seu encontro com Lady Gaga, que tem faro aguçado para se cercar de pessoas talentosas (assim como Grace Jones com Chris Blackwell e Jean-Paul Goude nos anos 1980), deu visibilidade para suas ideias fora do mundo das revistas de moda britânicas. Tudo com estética do choque em mundo onde nada mais choca. Vide aquele vestido de carne usado por Gaga em alguma dessas milhares de cerimônias de entrega de prêmios de música.

Hoje Formichetti é uma das pessoas mais poderosas também no mundo das artes. Ele ocupa o cargo de diretor criativo (como observou José Marcelo Zacchi: que denominação espetacular essa de “diretor criativo”) da Diesel, marca italiana de jeans. Lá criou a campanha Reboot, que tem sua base na rede social Tumblr e trata a internet como a nova rua, de onde são pinçadas as novas tendências. Antes os adolescentes se mostravam nas calçadas da King’s Road. Agora tiram fotos no espelho do quarto. Formichetti transformou a campanha da Diesel em exposição virtual, apresentando novos talentos.

O virtual vai para o real e vice-versa. Uma das descobertas da Reboot, o fotógrafo Michael Mayren (que ficou famoso com retratos de adolescentes ensanguentados em lutas de box), fez exposição na vitrine da Diesel de Convent Garden, tudo bancado também pela Serpentine Gallery do curador não menos poderoso Hans-Ulrich Obrist. Moda? Arte? Promiscuidade? Relativismo? Coloquem a culpa na modernidade, essa menina sem noção e sem aura.

aliens e locais

05/05/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 04/05/2012

Chia. Entre em qualquer loja de produtos naturais e você vai comprovar: é a semente da moda, ocupando lugar de destaque nas prateleiras, com muitas embalagens diferentes, geralmente mínimas e caras. Os rótulos dizem que faz um bem horrível. Já testei: parece comida alienígena, digna de ser servida pela Whoopi Goldberg no bar de “Jornada nas estrelas – a nova geração”. Em contato com qualquer líquido, sua casca durinha sofre mutação instantânea ganhando consistência gelatinosa, quase psicodélica. Li em algum local da internet que duas colheres de sopa de chia eram combustível suficiente para sanguinários guerreiros astecas marcharem por 24 horas. Essa informação me deixou um tanto paranóico: chia, quinoa, amaranto… – por que essa onda pré-colombiana, logo agora? Tem a ver com o fim do mundo segundo o calendário maia?

Já deveríamos estar acostumados a essa globalização radical dos paladares. Mas quando chego numa feira, e encontro blueberries e dragon fruits à venda, não consigo deixar de pensar nas minhas férias dos anos 70, quando encontrava primos paraibanos que nunca tinham tocado em uvas ou morangos. Hoje facilidades de transportes e logística comercial transformaram nossas cozinhas em laboratórios de mash-ups culinários juntando ingredientes de origens geográficas disparatadas.

Sou também do tempo em que não havia lojas de koni em cada esquina. No início da década de 80, restaurante japonês na Zona Sul carioca era só um, que não existe mais: o Goemon, na rua Francisco Sá. Fui levado até lá, quando comi sushi pela primeira vez, por um amigo de Tóquio, que estava visitando o Rio. Acabei apresentando o peixe cru para muita gente, inclusive paulistanos que nunca tinham pisado na Liberdade, bairro ainda praticamente inexplorado por quem não tinha família nipo-brasileira.

Não estávamos “atrasados”. O antropólogo Theodor C. Bestor, de Harvard, escreveu um artigo muito esclarecedor sobre a emergência do sushi como comida global, partindo do comércio de atum “bluefin” na Costa Noroeste dos EUA. Até os anos 70, naquele litoral, essa espécie era vítima apenas da pesca esportiva, e geralmente virava ração de gato. No Japão, pelo contrário, era comida nobre. Vários fatores explicam a difusão desse gosto para o resto do planeta. Com a imposição da regra das 200 milhas em muitos países, os pesqueiros japoneses foram expulsos de vários mares e a captura do bluefin se internacionalizou. Ao mesmo tempo houve a emergência econômica nipônica, a moda de comida saudável, a transformação de tudo que tem ar zen em base para estilo de vida sofisticado. Resultado: sushi virou cool, pelo menos até os anos 90, quando, com a crise japonesa, muito peixe que antes voava para Tóquio passou a ser vendido mais barato em mercados locais, e os hashis entraram em processo de orkutização. O que é muito bom: finalmente podemos comer sashimi na Rocinha.

Essa história da popularização do peixe cru dá um ar conspiratório para hábitos gastronômicos. Fica parecendo que nossos paladares são controlados por forças macroeconômicas obscuras, onde as flutuações da Bolsa de Tóquio determinam o emprego do sushiman cearense. Nem tudo é tão amarrado assim. As economias mexicana e peruana não estão bombando a ponto de produzir artificialmente demanda global por chia ou quinoa. Essa tendência pré-colombiana atual deve seguir caminhos mais prosaicos, como aquele que o kiwi percorreu até virar ingrediente comum nas saladas de frutas do Bibi Sucos. Foi uma escriturária de Los Angeles que resolveu importar a fruta asiática para os EUA e batizou-a com o nome kiwi como estratégia de marketing. A história do tomate também é curiosa: no início do século XIX, propagandeado por seus benefícios medicinais, era tão exótico quanto a chia. Demorou, mas acabou se orkutizando como ketchup.

Atualmente, tudo ficou mais acelerado e misturado. Os netos de Vasco da Gama esperavam meses pelas caravelas que traziam canela das Índias. Ninguém poderia sonhar com a complexa rede informatizada de abastecimento dos nossos supermercados contemporâneos. Assim como toda a produção cultural planetária pode ser baixada com poucas carícias na touch-screen, todos os sabores chegam em nossas casas via delivery. Simon Reynolds, além de popularizar o termo retromania para denominar a disponibilidade de toda história da música via internet (e o eterno “regaste” de estilos passados), também anda analisando a xenomania (o contrário da xenofobia) que mistura ritmos de várias procedências geográficas numa mesma pista de dança. Somos todos nômades etnoculturais, remixando informações, coisas, sensações, emoções, não importa onde foram criadas, cultivadas, produzidas.

Claro que o excesso e a abundância geram também efeitos contrários, entre eles a busca do local, do simples antiglobal. Não é a toa que, na lista 2012 das 100 pessoas mais influentes do mundo publicada pela revista Time, Ferran Adrià saúda o chef dinamarquês René Redzepi como “aquele que estabelece o caminho para frente”. Sabemos que Redzepi valoriza o ingrediente que pode ser plantado, pescado, criado nos arredores de seu restaurante. Provavelmente não encontraremos chia em suas mesas. O que pode ser uma decisão sustentável (o comércio global queima muito petróleo). Então teremos que voar para a Dinamarca para provar suas invenções? Gasto de petróleo também. Comer chique e saudável virou dilema ecológico.

Taniguchi Toussaint

02/07/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 24-06-2011

Jiro Taniguchi cria mangás diferentes daqueles publicados na maioria das revistas de história em quadrinhos japonesas (peço desculpas a quem sabe que mangá é estilo japonês de quadrinhos; tenho que me policiar para encontrar maneiras de repetir esse tipo de informação, pois sempre encontro leitores queixosos de não ter familiaridade com assuntos que trato aqui como se fossem de conhecimento geral; meu objetivo é tirar esse tipo de informações valiosas de seus guetos nerd-otakus, espalhando-as para outras pessoas que queiram delas se apropriar para renovar suas visões de mundo). O mangá é mais conhecido por sua linguagem veloz, com lutas e monstros, ou romances semi-eróticos para meninas. Se os criadores comerciais estão mais para a Ilíada, ou filme de Peckinpah, Taniguchi se parece mais com haiku de Bashô, ou imagem captada por câmera dirigida por Ozu (cineasta sempre citado como uma de suas principais influências). Frédéric Boilet, cartunista (ou mangaká, criador de mangás) francês, já lançou até um manifesto dando nome a esse outro estilo: “nouvelle manga”, ou simplesmente “la” mangá, a versão “feminina” de “le” mangá, como o gênero é mais conhecido em países francófonos, grande mercado editorial para quadrinhos inovadores.

No Brasil, Taniguchi tem publicados poucos livros. “Gourmet”, lançado em 2009 pela Conrad, é uma obra-prima – o caminho zen em busca da comida perfeita, no restaurante mais improvável. A editora Panini, em sua coleção Planet Manga, publicou “O livro do vento” (história de samurai, entre o “le” e o “la” mangá – mangá andrógino?) e “Seton”, sobre o naturalista inglês Ernest Thompson Seton, do qual ainda espero o segundo volume. Em português temos também belo e radicalmente contemplativo (na verdade um tratado sobre a contemplação) “O homem que caminha”, lançado como encarte do jornal lusitano Correio da Manhã, e encontrado apenas com muita sorte em algum sebo. Irmão de “O homem que caminha” é “Le promeneur”, publicado na Bélgica pela tradicionalíssima Casterman, que popularizou Tintin pelo mundo. A tradução em português seria “O passeador”? Palavra estranha, passeador. Prefiro “O homem que passeia”, e declaro que é minha obra preferida de Taniguchi, até segunda ordem.

Com desenhos de Taniguchi e roteiro de Masayuki Kusumi (o mesmo roteirista de “Gourmet”), “O homem que passeia” é formado por oito passeios de um mesmo homem por sua cidade japonesa. O quinto passeio, “Os pepinos amargos no meio da noite”, é bem emblemático da maneira taniguchiana de pensar a (ou passear pela) vida. Começa com uma visita à casa de um amigo, que termina às 3 da madrugada. Nosso querido passeador resolve voltar para casa a pé, caminhada que levará uma hora e quinze minutos. Há algum suspense no ar: pepinos amargos e a travessia de ruas desertas. Mas nada de ruim acontece. Apenas reflexões ambulantes sobre a cidade que dorme e o amigo que acaba de se separar da mulher. Tudo menos dramático que o som do mergulho de uma rã ou o movimento sutil do pousar de uma borboleta em haiku mais que perfeito e tranquilo. Essas qualidades de Taniguchi, mais sua sensibilidade diante daquilo que existe de poesia na banalidade do cotidiano (tanto na natureza quanto na cidade), já produziram uma legião de admiradores para sua obra, como o cineasta belga Sam Garbarski, que levou para as telas – em 2010 – uma de suas mangás, Bairro Distante.

Há indícios de que os belgas são vítimas alegres e preferenciais do desenho fascinante de Taniguchi. A edição de “O homem que passeia” da Casterman também brinda o leitor com uma entrevista com seu autor e perguntas formuladas pelo escritor (belga, claro) Jean-Philippe Toussaint. A conversa gira em torno de uma possível filosofia do passeio, definida por Taniguchi como atividade sem objetivo e limite de tempo, que desencadeia um “estado de disponibilidade”, gerando descobertas por acaso e “um dever de ser uma liberdade”. Toussaint fala de uma “doce curiosidade”, com pitadas de nostalgia e melancolia, nos desenhos de seu entrevistado mangaká. Talvez esteja falando mais de seus próprios escritos, que nos últimos anos perderam grande parte das características mais irônicas de seus primeiros livros e se tornaram cada vez mais contemplativos e asiáticos. Seu “Autoretrato (no estrangeiro)”, de 2000, começa em Tóquio e, depois de visitar Berlim, Quioto, o Vietnam e a Tunísia, retorna a Quioto, para diante de uma estação de trem abandonada, com a chuva molhando o rosto no lugar das lágrimas que não consegue chorar, descobre que a escrita era uma forma de resistir ao “brusco testemunho da passagem do tempo”, com sua corrente que leva tudo.

Estranho. Essa nostalgia, ou melancolia, tem cara européia, não japonesa. Os caminhantes de Taniguchi colocam a “interioridade” à flor da pele, em cada passo que diz sim ao mundo, e a tudo de novo que o tempo traz para o mundo. Toussaint, na entrevista para seu editor chinês que foi publicada na edição de bolso de Fugir (seu livro que ganhou o Prêmio Medicis 2005 e teve edição brasileira pela Bertrand), declara: “como escritor, eu não julgo, eu pego aquilo que vem, com a idéia de que o contemporâneo é sempre apaixonante.” Por isso a cena central de Fugir é uma ligação celular, mesmo que seu autor não use celular. Há um conflito ali, que não aparece em Taniguchi. A vida tem menos lágrimas para quem aprendeu a passear bem.

Cosplay in Rio

28/02/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 18/02/2011

Pedro Carvalho tem 22 anos. Ainda se formará em produção cultural, mas já pode – há muito tempo – ser considerado um dos mais importantes produtores culturais do Rio. Tudo começou quando tinha 13 anos, no quarto, com incentivo de sua mãe. Pedro não era um menino popular. O pessoal da escola já o rotulava como nerd: tinha paixão apenas por animes, os desenhos animados japoneses. Na época, banda larga era raridade, o YouTube não existia – para ver seus animes preferidos tinha que importar VHSs do bairro da Liberdade, São Paulo. Então levava os poucos amigos para ver as novidades em casa. O boca a boca trouxe mais gente. Não cabia mais no quarto. A garotada ocupou a sala. Não cabia mais na sala, a mãe alugou um salão. O “evento” ficou tão grande que deixou de apresentar apenas animes, virou ponto de encontro de fãs de cultura pop japonesa em geral (cosplay, mangá, games etc.) e tomou conta de quadras e teatros da UERJ, para onde volta neste domingo, ainda maior, não mais como Anime Center (nome com o qual o evento aconteceu até agora), mas como Cosplay in Rio.

Fui pela primeira vez a um evento produzido pelo Pedro em 2006. No dia seguinte, publiquei no Overmundo texto ainda espantado com o que encontrei por lá. Não tinha a menor ideia de que havia tantos fãs de pop nipônico no Rio e que seus encontros eram tão empolgantes. Escrevi que aquilo parecia uma “micareta de ETs” (para mim, isso é grande elogio) e até inventei uma teoria pop-antropológia sobre a pagação de mico com necessidade básica do ser humano. Virei frequentador assíduo dos eventos do Anime Center, que logo depois passaram a acontecer nas dependências do Clube Hebraica, Laranjeiras (pena que acabou o buffet de comida judaica que havia por lá: era um contraste fascinante e bem brasileiro…) Estranhava não haver nenhum patrocinador, e de tudo aquilo ser produzido na marra, quase sem nenhuma divulgação na mídia, pois eram sempre milhares de adolescentes – de todas as classes sociais, cores de pele (é íncrivel a quantidade de garotos negros vestidos de personagens japoneses) e zonas da cidade. Já fiz curadoria de vários eventos com grana, assessoria de imprensa e páginas e páginas de anúncios nos jornais: sei como é difícil reunir aquela quantidade de gente mesmo com shows de bandas bombadas nas rádios. Os eventos do Pedro, onde o público é a maior atração, aconteciam quase na “invisibilidade”, mas nos davam lições de como, quando algo é vital, o sucesso é inevitável. Ainda bem que agora o Cosplay in Rio tem patrocinador e lei de incentivo. Foi enorme batalha para chegar até aqui.

E que batalha divertida. O pop japonês desembarca ao Brasil e sofre mutações antropofágicas. Vide as apresentações do Anime Daiko, grupos de tocadores de taikos (tambores japoneses) de Londrina, que se apresentará na UERJ novamente este domingo. Os dançarinos – muitos fantasiados – fazem rodas em torno dos taikos, cantando letras das trilhas sonoras dos animes (em japonês, é claro), desenvolvendo coreografias estilo macarena ou rebolation, num ritual pós-moderno (se isso não for pós-modernidade, o que mais será?) que não existe em nenhum outro canto do mundo. Esses eventos – outros produtores culturais como Pedro realizam encontros similares em quase todas as grandes cidades brasileiras, com destaque especial para Fortaleza – também desenvolveram uma forma peculiar de comunicação interna, que só existe (até onde eu consegui descobrir) no Brasil: plaquinhas onde são escritas mensagens que funcionam como pop-ups, ou balões de fala de quadrinhos, em 3D, numa conversa descentralizada muitas vezes hilária.

Num Anime Center de 2008, tive oportunidade de ouvir a palestra e depois conversar com Keisuke Iwata, diretor da TV Tokyo que produziu, entre muitos outros sucessos, nada menos que Pokemon, Yu-Gih-Oh e Naruto. Qualquer pessoa que tenha tido contato com crianças dos anos 90 para cá pode comprovar a influência que esse cara exerce, não só no Brasil. Pena que não havia nenhum executivo da indústria cultural carioca na palestra, pois Iwata explicou com detalhes como funciona o modelo de negócios do novo pop japonês, com sua estratégia globalizada. Perguntei para ele sobre direitos autorais, se não o incomodava ver tantos garotos vestidos com suas personagens, sem autorização. Iwata me respondeu que a TV Tokyo tratava aquele tipo de evento, mesmo com ingressos pagos, como “festas de colégio”. Em outras palavras: no lugar de processar adolescentes, aceitava e incentivava a divulgação gratuita.

Os produtores de mangás-animes-games sabem que hoje os fãs não querem mais ser apenas espectadores passivos. Precisam interagir com aquilo que consomem, mergulhando nos universos ficcionais, dos quais passam também a ser produtores. Produzem o teatro do cosplay. Remixam cenas de seus desenhos preferidos em anime music videos. Muitos grandes estudios de mangá surgiram com garotos que apenas criavam novas histórias, sem autorização, misturando personagens de autores diferentes. É o império do cortar-e-colar. No Cosplay in Rio você poderá ver isso acontecendo ao vivo. Vá fantasiado, afinal já é quase carnaval.

Outra dica para o fim de semana: o festival Não-Onda, “uma pequena mostra do que há de improvável, impróprio e irredutível no underground de BH”. Também recomendo enfaticamente.


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