Archive for the ‘urbanismo’ Category

espaço público

03/01/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 02/01/2015

Ano novinho. Dia 2 apenas. Para recomeçar a coluna com o pé direito, uma boa notícia do fim de 2014: o financiamento coletivo da “Piseagrama” – revista que se apresenta adequadamente como “espaço público periódico” – foi um sucesso. Agora podemos ter certeza que nos próximos meses teremos novos números dessa publicação que deveria ser conhecida por muito mais pessoas além das 998 que deram seu apoio via “Catarse”. Confesso que só descobri a “Piseagrama” recentemente, ao receber pacote com as seis edições já lançadas, além de três livros criados pelo mesmo coletivo baseado em Minas Gerais. Estou ainda vivendo sob o impacto do concentrado de boas ideias. Enquanto espero a “Piseagrama” 7, farei aqui lista de assuntos sugeridos em suas páginas anteriores (elas podem ser acessadas na internet, todas com licença Creative Commons autorizando de antemão usos não comerciais) formando um guia de ações para inspirar geral em 2015.

Vale antes citar como os próprios editores da revista definem seu campo de reflexão/militância: “PISEAGRAMA é uma revista sobre espaços públicos: existentes, urgentes e imaginários. A revista articula e promove relações entre as artes, a política e a vida cotidiana […] sempre com foco na noção de público. Além da publicação, PISEAGRAMA realiza e promove uma série de ações em torno de questões de interesse público como debates, microexperimentos urbanísticos, oficinas, campanha com propostas para as cidades, loja itinerante e publicação de livros.” O que mais gosto (eu que admiro fazedores): quase todas as ideias podem ser colocadas em prática imediatamente, se houver “vontade política” para tal.

Exemplos: o número de estreia de “Piseagrama” tinha como tema geral o “Acesso”. Um artigo de Kevin Kelly, ídolo desta coluna, explica o óbvio: acessar – para indivíduos, para sociedades, para economias etc. – é “melhor que possuir”. Outro artigo revela como um trio de prefeitos de Bogotá – Antanas Mockus, Enrique Peñalosa e Luis Eduardo Garzón – conseguiu transformar a vida de sua cidade com ações simples e corajosas, que podem ser copiadas (sem vergonha, o que é bom deve ser copiado) em nossos municípios. Outra característica deliciosa da revista é a combinação de fotos e textos curtos na capa/contracapa. Nessa edição vemos um hidroavião pousado com barquinho trazendo passageiros para terra firme. A pergunta que nunca deveria calar: por que trocamos o líquido por dispendiosas pistas de concreto?

Número 2: tema “Progresso”. Ou qual o verdadeiro significado de progresso. Meus destaques: os belos mapas desenhados pelo povo indígena tikmu’un; o estádio provisório (todo ano é montado e desmontado pela população local) La Petatera de Colima; as vantagens de “não fazer nada”; a “post-it city” de Martí Peran. Por que valorizamos o permanente e caro?

Número 3: “Recreio”. Dez maneiras incríveis de perder tempo. Arte do alemão Joachim Schmid com fotografias de campos brasileiros de futebol de várzea capturadas do Google Earth. A ocupação pública de terrenos baldios em Sevilha. E a capa lembra o estonteante trampolim da praia de Icaraí, Niterói.

Número 4: “Vizinhança”. Texto de Vilém Flusser sobre exílio e criatividade. Capa com foto de Haruo Ohara com pista para longa e pouco conhecida história: o loteamento das terras da companhia inglesa Parana Plantations e saga dos migrantes no interior paranaense.

Número 5: “Descarte”. Tradução de panfleto de 1932 inventando a “obsolescência programada”, estratégia vendida como salvação da economia (alguém pensou em iPhone 6?). Novas maneiras de usar/pensar o lixo. Novas maneiras de usar os (e cuidar dos) rios. O que fazer com carros abandonados. A genial moeda Euroafrican do senegalês Samba Mballo. Lançamento de camisetas e bolsas com hashtags sensatas: “#uma praça por bairro”; “#pescar e navegar no Tietê” (gosto também da linha infantil: “#um balanço por árvore” etc.).

Número 6: “Cultivo”. Proposta novamente bem prática/sensata: trocar gramados (caros de manter, sugadores de água preciosa, nos quais somos proibidos de pisar) por “jardins comestíveis” ou “jardins produtivos”. Quem pode ser contra?

Os três livros editados pelo pessoal da “Piseagrama” também deveriam ser copiados em todas as cidades. “Domesticidades” é um guia de bolso que se apropria de fotos publicadas na internet por corretores imobiliários. O “Guia Morador” traz dicas de bicas, hortas, pássaros e até fantasmas de Belo Horizonte. O “Atlas Ambulante” detalha itinerários, ferramentas e até partituras de vendedores que circulam diariamente pela capital mineira.

Eu disse: muita ideia-vitamina para quem não quer ficar parado em 2015. Comece logo a pisar a grama.

histórias do futuro

03/05/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 02/05/2014

Estou torcendo pela recuperação do Mestre Laurentino. (Nesta quarta-feira ele finalmente saiu da UTI.)  Há duas semanas, Vlad Cunha me deu notícia de sua internação com pneumonia, quase aos 90 anos. Fui transportado imediatamente para o dia, duas décadas atrás, quando o vi pela primeira vez, tocando gaita e cantando “Lourinha americana”. Parecia alucinação febril produzida pelo calor de Belém. Eu estava na plateia de festival de rock realizado numa estação de trem abandonada. Ao meu lado, garotos vestidos de preto. Depois de muito metal, sobe ao palco a banda Mangabezo (Vlad Cunha era um dos integrantes). No meio do show, surgiu convidado especial: Mestre Laurentino, elegantérrimo, cheio de anéis. Memphis era ali. E ao mesmo tempo, toda a história da música paraense também estava ali. Virei fã, fulminantemente. Poucos dias depois, entrevistei o Mestre na sua casa, muito pobre. Elogiei suas roupas. Ele fez questão de me dar uma camisa cheia de brilho, que está guardada e bem cuidada, como um dos melhores presentes da minha vida.

Essas alucinações bem reais são comuns ao redor do Ver-o-Peso. Não estou pensando nos telões de LED das festas de aparelhagem. Viajo para o passado, mais remoto, tendo como guia “A cidade sebastiana”, livro de Fábio Fonseca de Castro que descobri nas sempre surpreendentes prateleiras da Leonardo da Vinci (repito: minha livraria preferida, a mais cosmopolita do mundo). Sua publicação é de 2010, mas seu texto tem origem em dissertação de mestrado, com orientação de Benedito Nunes, defendida em 1995. Mesmo assim, não poderia ser mais atual, sugerindo maneiras inovadoras para pensarmos o futuro de nossas cidades e de todos os projetos de modernização no Brasil, ainda que a partir de história muito paraense.

Fábio Fonseca de Castro identifica “um modo periférico de participar da modernidade”, nostálgico, “marcado por uma aguda sensação de perda, por formas de saudade de um desconhecido que não foi vivenciado senão em pensamento” ou pela “pungência cotidiana de ‘ter-perdido-algo’.” É sempre uma saudade do futuro. Ainda no senso comum atual de Belém: “A ‘Era da Borracha’ está no futuro, não no passado. […] O passado é ulterior. A narrativa histórica pode, sim, ser lida como se fosse um sonho.” Sonho de quando éramos/seremos Brasil Grande, desenvolvido como o “Primeiro Mundo”. Lembrando (todos dados retirados de “A cidade sebastiana”): “entre 1860 e 1920 a população de Belém cresceu cerca de 1.200%”; “a renda interna da Amazônia cresceu, nesse período, 2.800%.” São tempos lembrados como magníficos, vertiginosos, encantados: trouxas e trouxas de roupas sujas “foram mandadas para Paris para serem lavadas”; o intendente Antonio Lemos “resolveu proibir as pessoas feias de circularem no centro da cidade”; as pessoas só atendiam o telefone em francês (“Oui… Qui la demande?… Un moment s’il vous plait…”), “ainda que o interlocutor falasse em português”; “conta-se que, ao redor do Theatro da Paz, [a administração Lemos] inventou um tipo de paralelepípedo revestido de borracha com o qual se evitava que os ruídos do trânsito prejudicassem os espetáculos.” Muita novidade na cidade ao mesmo tempo: arborização com mangueiras, serviço de bondes, matadouro, montanha russa, a loja de departamentos Cúpula de Malquistã, “uma lei que proibia esmolar em Belém.” Virou modelo de “civilização”.Visitando o Rio de Janeiro em 1904, Lemos ouviu de Pereira Passos: “Eu começo a fazer na minha cidade o que V. Excia. fez na sua.”

Foi bom (para quem?) enquanto durou? Em 1912, veio a “Queda”: falências em série, suicídios, dívidas colossais. Naquele que talvez tenha sido o mais famoso e pioneiro caso de biopirataria globalizada, o inglês Henry Alexander Wilkens “enviou 70 mil sementes de Hevea brasiliensis para Londres, alegando ao governo do Pará que serviriam para embelezar o Jardim Botânico de Kew e recebendo 10 libras por milheiro de sementes.” Todos nós sabemos onde foram parar: nas plantations da Malásia: “em 1919 a borracha oriental alcançou 90% do mercado mundial, desbancando, definitivamente, a concorrência da produção amazônica.” Resultado no imaginário local: Fábio Fonseca de Castro fala de um “passado-látex”, conjunto de “falas encantadas, e sebastianas” que incluem eternamente repetidas “saudades do que poderia ter sido mesmo sem ter acontecido.”

Talvez Mestre Laurentino com a garotada do rock pulando ao seu redor e depois a dança do treme do tecnobrega indiquem outro futuro. Fábio Fonseca de Castro escreveu outro livro, “Entre o mito e a fronteira”, com estudo da aventura da produção cultural recente de Belém. João de Jesus Paes Loureiro também tem indicações amazônicas preciosas. Mas isso fica para outra coluna, também no futuro.

mundo das ideias

19/04/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 18/04/2014

Toda Sexta-Feira Santa experimento mudança drástica na percepção do passar do tempo. É como se a linha reta da modernidade, caminhando rápida sempre em direção ao Progresso, ficasse mais encurvada que a estrada de Santos. Sua tendência é virar um círculo, onde tudo se repete e regenera. Meus anos em colégios católicos me ensinaram: de hoje até meia-noite de Sábado de Aleluia, com o anúncio da ressurreição de Cristo, o mundo corre perigo extremo. Isso só aumenta minha perplexidade metafísica.

Na circularidade do tempo, sou transportado para o Império Romano, na época da invenção do Direito e da prática sistemática da crucificação para eliminar inimigos. Exemplo: na Guerra de Espártaco cerca de seis mil escravos rebeldes foram crucificados de uma só vez ao longo da Via Ápia. Não conhecemos seus nomes. Com Jesus foi diferente. Seu suplício não calou seus ensinamentos e discípulos, que conseguiram mudar a política imperial. Constantino, convertido, proíbe crucificações no ano 337. O tempo, que até então andava em roda, foi partido em antes e depois de Cristo.

Uma declaração óbvia: enorme é o poder da religião para revolucionar a história humana. Penso nas cruzes em velas das naus lusitanas abrindo caminhos para a globalização. Lembro o Infante Dom Henrique, nascido numa Quarta-Feira de Cinzas, planejando a navegação em seu quartel-general pós-templário e pré-sebastianista, o Convento de Cristo.

Meu pensamento viaja para outros cantos do planeta e encontra o revigoramento do confucionismo no núcleo duro do capitalismo-comunista chinês. Milênios depois; apesar das aparências, nada mudou tanto assim na necessidade de rituais.

Então vou parar dezenas de séculos antes de Confúcio, nos arredores de onde fica atualmente uma cidade turca chamada Urfa, que pode ser “desendente” da caldeia Ur. É o norte da Mesopotâmia. Muitas pessoas acreditam que por ali estão cavernas onde nasceu Abraão e onde Jó enfrentou suas úlceras. Desde meados da década de 1990, foi descoberto que, bem antes desses episódios bíblicos, no topo de uma montanha da região, havia aquilo que se transformou no mais antigo templo conhecido, hoje compondo o sítio arqueológico de Göbekli Tepe.

Ouvi esse nome pela primeira vez no artigo “O santuário”, que a escritora turco-americana Elif Batuman (seu “Os possessos – aventuras com os livros russos e seus leitores” pode ser encontrado nas livrarias brasileiras) publicou no número especial de Natal 2011 da revista New Yorker. Na sua visita às escavações, ela entrevistou o arqueólogo alemão Klaus Schmidt, que comanda as pesquisas desde a descoberta de Göbekli Tepe. Além da narrativa deliciosa, o que me fez arquivar esse artigo foi a insinuação de hipótese radical para explicar o aparecimento das primeiras cidades (todas as mais antigas se situam na Anatólia). Pela sua datação, de quase dez mil anos, aquele centro cerimonial era frequentado por povos caçadores, antes também da invenção da agricultura. Pronto, a nova arqueologia vai falar: talvez as primeiras cidades tenham sido fundadas em torno de templos, e não vice-versa, com se costumava afirmar.

Havia quase me esquecido desse assunto até que mês passado o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, em algum de seus posts na internet, publicou link para texto, cheio de fotografias, assinado pela turma de Klaus Schimdt. A hipótese fica ainda mais ousada do que na divulgação de Elif Batuman. Ainda não está confirmado, mas parece que no monumento foram encontrados vestígios de consumo de cerveja (talvez isso explique os desenhos de danças frenéticas), que seria armazenada em imensos depósitos. Onde povos caçadores encontrariam plantas em quantidade suficiente para primeiro fermentar em tamanha quantidade e depois embriagar tanta gente? Eis o Lado B, psicodélico, da interpretação arqueológica: os humanos começaram a plantar, e não apenas a coletar o que encontravam livre na vegetação, para celebrar seu culto ao divino. Assim chegamos a outra insinuação: os rituais, produtos do mundo das ideias, provocaram a mudança no modo de produção. O que dá num marxismo bêbado: a superestrutura estaria na base da infraestrutura. Max Weber venceu?

Pergunta mais impertinente: o desejo de ficar doidão inventou a civilização? Precisamos lembrar outra hipótese, batizada anatoliana, segundo a qual os agricultores daquele pedaço do mundo em torno de Urfa seriam os responsáveis pela difusão do idioma indo-europeu, com suas variantes, da Índia até a Península Ibérica. O pacote incluía divisão social em sacerdotes, guerreiros e gente comum, e sua concepção de tempo circular (respeitando os ciclos do plantio) que depois é revolucionada pelo cristianismo. E aqui estamos nós. Boa Páscoa!

Bruno Carvalho

05/04/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 04/04/2014

Bruno Carvalho, professor em Princeton, acaba de criar novo epíteto para o Rio de Janeiro. Além de maravilhosa e partida, agora a cidade pode ser chamada de porosa, termo que propõe interpretação original para um velho problema: a coexistência de uma cultura/autoimagem definida pela mistura com a disparidade socioeconômica evidente/brutal. “Cidade porosa” é o título de seu livro publicado no final de 2013 pela editora da Universidade de Liverpool. Deveria ter tradução imediata, pois é leitura essencial para enfrentarmos melhor as transformações urbanísticas que vão se acelerar até as Olimpíadas. Precisamos escolher bem que rumo dar para nossa porosidade.

“Cidade porosa” pode ser descrito com mais precisão como história detalhada, surpreendente e deliciosa de um bairro carioca, a Cidade Nova, desde sua criação a partir da chegada da família real portuguesa no Brasil até a destruição da Praça Onze para a passagem da Avenida Presidente Vargas. Cito alguns endereços daquela área. A casa da Tia Ciata ficava no 117 da Visconde de Itaúna, bem perto do Iuguend Bund, clube para a juventude israelita que ocupava o número 203 da mesma rua. A biblioteca judaica Bialik dividia a mesma casa com a gafieira Kananga do Japão. Bruno Carvalho – que chegou a conhecer, como conta no livro, o casal Pinduca e Celi, ele afrodescendente, ela filha de judeus russos – lembra que na maioria das cidades do mundo um endereço frequentemente revela a origem étnica de seus habitantes (quando morei em Chicago sabia que até numa mesma avenida, ao mudar de quarteirões bem determinados, eu saía de uma pequena Croácia, atravessava uma Rússia ortodoxa e encontrava uma Índia tâmil). Na Cidade Nova isso seria impossível. A Praça Onze era ao mesmo tempo o centro da Pequena África e da vida “Ashkenazi” carioca, isso para não falar dos pontos de encontro dos ciganos, imigrantes portugueses e italianos, ou da babel linguística criada (em fantasia ou realidade) pelas prostitutas do Mangue. Tudo prova de maior porosidade, que marcava a vida da cidade como um todo.

Porém, cuidado: todos sabem que estamos em terreno minado. Bruno Carvalho lança mão do conceito de porosidade justamente para evitar armadilhas como as conotações celebratórias de termos como miscigenação ou sincretismo. Ou mesmo, mais em voga, hibridismo: “Toda religião ou forma musical, por exemplo, pode ser entendida como composta por elementos heterogêneos, não importa quão puras elas pareçam ao olhar dos praticantes. Isso não quer dizer, evidentemente, que todas as religiões ou formas musicais possam ser consideradas porosas.” Mas importante: a porosidade não é necessariamente algo desejável ou positivo. José Miguel Wisnik dá o mote: é ao mesmo tempo um veneno e um remédio. Formas culturais porosas podem sustentar desigualdades e injustiças. O modo poroso de vida tem complexidade estonteante: “mistura e divisão aqui são como dois lados de uma mesma moeda.”

Que sina, a do Rio de Janeiro. Querendo simplificar as coisas, em nome do progresso, muitos urbanistas criaram planos (ou pior, impuseram a realização de planos) para acabar com a confusa porosidade de seus bairros e espaços públicas. A Avenida Presidente Vargas tinha esse objetivo: abrir via reta, a mais larga possível, para o futuro passar à força (e o futuro naquela época era uma frota de automóveis) acabando com territórios “pantanosos” (havia manguezais sim, mas as condições sanitárias da Cidade Nova podiam em vários períodos ser consideradas mais “arejadas” que as de outras partes da cidade tidas como menos “doentias”). Muitas vezes, os resultados dessas experiências são opostos aos esperados. Bruno Carvalho cita o texto “Ponte e porta” de Georg Simmel: uma ponte pode separar mais do que conectar; uma porta conecta e separa no mesmo ato. Na história carioca, a moderna Avenida, que parecia tão integradora, mais dividiu do que juntou/misturou ou fez circular.

Uma das qualidades de “Cidade porosa” é justamente ter uma escritura de máxima porosidade, que junta e mistura o que disciplinas diferentes tentam separar. Saímos de uma festa cigana, acompanhamos a perambulação de personagem de Machado de Assis, pegamos um bonde como João Pinheiro Chagas (que depois seria o primeiro primeiro-ministro português), encontramos romance esquecido (só teve duas edições) de Graça Aranha, pulamos atrás de um rancho italiano dos irmãos Baroni, acompanhamos as filmagens de Orson Welles na Praça Onze. Tudo isso para chegarmos num lugar mais segregado? Que nada, sou otimista: a leitura atenta do livro de Bruno Carvalho nos dá boas lições para o bom uso dos poros resistentes desta cidade.

Chris Marker

19/02/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 03/12/2010

É um privilégio ter os DVDs da Coleção VideoFilmes numa loja ou locadora perto de nossas casas. Agora podemos ver e rever filmes – como “Eu, um negro” de Jean Rouch e “O país de São Saruê” de Vladimir Carvalho – que antes só eram exibidos em ciclos especiais ou sessões de festivais. A seleção mistura clássicos com novíssimas produções, de diferentes tendências estéticas/ideológicas, e ocupando lugares diversos no “contínuo” real/ficção. Um lançamento de 2010, “Gatos empoleirados”, o DVD n° 20 da coleção, me fez mergulhar novamente na obra de seu diretor, Chris Marker, que sempre trabalhou no limite entre o real e o virtual, a poesia e a “realidade mais crua”. Muito estranho, e ao mesmo tempo esclarecedor, ver este filme enquanto “lá fora” o Rio esteve em “guerra” e o capitalismo global se arrasta numa crise (“guerra cambial”?) que se revela cada vez mais enigmática, apesar de youtubada e twitada em tempo sempre real, real até demais da conta, gerando excessivas “visualizações”.

Na guerra todos os gatos são pardos, ou cinzas, como TV fora do ar? Chris Marker se pergunta: onde estão os gatos? Ele tem obsessão por gatos. Comentando seu filme “Le fond de l’air est rouge”, que também tem versão inglesa intitulada “A grin without a cat”, Marker declarou: “um gato nunca está do lado do poder.” Numa entrevista rara e brilhante de cabo a rabo, concedida em 2008 para a revista francesa Les Inrockuptibles e traduzida para inglês no site da – outra coleção excelente – Criterion, há o complemento paradoxal: “os gatos, vocês sabem, têm certos poderes”… Uma sequência assustadoramente hilária de “Gatos empoleirados”, depois de mostrar imagens da recente pilhagem dos museus arqueológicos do Iraque, o narrador confessa lacônico: “eu saberia bem o que tirar do Louvre…” Corte. Já estamos dentro da sala egípcia do museu parisiense, observando gatos exilados de suas pirâmides.

Um gato pode ser mestre de disfarces. Como Chris Marker. Seu próprio nome é uma máscara. A justificativa para o pseudônimo é mais uma lenda, com pose de verdade simples: “gosto de viajar, queria um nome fácil de pronunciar em todos os lugares.” Marker diz também que detesta fotos. No lugar de seu rosto, manda para a imprensa o desenho de – o que mais poderia ser? – um gato, que tem até nome bem conhecido entre seus fãs: Guillaume-en-Egypte. Por isso não é de se espantar que tenha ficado encantado quando apareceram em Paris grafites de gatos, empoleirados em vários edifícios, muros, paredes das estações do metrô. E das paredes, como um meme que se espalha viralmente pela cidade e depois pelo mundo, foram se infiltrando em vários outros ambientes, e acabaram nos cartazes que alegravam as manifestações políticas de uma França perplexa, entre o neo-liberal e o estado social, entre Le Pen e Chirac, com véus islâmicos fora das escolas. A câmera de “Gatos empoleirados” começa documentando um flash mob e sai pelas ruas tentando desvendar, ou aprofundar, o mistério felino.

Com quase 90 anos, Marker permanece ligado em todas as novidades importantes. Na entrevista da Les Inrocks – que obviamente não foi feita pessoalmente, mas sim no Second Life – ao ser perguntado sobre o que mantém seu interesse no mundo, a resposta é precisa: “Curiosidade. É tudo. Eu nunca senti muita coisa além disso.” Por isso seus filmes, incansavelmente curiosos, sempre lidam com tendências que o resto do mundo nem identifica ainda, tanto no uso de novas tecnologias de captação/edição das imagens, quanto na escolha dos temas e links entre vários assuntos diferentes. No cinema, acho que foi Marker que criou pela primeira vez uma protagonista (o fato de ser mulher não é de modo algum irrelevante) que tem como profissão o desenvolvimento de jogos eletrônicos.

Então, é de se esperar a abertura flash mob de “Gatos empoleirados” ou a entrevista realizada no Second Life. Um jornal de Zurique já escreveu, bem antes do filme de James Cameron, que Marker “nasceu para ser avatar”. Acrescento: seu planeta Pandora é a Terra mesmo. A Terra e a rede de informações/imagens que a envolve como um nevoeiro cada vez mais denso. Ele diz até que se aposentaria no Second Life, “como Brando no Taiti”. Só que nunca vai se aposentar. Hoje até arruma mais trabalho. A versão francesa de “Gatos empoleirados”, feita sem narração (que foi incluída depois, para públicos sem familiaridade com a política local), foi feita em casa: “eu podia me dar a pequena alegria de fazer um filme de A a Z com minhas duas mãos”. E acrescenta: “experimentei um júbilo suplementar quando, depois de gravar alguns DVDs no computador de casa, fui vendê-los no mercado do bairro Saint-Blaise. Do produtor ao consumidor sem nenhuma intervenção externa… Sem mais-valia…” Em entrevista, conclui: “é o sonho de Marx tornado realidade”. Ou: a tecnologia nos transforma a todos em artesãos… Ficamos livres dos atravessadores da indústria cultural. Todo trabalho, mesmo precário, é nosso.

Novamente na guerra, agora donos dos próprios narizes e armas de viralização ideológica, contaminando o mundo com a poesia de gatos sorridentes. Marker com a palavra: “Eu temo que o que é comumente chamado de ideologia não tenha mais nenhuma relação com sua definição original. No início, era um ardil de guerra. Hoje é meramente um substituto para uma guerra que não existe.” Algum gato para atirar a primeira pedra?


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