Archive for the ‘literatura’ Category

Alberto Mussa

11/11/2017

Escrevi este texto no início de 2016. Era para a revista Boca Coletiva, que parece que encerrou suas atividades. Então publico aqui atrasado. Com atualização no final, pois saiu este ano um novo volume do “compêndio mítico sobre o Rio de Janeiro”, assinado por Alberto Mussa. Talvez o correto fosse reescrever tudo. Mas não tenho tempo agora. Vai assim, com remendo:

Alguns livros de ficção provocaram efeitos concretos, talvez até biologicamente transformadores, na minha maneira de estar no mundo ou processar informações do mundo, incluindo upgrade na interface corpo/mundo. Não foi sempre assim. É fenômeno recente na minha relação com a literatura, percebido depois de cinco décadas de vida. Lembro ter ficado transtornado com a leitura de “Os três estigmas de Palmer Eldrich” (aqui a edição brasileira mais recente), de Philip K. Dick, no início dos meus vinte anos, ao absorver cada uma de suas palavras geralmente no ônibus no Aterro ou na barca atravessando a Baía de Guanabara (eu estudava na UFF e morava em Copacabana). Parecia que vivia overdose da droga intergaláctica traficada na ficção. Pensei que nunca mais voltaria ao “normal”. Mas voltei, com poucas sequelas, algum tempo depois de atingir a última página.

Coisa diferente, e surpreendente, aconteceu quando descobri Kim Stanley Robinson, lendo “2312” três anos atrás. Tenho certeza: não piso mais na Terra da mesma forma. Agora, a não ser quando estou muito distraído, tenho plena consciência de estar a bordo de um planeta totalmente especial, neste sistema solar. Aprendi a concordar, de maneira visceral, com a reflexão da personagem central de “Aurora“, seu lançamento de 2015: “Talvez a resposta adequada para ficar de pé na superfície de um planeta, ao ar livre na sua atmosfera, bem próximo de sua estrela local, é sempre terror. Talvez tudo o que os humanos fizeram ou planejaram fazer foi projetado para se esquivar desse terror.” Mesmo agora, em fevereiro de 2016, quando vejo Júpiter pairar bem brilhante sobre as águas de Copacabana, eu permaneço, por longos instantes, aterrorizado (e também de certa forma maravilhado) com a sensação física opressiva (e também de certa forma leve) de estar preso/viajando aqui neste canto do universo. Ando com o Google Sky Map ligado. Nem saberia que aquele brilho ali vem de Júpiter se meus neurônios e o resto das células do meu corpo não tivessem passado pelo tratamento radioativo da ficção de Kim Stanley Robinson.

Neste canto do universo: Rio de Janeiro, sensação térmica beirando os 50 graus. (Escrevo em pleno carnaval.) Minha maneira de pisar nos asfaltos, morros, areias e pós-manguezais da cidade se transformou radicalmente e visceralmente depois que li Alberto Mussa. Não consigo mais atravessar o Aterro sem pontadas constantes de terror/maravilhamento lembrando o delta formado pela foz do rio Carioca, terreno quase impossível de ser cruzado por terra para chegar ao Castelo há 400 anos. Em cada caminho passei a carregar todas as épocas superpostas, sem ordem cronológica, tudo junto e misturado, ficção e realidade, seguindo as lições trans-históricas do projeto de cinco romances policiais que Mussa está publicando, um para cada século do Rio, mas não lançados na ordem “certa” (o primeiro foi “O trono da rainha Jinga“, ambientado no século XVII, o segundo foi “O senhor do lado esquerdo“, século XX, o terceiro “A primeira história do mundo“, século XVI – o próximo está prometido para o século XIX).

Terror sim, basicamente, isto é, na base de tudo, todo o resto. O narrador de “O senhor do lado esquerdo”, cujo subtítulo é “O romance da Casa de Trocas”, deve anunciar o projeto de Mussa para o “compêndio mítico”, “projeto absurdo”, formado por cinco volumes cariocas: “o que define uma cidade é a história dos seus crimes”, e não arquitetura, geografia, heróis, costumes, poesia. E faz questão de explicar melhor: “Falo dos crimes fundadores, dos crimes necessários; e que seriam inconcebíveis, que nunca poderiam ter existido a não ser na cidade a que pertencem.” Não é exatamente uma teoria ufanista, mas ao mesmo tempo não é inventada ou investigada por alguém que despreza a cidade. Há certamente um amor febril, trágico, na descrição desse fundamento cruel, assustador, aterrorizante.

Cada um dos povos que passaram por aqui, sobretudo os que mais ajudaram a formar a cara da cidade, deixou sua receita para tornar a crueldade mais requintada, mais específica, sem paralelo em outras cidades. Há algo da pá virada no feng shui de seus bairros. Tudo sangue quente. Muito quente. Em “A primeira história do mundo” encontramos a descrição da mais dura lição/contribuição tupi: “essa categoria metafísica fundamental, causa última de todos os fenômenos da natureza e da cultura: a vingança.” Consequência prática: a vida é uma guerra de tudo contra tudo. Mesmo na relação entre vivos e mortos: “Porque os mortos, na verdade, cantam. Descrevem como, quando e por quem morreram. Não dizem a causa, apenas, porque esta é única, é universal: a vingança. É o canto dos mortos que os sacis aprendem e reproduzem para os pajés, durante o sono, para exigir que sejam vingados – e não termine nunca o pêndulo que move o mundo.” Dá para imaginar o terror dos portugueses, holandeses, franceses, piratas ou não, que aqui também guerrearam, diante de práticas/teorias da crueldade tão diferentes das suas. Era preciso rachar a cabeça dos inimigos mortos, para ganhar um nome e poder ter filhos. Portanto, sem inimigos não havia reprodução da vida, biológica e social: “quando os parentes eram muitos, e havia poucos inimigos, se dividiam em metades que passavam a se matar.” Quem era comido por inimigos ia direto para a “terra sem mal”. A crueldade era também piedade, uma forma alienígena de bondade, incompreensível para europeus cristãos e também cruéis.

Em “O trono da rainha Jinga” somos apresentados a uma seita de africanos com sua peculiar maneira de lidar com e explicar a existência do mal no mundo. Haveria desde sempre e para toda a eternidade, uma quantidade finita de maldade para ser cometida. Por isso, nos crimes que praticavam nas ruas do Rio de Janeiro do início do século XVII, com a cidade fundada há pouco mais de cinquenta anos, não bastava matar inimigos. Era necessária uma morte com crueldade horripilante. Na verdade, quem morria, ou era torturado em meio aos mais violentos rituais e piores venenos, nem precisava ser inimigo. Aquela irmandade comandada por gente de Angola praticava atos de maldade aleatória. Cada ato mais cruel que o anterior, para dar baixa na cota de mal, e o resto do mundo – principalmente os membros da irmandade – poder ficar em paz: “quer o máximo de mal sobre os outros, para que nada lhes reste.” (Estranha semelhança com a tese central de um dos sete romances que compõem “7”, de Tristan Garcia: para cada rosto belo que existe, há um rosto horrível – a cota de beleza no mundo também é finita.)

Então, no compêndio mítico de Mussa, a cidade se converte em campo de batalha para todas essas metafísicas conflitantes sobre a origem e o destino do mal no mundo. Ou laboratório onde novas possibilidades de crimes fundadores são testados, atraindo gente de todos os cantos do planeta, como o polonês de “O senhor do lado esquerdo”, que chega no Rio para realizar experiências pré-Wilhelm-Reich ou pós-Marquês-de-Sade da sexualidade humana, logo na casa que foi da Marquesa de Santos. Gente que acredita que a vida tem que ter necessariamente dois lados, não exatamente espelhados no par yin-yang chinês, mas em “velhas tradições africanas que associam o homem à luz, aos números ímpares, às florestas e ao lado direito. Femininos são, portanto, a noite, os números pares, as profundezas aquáticas e o lado esquerdo. Trata-se, como se vê, de mundos incomunicáveis.” Assim como não havia possibilidade de comunicação entre um pajé tupinambá e um jesuíta catequizador. A cidade é resultado dessa falta de comunicação em série. Ainda que tenha produzido alianças inesperadas, ou possivelmente esperadas demais. Um exemplo: “Herdeiros imediatos da filosofia tupi – já incorporada à cidade -, segundo a qual o indivíduo só se torna pleno se tiver um inimigo, os capoeiras passaram a se dividir em maltas, com territórios definidos e emblemas específicos (como fitas de cor, assobios e espíritos tutelares).” Origem bem diferente das congêneres da Bahia, de Cuba, da Venezuela, onde tudo começou como “brincadeira e jogo de piruetagens”. No Rio, explica o narrador de “O senhor do lado esquerdo” o fundamento é “tática de guerra”.

Nesse sentido é possível entender o elogio que esse mesmo narrador faz para o prefeito que resolveu derrubar o morro do Castelo, algo impensável (e quando vi pela primeira vez as tais fotografias da derrubada achei que contemplava Serra Pelada) em qualquer cidade que cultiva sua memória em modo linear: “Para mim, todavia, Carlos Sampaio foi um místico: primeiro, porque – ao destruir os sítios de fundação – ratificou a condição atemporal do Rio de Janeiro, cidade que existe desde sempre, não apenas a partir de 1565.” Por isso sua opção de estabelecer mito de fundação “fora da cronologia” (opção também de Mussa), pois “o conceito de cidade independe da noção de tempo”.

Herdamos assim uma eternidade urbana cruel. Mussa, com seus novos mitos cariocas, escreve a biografia (as biografias) desse nosso coração das trevas particular, e – nas entrelinhas – aponta as linhas de fuga e túneis secretos (inclusive ligando os cinco romances), para quem quiser enxergar, virar onça, e fugir para frente.

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REMENDO 2017: apenas alguns trechos de “A hipótese humana“, que reforçam/expandem os diagnósticos – transétnicos, transclasses, transtudo… – do Rio de Janeiro (em qualquer século de sua história) e os objetivos ontológicos/metafísicos da literatura de Alberto Mussa descritos acima:

  • “era uma criminalidade essencialmente endógena: capoeiras vitimavam capoeiras, membros de grupos rivais” (p. 24)
  • “homens de verdade não se importam com justiça; apenas com vingança” (p. 40)
  • “a morte natural é logicamente impossível.” (p. 135)
  • “O transe não constitui uma perda dos sentidos: é precisamente o fenômeno inverso; a conquista de uma plenitude cognitiva, perceptiva e perspectiva, relativamente às várias configurações do mundo.” (pp. 136-137)
  • “Um homem triste não pode ser inteligente” (p. 142)
  • “não pode haver literatura , no sentido mais essencial do termo, se se prescindir do Mal. Porque 0 Mal é a exceção; o Mal é o Outro – elemento contrastivo necessário que cria em nós a noção de humanidade.” (p. 70)
  • “Embora eu mesmo tenha escrito o livro, não sei tudo. Presumo apenas.” (p. 89)
  • “E todas as versões, mesmo as mentirosas, contribuem para a composição da verdade.” (p. 130)
  • “o que não é segredo, não se pode descobrir.” (p. 137)
  • “nem todas as verdades podem ser provadas.” (p. 151)
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LKJ

21/03/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 20/03/2015

Linton Kwesi Johnson (LKJ) se apresenta hoje no festival Back2Black. É sua primeira vez em palco carioca. Portanto: noite de gala. Não se atrase no trânsito de sexta-feira na Barra. O show começa às 21 horas, antes de Planet Hemp e Damian “Jr. Gong” Marley. Prepare seu corpo (incluindo o cérebro) para ser massageado pelo dub da banda de Dennis Bovell acompanhando a voz grave e a poesia  de LKJ. Será ocasião rara para contato imediato com um dos trabalhos mais criativos das artes atuais.

Para quem gosta de credenciais: sua poesia foi premiada com o Golden PEN, honraria concedida para seleto grupo de escritores que inclui Harold Pinter e Doris Lessing. Também foi o segundo poeta vivo – e o primeiro poeta negro – a ser publicado na série Modern Classics da editora Penguin. Seus discos são igualmente considerados clássicos. Por exemplo: o site AllMusic  elege “Forces of Victory” (1979) “um dos mais importantes discos de reggae já gravados”. Na minha opinião, qualquer coletânea de grandes sucessos de LKJ deveria figurar entre os melhores disco de todos os tempos e todos os estilos. Sempre preciso reescutar “Making History” para entender as transformações do mundo. Mesmo com décadas de vida, os poemas/letras continuam urgentes, e o instrumental produzido por Dennis Bovell tem som de futuro.

Poesia e música estão plenamente integradas nas obras de LKJ, em termos estéticos e políticos (inclusive na indumentária, de extrema elegância, estilo PhD da rebelião). Tudo ali é radical, no melhor sentido. Por isso é interessante acompanhar sua entrada no “cânone”, para desconforto de muitos ocidentalistas que não suportam nem os primeiros acordes de “Inglan is a Bitch”. “Inglan” é a grafia de patuá jamaicanos para “England”. “Bitch” ainda precisa ser traduzida por palavrão ou, depois de tantos anos de funk carioca, “cachorra” dá conta do recado? Existe ousadia maior que um imigrante dando lições com tal autoridade moral para sua ex-metrópole?

A trajetória biográfica de LKJ, e de sua parceria com Dennis Bovell, reflete as sucessivas reviravoltas daquilo que foi o Império Britânico ou, generalizando, a Civilização Ocidental. Nascido na Jamaica, imigrou para a Inglaterra com 11 anos para se encontrar com a mãe que já trabalhava em Londres (Dennis Bovell nasceu em Barbados e foi para o Reino Unido com 12 anos). Morou no bairro de Brixton, caldeirão étnico, território de conflitos com frquente violência policial, inspiração para várias de suas poesias. Cursou sociologia no Goldsmith College. Teve contato intenso o braço britânico dos Panteras Negras e com o coletivo da revista “Race Today”, pioneira na análise política do racismo contemporâneo, e que publicou pela primeira vez seus poemas.

Na mesma época os jamaicanos criavam o reggae, e a nova música cruzou rapidamente o Atlãntico, emplacando vários sucessos nas paradas inglesas. Em 1970 Dennis Bovell, que também foi DJ no clube Metro, já tinha formado o grupo Matumbi, e nos anos seguintes vai inventando maneiras de produzir um dub cada vez mais pesado, sofisticado, vanguardista. Quando LKJ e Dennis Bovell começam a lançar discos juntos, nasce a “poesia dub”, levando as experiências dos DJs jamaicanos (viva U-Roy!) para outros territórios estéticos e outras militâncias políticas. O resto é História, com H maiúsculo, que continua no Rio esta noite.

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Nota familiar: uma das maiores façanhas dos Paralamas do Sucesso foi juntar as vozes de Tom Zé e LKJ na faixa “Navegar impreciso” do álbum “Severino” (1994). A letra, em português e inglês, lamenta a atitude de um Portugal seduzido pela Comunidade Econômica Europeia, na época fechando as portas para imigrantes (muitos dentistas!) brasileiros. Apesar de tudo, havia carinho (assumidamente ingênuo) na acusação. Herbert me contou que LKJ, depois de gravar sua surpreendente participação (nossa admiração por ele era imensa – era tanta nobreza artística que ele parecia inacessível), comentou que gostaria que o mundo mudasse para poder escrever algo com sentimento semelhante para a Inglaterra. Não deve ter sido exatamente isso o que ele ou Herbert disseram, mas é assim quero guardar na memória. O mundo mudou muito de lá para cá? Neste século outros “riots” tocaram fogo nas ruas londrinas, muito parecidos com os de Brixton, décadas atrás. Portugal é que vive o fim do sonho do Euro. E talvez agora tenha oportunidade de se descobrir africano. Tema para conversa com José Eduardo Agualusa e Ângelo Kalaf (os melhores “lusófonos” que há), também no Back2Black, antes do show de LKJ.

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Mais familiar ainda: parabéns para minha mãe, que hoje completa 80 anos.

Kim Stanley Robinson

10/01/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 09/01/2015

Ainda estou em clima de Ano Novo. Ou estou ainda me preparando para o ano do clima. Não me refiro ao calor estonteante do Rio neste início de janeiro, quando a “sensação térmica” chegou para ficar em previsões e imaginários. Penso já na conferência do clima daqui a onze meses em Paris, e na longa preparação até lá, para que não termine em novo impasse diplomático-científico-cultural-natural. E penso também em microgênero narrativo que tem tudo para se tornar onipresente nas próximas listas de final de ano: vivemos tempos de “cli-fi”, ou “climate-fiction” (ficção climática).

O termo “cli-fi” surgiu em 2008, mas só foi realmente popularizado no final de 2014, com o lançamento do filme “Interestelar”. A inspiração do batismo vem obviamente de “sci-fi”, ficção científica. Mas não trata apenas do futuro. “Cli-fi” pode ser qualquer obra ficional que aborde questões ecológicas ou mais especificamente o aquecimento global, por isso tem gente que prefere o rótulo “eco-fiction”. Gosto do som kraftwerkiano de “cli-fi”. E da sua concisão visual, apesar de significado vago e contestado por muitos artistas celebrados como expoentes da micro-já-quase-macro-nova-tendência.

Tomara que o hype “cli-fi” chame a atenção – foi o caso comigo – para obras inclassificáveis e geniais como a do escritor Kim Stanley Robinson (KSR). Estranho ter passado tantos anos sem ler seus livros ou mesmo sem ouvir falar do seu nome. Não sei nem se há algo lançado no Brasil. Tive primeiro contato com seu pensamento através da coluna “Top ten” da “Art Forum”, que convida sempre uma pessoa interessante para listar dez coisas que lhes interessam. O “dez mais” de KSR, inseridos na edição do verão 2014 da revista, logo me chamou a atenção por fugir totalmente do mundinho da arte contemporânea circundante (mesmo quando a capa era sobre quadrinhos). Em primeiro lugar aparecia uma mochila ultraleve usada em caminhadas na Sierra Nevada. Em seguida havia a pintura dos leões na caverna Chauvet, flores, fotos de Marte, um disco da banda We Are Scientists e poemas de Emily Dickinson. Resultado: comprei seus dois livros mais recentes, “2312” e “Shaman”, imediatamente.

Fiz as duas leituras simultaneamente. Quando me cansava de um livro partia para o outro, alimentado pela vertigem da viagem radical no tempo: “2312”, é claro, se passa daqui a quase três séculos, pertinho se comparado aos aproximadamente 30 milênios para o passado que nos separam da Era Glacial de “Shaman”. Mesmo com toda essa distância temporal há links entre as narrativas, até alcateias de lobos caçando renas.

“2312” é assustador, mas deslumbrante, um dos melhores livros de minha vida. Acredito que Marina Abramovic tenha opinião semelhante, pois fez questão de entrar em contato com KSR depois da leitura, revelando sua identificação com “Swan”, a protagonista nascida no planeta Mercúrio, que realiza “land art” e performances (respectivamente chamadas pelos substantivos “goldsworthy” e “abramovic”) em todo o sistema solar. Tudo se passa depois que o aquecimento global já produziu o pior, e o nível dos oceanos subiu dez metros e Nova York virou uma nova Veneza com portarias para barcos no quarto andar dos edifícios.

Dá para perceber: KSR se considera um escritor utópico, não distópico, como é mais comum na ficção científica. Enfrentando o pior, a humanidade deu um jeito de sobreviver, agora em diáspora pelo sistema solar. Em 2312 visitamos cidades sobre trilhos (escapando dos raios solares) em Mercúrio, viajamos de carona em asteróides ocos (com biomas diferentes no seu interior), acompanhamos a briga entre duas facções chinesas com propostas diferentes para a terraformação (tornando o planeta habitável para espécies terrestres) de Vênus, presenciamos a chuva de animais em extinção de volta para Terra (o único reduto capitalista, o resto funciona em algo como economia da dádiva pós-anarquista), surfamos nos anéis de Saturno. Sim, tem hora que lembra “Viagem ao céu”, da turma do Picapau Amarelo. Mas juro: tudo parece possível, cientificamente provável. Os conhecimentos de KSR sobre biologia, astronomia, filosofia politica etc. são enciclopédicos. Quem duvidar pode procurar na internet por vídeo de palestra no Smithsonian, onde ele fala em menos de 15 minutos sobre todos os nossos planetas vizinhos.

Não vou ter espaço para falar de “Shaman”, com as aventuras da tribo que pintou a caverna Chauvet (aquela do filme do Herzog). Recomendo outro vídeo com Ursula K. Le Guin e sua bela leitura de trecho de capítulo final deste livro de seu discípulo. E no ano do clima fico esperando também o lançamento, previsto para maio, do próximo livro de KSR: “Aurora”.

 

aqui e agora

20/12/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 19/12/2014

2014 está terminando. Não terei tempo para cumprir outra promessa, a de homenagear vários dos grandes artistas modernos que comemorariam seu centésimo aniversário este ano. Consegui apenas escrever sobre Lina Bo Bardi, Marguerite Duras e Dorival Caymmi. Citei Sun Ra na semana passada. Pouco. Falta muita gente mais, importante demais para a minha vida e para os tempos modernos. Preciso fazer uma escolha. Não posso deixar de escrever sobre Octavio Paz. Mais especificamente sobre seu livro “Os filhos do barro”, reeditado no Brasil recentemente, e que deve ser relido por todo mundo que busca avanços para a produção cultural contemporânea.

Avanços. Estou elogiando a linearidade do tempo, em progresso ou desenvolvimento contínuo na direção do “melhor”? Nada mais distante da minha intenção. Quando li “Os filhos do barro” – que teve sua primeira edição mexicana em 1974 e a brasileira em 1980 – perdi grande parte da minha ingenuidade vanguardista juvenil. Octavio Paz nos surpreende afirmando que “o moderno é uma tradição”. Uma tradição “de ruptura”, de “crítica do passado imediato”, de “negação” – mas nem por isso menos tradicional. Claro: “a sociedade que inventou a expressão a tradição moderna é uma sociedade singular”, diferente de todas as outras que existiram antes ou que continuam a existir acreditando que o melhor aconteceu no passado. Nós, modernos, mesmo os mais apocalípticos, temos esperança num futuro que rompa com erros do passado e do presente. Mas no momento em que a crítica vira uma exigência tradicional ficamos desconfiados: “Aquele que sabe ser pertencente a uma tradição implicitamente já se sabe diferente dela, e esse saber leva-o, tarde ou cedo, a interrogá-la e, às vezes, a negá-la.”

Armadilha? Círculo vicioso? Se somos “diferentes” dos modernos, qual o nosso novo nome, ou como escapar da modernidade? Na época do lançamento de “Os filhos do barro” já se falava em pós-modernidade, mas aquela saída hoje se revela tão datada como sofá pé-de-palito de design Memphis ou capa de vinil new wave. E depois de nossa entrada no ciberespaço, podemos compreender – mixando terror e êxtase – uma profecia de Octavio Paz cujas sutilezas podem ter confundido os leitores dos anos 1970: “Passam-se mais coisas e todas elas passam quase ao mesmo tempo, não uma atrás da outra, mas simultaneamente. Aceleração é fusão: todos os tempos e todos os espaços confluem em um aqui e agora.”

O melhor lugar do mundo? Muita coisa, demais da conta. Passei 2014 lendo – bem lentamente – o tijolo “Miscelánea III” das “Obras completas” de Octávio Paz. Suas mais de 750 páginas reúnem as principais entrevistas concedidas por este grande poeta/pensador/ensaísta mexicano e cosmopolita (existe alguém mais cosmopolita?), de 1953 a 1996. Impossível não se espantar com a abrangência enciclopédica de seus conhecimentos, cada resposta é uma aula sobre assunto diferente, da poesia de Benjamin Péret à filosofia de Giorgio Agamben, passando pelo “I Ching” e pelo Dom Quixote. Apenas uma citação irresistível, de entrevista de 1989, em resposta que comenta as diferenças entre a palavra falada e a palavra escrita: “A palavra falada é aqui e agora, uma conjunção de vozes em um lugar: uma conversação. […] a palavra escrita é pública enquanto que a conversação é privada. Uma das calamidades modernas é haver feito pública a vida privada.”

De volta ao ciberaqui e ciberagora, com cada vez maior confluência de tudo, também do privado com o público. E pulo de assunto, dividindo 100 anos pela metade. Outro dia recebi email do Instituto Moreira Salles que me fez descobrir que a publicação de “A paixão segundo G.H.” completou cinco décadas (na preciosa edição crítica coordenada por Benedito Nunes descubro também que, como quase todos os outros livros de Clarice Lispector, não há originais desta obra). Clarice Lispector inventou outro tempo, ou uma estratégia de relação com o tempo que talvez nos dê pistas para escapar da tradição de ruptura moderna, que deposita todas suas esperanças em vanguardas que indicam o caminho do melhor futuro para as multidões.

Os trechos que sublinhei na minha primeira leitura de “A paixão segundo G. H.” continuam a ser aqueles que mais guiam minha vida até hoje. Fiquei “muito feliz” porque finalmente fui desiludido e nunca mais confiei em sistemas ou projetos que tentavam me vender esperança: “quero encontrar a redenção no hoje, no já, na realidade que está sendo, e não na promessa, quero encontrar a alegria neste instante”.

Mais claro ainda: “Pois prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver, e não apenas a me prometer a vida. E este é o maior susto que eu posso ter. Antes eu esperava. Mas o Deus é hoje: seu reino já começou.”

samba francês 2

29/11/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 28/11/2014

A coluna da semana passada terminou com Alejo Carpentier, o escritor cubano, solto em Paris. Ou ainda em Havana, iniciando com amigos o afrocubanismo, uma reviravolta na consciência local, valorizando a cultura negra que antes era motivo de vergonha para a elite. Algo parecido com o que aconteceu no Brasil na mesma época: a identidade nacional se construiu em torno daquilo até então desprezado. Incrível como as mesmas figuras francesas têm local de destaque nessas transformações cubanas e brasileiras.

Exemplo, retirado do livro “Nacionalizando a negritude – afrocubanismo e revolução artística em Havana, 192-1940”, de Robin Moore: “Alejo Carpentier, um dos primeiros defensores do modernismo afrocubanista, decidiu apoiar o movimento depois de ter escutado as composições influenciadas pelo jazz de Darius Milhaud.” (Comprovando essa informação Moore cita artigo de Carpentier em jornal de 1925 elogiando guajira, bolero e clave.) Como hoje conhecemos bem, sobretudo depois do lançamento de “O boi no telhado”, livro organizado por Manoel Aranha Correa do Lago, além de jazz, sambas, polcas e maxixes brasileiros foram citados na obra de Milhaud, que morou no Rio, de 1914 a 1918, como secretário do poeta e diplomata Paul Claudel. Sabemos também como “O boi no telhado”, sucesso carnavalesco de 1918, virou nome de um dos principais clubes noturnos da Paris vanguardista. Uma Paris que consumia igualmente música cubana, em estabelecimentos como o Melody’s Bar e o Cabaña Bambú, localizados no bairro de Montmartre.

Em “O mistério do samba”, eu comento a importância enorme do poeta francês Blaise Cendrars para a “descoberta do Brasil” por modernistas como Mário e Oswald de Andrade (o livro de poesia “Pau-brasil” é explicitamente dedicado “a Blaise Cendrars por ocasião da descoberta do Brasil”), além de apresentar Donga para Prudente de Morais Neto, que depois leva o novo amigo – e Pixinguinha, e Patrício Teixeira – para tocar samba para Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre.

Os franceses continuam consumidores ávidos de músicas (pop ou tradicional) das mais variadas procedências geográficas, e cuidam de redistribuir as melhores informações coletadas para o resto do mundo. No meu “avant-propos” para a nova tradução francesa de “O mistério do samba” por falta de espaço nem fiz os devidos agradecimentos para parisienses que não estão citados no livro, mas que foram centrais para minha própria descoberta de uma maneira de olhar/pensar o Brasil e a música brasileira, em todo seu cosmopolitismo. Então agradeço por aqui ao jornalismo musical praticado na revista “Actuel” e no jornal “Libération” nos anos 1980, desbravadores das fronteiras, naquele tempo quase impenetráveis (não havia internet popularizada), de um ambiente sonoro que quase ficou conhecido como “sono mondiale”. Sempre lamentei que o termo “world music”, bem mais rígido, tenha se tornado o padrão hoje. Sinal da perda de protagonismo francês na cultura internacional. Pena. É quase sempre empobrecedor (a não ser em raros monólogos geniais) ter apenas um ator (e uma única língua diplomática) em cena.

Ainda guardo muitos recortes das colunas “Selection disques noir”, “Selection soul”, sempre bem ecléticas, que Philippe Conrath assinava no “Libération”. Tenho igualmente minha coleção de “Actuel”, primeira revista a colocar – por exemplo – o raï, pop argelino, na capa, como se fosse a música mais popular do planeta. Sinto falta do espírito aventureiro e globalista do pessoal da “Actuel”. Não há hoje publicação semelhante, cobrindo o que acontece de interessante em todos os continentes, das cidades de Madagascar à floresta amazônica, passando pelo estúdio parisiense de Martin Meissonier, produtor de King Sunny Adé, Khaled e outros nomes que deixaram de ser “exóticos” por causa de seus discos. Não posso me esquecer também de Rémy Kolpa Kopoul, que tantos bons serviços prestou (e continua a prestar) para o pop brasileiro em todas suas vertentes, inclusive trazendo Kassav’ e Salif Keita, entre muitos outros, para tocar por aqui.

Viajando pela África, sempre fiquei impressionado com o trabalho de uma rede de centros culturais franceses, capazes de impulsionar o desenvolvimento de fenômenos até então desvalorizados por instituições locais, como o rap moçambicano ou uma certa pintura congolesa (nomes como Chéri Samba, que também foi parar na capa da “Actuel”). O equivalente aqui no Rio é a biblioteca da Maison de France, local também central na minha formação e de tantos cariocas. Acho que ainda está em reforma. Quando reabrir agradecerei pessoalmente a seus funcionários, doando exemplar de meu samba em francês. (O exemplar do MIS já está prometido.)


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