Archive for the ‘religião’ Category

perto da China

10/03/2018

Nosso zeitgeist é cada vez mais chinês. (Não sei ainda quais palavras ou conceitos ou ideogramas chineses traduzem zeitgeist, mas certamente – do jeito que as coisas andam – saberei em breve.) Vamos precisar cada vez mais de guias para entender a China. No Brasil, recentemente, ganhamos algumas ferramentas preciosas para nos orientar (se oriente rapaz) nessa tarefa urgente. Primeiro temos o livro “Ideogramas e cultura chinesa”, de Tai Hsuan-An (pintor naturalizado brasileiro – também estudioso de sementes do cerrado!), que ganhou nova edição no ano passado. Gosto até do título dos capítulos. Por exemplo: “Todos os atos das mãos: da amizade ao conflito e da confusão à ordem”. É um bom início para depois mergulhar nas novas traduções, diretamente do chinês, de “Os Analectos” de Confúcio e de “Dao De Jing” de Laozi. Dois tesouros, que devem ser saudados entre os principais acontecimentos editoriais no Brasil neste século, trabalho de anos do tradutor e diplomata Giorgio Sinedino. Não apenas no Brasil: muitas das citações contidas nas abundantes e interessantíssimas notas que comentam trechos do “Dao De Jing” são traduzidas pela primeira vez do chinês para qualquer outra língua.

Tem gente que pode pensar que esses clássicos não têm mais nada a ver com a China atual, pós-Mao. Porém, vários sinais mostram que esse julgamento é talvez precipitado. Entre outros: a organização encarregada da difusão da língua e do soft power chineses pelo mundo afora foi batizada em 2004 de Instituto Confúcio. Um pouco antes, mas já assinalando uma nova relação do Partido Comunista Chinês com essas tradições milenares, temos (e isso descobri na Nota 1 do Capítulo 7 do nosso novo “Dao De Jing” em português) Deng Xiaoping usando o ditado ou o “conselho” (totalmente contra ostentação)  taoísta “embainhe seu brilho e cultive-se na escuridão” como diretriz de suas reformas econômicas (e também de sua conduta pessoal) que inventaram essa nova potência global. Talvez isso confirme uma intuição/sugestão um tanto polêmica de Giorgio Sinedino na introdução de sua tradução de “Os Analectos”: “Na China não houve uma quebra tão radical entre tradição e modernidade como na Europa. Há razões para acreditar que a fragmentação e as convoluções ao final da dinastia Qing (1644-1911) seguem padrões de mudanças encontrados no passado. Na China, a transição entre dinastias sempre terminava com o retorno aos valores e à identidade chineses, ‘tais como sempre foram’.”

Um aviso: que ninguém se assuste com o peso de cada um desses livros. Copiemos os chineses, em sua prática milenar de leitura. Não é necessário ler tudo do início ao fim, em ordem linear. Como Giorgio Sinedino também ensina: “o texto não possui unidade rígida, pois normalmente não é essa a forma como as obras antigas na China, especialmente os Clássicos, eram pensadas. Os chineses as leem ‘aleatoriamente’. Muitas vezes a leitura é menos voltada a um entendimento sistemático do que à busca de frases que despertem a intuição individual, algo muito peculiar à cultura chinesa.”

Escolho, ao acaso, duas frases então, uma de Confúcio, outra de Laozi:

“Há quatro coisas que o Mestre não faz de forma alguma: não é arbitrário, não é categórico, não é obstinado, não é egoísta.” (Os Analectos, 9.4)

“‘Eu, o único estólido. Repentino, oh, como a maré. Flutuando [pelo vazio], sem [saber] onde pousar.” (Dao De Jing, Segundo Rolo, Capítulo 20)

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Escrevi este post escutando Dai Xiaolian tocando qin. Difícil existir som que eu goste mais. Difícil também encontrar outras boas gravações de qin facilmente disponíveis online ou offline. Recomendo igualmente este disco de Lin Youren.

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PS: fico esperando a tradução de Giorgio Sinedino para o I Ching.

 

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Inquisição

21/02/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 20/02/2015

Na coluna da semana passada escrevi uma única frase (incluindo parêntese tipicamente desajeitado) sobre o carnaval de Goa. Muito pouco para matar as saudades daquela beira de mar do Oceano Índico. Poucos lugares no mundo são tão belos. Parece Olinda, combinando o barroco com coqueiros. Mas tem também o colorido dos templos hindus. E as guirlandas enfeitando os cruzeiros que identificam as casas católicas. Há uma combinação cultural explosiva, luso-tropicalista-lisérgica, em todos os cantos. Não foi por acaso que os hippies escolheram Goa como um de seus destinos mochileiros favoritos. E depois que ali tenha surgido uma cena rave conhecida como “Goa trance”. A paisagem, tanto física quanto humana, sugere novos desenvolvimentos para tecnologias do êxtase, acústicas ou eletrônicas, naturais ou sintéticas.

Tudo sobre aquele lugar me interessa. Por isso não resisti quando vi exemplar de “A Inquisição de Goa” na prateleira de lançamentos de uma livraria. Terminei a leitura – incluindo vários anexos, estudo e notas – em poucas horas. Sim, Portugal levou o carnaval para suas colônias (e Goa era território português até 1961, quando foi invadida pelo exército indiano). Mas junto impôs também a Inquisição. Mudando a letra de “A novidade”, mas mantendo sua descrição profunda da tragédia humana: ó mundo tão desigual, de um lado esse carnaval, do outro o auto da fé, com os condenados – suas roupas pareciam fantasias macabras – sendo queimados em fogueiras, dor balançando o chão da praça, tendo multidões (incluindo a família real, quando acontecia no Terreiro do Paço em Lisboa) como testemunhas.

“A Inquisição de Goa” foi escrita pelo médico francês Charles Dellon. Sua primeira publicação fez sucesso em 1687. Em português teve apenas quatro edições em mais de três séculos, e só agora chega ao Brasil através do bom trabalho da Phoebus (aproveito para comemorar o aparecimento de muitas pequenas editoras por aqui, com lançamentos bem peculiares e corajosos). De certa forma fomos ingratos com Dellon este tempo todo, pois ele dedicou quatro dos 48 capítulos de sua obra para descrever a vida em Salvador, Bahia, cidade onde parou em sua volta da Índia rumo a Portugal, onde cumpriria cinco anos de trabalho forçado nas galeras de Lisboa.

A leitura certamente adquire maior densidade em tempos de intolerância religiosa. Já foi importante no século XVIII, influenciando a turma que inventou o Iluminismo, incentivando o combate pelo fim dos tempos inquisitoriais. Dellon descreve minuciosamente o processo bárbaro e absurdo ao qual foi submetido. Não houve tortura física (apesar de ter ouvido gritos em celas vizinhas). Seu suplício foi psicológico, executado com refinamento de sempre extrema crueldade, por meses a fio. Não importava que as prisões da Inquisição fossem mais limpas do que as pocilgas onde dormiu com prisioneiros comuns, ou que a comida (almoço às 6 horas, jantar às 10 e ceia às 16) tivesse qualidade razoável. O desespero era avassalador por ser exigida, com uma frequência aparentemente sem lógica, uma confissão de heresias que não foram cometidas, incluindo a delação de amigos e familiares que também não eram hereges. Quem não confessava seus “crimes” era queimado vivo. Resultado: uma eficiente máquina de vigilância permanente da vida privada de todas as pessoas, onde a mentira e a traição tornavam-se necessidades vitais.

Dellon narra suas duas tentativas de suicídio. Um dos capítulos mais impressionantes é aquele no qual conta sua tentativa de adestrar ratos para ter companhia. Ou suas suposições para os motivos da prisão: “as frequentes mais inocentes visitas que eu fazia a uma senhora” amada pelo governador de Damão e pelo notário do Santo Ofício da mesma cidade. Os motivos oficialmente, mas obscuramente, alegados foram suas opiniões sobre “os efeitos do batismo” ou a necessidade de cobrir crucifixos ao receber mulheres em seu quarto. Por isso, mas sem ninguém nunca ter lhe dado a explicação completa, passou anos preso e por pouco não foi para a fogueira.

O interesse da narrativa não vem apenas dos detalhes sobre o cotidiano da Inquisição, mas também da coleção de informações preciosas acerca do nascimento da nossa globalização laica. Dellon já exercia a medicina antes de completar 20 anos e com essa idade sai da França e vai trabalhar na Índia. Os relatos sobre as viagens oceânicas, sobre a vida nas cidades de vários continentes revelam um cosmopolitismo surpreendente. Na ida de Salvador para Lisboa: “a bordo portugueses, franceses, ingleses, holandeses, indianos, cafres e mais de trinta mulheres chinesas”. Na Bahia viu formigas, bichos do pé e libertinagem. Acho que ninguém falava ainda de carnaval.

valores russos

25/10/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 24/10/2014

 

Quando tudo está confuso, e as pessoas ao redor parecem vítimas de crise histérica, muitas vezes vale a pena observar uma situação onde a confusão parece maior. Nossos miolos recebem tratamento de choque de atrapalhação e talvez daí possa surgir alguma lucidez, ou apenas momento de distração. Tenho pensado muito na Rússia ultimamente. Talvez influenciado por visitas às livrarias onde sempre encontro, entre os lançamentos, títulos como “Antologia do pensamento crítico russo” (Editora 34), organizado por Bruno Barreto Gomide, ou “Lições de literatura russa” (Três Estrelas), de Vladimir Nabokov, lembrando-nos que os russos, como os brasileiros, também sofrem com debates intermináveis sobre a identidade de seus “grotões”. As leituras mais “abstratas” são acompanhadas por outras bem mais “práticas”, em jornais que, desde a “reintegração” da Crimeia, e agora com o impasse ucraniano, assustam um Ocidente que pensava ter vencido o Kremlin com a queda do Muro de Berlim.

Salvo engano, o nome Vladimir Putin só apareceu nesta coluna uma vez, quando fiz comentários sobre o filme “Fausto”, de Sokurov. Citei declaração do produtor Andrey Sigle revelando como o apoio de Putin foi fundamental para o filme ser financiado com oito milhões de euros. Era 2008, final do seu segundo mandato como presidente, logo assumindo cargo de primeiro ministro. Tempos bem diferentes dos atuais. O desenvolvimento econômico criou uma enorme classe média que se imaginava cosmopolita, tanto em termos de ideias quanto de consumo, e podia conduzir suas vidas privadas sem controle rígido de patrulhas ideológicas.

O apoio de Putin para um filme de vanguarda, falado em alemão, que ganhou o Leão de Ouro em Veneza, mostrava uma abertura maior para o culturalmente arriscado, com o objetivo explícito de aproximação com a Europa. As palavras de Sigle: “O filme é um grande projeto cultural russo e para Putin isso é muito importante. Ele o vê como um filme que pode introduzir a mentalidade russa na cultura europeia; promover a integração entre as culturas russa e europeia. A Rússia não é apenas uma potência militar ou uma potência do petróleo e do gás, ela tem uma enorme herança cultural e o filme pode ajudar o povo europeu a enxergar melhor o rosto da Rússia.”

Esse projeto tinha raízes pessoais mais antigas. Putin passou cinco anos como agente da KGB na Alemanha do Leste. Voltou para a então Leningrado no momento em que a Alemanha reunida virava membro da Otan, fato encarado como uma vitória do Ocidente. Em entrevista dez anos depois, ele deixou transparecer a amargura ao lembrar de como “a União Soviética perdeu sua posição na Europa.” Nos seus dois primeiros mandatos como presidente parecia, como mostrou com “Fausto”, batalhar pela reconexão. Porém, a geopolítica planetária e a conjuntura interna russa mudaram muito desde 2008.

Crise econômica mundial. A Otan namorando com a Ucrânia (quase considerando a Rússia como periferia sem importância). As sanções econômicas da Europa e dos Estados Unidos contra empresas de amigos do Kremlin. A classe média nas ruas e a Pussy Riot na igreja contra sua decisão de concorrer por um terceiro mandato para a presidência (em 2012). Putin deve ter se sentido traído, humilhado. Sua reação tem sido se aproximar de movimentos ideológicos que tentam reconstruir os ideais de uma “Rússia Profunda” independente do Ocidente, muito ligados a um lado mais místico (e ao mesmo tempo pragmático) da Igreja Ortodoxa, que vive novo esplendor depois do fim do regime comunista (Putin foi batizado escondido, pois sua mãe era devota clandestina). Tanto que as integrantes do Pussy Riot cantaram que o patriarca ortodoxo “acredita em Putin e não em Deus” – e por isso foram presas por “vandalismo em grupo organizado animado por ódio religioso.”

David Remnick, em artigo na New Yorker sobre o “Putin imperial” (mas que trata até mais das improvisações da diplomacia dos EUA), fala de rumores que apontam Tikhon Shevkunov, sacerdote do mosteiro Sretensky (localizado quase ao lado do quartel-general da KGB), como conselheiro espiritual do presidente. Shevkunov apresentou e produziu um docudrama para a TV estatal chamado “A destruição de um império: a lição de Bizâncio”. O Ocidente, e não os turcos otomanos, foi responsável pela queda de Constantinopla em 1453. O Ocidente continuaria a ser o grande inimigo dos “valores tradicionais russos”.

Como cantou Cazuza ou escreveu Hobsbawn, nossos amores e nossas tradições “a gente inventa”. E reinventa o tempo todo. Por isso é bom ler, daqui do Brasil, Tolstoi (sobre crianças camponesas) ou Nabokov (sobre os filisteus), para buscar no perigo dos outros nossa salvação.

Abul Abaz

21/06/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 20/06/2014

Ontem foi dia de Corpus Christi. Em Pirenópolis, Goiás, essa data marca o início da Cavalhadinha, uma versão infantil – para menores de doze anos – da Cavalhada realizada durante as homenagens ao Divino Espírito Santo, duas semanas atrás. Como em muitas de nossas festas populares, as crianças fazem “mash-up” de elementos brincantes com procedências diferentes. Já escrevi que muitos mestres de brincadeiras brasileiras atuam com DJs misturando ousadamente várias tradições, inventando outros futuros para a vontade geral de festejar. A Cavalhadinha reúne “Imperador do Divino, Reis e Rainhas do Reinado de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, Pastorinhas, Congo e Contradança, catira feminina, Cavaleiros e Mascarados com seus cavalinhos de pau.”

De forma vigorosa, Pirenópolis realiza aquilo que Agostinho da Silva identificava como meta do “povo português”: “que a criança deve ser proclamada imperador do mundo, que é ela que tem que mandar no mundo e que é na medida em que manda que o mundo pode realmente melhorar.” Assim, todos podemos experimentar, na hora da festa, uma prévia da Idade do Espírito Santo: “do imprevisível, isto é, do gênio criador, plenamente solto de qualquer espécie de limitação.” O Divino “voa aonde quer”.

Interessante é ver essa vontade de “eliminar limitações” conectada, no cerrado brasileiro, com a reencenação de torneios medievais que, por sua vez, reencenavam descrições poéticas de batalhas entre cristãos e muçulmanos (ou mouros). Uma das fontes principais para essa memória popular foram “canções de gestas”, principalmente aquelas sobre as aventuras do imperador Carlos Magno e seus “Doze Pares da França”, a partir da emboscada em Roncesvales (na verdade, o ataque surpresa foi feito por bascos, mas a imaginação de trovadores preferiu editar a História para culpar o Islã).

Estamos em 2014, época de muitas lembranças bélicas. Além do centenário da Primeira Guerra Mundial e dos 70 anos do Dia D, talvez fosse importante guardar um tempo para recordar também os 1.200 anos da morte de Carlos Magno, provavelmente um dos criadores da ideia de Europa como civilização cristã e “ocidental”. Sua importância não pode ser menosprezada. O historiador Jacques Le Goff, que morreu este ano (tenho que escrever coluna em sua homenagem), afirma – em “A Idade Média e o dinheiro”, leitura excelente para momento de Piketty-celebridade – que Carlos Magno, em seu império, criou “um cenário muito mais bem ordenado quanto à moeda”, acabando com a descentralização da cunhagem por moedeiros, criando as bases primitivas para surgimento do capitalismo muitos séculos depois.

Mas não é sobre dinheiro que quero falar aqui. Não sei como veio parar nas minhas mãos o livro “Tornando-se Carlos Magno”, de Jeff Sypeck (professor de literatura medieval na Universidade de Maryland). São poucos os documentos históricos com informações sobre esse momento conturbado. Sypeck romanceia a partir dos dados disponíveis, mesmo tentando ir além da atmosfera carregada por mitos. Encontramos cenário bem mais complexo que aquele das cavalhadas, com divisão clara entre cristãos e mouros. As relações entre Aachen, pequena vila que se transformou em capital imperial, com os papas de Roma eram intricada rede de intrigas. No Oriente, havia Irene, comandado outro império, o bizantino, e se defendendo dos ataques de Bagdá, onde reinava o califa Harun al-Rashid. No extremo ocidental, na Península Ibérica, o Califado Omíada, expulso de Damasco para Córdoba pelos antecessores de Harun. Para lidar com tantas diferenças, Carlos Magno, além de guerreiro, foi hábil diplomata.

E que diplomacia. O trecho que mais me surpreendeu no livro trata da embaixada que Carlos Magno, procurando aliados contra Constantinopla e Córdoba, mandou para Bagdá. Dos três emissários, o único que retornou, cinco anos depois, foi um judeu chamado Isaac. Sim, um judeu, com missão de negociar com governo que controlava Jerusalém. Seus companheiros de viagem, Lantfrid e Sigimund, morreram no caminho. Porém, Isaac não voltou sozinho. Estava acompanhado por Abul Abaz, um elefante. Sua chegada em Aachen tem data precisa: 20 de julho de 802. Portanto, desconfio que não seja pura invenção de cronista maluco.

O elefante era presente do califa Harun para Carlos Magno. Causou espanto onde passava, não era um animal comum mesmo no norte da África. Imagine num barco cruzando o Mediterrâneo até aportar em Gênova, e depois atravessando paisagens alpinas. Abul Abaz, era esse o nome do elefante, virou meu herói, ponte gordinha contra o “clash” das civilizações. Deveria virar personagem da Cavalhadinha de Pirenópolis, entre os mascarados coloridos. Afinal, tradição é para ser renovada. Sempre.

Dorival Caymmi e a medicina da alma

07/06/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06/06/2014

Ainda é tempo de celebrar o centenário de Dorival Caymmi. Gilberto Gil, na canção “Buda nagô”, afirma que Dorival é, entre muitas outras coisas, índio. Então faço um remix Gil & Jorge. Pego “todo dia era dia de índio” e decreto: “todo dia é dia de Dorival”. Deveríamos acordar sempre, todo dia, não só em 2014, cantando Dorival.

Participei de entrevista com Dorival quando ele fez 80 anos. Havia redes no cenário. Chegando ao local da gravação, Dorival comentou, incomodado: “sempre pensam que vivo deitado numa rede.” Não vivia: ele passou grande parte de sua vida como cidadão de apartamento de Copacabana. Contradição? Só na cabeça de quem o imaginava isolado em aldeia de pescadores sem contato com a modernidade. Volto a “Buda nagô”: “Dorival é impar / Dorival é par”.

Por um período, eu passava frequentemente na calçada de seu prédio de Copacabana. Era muito bom encontrá-lo na janela, olhando o movimento da rua cosmopolita, com a atitude de quem estava numa pacata cidade do interior. Aquela visão iluminava meu dia. Fazia questão de cumprimentá-lo (“oi Dorival”), como se Copacabana fosse Itapuã, nos anos 1940. Tudo para ver, com os olhos bem abertos, a Copacabana do presente. O título do livro de Antonio Risério sobre Dorival é “Caymmi: uma utopia de lugar”. Encontrar Dorival na janela tinha o efeito de medicina para minha alma: transformava Copacabana, com sua beleza e seu caos, em utopia imediata.

Dorival é grego, é romano. Suas canções podem ser ouvidas como máximas de Epicuro, como cartas de Sêneca. Nada disso é garantia de felicidade geral, eu sei. E reaprendi essa lição trágica em cada página de “Medicina da alma – artes do viver e discursos terapêuticos”, livro precioso do filósofo (e também iniciado nos mistérios do samba) Paulo Henrique Fernandes Silveira. Pré-socráticos, platônicos, epicuristas, estóicos, céticos, cínicos: aquele momento do pensamento humano foi pródigo em experimentações com “pharmakon” (veneno/remédio) de todas as espécies. Paulo Henrique mostra como filósofos tentam ocupar o lugar do “therapeutés” (palavra que significa “aquele que trata ou cuida de outrem, mas também aquele que cultua os deuses”). Adianto logo a conclusão: “Independente das divergências entre as várias escolas, certos princípios norteiam as ‘therapeíai’ de que tratamos aqui. Talvez o mais importante seja a busca da autossuficiência (‘autárkeia’).” Dorival sereno na janela de Copacabana era a imagem mais justa dessa autossuficiência, como uma antena transmitindo tranquilidade para o mundo.

Na entrevista dos 80 anos, ao escutar a pergunta “quando fica triste, o que faz para recuperar a alegria?” ele respondeu “eu nunca fico triste”. Insistimos: “mas quando a tristeza vem lá longe?” Bem melhor que Prozac (será que algum psiquiatra ainda receita Prozac? saiu de moda?): “tomo água”. E começou a elogiar o azul do plástico das garrafas de água mineral, e depois o azul do papel que antigamente embrulhava as maçãs nas barracas das feiras livres. Não era um devaneio tolo. Havia bom humor budista ali, de contato radical com a realidade.

Exercício para guerreiro de Chögyam Trungpa: “Para começar, temos de olhar a realidade doméstica: as facas, os garfos, os pratos, o telefone, a lavadora, as toalhas – as coisas triviais. Nelas não há nada de místico ou de extraordinário, mas, sem um vínculo com as situações triviais, cotidianas, sem examinarmos a vida diária, nunca encontraremos nenhum senso de humor, nenhuma dignidade ou, em última instância, nenhuma realidade.” Porém, isso tem mais a ver com trecho de carta de Sêneca, que trata da futilidade de planejar o futuro: “Como fugiremos dessa inquietação? De um único modo: não deixando a vida depender do futuro, reconduzindo-a sobre ela mesma. […] Como a inconstância e as mudanças do acaso poderiam perturbar aquele que permanece estável na instabilidade?”

Permanecer estável na instabilidade. Ímpar/par. Lição da medicina da alma greco-romana. Lição de Dorival Caymmi, um dos melhores brasileiros de todos os tempos (incluindo os vindouros), cantando suas canções perfeitas, bebendo água azul, na janela de seu apartamento de Copacabana, dando outro rumo para a agitação da realidade.

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Ilan Waisberg, artista plástico que também faz trabalhos de cibermarcenaria (lembram canções de Dorival?), ao ler minha coluna (sobre o erro) da semana passada, gentilmente me mandou a seguinte citação de seu grande mestre Montaigne (Dorival francês?): “Sinto-me muito mais orgulhoso da vitória que obtenho sobre mim quando, no ardor mesmo do combate, deixo-me curvar sob a força do argumento de meu adversário do que me sinto gratificado pela vitória que obtenho sobre ele devido a sua fraqueza.” Palavras do lado bom da força.


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