Archive for the ‘música’ Category

mistério do planeta

01/11/2017

Escrevi este texto no início de 2016. Foi uma sugestão da querida Ana de Oliveira, corajosa realizadora da Iyá Omin, com quem eu já havia tido a alegria de colaborar no projeto do livro sobre o disco “Tropicalia ou Panis et Circencis”. A ideia era agora fazer homenagem/reflexão semelhante para outro disco da mesma importância, o “Acabou Chorare”, com vários autores e artistas se dedicando a cada uma de suas faixas. O novo livro foi lançado no primeiro semestre deste ano. É uma maravilha. Além das muito diversas interpretações de todas as canções, há material de arquivo que só a Ana sabe coletar e publicar, como já fizera no tesouro que é o site Tropicalia. Pena que não teve a divulgação merecida nas mídias tradicionais e “novas”. Muito mais gente deveria saber da sua existência. Até porque “Acabou Chorare” deveria nos servir de guia para enfrentar a crise de hoje. Foi produto de uma das épocas mais aterrorizantes da história brasileira, mas não pode existir lição maior de liberdade e criatividade.

Minha canção escolhida foi “O mistério do planeta”:

O mistério de “Acabou chorare”: João Gilberto. O que não é novidade ou surpresa: ele é mistério maior da cultura brasileira, uma das encarnações mais esotéricas do mistério do samba, cada vez mais cercado por segredos sagrados. Sua relação com a turma dos Novos Baianos, no Rio de Janeiro, pode ser pensada como um dos momentos mais públicos de sua trajetória misteriosa, quando o próprio mistério sai de seu retiro e trabalha determinadamente para produzir um milagre que transforma eficazmente os destinos artísticos do país, e também a maneira com a qual uma nova geração inventava seu lugar no mundo. Apesar de toda determinação e eficácia, os procedimentos não são claros – algo bem adequado a todo acontecimento realmente misterioso ou milagroso.

Há, como era de se esperar, muitas versões sobre cada momento da relação. Seu mito de origem mais difundido fala da aparição inesperada de João Gilberto na porta da cobertura de Botafogo onde os Novos Baianos viviam, sendo confundido com um policial por causa de seu terno. O que seria pitoresco: a lei divina travestida de lei dos homens, a condenação que depois vira redenção. Outras narrativas menos detalhistas resumem a principal lição do encontro: João Gilberto teria revelado o Brasil para a turma de cabeludos hippies, direcionando seu olhar para “dentro”, para sua “verdade interior” vista como nacional: do rock para o samba, de Jimi Hendrix para Assis Valente. Na visão de gente que acredita na tese tola da bossa nova vista como inovação traidora do samba “de raiz”, ou o autêntico nacional submisso ao jazz internacional, tal atitude já foi interpretada como admissão de culpa ou remissão de pecado: o caminho escolhido agora seguiria sentido oposto, a mão contrária, desaprovando o fora, encaminhando ovelhas perdidas na ilusão do rock para a verdade do pandeiro.

Isso sim seria traição da bossa nova, do samba, do grande poder transformador com o qual samba e João Gilberto desafiam o Brasil. Seria também traição do rock. A lição de João Gilberto não poderia ter sido tão pequena, menor – isso não seria um milagre, e sim a voz de prisão, o enquadramento de um policial mesquinho. Seus ensinamentos foram bem diferentes, muito mais amplos, complexos, libertários, profundos, misteriosos. E seus discípulos estavam longe de serem meninos ingênuos, alienados, de costas para o Brasil.

Os meninos (e as meninas) eram espertos, informados, sabiam muito bem em que terra pisavam. A turma nasceu assim: Galvão passou na pensão de dona Maritó para encontrar Moraes. Suas primeiras palavras: “Tom Zé mandou-me aqui. Estávamos fazendo música, mas o Tropicalismo o chamou para São Paulo e ele profetizou que seríamos parceiros.” Com profecia de Tom Zé, o mais ousado estudioso do samba, não se brinca. Quando encontraram João Gilberto (para Galvão era um reencontro, mas desde 1961 em Juazeiro os dois não se viam), já tinham trocado ideias com o melhor da “avant-garde na Bahia” e com o concretismo paulistano. “É ferro na boneca”, o primeiro LP, era disco com rock sob filtro tropicalista, com sanfona, com tangolete, nem um pouco distante das contradições que movem as identidades brasileiras, como comprova a faixa “O samba me traiu“, na verdade um hino bem nietzscheano para o sol daqui (um dos hinos para o sol lançado pelos Novos Baianos). João Gilberto escutara “É ferro na boneca” com atenção, sabia quem iria encontrar. E escolheu a forma como o encontro iria acontecer.

Minha narrativa preferida do encontro está contida no livro “Anos 70: novos e baianos”, de Galvão. Para continuar em ambiente misterioso, posso chamá-lo de “Evangelho segundo Galvão”. Há contradições na comparação com outras narrativas. Não estou aqui em busca de verdade, mesmo tropical. Quero aprofundar o mistério. A letra de “Mistério do planeta” também pode nos guiar nessa empreitada. Lembrando, começa assim: “Vou mostrando como sou / E vou sendo como posso / Jogando meu corpo no mundo / Andando por todos os cantos / E pela lei natural dos encontros / Eu deixo e recebo um tanto”. A lei natural dos encontros favoreceu os Novos Baianos. Eles vinham jogando seus corpos pelo mundo, andando por todos os cantos, inclusive prisões e Arembepe, e acabaram chegando ao Rio, na cobertura de Botafogo. Segundo Galvão, João Gilberto, que também passava temporada no Rio, descobriu que Galvão estava por perto e tomou a iniciativa do encontro. O primeiro recado, com número de telefone, chegou “por um primo”. Galvão foi imediatamente para o orelhão, João Gilberto atendeu e deu as seguintes instruções: “Venha às duas da madrugada que eu tenho um presente para você. Preste atenção, Luizinho, ligue para mim às cinco da tarde. Não esqueça.” No telefonema das cinco, depois de tocar duas músicas, incluindo “Antonico” que Galvão não ouvira antes, mais ordens: “Vá descansar, temos que estar preparados. Um encontro é coisa séria. É o melhor que se pode dar a alguém. Não esqueça de telefonar quando chegar na esquina. Até mais. Seja feita a vontade divina.”

Qualquer semelhança com regras de iniciação esotérica não é, obviamente, mera coincidência. Tudo faz parte de uma lei natural dos encontros criada por João Gilberto, que sabia como cada detalhe deveria se passar, mesmo diante das surpresas aprontadas pelo acaso. Quando Galvão, o Luizinho, após passar três dias quase sem dormir na casa do mestre, pede para voltar com Moraes, Paulinho e Baby, João Gilberto reluta, diz já conhece gente demais: “só você está bom. Ou não está gostando?” Galvão responde: “não sou mais sozinho. Faço parte de um todo.” Uma hora de argumentação de Galvão depois, João reconsidera dizendo até que Baby poderia vir com “espelho na testa”, mostrando que sabia muito bem com quem estava falando, e como o admirável novo mundo baiano lhe interessava.

Repetindo: para João Gilberto, um encontro é “coisa séria”, “o melhor que se pode dar a alguém”. Ele escolheu dar seu melhor para os Novos Baianos. Contrariando seus hábitos de eremita, visitou a cobertura de Botafogo várias vezes. Parecia descobrir ali uma utopia, uma zona autônoma temporária, um sonho. Ao ouvir uma notícia ruim, João Gilberto mudou o rumo da conversa: “Não esquentem não. Vamos continuar com o som. Vamos continuar com o sonho.” Não se tratava de maneira alguma de conselho para fuga da realidade. Como a canção “Na fogueira” anunciou, no último disco dos Novos Baianos, “o sonho é o mais belo caminho para a realidade/eternidade“. (Em “Sou o caso deles”, colocar alguém no mundo, significa botar na realidade e também mostrar a eternidade.)

A lição de João Gilberto para os Novos Baianos não pode ser entendida como uma exigência de brasilidade. Seus presentes foram múltiplos: vitaminas americanas (“Dizem que isso rejuvenesce e até tira rugas.”), dólares para o café da manhã, pedaço de letra para “Acabou chorare”, a descoberta de “Autobiografia de um iogue” (“Não é um livro comum para você apenas ler, mas ele mudou a minha vida e o tenho além da minha cabeceira. É o meu outro lado da Bíblia. Ele é meu guru bendito Paramahansa Yogananda.”), e samba, é claro, muito samba (os Novos Baianos aprenderam rapidamente sambas do repertório de João Gilberto, e mostraram suas versões em primeira mão para Glauber Rocha).

Outras aulas eram dadas com didática desconcertante. Gosto especialmente da descrição do momento em que ele tocou, ou deixou de tocar, com Pepeu: “Pepeu, que estava junto, e por ser um jovem de muito talento e um brilhante músico já reconhecido pela juventude, entrou no som com seu violão, mas, em minutos, Pepeu teve que parar a viola, porque João já estava em outra, com o jovem músico consequentemente sobrando. João tratou imediatamente de tranquilizá-lo: ‘Pepeuzinho, não se grile, estou apenas ensinando-lhe a fórmula'”. João Gilberto tinha Pepeu em alta conta. Conversando com Galvão, ele deixou entrever o que imaginava/desejava ser o futuro dos Novos Baianos: “Olhe, se Pepeu quiser ir para os Estados Unidos, eu falo com Stan Getz ou Sergio Mendes e ele tocará com um deles. Acho, no entanto, que o melhor seria ele ficar com vocês, porque vocês têm um grande trabalho para realizar no Brasil junto a essa juventude.”

O mestre verdadeiro é este: aquele que sabe descobrir o melhor em seus discípulos, para eles conseguirem realizar o melhor para o mundo. João Gilberto não provoca uma mudança radical nos Novos Baianos, suas lições apenas aceleram um processo natural de desenvolvimento artístico. O que havia ali como potencial, força bruta ainda desorganizada em “É ferro na boneca”, adquire rigor, clareza, segurança, mesmo mantendo sua integridade caótica e ar espontâneo juvenil. Mas a intensidade do desenvolvimento, com resultado em “Acabou chorare”, é tão fulminante, que só pode ser ouvida como milagrosa.

“Mistério do planeta” condensa todo o aprendizado em letra e som. Paulinho Boca de Cantor parece cantar o capítulo seguinte do tratado de filosofia da imanência radical contido no verso minha opinião central de “Besta é tu” (“por que não viver neste mundo, se não há outro mundo”): o jogo de corpo para se aproximar do grande mistério é descobrir que não há mistério nenhum, ou o mistério está todo (“o tríplice mistério do stop”) nesta vida, sem explicação escondida em outra vida, outro mundo, outro planeta. Mesmo assim, ainda há espaço para um parêntesis, onde surge o malandro/moleque brasileiro, que anda por aí como o louco (o vagabundo e a vadiagem são imagens recorrentes na lírica de Galvão) do Tarot, em andança pelos Trópicos, sabendo tornar invisível sua sacola. Não haver outro mundo não significa ausência de mágica (quem contrariar a lei do Cosmos já paga ao contrariar). E então, como do nada, ouvimos o noise também radical da guitarra malandra do moleque brasileiro Pepeu, que se mostra digno da fórmula de João Gilberto.

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LKJ

21/03/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 20/03/2015

Linton Kwesi Johnson (LKJ) se apresenta hoje no festival Back2Black. É sua primeira vez em palco carioca. Portanto: noite de gala. Não se atrase no trânsito de sexta-feira na Barra. O show começa às 21 horas, antes de Planet Hemp e Damian “Jr. Gong” Marley. Prepare seu corpo (incluindo o cérebro) para ser massageado pelo dub da banda de Dennis Bovell acompanhando a voz grave e a poesia  de LKJ. Será ocasião rara para contato imediato com um dos trabalhos mais criativos das artes atuais.

Para quem gosta de credenciais: sua poesia foi premiada com o Golden PEN, honraria concedida para seleto grupo de escritores que inclui Harold Pinter e Doris Lessing. Também foi o segundo poeta vivo – e o primeiro poeta negro – a ser publicado na série Modern Classics da editora Penguin. Seus discos são igualmente considerados clássicos. Por exemplo: o site AllMusic  elege “Forces of Victory” (1979) “um dos mais importantes discos de reggae já gravados”. Na minha opinião, qualquer coletânea de grandes sucessos de LKJ deveria figurar entre os melhores disco de todos os tempos e todos os estilos. Sempre preciso reescutar “Making History” para entender as transformações do mundo. Mesmo com décadas de vida, os poemas/letras continuam urgentes, e o instrumental produzido por Dennis Bovell tem som de futuro.

Poesia e música estão plenamente integradas nas obras de LKJ, em termos estéticos e políticos (inclusive na indumentária, de extrema elegância, estilo PhD da rebelião). Tudo ali é radical, no melhor sentido. Por isso é interessante acompanhar sua entrada no “cânone”, para desconforto de muitos ocidentalistas que não suportam nem os primeiros acordes de “Inglan is a Bitch”. “Inglan” é a grafia de patuá jamaicanos para “England”. “Bitch” ainda precisa ser traduzida por palavrão ou, depois de tantos anos de funk carioca, “cachorra” dá conta do recado? Existe ousadia maior que um imigrante dando lições com tal autoridade moral para sua ex-metrópole?

A trajetória biográfica de LKJ, e de sua parceria com Dennis Bovell, reflete as sucessivas reviravoltas daquilo que foi o Império Britânico ou, generalizando, a Civilização Ocidental. Nascido na Jamaica, imigrou para a Inglaterra com 11 anos para se encontrar com a mãe que já trabalhava em Londres (Dennis Bovell nasceu em Barbados e foi para o Reino Unido com 12 anos). Morou no bairro de Brixton, caldeirão étnico, território de conflitos com frquente violência policial, inspiração para várias de suas poesias. Cursou sociologia no Goldsmith College. Teve contato intenso o braço britânico dos Panteras Negras e com o coletivo da revista “Race Today”, pioneira na análise política do racismo contemporâneo, e que publicou pela primeira vez seus poemas.

Na mesma época os jamaicanos criavam o reggae, e a nova música cruzou rapidamente o Atlãntico, emplacando vários sucessos nas paradas inglesas. Em 1970 Dennis Bovell, que também foi DJ no clube Metro, já tinha formado o grupo Matumbi, e nos anos seguintes vai inventando maneiras de produzir um dub cada vez mais pesado, sofisticado, vanguardista. Quando LKJ e Dennis Bovell começam a lançar discos juntos, nasce a “poesia dub”, levando as experiências dos DJs jamaicanos (viva U-Roy!) para outros territórios estéticos e outras militâncias políticas. O resto é História, com H maiúsculo, que continua no Rio esta noite.

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Nota familiar: uma das maiores façanhas dos Paralamas do Sucesso foi juntar as vozes de Tom Zé e LKJ na faixa “Navegar impreciso” do álbum “Severino” (1994). A letra, em português e inglês, lamenta a atitude de um Portugal seduzido pela Comunidade Econômica Europeia, na época fechando as portas para imigrantes (muitos dentistas!) brasileiros. Apesar de tudo, havia carinho (assumidamente ingênuo) na acusação. Herbert me contou que LKJ, depois de gravar sua surpreendente participação (nossa admiração por ele era imensa – era tanta nobreza artística que ele parecia inacessível), comentou que gostaria que o mundo mudasse para poder escrever algo com sentimento semelhante para a Inglaterra. Não deve ter sido exatamente isso o que ele ou Herbert disseram, mas é assim quero guardar na memória. O mundo mudou muito de lá para cá? Neste século outros “riots” tocaram fogo nas ruas londrinas, muito parecidos com os de Brixton, décadas atrás. Portugal é que vive o fim do sonho do Euro. E talvez agora tenha oportunidade de se descobrir africano. Tema para conversa com José Eduardo Agualusa e Ângelo Kalaf (os melhores “lusófonos” que há), também no Back2Black, antes do show de LKJ.

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Mais familiar ainda: parabéns para minha mãe, que hoje completa 80 anos.

carnavais

14/02/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 13/02/2015

No início dos anos 1980, durante o carnaval, eu circulava sempre pela Rio Branco, para me misturar aos desfiles do Cacique de Ramos e do Bafo da Onça. Fausto Fawcett, na mesma década, cantava/ordenava a dissolução de egos na matéria em movimento. Não havia nem superego que resistisse ao movimento browniano daquela multidão que ocupava nossa avenida central. Em questão de segundos, todos seus quilômetros eram preenchidos por um único corpo pulsante misturando jaguares e índios arquetípicos. Anos depois, aquela coisa toda – como por um milagre – foi desaparecendo. Eu insistia em voltar para a Cinelândia, mas o ambiente era triste. Gatos pingados fantasiados não conseguiam produzir sensação de folia. Quem é muito jovem não acredita quando conto que houve anos em que o carnaval no Rio tinha clima de “Adeus, batucada”.

Hoje, novos blocos, cada vez mais gigantescos, reconquistaram as ruas, para surpresa geral. Não foi obra de política pública de “resgate” do carnaval popular de rua. Tudo aconteceu como um experimento de ciência do caos, fora das previsões das autoridades mais “antenadas”. Foi como rebelião do inconsciente carioca, que não se conformou com a obrigação de ter que viajar para Salvador ou Recife se quisesse brincar na rua durante os feriados carnavalescos. Seguimos o grito de guerra do Cacique: “vou festejar”. Aqui mesmo.

Bela lição para quem estuda ou promove a cultura: ainda bem que o mundo é imprevisível. Festa é vontade mutante. Ninguém sabe onde, quando e como vai aparecer ou desaparecer. (Talvez como tudo na vida, mas na festa essa característica geral é mais evidente.) Nenhum MBA vai enquadrá-la em modelo de negócio estável. É possível apenas aproveitar o embalo, eterno enquanto dura.

Sonho com uma rede global de carnavais, uma organização das nações unidas da folia. Seria a atualização Século XXI de um efeito colateral da imposição do catolicismo por colonizadores lusitanos. Pensei nisso quando passei um carnaval em Goa, na Índia (uma das músicas que faz mais sucesso no seu desfile ainda é “Mamãe eu quero”). Tive contato também com manifestações carnavalescas em Malaca, na Malásia (era uma espécie de entrudo, com o povo que fala cristão – ou kristang, ou papiá kristang, idioma crioulo descendente do português com estrutura gramatical do malaio – fazendo batalha de baldes d’água na rua), e na Guiné Bissau (o maior carnaval africano – ver algumas imagens no episódio do Navegador, programa da GloboNews, na próxima segunda-feira). Todos: locais em que Portugal deixou suas marcas malucas. Tanto em Goa, quanto em Bissau há um fenômeno curioso: indianos fantasiados de indianos, africanos fantasiados de africanos, como se a festa fosse a única ocasião em que podem ser quem “verdadeiramente” são (e então percebemos que tudo é mesmo fantasia e que “verdade é uma ilusão”, ou ao contrário, dependendo do contexto).

Claro que seria justo ter o português como língua oficial da ONU foliã. Mas não poderia ser o único. Há carnavais em Veneza, na Alemanha. E há o carnaval de Trinidad e Tobago, com seu filho, no meio de cada ano, em Notting Hill, Londres, Inglaterra. É a maior folia do Caribe, a grande festa do calypso, hoje soca (corruptela de soul-calypso, filha da união do calypso com o funk). Essa apropriação do pop dos EUA revigorou a tradição festiva de Trinidad e Tobago, que cresce a cada ano e se mantém única, “tipicamente” local. Assim como o reggae foi incorporado ao carnaval de Salvador transformando-se em samba-reggae, que é baiano demais. Sempre escrevo: identidade nunca pode ser pensada como algo estático, acabado. Ou frágil, a ponto de qualquer ameaça externa, ou mudança mais decisiva, condená-la à extinção. Os carnavais são laboratórios que testam e expandem os limites das tradições. Como se identidade fosse uma grande brincadeira (e não é?). Como se o mundo fosse terminar na quarta-feira.

Quando a soca se tornou muito popular, pensei que steel bands – orquestras com aquelas panelas de aço, deliciosa invenção de Trinidad e Tobago – poderiam desaparecer. Mas elas continuam lá, criativas e magníficas. Essa constatação não quer dizer que boas tradições não correm riscos de extinção. Afirmo apenas que a dinâmica é incontrolável. A melhor política de preservação não é garantia de eternidade. Eterno Deus Mu-dança.

Os instrumentos das steel bands foram novidade um dia (assim como os surdos das escolas de samba), mais recente do que parece. Quem pode saber se no próximo século um dos melhores carnavais do planeta não acontecerá na Suiça e na Áustria, com bandas de hang, o novíssimo instrumento de percussão (criado depois de 2000) tocado com maestria pelo percussionista dos shows da Bjork, Manu Delago?

aceleracionismo

07/02/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06/02/2015

Leonard Cohen começa seu sublime “Popular problems” com a canção “Slow”. No contexto desta coluna, seu refrão poderia ser traduzido assim: “eu sempre gostei do slow, isso é o que minha mãe disse”. Há versos mais enfáticos: “você quer chegar lá rápido, eu quero chegar lá por último” ou “o ‘slow’ está no meu sangue”. Nem eu nem minha mãe teríamos tanta certeza. Sempre oscilei entre o slow e o fast. Talvez o fundamento da minha visão de mundo seja zen (apesar de nunca ter praticado meditação com a seriedade de um Leonard Cohen), mas é um zen que se encanta tanto com a brisa que leva a borboleta de ramo em ramo (Bashô) quanto com a edição do videoclipe mais veloz. Sempre tive simultaneamente e bem fundo, pois não sei dirigir, um pé no freio e outro no acelerador.

Igualmente: sempre gostei do natural e do artificial, em seus extremos mais comuns e mais bizarros. Aliás, sinto dificuldade em apontar o que exatamente não é natural no artificial. Não saberia também dizer o que me fascina mais: uma água viva ou um aparelhão de ressonância magnética? Não teria nada contra alimentos geneticamente modificados se houvesse controle público rigoroso em seus desenvolvimentos e se não fossem propriedades de empresas pouquíssimo transparentes em seus métodos de pesquisa e comercialização. Não penso que o natural seja para sempre necessariamente melhor do que as invenções de uma tecnologia responsável.

Considero muito bem-vindas as propostas dos defensores da “ciência slow”. Apesar de nossos problemas urgentes (clima, energia, água, fome e muito mais), nada justifica pressas e segredos desgovernados nos laboratórios, que podem desencadear catástrofes imprevisíveis. Porém, ao mesmo tempo, não consigo deixar de prestar atenção no que dizem os aceleracionistas, defensores do fast total. Claro que sei: são projetos inconciliáveis. Mas quem disse que dá para conciliar tudo na vida?

Aceleracionismo, nesse sentido, é termo tão recente que meu corretor ortográfico assinala erro a cada digitação. Mas já tem seu mito de origem: teria aparecido, em 1967, no livro “Senhor da luz”, de Roger Zelazny, ficando ali incubado na ficção científica até sua estreia de gala na teoria crítica via introdução de “A persistência do negativo” (agradeço a Ronaldo Lemos o presente capa dura), que o filósofo Benjamin Noys lançou em 2010. Sua viralização foi acelerada, principalmente com o impulso da Urbanomic, organização/site (editora da revista “Collapse”, já comentada aqui em texto sobre o “realismo especulativo”) que se tornou ponto de encontro para algumas das tendências mais interessantes do pensamento contemporâneo.

Duas leituras básicas para quem quiser se tornar aceleracionista. Em 2014, Benjamin Noys atacou novamente, desta vez com o livro “Velocidades malígnas”, lançado pela extraordinária editora Zer0 Books (contra o “estupor interpassivo”). No ano passado, a Urbanomic publicou “#accelerate#”, coletãnea de textos – de Marx a Patricia Reed, passando obviamente por Deleuze/Guattari, pelo “Acelerar: manifesto para uma política aceleracionista” (de 2013) e pela resposta de Antonio Negri ao manifesto – que traçam a genealogia do movimento. (Caso haja edição multimídia não poderá faltar o registro de “Acelera Deus”, instalação que Barrão e Luiz Zerbini, pré Chelpa Ferro, montaram no Palácio do Catete em 1992. Eu e Sérgio Mekler colaboramos com a trilha sonora. A inspiração era também a Fórmula 1, campeonato que – segundo alguns defensores do decrescimento – precisa ser extinto imediatamente.)

Estou aqui acelerado, próximo do final da coluna. Cito apenas o início da introdução de “#accelerate#” para acordar geral: “O aceleracionismo é uma heresia política: a insistência de que a única resposta política radical para o capitalismo não é protestar, produzir rupturas, ou criticar, nem esperar sua morte nas mãos de suas próprias contradições, mas sim acelerar suas tendências dezenraizadoras, alienantes, decodificadoras e abstrativas.”

Minha opinião: o texto mais curioso dessa coletânea é assinado por Ray Brassier, e combate as denúncias de totalitarismo em qualquer proposta para “refazer o mundo”, como se de agora em diante só fosse possível almejar a criação de “enclaves locais de igualdade e justiça”. (Alguns adeptos do slow são localistas extremistas.) Brassier lança a pergunta: “Devemos abandonar nossas ambições e aprender a ser modestos, como todo mundo parece estar ordenando que façamos?”

De Cohen a Caetano. Termino citando “Muito” (álbum com capa tão slow). “Eu nunca quis pouco”. De volta ao início, duas semanas atrás: para ter muito do bom/bem é preciso desacelerar radicalmente ou acelerar ainda mais? Como vamos decidir?

 

samba francês 2

29/11/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 28/11/2014

A coluna da semana passada terminou com Alejo Carpentier, o escritor cubano, solto em Paris. Ou ainda em Havana, iniciando com amigos o afrocubanismo, uma reviravolta na consciência local, valorizando a cultura negra que antes era motivo de vergonha para a elite. Algo parecido com o que aconteceu no Brasil na mesma época: a identidade nacional se construiu em torno daquilo até então desprezado. Incrível como as mesmas figuras francesas têm local de destaque nessas transformações cubanas e brasileiras.

Exemplo, retirado do livro “Nacionalizando a negritude – afrocubanismo e revolução artística em Havana, 192-1940”, de Robin Moore: “Alejo Carpentier, um dos primeiros defensores do modernismo afrocubanista, decidiu apoiar o movimento depois de ter escutado as composições influenciadas pelo jazz de Darius Milhaud.” (Comprovando essa informação Moore cita artigo de Carpentier em jornal de 1925 elogiando guajira, bolero e clave.) Como hoje conhecemos bem, sobretudo depois do lançamento de “O boi no telhado”, livro organizado por Manoel Aranha Correa do Lago, além de jazz, sambas, polcas e maxixes brasileiros foram citados na obra de Milhaud, que morou no Rio, de 1914 a 1918, como secretário do poeta e diplomata Paul Claudel. Sabemos também como “O boi no telhado”, sucesso carnavalesco de 1918, virou nome de um dos principais clubes noturnos da Paris vanguardista. Uma Paris que consumia igualmente música cubana, em estabelecimentos como o Melody’s Bar e o Cabaña Bambú, localizados no bairro de Montmartre.

Em “O mistério do samba”, eu comento a importância enorme do poeta francês Blaise Cendrars para a “descoberta do Brasil” por modernistas como Mário e Oswald de Andrade (o livro de poesia “Pau-brasil” é explicitamente dedicado “a Blaise Cendrars por ocasião da descoberta do Brasil”), além de apresentar Donga para Prudente de Morais Neto, que depois leva o novo amigo – e Pixinguinha, e Patrício Teixeira – para tocar samba para Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre.

Os franceses continuam consumidores ávidos de músicas (pop ou tradicional) das mais variadas procedências geográficas, e cuidam de redistribuir as melhores informações coletadas para o resto do mundo. No meu “avant-propos” para a nova tradução francesa de “O mistério do samba” por falta de espaço nem fiz os devidos agradecimentos para parisienses que não estão citados no livro, mas que foram centrais para minha própria descoberta de uma maneira de olhar/pensar o Brasil e a música brasileira, em todo seu cosmopolitismo. Então agradeço por aqui ao jornalismo musical praticado na revista “Actuel” e no jornal “Libération” nos anos 1980, desbravadores das fronteiras, naquele tempo quase impenetráveis (não havia internet popularizada), de um ambiente sonoro que quase ficou conhecido como “sono mondiale”. Sempre lamentei que o termo “world music”, bem mais rígido, tenha se tornado o padrão hoje. Sinal da perda de protagonismo francês na cultura internacional. Pena. É quase sempre empobrecedor (a não ser em raros monólogos geniais) ter apenas um ator (e uma única língua diplomática) em cena.

Ainda guardo muitos recortes das colunas “Selection disques noir”, “Selection soul”, sempre bem ecléticas, que Philippe Conrath assinava no “Libération”. Tenho igualmente minha coleção de “Actuel”, primeira revista a colocar – por exemplo – o raï, pop argelino, na capa, como se fosse a música mais popular do planeta. Sinto falta do espírito aventureiro e globalista do pessoal da “Actuel”. Não há hoje publicação semelhante, cobrindo o que acontece de interessante em todos os continentes, das cidades de Madagascar à floresta amazônica, passando pelo estúdio parisiense de Martin Meissonier, produtor de King Sunny Adé, Khaled e outros nomes que deixaram de ser “exóticos” por causa de seus discos. Não posso me esquecer também de Rémy Kolpa Kopoul, que tantos bons serviços prestou (e continua a prestar) para o pop brasileiro em todas suas vertentes, inclusive trazendo Kassav’ e Salif Keita, entre muitos outros, para tocar por aqui.

Viajando pela África, sempre fiquei impressionado com o trabalho de uma rede de centros culturais franceses, capazes de impulsionar o desenvolvimento de fenômenos até então desvalorizados por instituições locais, como o rap moçambicano ou uma certa pintura congolesa (nomes como Chéri Samba, que também foi parar na capa da “Actuel”). O equivalente aqui no Rio é a biblioteca da Maison de France, local também central na minha formação e de tantos cariocas. Acho que ainda está em reforma. Quando reabrir agradecerei pessoalmente a seus funcionários, doando exemplar de meu samba em francês. (O exemplar do MIS já está prometido.)


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