Archive for the ‘música’ Category

saudade

28/06/2020

Quem lê este blog há muito tempo sabe que sou fã de Benjamin Biolay. Mesmo assim, não tive tempo ainda para escutar o disco que lançou na sexta-feira. Ouvi apenas a faixa de encerramento, curioso com seu título Interlagos (Saudade). Estava receoso, o álbum se chama Grand Prix. Nunca tive paixão por Fórmula 1. Então me aproximei com distanciamento sociocultural cuidadoso, mascarado. Mas logo a canção me conquistou, principalmente quando entra a voz de Bambi (que herança, ser filha e neta de gente tão brilhante) no refrão que fala em saudade, usando a palavra da língua portuguesa, e cantando que chora um Oceano Índico. Isso já seria o suficiente para me deixar totalmente satisfeito. Porém, há mais beleza: quase no final da letra surge o verso para São Paulo: “nesta cidade maior e menos suja que minha vida”. Que nossas vidas. Nesta Sampa francesa em quarentena.

The Meters

27/06/2020

Como passei tanto tempo da minha vida sem ouvir The Meters todos os dias? É vitamina pura. Estava planejando escrever sobre essa banda desde que soube da morte de Art Neville, seu tecladista, há quase um ano. Mas só agora consegui escutar todos os oito discos. Não com a atenção planejada. Sempre como trilha sonora para outras atividades pesadas-confinadas. Mas tudo fica leve e livre com essa música vigorosa e alegre (mesmo com tantas evidentes conexões com o blues do Delta do Mississipi). Então deu vontade de recomendar esse remédio, que pode ser útil para muita gente, artigo de primeira necessidade, atividade essencial.

Os dois primeiros discos, lançados em 1969, são instrumentais. Não pode haver banda – de guitarra, baixo, bateria e órgão – melhor. A mais perfeita lição do básico (incluindo toda a sofisticação) do funk, comparável aos mais celebrados momentos dos J.B.’s ou da Africa 70 (que eram quase big bands se comparadas ao minimalismo Meters). Tudo com produção de Allen Toussaint (preciso escrever também um post sobre sua obra aqui, agradecendo todo o bem que ele já me fez), som claríssimo e poderoso, poderia ser gravação de hoje (muita gente, em atitude vintage, tenta copiar aqueles sons de teclado). E como sempre digo: é música para se acabar de dançar sim, mas simultaneamente incentivando o processamento cerebral dos mais complexos conceitos estéticos.

Depois aparecem algumas faixas cantadas no disco Struttin’. A primeira é uma versão soul muito sutil de Wichita Lineman, uma das canções mais bonitas de todos os tempos, com aquela letra aparentemente surreal, mas muito concreta, de trabalhadores trepados em postes consertando cabos de linha telefônica, sozinhos no descampado no meio do nada dos EUA. O que era aéreo na voz de Glen Campbell se reconecta com a Terra sob o tratamento matemático dos Meters. A bateria de Zigaboo Modeliste (que nome incrível, que baterista divino) comenta tudo de forma inesperada.

O quarto álbum, Cabbage Alley, tem início heavy, com riffs que poderiam ser de Jimmy Page. A banda agora também tem percussionistas não oficiais. Há uma faixa chamada Gettin’ Funkier All the Time. Como se fosse possível. E é. Todos os detalhes merecem atenção, como o break de guitarra Shaft, ou os segundos iniciais que soam como ritmo de trás para frente. Depois vem Rejuvenation, disco de Hey Pocky A-Way (onde New Orleans fica totalmente evidente) ou Africa (que para meus ouvidos anuncia a Nação Zumbi). Sua capa sempre torna mais chique qualquer lista responsável de melhores discos da História.

Neste momento, The Meters fica chique mesmo. É a banda que toca na festa de lançamento de Venus and Mars, no transatlântico Queen Mary (época de pico na indústria fonográfica, Paul McCartney podia queimar dinheiro da gravadora). Mick Jagger estava na plateia. Resultado: convidou a turma de Art Neville para abrir as turnês de 1975 e 1976 dos Rolling Stones, não por acaso a época em que o disco Black and Blue estava em acabamento. Mesmo com essa exposição, e lançando o arrasta-pé (tem até um Mardi Gras Mambo, escancaradamente carnavalesco) que é Fire on the Bayou, os Meters não decolam comercialmente ou em popularidade, tanto que até hoje não são conhecidos por multidões. Bem que tentaram, o disco seguinte tinha um popozão na capa e uma primeira faixa que declarava já no título Disco is the Thing Today. Gosto de quem segue moda assim sem vergonha. E anuncia outras modas, como gravando Stop that Train, de Peter Tosh – lançada pelos Wailers (mais uma prova da ponte New Orleans/Jamaica, elemento fundamental para a invenção do reggae), no último album dos Meters. Um disco, com os metais do Tower of Power, chamado New Directions.

Depois tem muita coisa nova. Incluindo a maravilha Neville Brothers.

Mas todo dia é dia para (re)descobrir The Meters. Como se fosse o primeiro dia do mundo.

Cabelo Cobra Coral

20/06/2020

Estava publicando o post anterior, sobre amigos mostrando trabalhos na pandemia, quando chegou mensagem do amigo Cabelo anunciando o lançamento do seu disco Luz com trevas.

Demorou: estava esperando esse disco há muito tempo. Cobrava sempre, quando tinha oportunidade. E chega logo agora, nesta nossa situação desesperada, cada vez mais “do nada para lugar nenhum” (como diz a letra de Je Vous Salue Marie). Aquele velho ensinamento: onde há perigo cresce o que salva. Luz com trevas, com sua descrição do abismo (e tendo o Rio como capital do abismo, percorrido de mototáxi), aponta possibilidades para abrir caminhos, por onde a luz possa escapar.

Porém, como escreve Fred Coelho no release: o pensamento de Cabelo é não binário. Não é luz e trevas. É luz com trevas. Sem separação, sem fronteira clara entre os domínios da claridade e da escuridão. Tudo trans, incapaz por princípio de estabelecer em qual momento termina a celebração e começa a transgressão. É sempre celebração transgressora, rebelião sem trégua, fim pra frente ou pra cima, propondo acelerações com muitos desvios, cada degrau dando em estradas bifurcadas, onde encontramos muitas personagens mutantes (o mototaxista, a abusada, o avô etc.), entidades que, mais que ouvidas, podem ser incorporadas (continuo seguindo Fred Coelho).

Tudo EXUberante. Tanto que começa com um novo ponto para Exu, orixá que abre caminhos, coloca as diferenças em comunicação/confusão, destruindo maniqueismos e soluções simples. Portanto, esse é um disco que foi/é/será uma exposição, que era/é/será “cinema expandido”, e assim por diante, em expansão constante e explosiva – como ovos-bombas.

Na primeira audição, agora neste momento, minha canção preferida é Raio de Amor, funk bem raiz (sim tudo pode virar raiz, a raiz não está no início: fundamentos a gente inventa) que, diante de uma Amazônia em chamas, chama xamã. O disco invoca portanto o encontro de orixás e xamãs, estratégia na qual a cultura brasileira deveria se especializar para se salvar. O orixá baixa para o mundo humano. O xamã sobe para o mundo espiritual. Em algum lugar, no meio do caminho bifurcado, dessa Stairway to Heaven tropical(ista), pode estar a solução.

Enquanto a solução/salvação não chega, e – antes disso – enquanto também não aprendemos que “o novo normal é não haver normal”, melhor seguir as lições de Cabelo Cobra Coral, aproveitando o lançamento deste grande disco: para tirar o mau olhado, para proteger a nossa casa, é preciso mandar brasa, em todos os sentidos e direções, lançando muitos raios de amor por aí.

amigos mostram trabalhos

16/06/2020

Muitos amigos trabalhando, ou inventando novas maneiras de mostrar seus trabalhos para o mundo pós-pandemia. Não dá para ficar parado. Quatro exemplos animadores:

Affonso Uchoa: seu filme Sete Anos em Maio está sendo exibido online via Embaúba Filmes (vale a pena conhecer os outros títulos que estão disponíveis no site dessa valente distribuidora mineira). Forma e conteúdo impressionantes. Obra necessária para quem quiser entender como o crack se tornou parte íntima da tragédia urbana brasileira. Obra necessária para quem quiser pensar o melhor do cinema brasileiro hoje e amanhã.

Josh Krigg (ver também meu comentário sobre Bull Dancing aqui): depois do Lado 2 Stereo, do Skate Aranha, do Zula System etc., Josh se aventura solo (mas tendo como parceiro Andy Newmark, simplesmente o baterista do Sly & the Family Stone em Fresh – segundo Brian Eno o disco pioneiro em colocar a bateria no lugar certo da mixagem – e de muita coisa de John & Yoko). Na música publicada agora na quarentena ele aconselha: Calm down, my brother! A exclamação no título é apropriada, Josh sabe bem do que está falando/cantando: ele também produz calma, no corpo, sendo mestre, via Zoom, de “meditação física”, uma prática que inventou em algum lugar entre Teresina e Amsterdam, entre o Método Feldenkrais e a Psicomagia.

Beto Villares: lançou seu segundo disco, Aqui Deus Andou, no início de março, pouco antes do confinamento. Pena, não deu nem para anunciar direito a boa notícia. O som é ótimo para “desatar o nó”, para não afundar, para não empacar em nossas casas hoje fechadas (“já que o mundo já não é o mesmo”): “sonha com sonhos mais altos”. Com direito a duas faixas instrumentais, Festa Baile e Ôôô (viva Teixeira de Manaus!), além do solo em Minha Lua, que provam que Beto é mestre em guitarradas variadas, um dos grandes guitarristas do Brasil.

Leandro Lehart: seu disco Sincretismo, lançado no meio de abril em pleno confinamento, abre com Sorriso aberto, a solução para a depressão compartilhada por Jovelina Pérola Negra. E segue com seleção magnífica de sambas, quase todos recentes, mas com arranjos percussivos de batuques afrobrasileiros de várias procedências temporais. É a história do samba em deliciosa confusão (urbana, suburbana e rural como queria Paulo Moura, em disco também com capa de Elifas Andreato), de um jeito que só Leandro Lehart é capaz de (re)inventar. Tudo nivelado um alto astral.

Nos tempos de agora, tudo isso é milagre.

passagem do tempo

13/06/2020

Escutar novamente Analog fluids of sonic black holes agora, depois dos protestos contra o racismo no planeta inteiro, é tarefa obrigatória para quem quer entender tudo que está acontecendo. Esse disco de Moor Mother ganha sentido mais profundo e urgente do que aquele que já podia ser percebido na época de seu lançamento, em novembro do ano passado. Muitas de suas poesias poderiam se transformar em cantos das multidões nas passeatas. Sim, eu sei bem: já virou lugar comum dizer que várias coisas ganharam ares de profecia no momento em que estamos vivendo. Mas neste caso, é a mais pura verdade. Mesmo as críticas do disco – ver por exemplo, esta do Pitchfork, esta do Guardian – hoje soam igualmente proféticas.

Nesse caso, não chega a ser exatamente uma surpresa. Rasheedah Phillips, companheira de Camae Ayewa (a Moor Mother – as duas são parceiras também em projetos que conjugam arte e militância, como o Black Quantum Futurism e o Community Futures Lab), há anos defende uma concepção afrofuturista do tempo, contra a linearidade mecânica que desemboca num futuro excludente, impondo a necessidade de invenção de outras noções de progresso. (Recomendo a leitura dos artigos de Rasheedah Phillips publicados no livro We travel the space ways, coletânea que inclui textos, artes plásticas, histórias em quadrinhos, extratos de roteiros cinematográficos e muito mais, gerando um panorama muito diverso do afrofuturismo, com autores/criadores como Kodwo Eshun, Greg Tate ou Jim Chuchu – o título é uma homenagem a Sun Ra – que falta ele faz, ainda bem que tive a sorte de ver um de seus shows, totalmente apoteótico, rodei por todo o universo com sua música prafrentex, suas roupas e refrãos espaciais.)

Ainda sobre Analog fluids of sonic black holes: que incrível terminar com a faixa afro(futurista)brasileira Passing of time, com a poesia dizendo em inglês “minha mãe, minha avó, minha bisavó colheram tanto algodão que salvaram o mundo”, ao mesmo tempo em que Juçara Marçal canta em português “direto ao coração” repetidas vezes. Deu vontade de escutar novamente também o Baião das Princesas, gravação de A Barca (Juçara foi uma das fundadoras), uma das coisas mais bonitas que há no mundo salvo (e salve Pai Euclides!), que sempre me faz chorar de tanta beleza.


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