Archive for the ‘revistas’ Category

1995

11/04/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 10/04/2014

A internet comercial brasileira está completando duas décadas. Até 1995, nossa conexão com a rede mundial de computadores só era possível a partir de universidade, de órgãos governamentais e do Ibase, com seu pioneiro Alternex. No início daquele ano, ninguém ainda conseguiria prever qual o modelo de acesso que seria adotado no Brasil. A Embratel chegou a pretender ser provedor único. Seus planos monopolistas não deram certo, numa virada surpreendente, que ainda não foi bem investigada. Aliás, precisamos de uma boa história das cibercomunicações nacionais. Anoto aqui informações pitorescas para ajudar quem se dispor a realizar essa tarefa.

Em novembro de 1994, o caderno de informática do Jornal do Brasil publicou a lista de “todos os WWWs brasileiros”. Eram apenas 28 endereços, 26 de universidades mais o do Ibase e o da Caixa Econômica Federal. A matéria era didática, mas incompreensível para o leitor comum: “Com os WWWs, o usuário pode ‘visitar’ museus, instituições de pesquisa, a Casa Branca ou até assistir ao show dos Rolling Stones. A forma de apresentação do Web são as páginas.” Já em outubro de 1995, uma matéria d’O Globo tinha como manchete “Garanta seu espaço na Net” e trazia a lista dos 14 provedores de acesso cariocas e paulistas, quase todos BBSs que passaram a permitir conexões com a internet. Meses antes, Tadao Takahashi – então coordenador da Rede Nacional de Pesquisas (RNP), órgão que construiu a espinha dorsal da rede brasileira – anunciava que em 1997 esses provedores teriam 150 mil usuários.

Eram cálculos modestos. Computadores não eram itens de consumo exatamente populares. Modems faziam menos sucesso ainda. Conheci Tadao nessa época, quando a RNP tinha escritório no IMPA. Ele me procurou para organizar um estudo sobre os usos sociais que a internet poderia ter no Brasil, tentando planejar que tipo de acesso seria mais relevante. Eu, Jayme Aranha Filho e Eduardo Viveiros de Castro organizamos, a pedido da RNP, um evento com nome pomposo, mas bem precavido: Seminário Preparatório sobre Aspectos Socioculturais da Internet no Brasil, realizado nos dias 28 e 29 de agosto de 1995 no auditório do LNCC (Laboratório Nacional de Computação Científica), na Praia Vermelha. O objetivo era apenas elaborar recomendações para um macroprojeto de pesquisa que nortearia a abertura comercial da internet em território nacional. A RNP ainda pensava que isso seria feito com calma. Claro que a realidade atropelou a tentativa de planejamento. Quando a ciberporteira abriu, os brasileiros demonstraram que se sentem tão em casa na internet quanto em bloco de carnaval de rua.

Eu já tinha acesso Altenex desde o tempo em que para mandar um email era necessário decorar vários comandos Unix. Lembro minha emoção ao descobrir, quase secretamente, que durante a Rio 92, nosso acesso ao novíssimo WWW foi liberado. Por isso ficava sempre procurando maneiras mais estáveis e velozes de conexão. Recebi uma daquelas cartas, em maio de 1995, anunciando: “A EMBRATEL tem a satisfação de disponibilizar para V. Sa. o acesso à Internet na modalidade IP discado.” Deixava claro que era um “projeto piloto” e apresentava dois números de telefone, um para velocidades de acesso até 14.4 Kbps e o outro para 28.8 Kbps (facilitando a comparação: 1 mega de banda larga é quase 35 vezes mais veloz que 28.8 Kbps, e temos que incluir aí os perrengues com ruídos nas linhas telefônicas de 20 anos atrás). No “piloto” a vantagem seria conexão de dados gratuita; o usuário só pagaria pela ligação telefônica. Era mesmo uma tentativa de se tornar a única porta de entrada para a internet no Brasil. Acho que não durou nem até o final de 1996. Quando outros provedores foram autorizados a comercializar acesso, a Embratel dançou.

Guardei um encarte da revista “Internet Brasil” de setembro de 1996. É um “guia de home-pages e provedores de acesso do Brasil”. Não dá mais para contar. São cerca de 4 mil URLs, quase 150 vezes mais do que o número de menos de dois anos antes. São algo em torno de 300 provedores.

Que ninguém pense que o Brasil estava atrasado. A explosão popular da internet nos EUA aconteceu também em 1995. Em julho de 1994 a revista Time publicou capa sobre “o estranho mundo novo da internet”. Em novembro de 1994 a Business Week explicava “como a internet vai mudar a maneira como você faz negócios”. Em janeiro de 1995 a PC World – publicação mais especializada em nerds impossível – trazia na capa a seguinte manchete: “como se conectar à internet”. Nós brasileiros mergulhamos fundo e convictos na novidade estranha. Pena que até hoje mais como usuários do que como criadores de serviços. Assunto para a coluna da semana que vem.

decrescimento vagaroso

31/01/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 30/01/2015

Depois que leu a coluna de sexta-feira passada, o filósofo e grande amigo virtual Paulo Henrique Fernandes Silveira me mandou esta citação de Aristóteles: o estilo contínuo de oratória seria “desagradável, justamente, por não ter fim, pois todos desejam ter à vista o final.” Lembrei Jean Baudrillard entediado com o constante adiamento do final dos tempos, anunciando em 1985 que “o ano 2000 não passará”. Passou. E o fim do mundo continua sendo prometido para breve. Chegará “slow” ou “fast”? Podemos escolher? E a escolha da velocidade aumenta chances de Paraíso?

Hoje vou explorar o caminho “slow”, que a cada dia ganha mais adeptos. Já escrevi por aqui sobre “slow food”, a boa tendência dominante no menu dos novos chefs celebridades da culinária internacional. A filósofa Isabelle Stengers, talvez mais conhecida por ter escrito o livro “A nova aliança” com o prêmio Nobel de química Ilya Prigogine, publicou recentemente um “manifesto pela desaceleração das ciências” chamado “Uma outra ciência é possível!”, assim com exclamação e tudo. Nas páginas internas essa outra possibilidade é denominada, claro, “slow science”, em inglês mesmo (gosto também de outro slogan de ordem: “pela desexcelência das universidades”).

O capítulo “Advocacia de uma ciência ‘slow'” (minhas traduções são todas muito livres…) resume bem o argumento do livro. Descreve a ascensão da ciência rápida, junto com a industrialização do Século XIX. Antes, a formação científica era obra de toda uma vida; depois passa a ser controlada por doutorados de poucos anos, com correria para a publicação nas revistas de prestígio e competição por número de citações em trabalhos de colegas. Além disso, há a transformação das inovações acadêmicas em segredos industriais. Universidades, empresas e governos se juntam e misturam velozmente.

Isabelle Stengers cita o exemplo da pesquisadora Barbara Van Dyck, que em 2011 foi despedida da Universidade de Lovaina depois de apoiar a destruição de parte de uma plantação de batatas transgênicas – experiência desenvolvida pela Universidade de Gante em parceria com a BASF – por militantes ecológicos (que ficaram conhecidos como batatistas). Num primeiro momento, eles foram condenados a meses de prisão por “formação de quadrilha”, mas em dezembro de 2014 essa sentença foi finalmente revogada.

A “slow science” reivindica menos pressa e maior participação popular na tomada de decisões sobre quais experiências científicas devem ser levadas adiante, através de maior conscientização geral sobre riscos e vantagens de cada uma delas. Muitos cientistas reagem apavorados contra as interferências de “leigos” em seus trabalhos, e usam da desculpa de que não têm tempo a perder, que precisam encontrar respostas para problemas urgentes, como a fome anunciada da população mundial. Isabelle Stengers luta pelo reaprendizado de uma “arte da consulta”: “desaprendemos a arte de produzir um acordo sem a arbitragem ou a razão do mais forte ou da maioria.” E não se deixa seduzir por argumentos daqueles que colocam o “progresso” (ou “o imenso desperdício conhecido por desenvolvimento”) à frente de qualquer outra preocupação.

Certamente esse é discurso espantoso para quem julga governos, empresas, universidades e mesmo regimes econômicos pelo “desenvolvimento”, sempre medido por taxas de “crescimento”, como se a riqueza de uma sociedade só pudesse ser avaliada por sua “produção”. Sabemos que o “desenvolvimentismo” não tem vínculos ideológicos definidos, podendo se situar tanto à esquerda quanto à direita. Novidade nesse debate é o aparecimento com crescente força, inclusive no livro “Capitalismo contra o clima” que Naomi Klein acaba de lançar, da bandeira do decrescimento.

Não é também um movimento homogêneo, sem conflitos internos. Há igualmente decrescimento de esquerda e de direita. Para entender a história dessa ideia, recomendo a publicação no Brasil do livrinho “O decrescimento é desejável?”, de Stéphane Lavignotte. (Um autor básico para toda essa turma, o economista Nicholas Georgescu-Roegen, teve seu já clássico “O descrecimento” lançado pela editora do Senac.)

Desde 1972 convivemos com um relatório do MIT/Clube de Roma que previa que os limites do crescimento do planeta seriam atingidos em cem anos. Pensadores franceses foram os que levaram o “abandono do mito do ilimitado” mais a sério. Vincent Cheynet e Paul Ariès fundaram a revista “O decrescimento”. Não se trata de lutar por taxas negativas de crescimento do PIB. Reflexões sofisticadas sugerem decrescimento sem recessão ou desemprego. Viável? Sabemos apenas que não podemos seguir adiante sem levar tudo isso em consideração.

espaço público

03/01/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 02/01/2015

Ano novinho. Dia 2 apenas. Para recomeçar a coluna com o pé direito, uma boa notícia do fim de 2014: o financiamento coletivo da “Piseagrama” – revista que se apresenta adequadamente como “espaço público periódico” – foi um sucesso. Agora podemos ter certeza que nos próximos meses teremos novos números dessa publicação que deveria ser conhecida por muito mais pessoas além das 998 que deram seu apoio via “Catarse”. Confesso que só descobri a “Piseagrama” recentemente, ao receber pacote com as seis edições já lançadas, além de três livros criados pelo mesmo coletivo baseado em Minas Gerais. Estou ainda vivendo sob o impacto do concentrado de boas ideias. Enquanto espero a “Piseagrama” 7, farei aqui lista de assuntos sugeridos em suas páginas anteriores (elas podem ser acessadas na internet, todas com licença Creative Commons autorizando de antemão usos não comerciais) formando um guia de ações para inspirar geral em 2015.

Vale antes citar como os próprios editores da revista definem seu campo de reflexão/militância: “PISEAGRAMA é uma revista sobre espaços públicos: existentes, urgentes e imaginários. A revista articula e promove relações entre as artes, a política e a vida cotidiana […] sempre com foco na noção de público. Além da publicação, PISEAGRAMA realiza e promove uma série de ações em torno de questões de interesse público como debates, microexperimentos urbanísticos, oficinas, campanha com propostas para as cidades, loja itinerante e publicação de livros.” O que mais gosto (eu que admiro fazedores): quase todas as ideias podem ser colocadas em prática imediatamente, se houver “vontade política” para tal.

Exemplos: o número de estreia de “Piseagrama” tinha como tema geral o “Acesso”. Um artigo de Kevin Kelly, ídolo desta coluna, explica o óbvio: acessar – para indivíduos, para sociedades, para economias etc. – é “melhor que possuir”. Outro artigo revela como um trio de prefeitos de Bogotá – Antanas Mockus, Enrique Peñalosa e Luis Eduardo Garzón – conseguiu transformar a vida de sua cidade com ações simples e corajosas, que podem ser copiadas (sem vergonha, o que é bom deve ser copiado) em nossos municípios. Outra característica deliciosa da revista é a combinação de fotos e textos curtos na capa/contracapa. Nessa edição vemos um hidroavião pousado com barquinho trazendo passageiros para terra firme. A pergunta que nunca deveria calar: por que trocamos o líquido por dispendiosas pistas de concreto?

Número 2: tema “Progresso”. Ou qual o verdadeiro significado de progresso. Meus destaques: os belos mapas desenhados pelo povo indígena tikmu’un; o estádio provisório (todo ano é montado e desmontado pela população local) La Petatera de Colima; as vantagens de “não fazer nada”; a “post-it city” de Martí Peran. Por que valorizamos o permanente e caro?

Número 3: “Recreio”. Dez maneiras incríveis de perder tempo. Arte do alemão Joachim Schmid com fotografias de campos brasileiros de futebol de várzea capturadas do Google Earth. A ocupação pública de terrenos baldios em Sevilha. E a capa lembra o estonteante trampolim da praia de Icaraí, Niterói.

Número 4: “Vizinhança”. Texto de Vilém Flusser sobre exílio e criatividade. Capa com foto de Haruo Ohara com pista para longa e pouco conhecida história: o loteamento das terras da companhia inglesa Parana Plantations e saga dos migrantes no interior paranaense.

Número 5: “Descarte”. Tradução de panfleto de 1932 inventando a “obsolescência programada”, estratégia vendida como salvação da economia (alguém pensou em iPhone 6?). Novas maneiras de usar/pensar o lixo. Novas maneiras de usar os (e cuidar dos) rios. O que fazer com carros abandonados. A genial moeda Euroafrican do senegalês Samba Mballo. Lançamento de camisetas e bolsas com hashtags sensatas: “#uma praça por bairro”; “#pescar e navegar no Tietê” (gosto também da linha infantil: “#um balanço por árvore” etc.).

Número 6: “Cultivo”. Proposta novamente bem prática/sensata: trocar gramados (caros de manter, sugadores de água preciosa, nos quais somos proibidos de pisar) por “jardins comestíveis” ou “jardins produtivos”. Quem pode ser contra?

Os três livros editados pelo pessoal da “Piseagrama” também deveriam ser copiados em todas as cidades. “Domesticidades” é um guia de bolso que se apropria de fotos publicadas na internet por corretores imobiliários. O “Guia Morador” traz dicas de bicas, hortas, pássaros e até fantasmas de Belo Horizonte. O “Atlas Ambulante” detalha itinerários, ferramentas e até partituras de vendedores que circulam diariamente pela capital mineira.

Eu disse: muita ideia-vitamina para quem não quer ficar parado em 2015. Comece logo a pisar a grama.

mais e melhores nanolistas

27/12/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 26/12/2014

Sou fã de listas de melhores do ano. Como já escrevi várias vezes, hoje a abundância é maior problema que a escassez para a produção cultural planetária. Muita coisa boa, muitos canais para distribuição de novidades, mas pouco tempo para escutar/ler/ver tudo. Por isso precisamos de filtros confiáveis. As melhores listas de melhores do ano são produzidas por pessoas que acompanham de perto a movimentação de determinado segmento artístico, vasculhando todos os cantos da rede à procura do mais brilhante, e assim nos poupam o trabalho de fazer o mesmo. Só posso agradecer sua atuação generosa, transformando todos meus dezembros em época de descobertas.

Tenho minha lista das melhores listas de melhores do ano. Exemplo: o número de dezembro da Art Forum, a revista mais influente da arte contemporânea. Como eu poderia viver sem a lista de melhores filmes segundo John Waters, ou a lista de melhores exposições  (etc. – este ano mistura Lygia Clark com as danças de Sharon Eyal e Anna Teresa de Keersmaeker) segundo Daniel Birnbaum? A seção de música é feita por pessoas diferentes a cada ano. Agora temos as listas de Kathleen Hanna, Shintaro Sakamoto, Matthew Higgs, Wu Tsang e George Lewis. Não fique envergonhado se não conhece esses nomes. Os discos/performances que estão em suas listas são ainda mais esotéricos. E, por isso, necessários. Assim conheci Mamman Sani (seu “Taaritt” é saudado como “melhor disco já feito”) e “Circuitos úmidos: a era dourada dos sintetizadores na Ásia do Leste”.

Também não consigo passar sem a edição especial da “MIT Technology Review” que reúne suas listas bem curiosas: as “50 companhias mais inteligentes”; as “10 tecnologias revolucionárias”; e – para mim a mais esperada – os 35 “inovadores com menos de 35 anos”, que sempre me revela gente novinha com ideias incriveis. Como Tak-Sing Wong, que se inspira em plantas carnívoras para a criação de novos materiais.

Meu amor por listas se estende também para aquelas que não precisam ser publicadas necessariamente no final do ano. Como a “NewUrope100”, recente criação da revista “Visegrad/Insight” (Visegrad é a aliança de quatro países da Europa do Leste: Polônia, República Tcheca, Hungria e Eslováquia), apresentando 100 pessoas “desafiadoras” de países com os quais temos pouco contato cultural direto. Foi ali que ouvi falar do arquiteto urbanista nipo-tcheco Osamu Okamura  ou li entrevista ciberinspiradora com Toomas Hendrik Ilves, presidente (sempre com gravata borboleta) da Estônia.

E claro: gosto de ver o resultado de várias premiações. Porém, desenvolvi meu próprio “modo de usar” para lidar com elas. Prefiro as que têm várias categorias. Recomendo: preste atenção naquelas que recebem menos destaque. É ali que as melhores surpresas podem acontecer. Funciona assim: no Jabuti de 2014, encontrei a dica para uma das minhas mais interessantes leituras do ano entre os dez finalistas da categoria Ciências Exatas, Tecnologia e Informática. Trata-se de “Ciência do futuro e futuro da ciência – redes e políticas de nanociência e nanotecnologia no Brasil”, de Jorge Luiz dos Santos Junior, um lançamento da editora da UERJ e da FAPERJ com o qual eu poderia nunca ter me deparado, até porque foi difícil encontrá-lo nas livrarias (acabei comprando meu exemplar na Leonardo da Vinci).

Trata-se de estudo pioneiro de um cientista social/economista sobre as políticas brasileiras de ciências exatas de ponta no Brasil. Os termos nanotecnologia e nanociências (as que lidam com dimensões para lá de minúsculas) só aparecem em documentos oficiais brasileiros, mesmo em órgãos como o CNPq e a CAPES, no início deste século, mas no decorrer dos anos seguintes foram lançados vários programas para incentivar a formação de pesquisas em universidades e empresas nacionais. Qual o resultado?

O pano de fundo para a análise de Jorge Luis dos Santos Junior é a invenção de uma política industrial brasileira, principalmente dos anos 1950 em diante. Antes os governos, quando tratavam de ciência, imaginavam um país apenas “celeiro do mundo”. Mas tabelas apresentadas no livro denunciam uma situação ainda precária. Importamos mais alta tecnologia e exportamos (crescimento cada vez mais acelerado desde 2007) mais produtos não industriais. Em 2010 a China fez 742 pedidos de patentes, o Brasil 59.

Fico sempre cheio de dedos quando trago esses assuntos para o Segundo Caderno. Mas como Jorge Luiz dos Santos Junior mostra, as implicações culturais e sociais da nanotecnologia são tremendas, e geralmente deixamos que decisões importantes sejam tomadas por especialistas e pequenos grupos em nome de todos nós. Ficam aqui meus votos para que mudemos de atitude em 2015. Não há escolha. O mundo é cada vez mais complexo. É preciso atenção e força com relação a tudo.

 

ciberdesbunde – o início do guia

13/12/2014

Texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 12/12/2014

 

1989. Em sebo da Praça Tiradentes, encontrei revista com Sun Ra na capa. Lembro essa descoberta agora para comemorar o centenário de nascimento deste gênio da música vindo – acredito piamente – do espaço sideral. Um dos meus momentos de mais intensa alegria foi provocado por Sun Ra cantando por horas, em palco de Nova York e com acompanhamento pós-free-jazz, sobre passeios pelos anéis de Saturno. Só a descrição desse show já seria material suficiente para a coluna de hoje. Porém, preciso cumprir promessa da semana passada: iniciar guia para as origens do ciberdesbunde. Então, a lembrança da revista garimpada naquele sebo tem outra razão para aparecer por aqui. Seu título espantoso – note bem: isso aconteceu em 1989 – era “Reality hackers”. Deve ter pousado na Praça Tiradentes a bordo de um disco voador psicodélico.

Depois de folhear aquelas páginas, nunca mais fui o mesmo. O fato de mudar de maneira de ver o mundo toda semana (como esta coluna comprova) não banaliza o impacto que a “Reality hackers” teve em minha vida. O editorial ainda me deixa zonzo. Tentando traduzir o idioma californiano: “‘Reality hackers’ conspira ativamente com holográficos, vídeo-artistas, músicos, designers de software, cartunistas, místicos, Mestres Ocultos, Amantes Ocultas e musas concubinas. Nós formamos uma Casa de Mídia para bombardear a desprevenida América com canal banda larga de parasitas mentais e memes estridentes. A Casa de Mídia Reality Hackers é um vórtice de plágio e tradução simultânea, onde agentes da Fronteira em eterna expansão se encontram para crospolinizar, ascender, e transferir coisas de uma mídia para outra – uma estação de codificação e descriptografia para predação polisensorial.” Nas páginas seguintes a coisa fica mais punk, com artigos de Hakim Bey, Timothy Leary, Terence McKeena, entrevista com Brian Eno, reflexões sobre ciberterrorismo, heavy metal, paganismo high-tech e MDMA.

Tudo editado pelo casal R. U. Sirius e Queen Mu (seu crédito era “domineditrix”), que depois lançou a “Mondo 2000”, revista obrigatória para a turma que transformou a internet em cultura de massas (para além da massificação da cultura). O número de assinantes era pequeno, mas influente. Tanto que, em fevereiro de 1993, o pessoal alternativo da Mondo fez o design da capa da revista – mais mainstream impossível – “Time” sobre o movimento cyberpunk. R. U. Sirius e Queen Mu, junto com Rudy Rucker (outro ídolo desta coluna), tinham acabado de lançar um “Guia do usuário para a nova fronteira”, cheio de verbetes pitorescos como “sexo virtual”, “música do DNA”, “nomadismo” e “hipertexto”. Parece de época, e é, mas só hoje algumas promessas daquele momento se transformaram em produtos no mercado. Como a realidade virtual, vide o Oculus Rift.

A “Reality hackers” começou como fanzine chamado “High frontiers”, dedicado principalmente ao debate sobre alterações da consciência por meio de substâncias psicoativas. O encontro de R. U. Sirius e Queen Mu com o pessoal – Stewart Brand e Kevin Kelly, entre outros – que produzia o Whole Earth Catalog foi decisivo para o reconhecimento do papel cada vez mais central da tecnologia para qualquer avanço contracultural. O catálogo, que tinha como subtítulo “Acesso a ferramentas e ideias”, facilitava a venda de produtos e publicações que tornavam possível uma vida “faça você mesmo”, tanto em termos cibernéticos quanto ecológicos. Tenho a edição de 1986, que na página 351, sobre “redes de computadores”, traz a seguinte profecia: “Um dia todo mundo vai se comunicar desta maneira.” E acrescenta: “Os editores da ‘Whole Earth” ficaram tão enamorados das redes de computadores que fundamos nossa própria – a WELL (Whole Earth ‘Lectronic Link). Como em todas essas redes, você paga por minuto – no nosso caso US$3/hora mais $8/mês mais (se você não é local) $4 para ligação interurbana.” O que hoje parece caro naquela época era o mais em conta que havia. E quem pagou sabe que viveu no WELL uma experiência mítica. Foi o Woodstock do ciberdesbunde.

Em 1994, a “Time” publicou capa sobre “o estranho novo mundo da internet”. Havia até box com respostas para as perguntas: “o que é a internet?” ou “como me conecto?” Início da matéria: “A maior rede de computadores do mundo, antes um playground de cientistas, hackers e gearheads, está sendo tomada por advogados, mercadores e milhões de novos usuários. Há espaço para todos?” Vinte anos depois a questão permanece aberta. Ainda bem que o Internet Archive desenvolve o “Mondo 2000 history project” que mostra para quem chegou agora na rede o rumo que nossa vida virtual poderia ter tomado, ou ainda pode tomar.

 


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