Archive for the ‘publicidade’ Category

Adbusters

10/12/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 02/12/2011

Na sexta-feira passada, acompanhei com empolgação a luta livre entre o peso pesado Black Friday e o levíssimo (no sentido mais mercurial da leveza – Salve Hermes!) Buy Nothing Day. Ainda vai demorar para sabermos quem foi o vencedor. No sábado, Obama tentou um golpe de terceira via levando as filhas para comprar livros no “Sábado dos Pequenos Negócios” – uma maneira de dizer: “continue consumindo, mas off-grandes-corporações”. O bem calculado pequeno gesto – talvez o único possível para um assustado e inteligentíssimo presidente democrata de Império cambaleante – era na verdade mais uma tentativa de salvar o mundo tal qual o conhecemos. Como pano de fundo para o vale-quase-tudo ideológico, temos a maior crise do capitalismo desde a Black Thursday de 1929 e a resistência viral do movimento Occupy Wall Street, que já é Occupy Tudo.

A sexta-feira negra atual não tem conexão imediata com a quinta-feira da Grande Depressão, nem como “day after”, mesmo tendo sido batizada – diz a lenda – para exorcizar espíritos recessivos: seria o momento em que o comércio sairia do vermelho para ingressar no lucrativo período das festividades natalinas. Não importa tanto o mito de origem: é certamente irônico pensar hoje nesse vínculo não desejado com 1929: a repetição de uma triste história como farsa consumista, que para alguns economistas pode anunciar o esgotamento – por excesso – da tão amada/odiada sociedade de consumo.

Do lado do Buy Nothing Day, taticamente datado para provocar simbólico conflito anticorporativo, é bem mais explícita a conexão com os acampamentos de indignados que ocuparam praças do planeta inteiro. O mundo anda tão bicho solto que até uma pequenina publicação canadense pode se transformar no estopim de grande mudança política. Explico: tanto o Occupy Wall Street quanto o Buy Nothing Day, antes de tomarem as ruas, foram ideias lançadas pela revista Adbusters, que tem sede em Vancouver. Em tradução muito livre, adbusters quer dizer “dinamitadores de publicidade”. Esta tem sido a principal atividade da “fundação de mídia” responsável pela revista, desde 1989: explodir com a lógica publicitária por dentro, lançando campanhas anticonsumistas, subvertendo a mesma linguagem que tenta nos fazer consumir.

Tudo começou com o encontro de Kalle Lasn – um estoniano criado na Alemanha e na Austrália, e que antes de se mudar para o Canadá montou empresa de pesquisa de mercado no Japão – e Bill Schmalz – diretor de fotografia especializado em documentários sobre a natureza “selvagem”. A primeira parceria da dupla foi a produção de cartazes e publicidade de TV para combater a indústria madeireira da região da Colúmbia Britânica. O Buy Nothing Day também teve início com um cartaz, criação do cartunista Ted Dave, colaborador da Adbusters. A revista hoje tem circulação de 120 mil exemplares, e não publica – é claro – nenhum anúncio; na verdade é saturada por páginas que desconstroem anúncios veiculados por outras publicações.

Sempre achei a Adbusters simpática, mas confesso que nunca levei sua linha editorial muito a sério. Considerava tudo meio ingênuo, e algumas vezes pouco inspirado. Mas acabava comprando a revista por causa de um texto ou outro, ou de alguma imagem que beirava uma histeria anti-Warhol. Este ano comprei todos os números, que são bimestrais, por causa das palavras de ordem impressas nas capas. Começou com a “crise terminal do capitalismo”, passou por “pós-império”, “pós-Ocidente” e “pós-anarquismo”, até chegar ao “outono americano”. A edição sobre a política do pós-anarquismo trazia poster na página central, com uma bailarina dançando em cima do touro de Wall Street, acompanhada pela convocação twiteira: “#occupywallstreet / 17 de setembro / traga barraca”. Simples assim.

Pensei até em ficar ligado no dia 17, para acompanhar a ocupação em tempo real. Mas acabei me esquecendo do anúncio, que não colonizou meu subconsciente como manda o manual da propaganda. Deveria ter prestado mais atenção: afinal no número de setembro/outubro de 2010 a Adbusters anunciava “a iminente ruptura no Egito” com palavras bem proféticas: “tenha certeza que um grande terremoto está se aproximando do país mais influente do mundo árabe e os tremores vão reverberar por toda a região”. Ainda sentimos o chão balançar todos os dias nos arredores do Mar Vermelho. A reverberação conseguiria atingir o centro financeiro de Manhattan? Acredito que mesmo os editores da revista – como Micah White, tido como dono da mente onde se originou o meme occupy – estão surpresos com o tamanho que tudo tomou, levando sua publicação periférica para o centro do debate político do país vizinho que antes imaginava o Canadá como inofensiva colônia cultural.

Nos últimos dias, várias pequenas notícias indicam que a “ocupação” – que já foi acusada de não ter demandas claras – pode ter consequências bem concretas e profundas, até decidindo os rumos da próxima eleição presidencial nos EUA. Um deputado, Ted Deutch, acaba de propor uma emenda constitucional chamada de OCCUPIED, tentando proibir dinheiro de grandes corporações no financiamento de campanhas eleitorais. Boa lição: ninguém pode mais subestimar o poder dos símbolos culturais, mesmo os que aparecem nas fronteiras aparentemente mais esquisitas do marketing antimarketing contemporâneo. Esta coluna continuará ocupada pela Adbusters na próxima semana.

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minha (anti)ideologia

09/01/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 22/10/2010

Entre as várias declarações inesquecíveis de Andy Warhol, gosto de citar esta aqui: “Não estou tentando educar as pessoas para verem coisas ou sentirem coisas em minhas pinturas; não há nelas nenhuma forma de educação.” Gosto sobretudo por encarnar uma contradição pessoal: Warhol continua sendo um dos meus mais exigentes educadores, com lições que marcaram profundamente a maneira como vejo o mundo ou como quero que o mundo seja. Foi isso que redescobri com a leitura de “Andy Warhol – o Gênio do Pop” (tradução torta, mas não absurda, para “Pop – the genius of Andy Warhol”), livro imagino que recém-lançado no Brasil, encontrado numa mesa de saldos da Livraria da Travessa.

É uma biografia dos anos mais importantes da carreira de Warhol, praticamente toda a década de 60, da sua entrada para mundo das galerias até o tiro de Valerie Solanas. Foi escrita por dois jornalistas mais ligados ao universo da música, Tony Scherman e David Dalton. Um deles, Dalton, foi fundador da revista Rolling Stone. A crítica do New York Times resume minha desconfiança ao ler essas informações na orelha, e depois o meu alívio ao reconhecer que tinha feito uma boa compra, apesar de impulsiva: “A idéia de dois connoisseurs do rock trabalhando na enésima biografia de Warhol não soa muito sedutora, mas eles de fato escreveram um livro excelente, um trabalho de grande clareza e concisão que dá novo frescor para Warhol (e os críticos de rock).”

Esse frescor não vem apenas de fofocas bem pesquisadas, várias delas reunindo até então muito esparsas informações sobre a vida sexual do biografado, ele mesmo um fofoqueiro convicto (“Uma das coisa que sempre gostei de fazer é ouvir o que as pessoas pensam uma das outras – você aprende tanto sobre a pessoa que fala quanto sobre a pessoa que está sendo esculachada. Isso é chamado fofoca, claro, e é uma das minhas obsessões.”) Mas confesso que não sou o melhor juiz para medir o grau de novidade de mexericos do meio das artes plásticas norte-americanas. Não sabia nem que Robert Rauschenberg namorava com Jasper Johns, formando casal abençoado por John Cage. Vivendo e aprendendo.

Para além dos detalhes apimentados, o que mais me interessou na biografia foi a quantidade exuberante de informações sobre o processo criativo de Warhol, com minúcias sobre a gênese das idéias que estão na base da maior parte dos trabalhos produzidos nessa época, das latas de sopa Campbell’s aos shows com o Velvet Underground. Se, mesmo para o samba, idéia é que nem passarinho (“é de quem pegar primeiro”), no Pop o ambiente incentivava constante criação coletiva, e o esvaziamento glamuroso da noção de autoria. Tudo bem assumido, com humor e densidade filosófica: “Eu nunca fiquei envergonhado ao perguntar para alguém, literalmente, ‘O que devo pintar?’ porque o Pop vem de fora”.

O gesto de Marcel Duchamp, que ainda produziu objetos únicos, entrou para a linha de produção de massa. Fazer mais do mesmo, como uma máquina, ou deixar que os outros cuidem do artesanato de cada obra, virou motivo de orgulho: “Eu fiz 50 telas com Elvis em um único dia!” A mesma coisa dita com outras palavras: “Todo mundo pode fazer o que eu faço.” Tudo fora. Plástico, artificial, não-original. Nada dentro. Ele mesmo dava a fórmula: “Se você quiser saber alguma coisa sobre Andy Warhol, olhe apenas para a superfície de meus quadros e filmes e de mim mesmo – e ali estou. Não há nada atrás disso.” No vazio, pop-zen, e no gosto pelas coisas do mundo (“tudo é bonitinho”) está a salvação. “Se eu vou me sentar e ver a mesma coisa que vi ontem, não quero que ela seja essencialmente a mesma – quero que seja exatamente a mesma. Quanto mais você olha para a mesma exata coisa, mais o sentido vai embora, e você se sente melhor e mais vazio.”

A estratégia de Warhol foi tão inteligente, e tão profissional, que a arte depois da Factory tem que partir de onde ele nos deixou, desamparados e iluminados no grande supermercado da vida, transformada num grande vazio, renovador da possibilidade de crítica. Qualquer ação artística que não leve esse golpe em consideração vira tentativa ingênua e burra de restauração de uma ordem caduca ou simplesmente fascista. Sempre considerei Warhol de esquerda, da melhor esquerda. Como lembra um componente do coletivo russo Chto Delat?: a pergunta da direita é “quem é o culpado?”, a da esquerda é “que fazer?”. O Pop, em seu momento de maior genialidade, era um plano de ação para um mundo sem nenhuma ilusão, sem boba “interioridade”, sem culpados (porque sem Culpa).

Fiquei animado ao reler essas coisas, parte essencial de minha (anti)doutrina, no meio desse tiroteio religioso-eleitoral, sob o qual o Rio vive um momento privilegiado em termos de exposições, com a série Apocalipse de Keith Haring (o melhor discípulo de Warhol junto com o Kraftwerk?) e William Burroughs (Warhol declarou querer viver dentro de uma cena de Naked Lunch) exposta até novembro, em algum lugar do Centro (a Caixa Cultural) entre o buraco na rede de pingue-pongue de Waltércio Caldas, os aviões-árvores de Nuno Ramos, as araras arrancadas da Tropicália de Hélio Oiticica (nunca mais penetraremos na obra completa?), o Islã do CCBB e qualquer mídia dos 2 RochaPittas. Muita coisa para fazer, e fazer novamente, para nos inspirar no dia da votação.

cyber/steampunk

08/01/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 08-10-2010

William Gibson acaba de lançar “Zero history”, o terceiro livro de sua terceira triologia. Parece número cabalístico. Três vezes três dão nove romances de – na falta de rótulo mais abrangente – ficção científica. É tudo que lançou até agora, fora contos, ensaios e colaborações com outros autores. Para quem publica desde o final dos anos 70, não são muitas páginas. Mas formam uma obra e tanto, com influência decisiva no modo como pensamos o mundo hoje, cada vez mais assustadoramente semelhante ao que Gibson cria. Você pode não ter lido nada do que ele escreveu, mas certamente terá convivido – até bem intimamente – com alguma de suas idéias, espalhadas muito além do campo artístico. Por exemplo: o ciberespaço, palavra inventada em seu conto “Burning chrome” (1982), era ambiente central de “Neuromancer” (1984), primeiro livro de sua primeira triologia, e só se transformou em realidade banal planetária no início dos anos 90.

No século XXI, Gibson deixou de lado o futuro e passou a escrever sobre o presente. É bem o nosso presente, não há nenhuma tecnologia que não exista hoje. Mesmo um pingüim biônico flutuante, encarregado de vigilância, já pode ser conhecido até em vídeos no YouTube. Numa de suas declarações mais citadas, Gibson disse: “O futuro já está aqui – só não está equilibradamente distribuído.” Realmente: muitas das coisas já presentes, que serão determinantes em nossos futuros, são apenas tendências embrionárias, que somente gente esperta pode identificar como promissoras. Por isso o personagem mais poderoso da triologia que agora se finaliza com “Zero history” é Hubertus Bigend, dono de uma agência de caça ao cool, às viralidades, aos segredos, daqueles que ainda causam pequenas marolas no underground, mas que estão na iminência de virar tsunamis consumistas ou modo de vida globalizado. Como sugere uma personagem: “Eu era uma espécie de coolhunter também, antes que isso tivesse um nome, mas agora é difícil encontrar quem não o seja.”

Em “Reconhecimento de padrões”, o primeiro volume dessa triologia pós-marqueteira (e o único até agora lançado no Brasil), Bigend quer encontrar os criadores de vídeos que geraram uma espécie de culto na internet. Para revelar o mistério, é contratada Cacey Pollard, que tem alergia radical a etiquetas e marcas, costumando inclusive a pagar ferreiros para retirar letras e desenhos dos botões de seus jeans. No segundo livro, “Spooky country”, uma ex-cantora de banda pós-punk se mete numa trama policial que envolve arte locativa (baseada em coordenadas de GPS) e contrabandos em containers de navios talvez pirateados na Somália. A mesma ex-cantora reaparece em “Zero history”, agora com a missão de revelar quem lança uma marca secreta de jeans, que justamente por ser totalmente anti-fashion – não é vendida em nenhuma loja, não tem etiqueta, não faz desfiles nem publicidade – virou o sonho de consumo de todo fashionista que realmente sabe das “coisas” ou que quer algo verdadeiramente exclusivo e fascinante.

Para saborear bem a escrita de Gibson, é preciso ter algo do espírito coolhuntista, ou ser acometido por um grau mediano de vício de informação. São muitas referências a cada parágrafo. Uns russos de ternos escuros “parecem extras daquele filme de Cronenberg”. Ou: “Ela cuidadosamente manteve a ampliação do retrato de Corbijn fora de seu campo de visão enquanto chegava ao segundo andar do Salon du Vintage.” Detalhes de lugares muito precisos também congestionam a narrativa: como o Caffé Nero, “um Starbucks de realidade-alternativa”, que fica em frente ao Vidal Sassoon, numa esquina dos Seven Dials, em Covent Garden, Londres.

O ainda raro convive com o já comum, diagnosticado com perspicácia: “Uma muito considerável parte da linguagem gestual dos lugares públicos, que antes pertencia aos cigarros, hoje pertence aos telefones.” Então todos os personagens acariciam as telas de seus iPhones o tempo inteiro. O que dá uma sensação engraçada para a leitura. Os iPhones são tão ano passado, não são? Hoje os candidatos a coolhunters usariam android? Mas no intervalo entre a escrita e a publicação do livro o android já estaria ultrapassado, e o presente retratado ganharia inevitavelmente pátina de antiguidade. O livro, de cyberpunk, viraria steampunk.

Ironia: Gibson é um dos maiores responsáveis pela popularização da onda steampunk, tendo publicado o livro “The difference engine” – uma parceria com Bruce Sterling – em 1990. Os enredos steampunks acontecem num passado alternativo, geralmente era vitoriana que já inventara computador a vapor ou tecnologia semelhante. Esse subgênero de literatura tem cada vez mais adeptos, incluindo leitores que frequentam simpósios onde muitos comparecem com fantasias de época e adereços retrofuturistas. Romeu Martins, um dos maiores conhecedores e divulgadores da produção de ficção científica brasileira, tem um bom texto no Overmundo sobre o steampunk nacional, organizado sobretudo em torno do site Conselho Steampunk. Talvez, porque o futuro e o presente já nascem datados, seja mais fácil encontrar horizontes futuristas no passado.

PS: Esta coluna é uma homenagem à editora Aleph, que publica Gibson (e Philip K. Dick, Ursula K. Le Guin etc.) no Brasil, e acaba de lançar “O fim da infância”, de Arthur C. Clarke, em edição inédita no mundo.

consumo

24/12/2010

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo no dia 18/06/2010

Uma publicidade recente de relógio tenta vender seu peixe caro: “Muito mais do que um ícone, Rolex é a referência para aqueles que aceitam somente o melhor.” Convenhamos: para uma marca que deseja nos diferenciar do resto do mundo, esse discurso não poderia ser mais comum: tudo no mercado de luxo quer nos empurrar o “melhor” goela abaixo, impondo a crença de que sua compra é a pulserinha vip que nos torna reconhecíveis também como os melhores, acima do resto dos mortais. Ao ler mais essa ode ao superior, lembrei-me – por contraste – da mensagem que a Muji, cadeia japonesa de lojas que vendem de roupa a comida, publicou em seu site no ano passado: “não criamos produtos que induzem clientes a acreditar que ‘isso é o melhor’ ou ‘preciso ter isso’. Nós gostaríamos que nossos clientes experimentassem a percepção racional que vem não com ‘isso é o melhor’ mas com ‘isso é o suficiente’. O melhor se transforma no suficiente.”

Você pode achar que dá no mesmo. As duas posturas têm um objetivo central: querem nos vender alguma coisa. Mas me interessa a mudança de estilo do vendedor (ou talvez eu fique comovido com a limpeza ideológica-mercadológica, quase ou pseudo-zen, promovida pela Muji). O melhor pressupõe a comparação, a hierarquia, a raridade. O melhor é para poucos, para quem “tá podendo”. Quem não pode fica com aquilo que é pior, pelo menos comparativamente diante do melhor. Resultado: o melhor se alimenta da insatisfação (pois há sempre algo melhor ainda, nem que seja o Rolex do ano que vem) e – no limite – da humilhação da maioria que ficou com o pior. Por sua vez, o suficiente é mais igualitário, produto do contentamento. Claro que pode haver algo melhor que aquilo que é suficiente, mas a que custo? O que vinha acontecendo até agora era a democratização do luxo, com cada vez mais gente comprando ou desejando comprar uma bolsona Birkin da Hermès, TVs de infinitas polegadas ou supérfluos de maior preço. A Louis Vuitton estava já ficando com cara de Americanas Express. Algo era estranho naquela festa: como sustentar tal padrão de ostentação para as massas? Gaia, senhora vaidosa, parecia estar vivendo sob o efeito da cocaína, ou do Prozac – Dona Redonda pronta para explodir de tanto consumir. Era muito bom-gosto-platinum para uma multidão de gente ex-comum. Afinal, como disse Joãozinho Trinta, pobre gosta de luxo…

Deu no que deu, não por culpa dos ex-ou-novos-pobres (pobres-Prada ou pobres-plasma, dependendo do poder aquisitivo): a maior crise econômica desde de 29, bancos ex-eternos falindo da noite para o dia, a Grécia afundando com o Euro da Gisele Bündchen, crédito fácil e hedge funds evaporando. Não gosto do discurso moralista que parecia nos colocar de castigo: “vocês ultrapassaram os limites, pensaram que a vida era fácil, agora aprendam com a penúria.” Porém, sinto que os tempos críticos acabaram criando um outro tipo de nivelamento ou vulgarização: acordamos de ressaca percebendo que um sapato Gucci, um jatinho particular e um hotel boutique podem ser tão sem-noção, tão cafonas, ou bregas, como uma tarde de compras num outlet de Orlando. E que há outras maneiras, mais chiques, éticas e confortáveis, para se conquistar o desenvolvimento pessoal ou econômico.

Entre os livros que tentaram nos explicar o que aconteceu, para mim o mais interessante é Tempos de Crises, do filósofo Michel Serres. Várias de suas lições são semânticas, começando por nos lembrar que a palavra crise vem do verbo grego que significava julgar. Então é uma boa oportunidade para vários tipos de julgamento, sobre várias de nossas decisões, não só sobre as políticas monetárias do Banco Central. Decretando que a hierarquia, sempre baseada no segredo, é um roubo, e a democracia vive da divulgação dos segredos, o livro também chama nossa atenção para a origem de “dados” no particípio de “dar”: um banco de dados democrático não teria cofres seguros por senhas criptografadas, conhecidas apenas por uma minoria, mas seria local de partilha geral. Por fim, Serres diz que a hierarquia está para o hardware assim como a democracia está para o software. E software significa macio: o doce no lugar do duro.

Ultimamente, outro jogo semântico é cada vez mais perceptível: soft quase se confunde com slow. O slow é a grande tendência: slow food, slow design, slow-qualquer-coisa. Quase sempre, vagaroso é equivalente a eco, sustentável, orgânico. A associação Slow Food Brasil realiza o festival Terra Madre, descrito como encontro de ecogastronomia, conjugando prazer de comer com consciência e responsalidade. O site de Alastair Fuad-Luke, nome premiado do slow design, tem como lema “serviços de co-design para transição sustentável”. Co-design é design compartilhado, criação coletiva.

Tudo profundo, soft-sério, talvez demais. Hoje tenho um pouco de medo de ir ao supermercado, que ganhou ares de hospital: contém isso, não contém aquilo, cada embalagem parece ameaça. Mas outro dia comprei um sapato, todo natural e reciclável, que trazia um certificado “medindo as ecocredenciais” daquele produto individual (quanto tinha “impactado” o meio-ambiente etc.) Fiquei meio assustado: eis o mundo do suficiente. Confesso que vou sentir um pouco de saudade, não do “melhor”, mas de uma leve inconsciência ou futilidade que o acompanhava… Tudo bem, não podemos ter tudo na vida.

nova cibercultura infantil

24/12/2010

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 11/06/2010

 

Há um mês, nunca tinha ouvido falar de Greyson Chance. Eu, a torcida do Flamengo, o planeta inteiro. Tudo bem: sua família e o pessoal da escola, na cidade de Edmond, Oklahoma, já deviam ter notado seu talento. Hoje, tudo mudou. Se você passou as últimas semanas praticando ecoterrorismo no planeta Pandora, talvez não saiba do que falo. Vou resumir. No dia 28 de abril foi publicado um vídeo no YouTube documentando a apresentação de Greyson, 12 anos, sexto ano, tocando piano e cantando Paparazzi da Lady Gaga em show do colégio. O vídeo é precário, mas o som é suspeitamente bom – dá para ouvir que o garoto canta bem. No dia 11 de maio, quando Ellen DeGeneris, apresentadora de TV, viu o vídeo (seguindo, diz a lenda, recomendação de email enviado para sua produção pelo irmão de Greyson), sua performance ainda era modesta: cerca de 10 mil pageviews. 24 horas depois, o menino já tinha feito sua primeira viagem de avião e gravava entrevista para o Ellen Show, interrompida por telefonema da própria Lady Gaga, super-afetuosa, mesmo diante de uso não-autorizado de sua música. Daí para frente a reação-celebridade-instantânea foi explosiva: atualmente são mais de 30 milhões de pageviews só no YouTube – e outros vídeos, com composições próprias, vão pelo mesmo caminho. Depois de boatos de um contrato com a Interscope (gravadora de Lady Gaga), Ellen DeGeneris anunciou a criação de seu próprio selo fonográfico que terá como primeiro lançamento o disco de Greyson Chance.

 

Chance. Gosto desse sobrenome. Sou fã de um outro cantor, bem menos fofo, chamado James Chance, que gravou, entre outras pérolas, a sintomática I Don’t Want to Be Happy. Chance significa acaso. Mas o que há realmente de acaso na história de Greyson Chance? Isso importa? Ainda sabemos distinguir o espontâneo do fabricado, a autenticidade da manipulação? A distinção tem alguma utilidade? Mesmo se tudo fosse espontaneamente autêntico, não poderíamos, sem simplificação brutal ou ingenuidade, entender esse sucesso como comprovação da vitória das novas mídias contra a coitadinha da mídia tradicional. Para começar: a ascensão está baseada num cover de Lady Gaga, ela fenômeno de massas que é resultado de uma campanha de marketing violentíssima produzida pela velha indústria. No ano passado, eu moderei o blog do Vem Com Tudo, quadro do Fantástico – comandado por Regina Casé – que parodiava a tendência dos caçadores de tendências, e era bombardeado por comentários irritantes de supostos fãs da Lady Gaga, que pareciam todos pagos para ser fãs (mas que acabaram produzindo fãs verdadeiros…) O vídeo de Greyson Chance estava no YouTube, mas foi só depois de aparecer na TV, ultimamente sempre diagnosticada como “sem salvação” (justamente por causa do YouTube), que virou fenômeno viral. E assim por diante, revelando uma tabelinha caprichada – talvez por acaso – entre o centralizado e o descentralizado, o broadcast e o de-muitos-para-muitos.

 

Acho que gosto também de Greyson Chance. Ele precisa controlar um tique nervoso que o faz balançar o cabelo pós-emo de forma sutil mas levemente inquietante. Precisa também ser menos natural em suas aparições públicas. Fico desconfiado de gente de 12 anos que se sente tão em casa dando entrevista em auditório de TV, como se tivesse estudado para isso com um batalhão de assessores de políticos. A maioria dos pré-adolescentes que conheço só tem dois vocábulos: parada e caraca. Greyson não: Lady Gaga “é uma grande inspiração pois amo sua individualidade e a maneira com que ela atrela isso ao seu talento.” Wow! Parece que ele estava se preparando para ser a capa da Caras por toda a vida. Mas tem gente que é naturalmente assim. Como o Justin Bieber

 

Justamente: Greyson tem sido chamado do novo Justin Bieber. A comparação me encantou: era a web se referindo à própria web, o mundo novo ancorado na sua novidade, sem precisar do tal mundo real. Claro: a comparação poderia ser feita com personagens mais, na falta de palavra melhor, concretas. Greyson seria o novo irmão dos Jonas, a nova Miley Cirus, o novo aluno da escola de High School Musical, de Glee ou da turma de Isa TKM. Estaria sempre em milionária companhia: se tem alguma coisa que a mídia centralizada/tradicional/velha ainda faz muito bem é produzir esses fenômenos de consumo quase infantis, totalmente multimidias. Compre o DVD, o álbum de figurinhas, a roupa, a pasta de dente, o biscoito, a boneca etc. etc. – e pense que sua vida depende disso, desse comprar desvairado, dessa necessidade padronizada, dessa emoção tão nanofabricada.

 

Não acreditava tanto na potência poética desses produtos até que fui obrigado a levar minhas sobrinhas ao show de despedida do Rebelde. De repente me vi no meio de um mar de meninas que choravam sem parar, totalmente desamparadas, perdidas, sozinhas no mundo, como se estivessem num funeral, como se aquela fosse uma escola de educação sentimental, no curso “como lidar com a Perda”. Fui tomado por uma tristeza absoluta, metafísica, a mesma que despedaçou meu coração quando vi Tristão e Isolda pela primeira vez. Só que a ópera não estava no palco, e sim na platéia. Que importa se o ponto de partida daquela emoção coletiva tão fulminante é a rapa-de-tacho de uma aventura comercialesca mexicana? Poucas vezes na vida presenciei algo tão intenso. Essa criançada pós-virtual e esses marqueteiros estão brincando com fogo, fogo muito provavelmente sagrado.

 


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