complexo militar-industrial

23/11/2017

Artigo muito esclarecedor sobre as novíssimas peripécias da inteligência artificial no New York Times (obrigado Sandra Kogut por me passar o link): Can A.I. Be Taught to Explain Itself? Eu não conhecia ainda a sigla X.A.I.… Muito prazer? Boa sorte para os que tentam ensinar “accountability” para as máquinas. Hoje, cada vez mais, mesmo quando elas “acertam”, poucos humanos sabem explicar direitinho quais os caminhos que seus pensamentos artificiais seguiram para tomar aquelas decisões… Já acho que não tem mais volta… São inteligências bem alienígenas…

Porém, fiquei bem mais impressionado ao reconfirmar algo que aprendi nos anos 1980 lendo Paul Virilio. Se não fosse o investimento estatal-militar (sobretudo via DARPA), não teríamos nem internet, nem machine learning. Mesmo a Siri, da Apple, nasceu soldadinha. Qualquer indústria “civil”… É tudo sobra da preparação constante para a guerra. E ainda tem gente que acredita que o maior motor da inovação é o tal mercado…

Citações de Paul Virilio retiradas do livro “Guerra pura” (uma longa entrevista conduzida por Sylvère Lotringer), lançado no Brasil em 1984 (aquele ano…) pela Brasiliense: “o comércio surge depois da chegada da guerra a um lugar, depois do estado de sítio”. Ou: “foi a fortaleza como fortificação permanente que instituiu a cidade em permanência. A sedentariedade urbana está, assim, vinculada à durabilidade do obstáculo.” Em resumo: “a cidade é o resultado da guerra ou, pelo menos, da preparação para a guerra.”

Para que fui lembrar disso logo agora, quando acabo de descobrir a obra de Brian Hayden, que defende que a civilização toda teve origem não na guerra, mas na festa, no desejo de farrear?

 

Anúncios

Harari etc.

19/11/2017

Não li os livros de Yuval Noah Harari. Não por preconceito com best-sellers. (Sinto até saudade dos lançamentos de Judith Krantz…) Mas a megadivulgação não me convenceu de que encontraria por ali uma reflexão que me forneceria “valor agregado” (como dizem…) Fiquei com a impressão, talvez errônea, de ser um bom mapeamento de ideias que já foram aprofundadas de forma mais surpreendente por outros muitos autores. (O que já seria um bom serviço…)

Porém, comecei a escutar agora, atrasado, o podcast do David Runciman (aqui minha apresentação bem desatualizada – como os anos depois de sua publicação foram cruéis… Penso que mesmo Runciman anda revendo muita coisa que escreveu em “The confidence trap”…) O primeiro episódio é uma entrevista com Harari. Um trecho me chamou muito a atenção. Harari fala do poder em breve possivelmente imbatível de grande corporações que sabem tudo sobre nossas vidas e podem também prever tudo que vamos fazer, em quem vamos votar etc. Mas suas observações são de antes de todas as descobertas bem recentes sobre a atuação de bots “russos” em eleições e plebiscitos do “Ocidente”. Seria até confortável acreditar (como Theresa May em seu já famoso discurso “we know what you are doing“) que o Kremlin está por trás de tudo. Teríamos um “inimigo” único para atacar. Mas e se não houver essa coordenação? E se Putin estiver surfando numa onda que não pode controlar (e que pode, de uma hora para outra, se voltar contra seu governo)? E se tudo for resultado da ação randômica de centenas de milhares de hackers lobos solitários escondidos na Dark Net pelo planeta afora?

As Grandes Corporações e mesmo os Estados Nacionais parecem perdidinhos, sem ter a menor ideia sobre o que fazer para combater as novas ameaças. O poder dos poderosos não parece mais tão eficaz. Ou estou sendo ingênuo?
 

Alberto Mussa

11/11/2017

Escrevi este texto no início de 2016. Era para a revista Boca Coletiva, que parece que encerrou suas atividades. Então publico aqui atrasado. Com atualização no final, pois saiu este ano um novo volume do “compêndio mítico sobre o Rio de Janeiro”, assinado por Alberto Mussa. Talvez o correto fosse reescrever tudo. Mas não tenho tempo agora. Vai assim, com remendo:

Alguns livros de ficção provocaram efeitos concretos, talvez até biologicamente transformadores, na minha maneira de estar no mundo ou processar informações do mundo, incluindo upgrade na interface corpo/mundo. Não foi sempre assim. É fenômeno recente na minha relação com a literatura, percebido depois de cinco décadas de vida. Lembro ter ficado transtornado com a leitura de “Os três estigmas de Palmer Eldrich” (aqui a edição brasileira mais recente), de Philip K. Dick, no início dos meus vinte anos, ao absorver cada uma de suas palavras geralmente no ônibus no Aterro ou na barca atravessando a Baía de Guanabara (eu estudava na UFF e morava em Copacabana). Parecia que vivia overdose da droga intergaláctica traficada na ficção. Pensei que nunca mais voltaria ao “normal”. Mas voltei, com poucas sequelas, algum tempo depois de atingir a última página.

Coisa diferente, e surpreendente, aconteceu quando descobri Kim Stanley Robinson, lendo “2312” três anos atrás. Tenho certeza: não piso mais na Terra da mesma forma. Agora, a não ser quando estou muito distraído, tenho plena consciência de estar a bordo de um planeta totalmente especial, neste sistema solar. Aprendi a concordar, de maneira visceral, com a reflexão da personagem central de “Aurora“, seu lançamento de 2015: “Talvez a resposta adequada para ficar de pé na superfície de um planeta, ao ar livre na sua atmosfera, bem próximo de sua estrela local, é sempre terror. Talvez tudo o que os humanos fizeram ou planejaram fazer foi projetado para se esquivar desse terror.” Mesmo agora, em fevereiro de 2016, quando vejo Júpiter pairar bem brilhante sobre as águas de Copacabana, eu permaneço, por longos instantes, aterrorizado (e também de certa forma maravilhado) com a sensação física opressiva (e também de certa forma leve) de estar preso/viajando aqui neste canto do universo. Ando com o Google Sky Map ligado. Nem saberia que aquele brilho ali vem de Júpiter se meus neurônios e o resto das células do meu corpo não tivessem passado pelo tratamento radioativo da ficção de Kim Stanley Robinson.

Neste canto do universo: Rio de Janeiro, sensação térmica beirando os 50 graus. (Escrevo em pleno carnaval.) Minha maneira de pisar nos asfaltos, morros, areias e pós-manguezais da cidade se transformou radicalmente e visceralmente depois que li Alberto Mussa. Não consigo mais atravessar o Aterro sem pontadas constantes de terror/maravilhamento lembrando o delta formado pela foz do rio Carioca, terreno quase impossível de ser cruzado por terra para chegar ao Castelo há 400 anos. Em cada caminho passei a carregar todas as épocas superpostas, sem ordem cronológica, tudo junto e misturado, ficção e realidade, seguindo as lições trans-históricas do projeto de cinco romances policiais que Mussa está publicando, um para cada século do Rio, mas não lançados na ordem “certa” (o primeiro foi “O trono da rainha Jinga“, ambientado no século XVII, o segundo foi “O senhor do lado esquerdo“, século XX, o terceiro “A primeira história do mundo“, século XVI – o próximo está prometido para o século XIX).

Terror sim, basicamente, isto é, na base de tudo, todo o resto. O narrador de “O senhor do lado esquerdo”, cujo subtítulo é “O romance da Casa de Trocas”, deve anunciar o projeto de Mussa para o “compêndio mítico”, “projeto absurdo”, formado por cinco volumes cariocas: “o que define uma cidade é a história dos seus crimes”, e não arquitetura, geografia, heróis, costumes, poesia. E faz questão de explicar melhor: “Falo dos crimes fundadores, dos crimes necessários; e que seriam inconcebíveis, que nunca poderiam ter existido a não ser na cidade a que pertencem.” Não é exatamente uma teoria ufanista, mas ao mesmo tempo não é inventada ou investigada por alguém que despreza a cidade. Há certamente um amor febril, trágico, na descrição desse fundamento cruel, assustador, aterrorizante.

Cada um dos povos que passaram por aqui, sobretudo os que mais ajudaram a formar a cara da cidade, deixou sua receita para tornar a crueldade mais requintada, mais específica, sem paralelo em outras cidades. Há algo da pá virada no feng shui de seus bairros. Tudo sangue quente. Muito quente. Em “A primeira história do mundo” encontramos a descrição da mais dura lição/contribuição tupi: “essa categoria metafísica fundamental, causa última de todos os fenômenos da natureza e da cultura: a vingança.” Consequência prática: a vida é uma guerra de tudo contra tudo. Mesmo na relação entre vivos e mortos: “Porque os mortos, na verdade, cantam. Descrevem como, quando e por quem morreram. Não dizem a causa, apenas, porque esta é única, é universal: a vingança. É o canto dos mortos que os sacis aprendem e reproduzem para os pajés, durante o sono, para exigir que sejam vingados – e não termine nunca o pêndulo que move o mundo.” Dá para imaginar o terror dos portugueses, holandeses, franceses, piratas ou não, que aqui também guerrearam, diante de práticas/teorias da crueldade tão diferentes das suas. Era preciso rachar a cabeça dos inimigos mortos, para ganhar um nome e poder ter filhos. Portanto, sem inimigos não havia reprodução da vida, biológica e social: “quando os parentes eram muitos, e havia poucos inimigos, se dividiam em metades que passavam a se matar.” Quem era comido por inimigos ia direto para a “terra sem mal”. A crueldade era também piedade, uma forma alienígena de bondade, incompreensível para europeus cristãos e também cruéis.

Em “O trono da rainha Jinga” somos apresentados a uma seita de africanos com sua peculiar maneira de lidar com e explicar a existência do mal no mundo. Haveria desde sempre e para toda a eternidade, uma quantidade finita de maldade para ser cometida. Por isso, nos crimes que praticavam nas ruas do Rio de Janeiro do início do século XVII, com a cidade fundada há pouco mais de cinquenta anos, não bastava matar inimigos. Era necessária uma morte com crueldade horripilante. Na verdade, quem morria, ou era torturado em meio aos mais violentos rituais e piores venenos, nem precisava ser inimigo. Aquela irmandade comandada por gente de Angola praticava atos de maldade aleatória. Cada ato mais cruel que o anterior, para dar baixa na cota de mal, e o resto do mundo – principalmente os membros da irmandade – poder ficar em paz: “quer o máximo de mal sobre os outros, para que nada lhes reste.” (Estranha semelhança com a tese central de um dos sete romances que compõem “7”, de Tristan Garcia: para cada rosto belo que existe, há um rosto horrível – a cota de beleza no mundo também é finita.)

Então, no compêndio mítico de Mussa, a cidade se converte em campo de batalha para todas essas metafísicas conflitantes sobre a origem e o destino do mal no mundo. Ou laboratório onde novas possibilidades de crimes fundadores são testados, atraindo gente de todos os cantos do planeta, como o polonês de “O senhor do lado esquerdo”, que chega no Rio para realizar experiências pré-Wilhelm-Reich ou pós-Marquês-de-Sade da sexualidade humana, logo na casa que foi da Marquesa de Santos. Gente que acredita que a vida tem que ter necessariamente dois lados, não exatamente espelhados no par yin-yang chinês, mas em “velhas tradições africanas que associam o homem à luz, aos números ímpares, às florestas e ao lado direito. Femininos são, portanto, a noite, os números pares, as profundezas aquáticas e o lado esquerdo. Trata-se, como se vê, de mundos incomunicáveis.” Assim como não havia possibilidade de comunicação entre um pajé tupinambá e um jesuíta catequizador. A cidade é resultado dessa falta de comunicação em série. Ainda que tenha produzido alianças inesperadas, ou possivelmente esperadas demais. Um exemplo: “Herdeiros imediatos da filosofia tupi – já incorporada à cidade -, segundo a qual o indivíduo só se torna pleno se tiver um inimigo, os capoeiras passaram a se dividir em maltas, com territórios definidos e emblemas específicos (como fitas de cor, assobios e espíritos tutelares).” Origem bem diferente das congêneres da Bahia, de Cuba, da Venezuela, onde tudo começou como “brincadeira e jogo de piruetagens”. No Rio, explica o narrador de “O senhor do lado esquerdo” o fundamento é “tática de guerra”.

Nesse sentido é possível entender o elogio que esse mesmo narrador faz para o prefeito que resolveu derrubar o morro do Castelo, algo impensável (e quando vi pela primeira vez as tais fotografias da derrubada achei que contemplava Serra Pelada) em qualquer cidade que cultiva sua memória em modo linear: “Para mim, todavia, Carlos Sampaio foi um místico: primeiro, porque – ao destruir os sítios de fundação – ratificou a condição atemporal do Rio de Janeiro, cidade que existe desde sempre, não apenas a partir de 1565.” Por isso sua opção de estabelecer mito de fundação “fora da cronologia” (opção também de Mussa), pois “o conceito de cidade independe da noção de tempo”.

Herdamos assim uma eternidade urbana cruel. Mussa, com seus novos mitos cariocas, escreve a biografia (as biografias) desse nosso coração das trevas particular, e – nas entrelinhas – aponta as linhas de fuga e túneis secretos (inclusive ligando os cinco romances), para quem quiser enxergar, virar onça, e fugir para frente.

*****

REMENDO 2017: apenas alguns trechos de “A hipótese humana“, que reforçam/expandem os diagnósticos – transétnicos, transclasses, transtudo… – do Rio de Janeiro (em qualquer século de sua história) e os objetivos ontológicos/metafísicos da literatura de Alberto Mussa descritos acima:

  • “era uma criminalidade essencialmente endógena: capoeiras vitimavam capoeiras, membros de grupos rivais” (p. 24)
  • “homens de verdade não se importam com justiça; apenas com vingança” (p. 40)
  • “a morte natural é logicamente impossível.” (p. 135)
  • “O transe não constitui uma perda dos sentidos: é precisamente o fenômeno inverso; a conquista de uma plenitude cognitiva, perceptiva e perspectiva, relativamente às várias configurações do mundo.” (pp. 136-137)
  • “Um homem triste não pode ser inteligente” (p. 142)
  • “não pode haver literatura , no sentido mais essencial do termo, se se prescindir do Mal. Porque 0 Mal é a exceção; o Mal é o Outro – elemento contrastivo necessário que cria em nós a noção de humanidade.” (p. 70)
  • “Embora eu mesmo tenha escrito o livro, não sei tudo. Presumo apenas.” (p. 89)
  • “E todas as versões, mesmo as mentirosas, contribuem para a composição da verdade.” (p. 130)
  • “o que não é segredo, não se pode descobrir.” (p. 137)
  • “nem todas as verdades podem ser provadas.” (p. 151)

mistério do planeta

01/11/2017

Escrevi este texto no início de 2016. Foi uma sugestão da querida Ana de Oliveira, corajosa realizadora da Iyá Omin, com quem eu já havia tido a alegria de colaborar no projeto do livro sobre o disco “Tropicalia ou Panis et Circencis”. A ideia era agora fazer homenagem/reflexão semelhante para outro disco da mesma importância, o “Acabou Chorare”, com vários autores e artistas se dedicando a cada uma de suas faixas. O novo livro foi lançado no primeiro semestre deste ano. É uma maravilha. Além das muito diversas interpretações de todas as canções, há material de arquivo que só a Ana sabe coletar e publicar, como já fizera no tesouro que é o site Tropicalia. Pena que não teve a divulgação merecida nas mídias tradicionais e “novas”. Muito mais gente deveria saber da sua existência. Até porque “Acabou Chorare” deveria nos servir de guia para enfrentar a crise de hoje. Foi produto de uma das épocas mais aterrorizantes da história brasileira, mas não pode existir lição maior de liberdade e criatividade.

Minha canção escolhida foi “O mistério do planeta”:

O mistério de “Acabou chorare”: João Gilberto. O que não é novidade ou surpresa: ele é mistério maior da cultura brasileira, uma das encarnações mais esotéricas do mistério do samba, cada vez mais cercado por segredos sagrados. Sua relação com a turma dos Novos Baianos, no Rio de Janeiro, pode ser pensada como um dos momentos mais públicos de sua trajetória misteriosa, quando o próprio mistério sai de seu retiro e trabalha determinadamente para produzir um milagre que transforma eficazmente os destinos artísticos do país, e também a maneira com a qual uma nova geração inventava seu lugar no mundo. Apesar de toda determinação e eficácia, os procedimentos não são claros – algo bem adequado a todo acontecimento realmente misterioso ou milagroso.

Há, como era de se esperar, muitas versões sobre cada momento da relação. Seu mito de origem mais difundido fala da aparição inesperada de João Gilberto na porta da cobertura de Botafogo onde os Novos Baianos viviam, sendo confundido com um policial por causa de seu terno. O que seria pitoresco: a lei divina travestida de lei dos homens, a condenação que depois vira redenção. Outras narrativas menos detalhistas resumem a principal lição do encontro: João Gilberto teria revelado o Brasil para a turma de cabeludos hippies, direcionando seu olhar para “dentro”, para sua “verdade interior” vista como nacional: do rock para o samba, de Jimi Hendrix para Assis Valente. Na visão de gente que acredita na tese tola da bossa nova vista como inovação traidora do samba “de raiz”, ou o autêntico nacional submisso ao jazz internacional, tal atitude já foi interpretada como admissão de culpa ou remissão de pecado: o caminho escolhido agora seguiria sentido oposto, a mão contrária, desaprovando o fora, encaminhando ovelhas perdidas na ilusão do rock para a verdade do pandeiro.

Isso sim seria traição da bossa nova, do samba, do grande poder transformador com o qual samba e João Gilberto desafiam o Brasil. Seria também traição do rock. A lição de João Gilberto não poderia ter sido tão pequena, menor – isso não seria um milagre, e sim a voz de prisão, o enquadramento de um policial mesquinho. Seus ensinamentos foram bem diferentes, muito mais amplos, complexos, libertários, profundos, misteriosos. E seus discípulos estavam longe de serem meninos ingênuos, alienados, de costas para o Brasil.

Os meninos (e as meninas) eram espertos, informados, sabiam muito bem em que terra pisavam. A turma nasceu assim: Galvão passou na pensão de dona Maritó para encontrar Moraes. Suas primeiras palavras: “Tom Zé mandou-me aqui. Estávamos fazendo música, mas o Tropicalismo o chamou para São Paulo e ele profetizou que seríamos parceiros.” Com profecia de Tom Zé, o mais ousado estudioso do samba, não se brinca. Quando encontraram João Gilberto (para Galvão era um reencontro, mas desde 1961 em Juazeiro os dois não se viam), já tinham trocado ideias com o melhor da “avant-garde na Bahia” e com o concretismo paulistano. “É ferro na boneca”, o primeiro LP, era disco com rock sob filtro tropicalista, com sanfona, com tangolete, nem um pouco distante das contradições que movem as identidades brasileiras, como comprova a faixa “O samba me traiu“, na verdade um hino bem nietzscheano para o sol daqui (um dos hinos para o sol lançado pelos Novos Baianos). João Gilberto escutara “É ferro na boneca” com atenção, sabia quem iria encontrar. E escolheu a forma como o encontro iria acontecer.

Minha narrativa preferida do encontro está contida no livro “Anos 70: novos e baianos”, de Galvão. Para continuar em ambiente misterioso, posso chamá-lo de “Evangelho segundo Galvão”. Há contradições na comparação com outras narrativas. Não estou aqui em busca de verdade, mesmo tropical. Quero aprofundar o mistério. A letra de “Mistério do planeta” também pode nos guiar nessa empreitada. Lembrando, começa assim: “Vou mostrando como sou / E vou sendo como posso / Jogando meu corpo no mundo / Andando por todos os cantos / E pela lei natural dos encontros / Eu deixo e recebo um tanto”. A lei natural dos encontros favoreceu os Novos Baianos. Eles vinham jogando seus corpos pelo mundo, andando por todos os cantos, inclusive prisões e Arembepe, e acabaram chegando ao Rio, na cobertura de Botafogo. Segundo Galvão, João Gilberto, que também passava temporada no Rio, descobriu que Galvão estava por perto e tomou a iniciativa do encontro. O primeiro recado, com número de telefone, chegou “por um primo”. Galvão foi imediatamente para o orelhão, João Gilberto atendeu e deu as seguintes instruções: “Venha às duas da madrugada que eu tenho um presente para você. Preste atenção, Luizinho, ligue para mim às cinco da tarde. Não esqueça.” No telefonema das cinco, depois de tocar duas músicas, incluindo “Antonico” que Galvão não ouvira antes, mais ordens: “Vá descansar, temos que estar preparados. Um encontro é coisa séria. É o melhor que se pode dar a alguém. Não esqueça de telefonar quando chegar na esquina. Até mais. Seja feita a vontade divina.”

Qualquer semelhança com regras de iniciação esotérica não é, obviamente, mera coincidência. Tudo faz parte de uma lei natural dos encontros criada por João Gilberto, que sabia como cada detalhe deveria se passar, mesmo diante das surpresas aprontadas pelo acaso. Quando Galvão, o Luizinho, após passar três dias quase sem dormir na casa do mestre, pede para voltar com Moraes, Paulinho e Baby, João Gilberto reluta, diz já conhece gente demais: “só você está bom. Ou não está gostando?” Galvão responde: “não sou mais sozinho. Faço parte de um todo.” Uma hora de argumentação de Galvão depois, João reconsidera dizendo até que Baby poderia vir com “espelho na testa”, mostrando que sabia muito bem com quem estava falando, e como o admirável novo mundo baiano lhe interessava.

Repetindo: para João Gilberto, um encontro é “coisa séria”, “o melhor que se pode dar a alguém”. Ele escolheu dar seu melhor para os Novos Baianos. Contrariando seus hábitos de eremita, visitou a cobertura de Botafogo várias vezes. Parecia descobrir ali uma utopia, uma zona autônoma temporária, um sonho. Ao ouvir uma notícia ruim, João Gilberto mudou o rumo da conversa: “Não esquentem não. Vamos continuar com o som. Vamos continuar com o sonho.” Não se tratava de maneira alguma de conselho para fuga da realidade. Como a canção “Na fogueira” anunciou, no último disco dos Novos Baianos, “o sonho é o mais belo caminho para a realidade/eternidade“. (Em “Sou o caso deles”, colocar alguém no mundo, significa botar na realidade e também mostrar a eternidade.)

A lição de João Gilberto para os Novos Baianos não pode ser entendida como uma exigência de brasilidade. Seus presentes foram múltiplos: vitaminas americanas (“Dizem que isso rejuvenesce e até tira rugas.”), dólares para o café da manhã, pedaço de letra para “Acabou chorare”, a descoberta de “Autobiografia de um iogue” (“Não é um livro comum para você apenas ler, mas ele mudou a minha vida e o tenho além da minha cabeceira. É o meu outro lado da Bíblia. Ele é meu guru bendito Paramahansa Yogananda.”), e samba, é claro, muito samba (os Novos Baianos aprenderam rapidamente sambas do repertório de João Gilberto, e mostraram suas versões em primeira mão para Glauber Rocha).

Outras aulas eram dadas com didática desconcertante. Gosto especialmente da descrição do momento em que ele tocou, ou deixou de tocar, com Pepeu: “Pepeu, que estava junto, e por ser um jovem de muito talento e um brilhante músico já reconhecido pela juventude, entrou no som com seu violão, mas, em minutos, Pepeu teve que parar a viola, porque João já estava em outra, com o jovem músico consequentemente sobrando. João tratou imediatamente de tranquilizá-lo: ‘Pepeuzinho, não se grile, estou apenas ensinando-lhe a fórmula'”. João Gilberto tinha Pepeu em alta conta. Conversando com Galvão, ele deixou entrever o que imaginava/desejava ser o futuro dos Novos Baianos: “Olhe, se Pepeu quiser ir para os Estados Unidos, eu falo com Stan Getz ou Sergio Mendes e ele tocará com um deles. Acho, no entanto, que o melhor seria ele ficar com vocês, porque vocês têm um grande trabalho para realizar no Brasil junto a essa juventude.”

O mestre verdadeiro é este: aquele que sabe descobrir o melhor em seus discípulos, para eles conseguirem realizar o melhor para o mundo. João Gilberto não provoca uma mudança radical nos Novos Baianos, suas lições apenas aceleram um processo natural de desenvolvimento artístico. O que havia ali como potencial, força bruta ainda desorganizada em “É ferro na boneca”, adquire rigor, clareza, segurança, mesmo mantendo sua integridade caótica e ar espontâneo juvenil. Mas a intensidade do desenvolvimento, com resultado em “Acabou chorare”, é tão fulminante, que só pode ser ouvida como milagrosa.

“Mistério do planeta” condensa todo o aprendizado em letra e som. Paulinho Boca de Cantor parece cantar o capítulo seguinte do tratado de filosofia da imanência radical contido no verso minha opinião central de “Besta é tu” (“por que não viver neste mundo, se não há outro mundo”): o jogo de corpo para se aproximar do grande mistério é descobrir que não há mistério nenhum, ou o mistério está todo (“o tríplice mistério do stop”) nesta vida, sem explicação escondida em outra vida, outro mundo, outro planeta. Mesmo assim, ainda há espaço para um parêntesis, onde surge o malandro/moleque brasileiro, que anda por aí como o louco (o vagabundo e a vadiagem são imagens recorrentes na lírica de Galvão) do Tarot, em andança pelos Trópicos, sabendo tornar invisível sua sacola. Não haver outro mundo não significa ausência de mágica (quem contrariar a lei do Cosmos já paga ao contrariar). E então, como do nada, ouvimos o noise também radical da guitarra malandra do moleque brasileiro Pepeu, que se mostra digno da fórmula de João Gilberto.

lições de cosmologia

30/10/2017

Não paro de pensar nesse “misterioso” objeto que está nos visitando por pouco tempo, aqui em nosso sistema solar (veja a animação de sua trajetória que ilustra a matéria do New York Times). No anúncio de sua chegada, o que mais me impressionou foi descobrir ser acontecimento tão raro, o primeiro registrado pela astronomia. Imaginava que haveria vários outros corpos interestelares semelhantes andando por aqui o tempo todo. Agora que fui surpreendido pela notícia de que esse não é o caso, tenho sensação inteiramente nova de claustrofobia. Vivemos isolados em nosso cantinho na periferia do Braço de Órion da Via Láctea. Fora do nível das partículas não recebemos visitas, nem nada local vai visitar outros lugares do Universo.

E se sair daqui vai demorar muito tempo para chegar perto de qualquer outra estrela. O outra notícia “recente” impressionante, mas também para mim decepcionante, foi a colisão de duas estrelas de neutrons há  130 milhões de anos, mas que só agora pôde ser observada aqui da Terra. A observação provou que as ondas gravitacionais viajam na velocidade da luz. Então é provável que Einstein esteja totalmente certo: nada, nem essa onda esquisita que brinca com a “elasticidade” do espaço-tempo, ultrapassa os 299.792.458 metros por segundo, passo de tartaruga para distâncias galáticas. Estamos condenados a ir “só”, e com muito esforço, até Plutão, ou quem sabe, Alfa Centauri (4,4 anos luz do Sol)? Com tanta coisa estranha e curiosa no resto do Universo? Que monotonia… Cadê minha Enterprise quando mais preciso dela?

Na falta da Enterprise…: a viagem da Voyager completou 40 anos agora em setembro. Primeiro objeto produzido por humanos fora do Sistema Solar. A matéria de Nadia Drake para a National Geographic chega a ser comovente, até por sua autora ser filha de Frank Drake, astrofísico que desenhou o mapa que ilustra o famoso disco de ouro da Voyager (finalmente podemos escutar sua seleção musical) indicando o lugar que a Terra ocupa no Universo. Em 40 anos o zeitgeist parece ter mudado completamente. O otimismo dos anos 1970 gerava atitude despreocupada: queremos fazer contato, venham nos visitar! Agora vivemos paranoia dominante: fomos loucos, imprudentes, de mandar aquele mapa para o espaço. Os ETs, conhecendo nossa localização, certamente viajarão para cá com o objetivo de nos destruir. A repercussão da matéria de Nadia Drake exigiu um outro artigo negando o perigo. Nele, Frank Drake afirma que na época do lançamento da Voyager não passou pela cabeça de ninguém a possibilidade de ETs do mal radical. O Universo era visto como território amigável…

Anos atrás, quando fazíamos juntos o programa Navegador, Ronaldo Lemos me apresentou a ficção científica chinesa de Cixin Liu. Já li toda a trilogia dos três corpos (os dois primeiros livros já foram lançados no Brasil). Tudo fascinante, uma das melhores leituras da minha vida (também recomendada por Obama). Mas é produto de visão pessimista bem característica dos tempos atuais, não importa o continente ou a cultura do observador: a premissa básica é que o Universo é território mais que hostil. Portanto devemos ficar escondidos aqui no nosso canto. Calados. No escuro sideral. Quanto mais isolados melhor… Tentarei escrever sobre Cixin Liu em breve, neste blog.


%d blogueiros gostam disto: