aeons, erebons e outras coisas mais

04/03/2018

Outro podcast preferido pelos habitantes da minha bolha: Into the impossible, do Centro Arthur C. Clarke para a Imaginação Humana, localizado na Universidade da California em San Diego. Mas não estava conseguindo entender nada do episódio mais recente, com Roger Penrose falando sobre “dark matter”. Não era culpa do meu inglês ruim, nem de meus pobres conhecimentos de física e cosmologia. Nem do fato de geralmente escutar podcasts enquanto corro. Essa palestra precisa ser vista. Ainda bem que há seu registro no YouTube. Não que tenha passado a entender tudo, mas pelo menos a experiência fica bem mais divertida.

Não conhecia a tecnologia que Penrose usa para ilustrar suas palestras. Agora sei que é sua marca registrada (e sempre fico deslumbrado com a internet: quantos vídeos de outras de suas palestras para ver no futuro!): transparências manipuladas sobre uma mesa e projetadas no telão, tudo de forma charmosamente atabalhoada (não sei o quanto a confusão é ensaiada). Em um momento, ele diz não gostar do termo “dark energy”: não seria bem uma energia, e na verdade seria transparente. Então seja lá o que isso for, é uma “força” que embaralha suas transparências, gerando sempre um suspense animado: será que Penrose vai mesmo encontrar a próxima?

Bem, poderia ficar “aeons” aqui viajando na sua teoria dos “aeons” do universo, e como eles podem se comunicar uns com os outros através de “novas partículas” batizadas de erebons… Minha imaginação ficou bem agitada com descrições de colisões de buracos negros e outros eventos que acontecerão neste e nos próximos universos, muitos “googol” (não Google) anos para frente ou para trás. Mas prefiro mudar de assunto… E indicar outro episódio desse podcast, o que registra a conversa entre George R. R. Martin e Kim Stanley Robinson (mais sobre KSR aqui). Tem a ver com aspecto desse assunto “bolhas” que dominou este blogue recentemente. Há uma surpresa na fala dos dois de ver a ficção científica ocupando o mainstream da cultura pop contemporânea. Poucas décadas atrás, era uma bolha marginalizada, considerada sem importância.

Então volto a dizer: ninguém sabe em que bolha a inovação cultural mais importante está acontecendo. Fiquei totalmente espantado ao descobrir que, por exemplo, a alt-right “nasceu” numa convenção de fãs de animes… Claro que isso não quer dizer que fãs de animes sejam também fãs da direita, ou que convenções de fãs de animes sejam terrenos férteis para nascimento de grupos de direita. Há de tudo em cada bolha (eu vi o anúncio de um novo carnaval em encontro de cosplayers). Por isso é bom manter as bolhas bem arejadas. E incentivar muitas trocas surpreendentes de informação entre elas.

Anúncios

bolhão

03/03/2018

Visita breve à bolha dos games. Bolhão enorme, bem maior que a bolha metálica de dois posts atrás. A primeira publicação neste blogue, e na minha coluna de cinco anos no Segundo Caderno d’O Globo, foi sobre Will Wright. Tentava abrir caminho para que o jornalismo cultural prestasse mais atenção no trabalhos dos criadores desse novo tipo de arte, com cada vez mais importância estética, comportamental e comercial. Teve pouco efeito. Acho que conto nos dedos os artigos publicados desde então sobre a arte do games nos jornais brasileiros. Qualquer festival de cinema continua a ser coberto com muito mais espaço do que a E3. O que só aumenta o paradoxo: um fenômeno que envolve milhões de pessoas pode ser invisível para o “resto do mundo”, vivendo “isolado” em mundo paralelo. Como já disse: as coisas hoje funcionam assim… Então quem quer se manter informado sobre as novidades dos jogos eletrônicos tem que sair da mídia tradicional e partir para recantos especializados.

Foi o que fiz recentemente. Trago aqui apenas a notícia que mais “capturou minha atenção” (tenho repetido essa expressão para sublinhar que, nesta era de superabundância de bolhas, vivemos numa economia onde o bem mais precioso é a nossa atenção): o game Wattam, depois de anos de espera, vai ser finalmente lançado em breve. Seu criador, Keita Takahashi, é o gênio da vez. Com formação de escultor, trouxe um olhar totalmente original para o mundo dos jogos e da visualidade contemporânea em geral, como comprovam Katamari Damacy e Noby Noby Boy, seus lançamentos anteriores. Não produz games distópicos, violentos, cínicos, escuros. Seus mundos são coloridos e querem produzir o máximo de alegria a cada jogada. Não foi por acaso que recebeu convite para projetar um parque de diversões infantil para cidade britância (Nottingham, terra da National Videogame Foudation), infelizmente não concluído por razões orçamentárias pós crise 2008. Bom lugar para acompanhar os novos caminhos do pensamento alegre e bem concreto de Keita Takahashi, com fotos de coisas que só ele enxerga, é seu (em parceria com sua mulher Asuka Sakai) delicioso site uvula.

Wattam só vai ser lançado por causa da amizade (outro conceito central em suas obras) de Keita Takahashi com Robin Hunicke, sócia (com Martin Middleton) da Funomena, desenvolvedora de games. Trio incrível, juntando o que há de mais especial na história recente dos jogos eletrônicos experimentais. Martin trabalhou na inteligência artificial e programação por trás de flOw e Journey. Robin, que começou sua carreira trabalhando com Will Wright, foi produtora de Journey e é uma das principais ativistas na batalha para haver mais diversidade nas empresas de criação de games. Tudo gente boa, responsável pelo melhor futuro da sua bolha que um dia engolirá todas as outras (estilo The Blob), se é que já não engoliu.

 

bom encontro de bolhas

03/03/2018

Sem comentários: Trio Da Kali, Kronos Quartet e dançarinos incríveis. Para outras informações e muitos links, clique no “show more” dos créditos do vídeo. Para entrar e sair de outras bolhas, leia os posts anteriores e os próximos.

metal, o retorno

28/02/2018

Para continuar no espírito do post anterior: estratégia para sair da minha bolha. Experiência: passeio pela bolha dos outros. Escolha por acaso. Entrei numa banca e comprei atrasado o número da revista Metal Hammer com sua lista dos 100 melhores discos de 2017. Tudo bem, escolha fácil, não é uma bolha tão distante assim. Sempre, ou desde que escutei “Reign in blood” do Slayer, (ou desde que vi um show do Death, do Gwar [nunca vou me recuperar], do Anthrax [naquela incrível excursão com o Public Enemy] – como dá para perceber meu interesse metálico é pós-adolescente [nasci em 1960]), procurei me manter atualizado com relação às novidades do mundo do heavy metal. Mas isso exige tempo. É uma bolha enorme, com milhares de sub-bolhas, cada uma com novidades constantes. Além disso, cultiva certo orgulho de se manter no “underground”, criando universos esotericamente paralelos, nos quais só iniciados sabem se movimentar.

Tudo isso para mim é muito curioso. Revela a possibilidade bem concreta de que uma cena tão comercialmente poderosa como essa (e como tantas outras) – com milhares de discos, bandas, fãs, festivais etc. – consiga existir e prosperar fora do “mainstream” e mesmo avessa às técnicas convencionais de divulgação usadas pelos produtos da indústria cultural que aparentemente são mais “universalmente” compartilhados, ou são mais facilmente visíveis para habitantes de múltiplas bolhas.

Como sou interessado em muitas outras bolhas, passo algum tempo distante das novidades do metal. Então, a cada novo passeio por essa cena, renovo meu espanto e tenho consciência da minha vergonhosa ignorância ao perceber tudo que perdi no “afastamento”. Saio do passeio energizado, totalmente elétrico. Como agora. Novamente. Listo e linko aqui poucas das muitas estonteantes descobertas (tudo eu não conhecia antes, e quase nada aparece em listas de melhores do ano fora da heavy bolha):

  • Myrkur – autora do segundo melhor disco do ano segundo a Metal Hammer – impressionante por ser uma invasão feminina no reino muito masculino do black metal, apontando o futuro do gênero sob tratamento de folclore dinamarquês – veja o clipe de Ulvinde
  • Zeal & Ardor – o blues mais tradicional e as inovações do hip hop se encontram na extremidade death com resultado que deveria ser ouvido com atenção por músicos de todas as outras bolhas – neste vídeo a banda mostra que consegue reproduzir seu ecletismo estético também ao vivo
  • a revista vem com CD encartado – na seleção de músicas a que mais capturou minha atenção (além do heavy folk mongol-nova-iorquino do Tengger Cavalry) foi Manic Void (aqui a aula de guitarra), da A Sense of Gravity, metal progressivo de Seattle – fui correndo procurar pela banda, que já é a minha favorita de todos os tempos nesta semana, e seguindo o “veja também” do YouTube acabei conhecendo em seguida os italianos da Abiogenesis – deu para entender que essa ala progressiva do novo metal é uma evolução quase alienígena do virtuosismo anos 1970 de um Yes – é algo para além do humano, música de inteligência artificial
  • na lista de melhores shows de 2017 está a apresentação (no festival Midgardsblot, realizado em cemitério viking) da Heilung, melhor banda de todos os tempos da semana que vem e de muitas outras a seguir, os criadores de um gênero além música (é mais ritual pós-xamânico) batizado de (o nome é genial) “história amplificada” – era apenas a segunda performance (das duas únicas de sua carreira) que esse povo, coletivo, não-sei-bem-como-classificar, realizou num palco – a primeira, na Holanda, pode ser vista do começo ao fim no YouTube (gosto especialmente deste momento aqui) – não sei a razão de ter me dado também saudade do Magma
  • na revista ainda há muitos elogios para os brasileiros do Cavalera Conspiracy e do Jupiterian (e seu doom metal mascarado) – o Brasil continua influente nesta cena (vide matéria linkada acima na qual fica clara a importância do Sepultura para a educação de Kai Uwe Faust, vocalista do Heilung)

Tudo isso pode parecer “fringe” demais, desviante demais, paralelo demais, para merecer atenção das outras bolhas. O melhor seria deixar essa bolha escondida no seu canto? Não é mais assim que as coisas funcionam. Não há mais uma bolha realmente central, e outras periféricas. A novidade cultural mais importante, e que vai ter influência decisiva e surpreendente na vida planetária, pode acontecer numa bolha totalmente perdida no espaço memético de maior visibilidade transbolhas. A tarefa principal, para quem quer produzir política cultural (no seu sentido mais amplo) consequente, é arejar a vida inter e intra bolhas, aumentando as possibilidades das informações circularem de uma bolha para a outra, promovendo encontros inesperados entre o que existe de melhor em cada uma delas. Com tanta bolha interessante por aí, é um desperdício viver cheio de preconceitos e isolado.

bolhas

26/02/2018

Claro: vivo numa bolha. Como estou aqui dentro, e bolhas se comportam como se fossem o universo inteiro, não sei qual é a minha… Talvez, a bolha de quem acredita em bolha.  Ou talvez a bolha (bloco com cordão mágico) do eu sozinho… Meu consumo de mídia varia muito pouco. Vou sempre nos mesmos sites, podcasts, blogs. Meu RSS tem pouco feed novo recente. Em tese, como é costume para nativos da minha bolha, eu deveria ter comportamento diferente: acionar o espírito aventureiro e explorar novas fontes, surpreendentes. Mas a preguiça é maior. O consolo é acreditar que essa minha dieta básica e acomodada de informação já me apresenta surpresas suficientes: coisas e assuntos que eu ignorava antes e que passam a ter centralidade em minha vida. Este blog está cheio dessas descobertas fundamentais. Como agora: no meu podcast velho querido de guerra, o Expanding Mind, apresentado por Erik Davis, que sempre reaparece por aqui, acabo de ficar encantado pelo pensamento de Bruce Damer. Sim, sou parte da bolha do Expanding Mind, uma daquelas duas mil pessoas que sempre fazem download de cada edição. Provavelmente a maioria delas já devia conhecer Bruce Damer. Eu não, o que talvez seja motivo suficiente para não ser da bolha tanto assim. Porém, ouvir ali a sua conversa com Erik me deu motivo para querer ter uma bolha de qualquer jeito. Dois motivos principais.

Primeiro. Bruce Damer desenvolveu uma nova teoria sobre a origem da vida que nos ensina que não estaríamos por aqui se não fossem as bolhas. Seus argumentos já foram até capa da Scientific American, mas não tinham capturado minha atenção até ouvir o podcast. Pois bem, resumo bem irresponsável: a vida não apareceu no mar e sim em poças de água térmica, que secavam e enchiam novamente, por séculos e séculos, em ciclos. Borbulhantes. Muito borbulhantes, com bolhas cada vez mais fortes, a cada ciclo. Nos seus interiores iam acumulando as moléculas matérias primas para a formação do código genético. “Surfando o ‘noise’, a segunda lei da termodinâmica” (que só prevê aumento da desordem, nunca surgimento da ordem) em três etapas fuzzy: primeiro encontrando maneiras de hackear a probabilidade, depois inventando uma técnica de comunicar conquistas anti-Caos para outras bolhas, e depois desenvolvendo uma memória de todo seu cíclico aprendizado. Tudo fascinante: o segredo é repetir, repetir, repetir. Uma hora aquilo que é interessante aparece. Teoria boa, bonita, como pensaria um meu tio onça de Guimarães Rosa.

Segundo. Descobri em Bruce Damer um aliado no meu gosto por conhecer gente que vive em outras bolhas (acho que por isso sou antropólogo). Erik descreve Bruce como um freak típico de San Francisco. Olhando as fotos de Bruce no Burning Man temos que concordar com esse elogio. O cara é realmente uma figura. Então Erik fica intrigado: como alguém assim convive com as normas bem mais caretas da comunidade científica? Ou com a formalidade da Nasa (onde apresentou – e como ele se diverte apresentando – seu projeto lindo de nave espacial que captura asteroides [bem diferente dos asteroides espaçonaves de Kim Stanley Robinson]). Bruce responde: “quando estou com eles, eu sou eles”. Sabe “trocar de pele”, desenvolveu técnicas para se transformar no Outro, simulando ser o Outro, e isso é estratégia para um “meta understanding”. Não é furar bolhas. Mas transitar entre bolhas. Tento ser assim também. Não quero trazer ninguém para minha bolha. Curto passar um tempo na bolha alheia. Descansa. Quando vou, por exemplo, em qualquer ritual religioso, não é meu objetivo fazer catequese. Naquele momento que estou ali, busco acreditar naquilo que as pessoas que estão ali acreditam. Tento entender sua crença. Respeito religiosamente suas regras. Já disse que sou cada vez mais relativista. Não tenho jeito para ser diferente. Claro que não visito qualquer bolha. Há limites. Afinal, fico com os versos de Kabir: “Eu / tudo o que procuro / é uma boa companhia”. Entenda quem quiser entender. Mas isso é papo pra lá de Marrakesh. Pra bem dentro de um souk de Clifford Geertz. Fronteiras do “local knowledge” e adiante.

Até porque o papo do Erik com o Bruce termina com indicações sobre uma nova teoria da consciência: “campo de intenções”; “sistema operacional do real”, “formatando probabilidade”. Tudo é consciente? Tudo iluminado? Consciência produz todo o resto, como parte de todo resto? Fico esperando as respostas no webminar adiado (“until further notice”) de Bruce Damer. O que ele vai pensar em seguida.


%d blogueiros gostam disto: