Posts Tagged ‘Agostinho da Silva’

inteligência artificial antropófaga

21/10/2017

Em agosto, recebi surpreendente convite do laboratório brasileiro da IBM Research para participar de painel no seu Colloquium 2017, abordando os impactos culturais da inteligência artificial (IA) em nosso país.  Sempre me interessei por inteligência artificial, mas de forma totalmente diletante. Tive menos que dois meses para preparar minha fala. Foi uma correria. Mesmo assim, nem precisava me esforçar para encontrar material de pesquisa pois, quase que diariamente, o assunto estava nas manchetes de jornais e capas de revistas. Deixo aqui anotações que fui colecionando durante o aprendizado mais que intensivo. Como o convite era maluco (por que eu?), achei exigia uma intervenção maluca. Chegando lá – diante de seleta plateia de centenas de cientistas e engenheiros – amarelei. Fui bem comedido. Mas, aqui no blog, posso exagerar na maluquice irresponsável (ou talvez responsável demais, dependendo do ponto de vista):

No dia primeiro de setembro, Vladimir Putin proferiu uma “aula aberta” via satélite para abrir o ano letivo russo. Da lição científica presidencial, a frase mais retuitada foi a seguinte: “quem se tornar o líder nessa área [IA], dominará o mundo”. Parecia recado para seus coleguinhas, também viciados em testosterona, Donald Trump e Kim Jong-un. Como se dissesse, bancando o mais inteligente: “vocês perdem tempo brincando com mísseis, a batalha mais importante acontece em outro campo e usa outras armas…” Porém, o que mais me chamou a atenção foi algo pouco comentado nos artigos que repercutiram os ensinamentos do professor Putin: o objetivo principal da produção de conhecimento por uma nação não é algo vago como “contribuir para o aumento dos índices de felicidade geral” ou o “combate contra a injustiça” ou a “descoberta da verdade”, mas sim “dominar o mundo”. Eis o bê-a-bá do imperialismo.

Melhor deixar de lado esse tipo de especulação. Afinal, como descobrir o que realmente se passa na inteligência de Putin? Como se certificar se seus discursos não sejam apenas pistas falsas, escondendo seus verdadeiros planos de dominação global? Até porque, se há realmente uma corrida armamentista no campo da IA, a Rússia – ao que tudo indica… – não parece ocupar postos próximos aos primeiros colocados. EUA, China e talvez Índia estariam correndo na frente, quase isolados dos demais países.  O resto é o resto.

E o Brasil estaria no resto do resto. O que isso significa? Está tudo – para ser – dominado por IAs que não pensam em português, que vão nos impor – sem escapatória – seus vieses culturais, suas maneiras bem específicas de classificar ou enxergar ou manipular a realidade, o mundo ao redor? Penso na IA do Google que colocou pessoas negras sob a tag “gorila”, provavelmente por, no seu processo de aprendizado, só ter lidado com seres humanos brancos. Os brasileiros seremos invisíveis, meros ruídos incompreensíveis (ou insignificantes, ou desclassificados), fantasmas nas máquinas da nova ciber-ordem? A quem interessará o investimento em machine learning para tornar detectáveis nossas diferenças?

Fiquei assustado com o cenário apocalítico, mas descrito com frieza ou objetividade comercial espantosas, que aparece no artigo que Kai-fu Lee, poderoso investidor “venture” chinês (ex-diretor do Google na China), publicou este ano no New York Times. Em resumo: a corrida é entre EUA e China. A IA vai acabar com a maioria dos postos de trabalho. A única saída será alguma espécie de renda universal, com impostos sobre as empresas vencedoras. Maior problema: o que fazer com os países que não terão empresas vencedoras? Não haverá alternativa (a pregação da crença neoliberal do artigo resposta de colunista da Forbes não me deixou menos preocupado): teremos que virar colônias dos vencedores, como mercado do consumo, aceitando os quadrados ou bolhas nos quais os algoritmos de Washington ou Beijing nos colocaram.

Mais assustador ainda foi descobrir recente edição especial sobre IA da revista Science e tomar conhecimento do trabalho do Centro de Psicologia Positiva da Universidade da Pensilvânia (comandado pelo psicólogo superstar Martin Seligman) com algoritmos para identificar sinais de depressão e outros problemas bem humanos nas redes sociais. Tudo bem intencionado. Um dos projetos se chama Bem-estar Mundial. Não quero ser ranzinza e alertar apenas para os problemas éticos óbvios, que todos os “papers” assinados pelos pesquisadores dessa instituição fazem questão de identificar com alertas: nossa saúde mental vai ser agora diagnosticada sem nossa autorização? Esse é somente uma característica de nossa realidade big brother/data cada vez mais sofisticada. Questão mais sutil: que diagnóstico será esse? Sabemos que culturas diferentes classificam estados mentais de maneiras distintas. Depressão em distantes bairros de uma mesma cidade pode não significar a mesma coisa. Vamos aceitar os laudos de algoritmos, mesmo com vieses “positivos”, feitos na Pensilvânia?

Sei que não sou a primeira pessoa me preocupar com esses aspectos da dominação global da IA. Há importantes debates e instituições nos EUA que tentam encontrar saídas para vários desses impasses. Cito a FATML.org, que cuida de “fairness, accountability and transparency” (prefiro não traduzir, pois são conceitos – até eles – que funcionam melhor em inglês) em processos de machine learning. Ou a diversity.ai, que lida com “inclusion, balance, neutrality”. Muitas empresas, como a Autodesk, criam departamentos para combater várias espécies de vieses. Tudo bem, tentam fazer sua parte. Mas qual a nossa parte? Seremos apenas espectadores, mendigando por algumas migalhas de atenção para nossas especificidades culturais, ou queremos ter voz ativa na invenção da nova política global? Nem espero tanta atividade: uma pequena intervenção realmente original nesta conversa já me deixaria menos desanimado.

*****

Tudo bem, muito o que se fala atualmente sobre IA é hype. Mas o hype geralmente cria as tais “janelas de oportunidade” que podem ser aproveitadas por quem está de fora do debate principal, usando a confusão blá-blá-blá geral para dar pitaco na conversa para a qual não fomos chamados. Na minha opinião o Brasil perdeu a oportunidade da internet. Não inventamos um aplicativo original para o uso da Grande Rede, como o Skype criado por estonianos, suecos e dinamarqueses (mas talvez seja o único exemplo de algo que realmente se internacionalizou – junto ao Waze? – vindo de fora dos EUA… e que acabou sendo comprado pela Microsoft). Nem criamos versões locais de ferramentas globais capazes de em seguida terem impacto no resto do mundo, como os chineses conseguiram com o Alibaba ou o Baidu. Os brasileiros se contentaram basicamente com o papel de consumidores vorazes das novidades, campeões ou vice-campeões em uso de redes sociais, publicação de vídeos, números de mensagens instantâneas trocadas… Nosso comportamento foi cada vez mais adquirindo o padrão de servidão voluntária diante de grandes corporações como Facebook. Trocamos a liberdade do código aberto (ou da noção de que a informação quer ser livre) por condomínios fechados administrados por empresas cada vez mais espertas no uso e na venda de nossos dados privados. Desconfio que quando falam em desenvolvimento nacional, grande parte dos brasileiros (inclusive dos economistas brasileiros) está pensando apenas na compra de camisetas da Abercrombie via Amazon. E todos ficam felizes com os mesmos uniformes aparentemente cosmopolitas, ou descaradamente submissos.

Meu consolo: pode existir algo criativamente predatório nessa tendência apenas consumista. Muitos estudos e artigos (por exemplo este aqui) sobre os trabalhos em vias de desaparecer por causa da IA profetizam que as juventudes das periferias pobres serão as parcelas da população mais prejudicadas quando operários ou pessoal administrativo forem substituídos por computadores. Habilidades mais sofisticadas, ou menos “algoritmizáveis”, como a comunicação, seriam monopolizadas por gente mais rica, estudantes de MBAs caros. Olhando para o que aconteceu no Brasil, sinto alívio em descobrir furos interessantes nessa tese. Novos comunicadores das periferias parecem ser os mais bem sucedidos criadores de conteúdo online no país.

Pense no Whindersson, que apareceu recentemente no topo da lista dos maiores influenciadores do Brasil, acima de apresentadores e atores da “mídia tradicional”. Ele foi criado em Bom Jesus, interior do Piauí, e hoje lota estádios de todas as capitais brasileiras com seu show solo de comédia stand-up. Observe atentamente a plateia da gravação de seu DVD em Salvador: em sua maioria parece ser formada por gente que não costuma frequentar teatro, uma novidade no show business brasileiro. Está ali para ouvir um monólogo que mistura observações de cultura tradicional nordestina com cultura pop de jogos eletrônicos e mangás japoneses, um mash-up de referências que são sempre pensadas, em ambientes acadêmicos, como mundos sem conexão.

Outro exemplo importante: Kondzilla é hoje um dos principais empresários de música e audiovisual no país. Seu canal no YouTube tem mais de 20 milhões de assinantes. O conjunto de vídeos ali publicados já acumulou mais de 7 bilhões de visualizações. Nenhuma outra empresa da mídia brasileira tem o mesmo tipo de sucesso online, construído na marra, inventando estratégias de viralização originais. Kondzilla tinha apenas 18 anos quando, com o dinheiro do seguro recebido após o falecimento de sua mãe, comprou sua primeira câmera de vídeo e começou a publicar clipes de MCs do funk santista e paulistano na internet. Vários outros fenômenos das periferias das grandes cidades brasileiras, do tecnobrega paraense ao sertanejo do Centro-Oeste, tiveram trajetórias semelhantes, abrindo caminhos em nova realidade diante da qual grandes gravadoras fracassaram.

Mas claro: tudo isso acontece utilizando plataformas de novas grandes corporações, em nuvens que não habitam céus brasileiros. Continuamos totalmente dependentes de tecnologia estrangeira para estabelecer links entre produtores e público.

*****

Também considero tímidas as tentativas de reflexão crítica sobre essa situação por parte das ciências sociais brasileiras. Há esforços isolados, aqui e ali. Pouca continuidade entre as tentativas, que surgem e desaparecem ao sabor de mudanças das políticas científicas e institucionais.

Em 1995, fui convocado por Tadao Takahashi, então diretor da RNP (a instituição que criou a – e ainda cuida da – espinha dorsal da internet brasileira, na época com sede carioca numa sala de fundos do IMPA), para organizar seminário “sobre aspectos sócio-culturais da internet no Brasil”. Chamei meus colegas antropólogos Eduardo Viveiros de Castro e Jayme Aranha Filho para me ajudar na tarefa. Eram tempos bem “ingênuos”: não havia ainda internet comercial no país. Para quem não era de universidade e governo, a única porta de entrada para a rede era uma ONG, o Ibase. A RNP imaginava que haveria tempo para planejar qual seria a melhor maneira da abertura comercial. O seminário aconteceu nos dias 28 e 29 de agosto daquele ano, no auditório do LNCC. Pouco tempo depois, o ministro Sérgio Motta autorizava a criação de provedores, que gerou um boom (a internet era o único futuro para tudo) que não deu muito em nada.

Se não fosse o esforço pessoal do Jayme Aranha Filho provavelmente o material do seminário estaria perdido. Os anais podem ser lidos neste link e retratam tentativa de estabelecimento de diálogo entre cientistas sociais e “das exatas” que não teve sequência realmente consistente e profunda, mas que agora em tempos de IA deveria ser considerado prioritário.

*****

Sou antropólogo. Os antropólogos são seres estranhos, escolheram trabalhar não com big data, mas com small data: nosso método principal de pesquisa é o “trabalho de campo”, imersão por período longo de tempo na vida cotidiana de um grupo pequeno de pessoas, mesmo quando estudamos em grandes cidades, com suas culturas complexas e heterogêneas. O contato face a face é a ferramenta principal para nossas melhores descobertas. Obviamente um olhar big data pode nos ajudar em várias tarefas (até porque podemos pensar a cultura como a primeira inteligência artificial) – um dos aspectos mais fecundos da reflexão antropológica vem de seu pendor comparativo, quando estabelecemos conexões entre costumes de muitas culturas diferentes (fico imaginando se a IA ajudaria Lévi-Strauss na investigação sobre seus mitemas). Porém, é preciso desconfiar de gente que tenta nos vender a ideia de que tudo agora será resolvido com machine learning.

Aprendi a cultivar essa desconfiança com um sociólogo, para muitos o maior sociólogo americano vivo. Tive a enorme sorte, a partir da apresentação de Gilberto Velho, de ter Howard S. Becker como orientador no ano que passei com bolsa sanduíche na Northwestern University, entre os créditos e a defesa de tese do meu doutorado. Howie, como exige ser chamado pelos estudantes, se tornou um de meus principais interlocutores para conversas nas quais o tema principal era tecnologia, pois sempre esteve atento aos avanços de várias áreas ciberculturais, como comprova o texto pioneiro que escreveu sobre o hipertexto (e sua amizade com Michael Joyce) ou o outro sobre novas mídias e a web.

Quando cheguei na Northwestern, fiz, com Howie e o saudoso Dwight Conquergood, um curso sobre performance e ciências sociais. Não era teoria: em todas as aulas tínhamos que fazer performances artísticas baseadas em textos de sociologia e antropologia. Mas ele insistiu que eu me inscrevesse também no curso do professor Charles Ragin, que envolvia estatística pesada (hoje o trabalho de Ragin é bem conhecido pelo uso inovador que faz dos “fuzzy sets“, que também têm aplicações bem curiosas no campo da IA). Portanto, não pensei duas vezes antes de mandar para o Howie, em 2008, um dos primeiros artigos que li sobre pesquisas big data nas ciências sociais.

Eu tinha ficado empolgado com a abertura de novas possibilidades para nosso trabalho. Achei que meu orientador americano, hipster de 80 anos, vibraria também. A primeira mensagem de volta, sempre recebida com rapidez impressionante, foi uma ducha de água gelada. Howie dizia que não tínhamos conjuntos de dados massivos sobre as coisas que realmente nos interessam pesquisar. O exemplo que me deu era sobre o livro que estava escrevendo na época, em parceria com Robert Faulkner, que agora já foi publicado como “Do you know…?“, sobre como músicos que nunca antes trabalharam juntos decidem repertórios para tocar na noite ou em festas. Não há banco de dados com todas as música tocadas nessas ocasiões. Não interessa a ninguém e seria muito caro criar esses bancos de dados.

Insisti, maravilhado com a riqueza dos outros bancos de dados que estariam sendo formados a partir da interação de milhões de pessoas nas redes sociais então nascentes. Cito a resposta quase completa (pedi autorização, era apenas um email pessoal) para não ser infiel a nenhuma sutileza do argumento (palavras para mim fundamentais não apenas para cientistas sociais, mas para qualquer uso de big data):

I’m always a little (more than a little, really) suspicious when someone tells me about a way to find out all the things that fieldworkers are really interested without having to do all the work that it usually requires. In this case, everyone (not just you!) is telling me that I don’t have to do anything, the internet and social networking sites and so forth are more or less automatically accumulating mountains of information about all the things I’m interested in and it’s there for the taking. There’s usually a catch in all this, which is that there’s data about some things and not about others, and it’s only human to say to yourself, “Well, I might as well look at what’s available and see what we can do with that,” instead of saying, “Here’s what I’d like to know about, does this material tell me about that or not?”

To take what’s on my mind right now, which is the repertoire, the songs musicians play when they get on the bandstand, let’s even imagine that some site would accumulate information about all the music that anyone, anywhere, anytime is playing and has played, and who played it and in what kind of setting, etc. What would still be missing is the interchange among the players that led to them playing just those songs, and that’s the part that we’re convinced is crucial. The rest is interesting, nice and even helpful to know. But what tells the story decisively is what they talk about as they negotiate things.

Claro, há sempre a possibilidade – digamos que não temos mais custos de armazenamento – de gravar em vídeo 3D ou traquitana semelhante todas as negociações. Mas – e aqui eu Hermano acrescento – isso seria como o mapa de Borges, que fica inútil por ser do tamanho do território, ser uma cópia exata do território que queríamos representar. Teríamos que enviar antropólogos para fazer trabalho de campo nessa “second life” (antes que vire cartografia despedaçada, apodrecendo no “deserto do real”). Ou ensinar uma IA a ter olhar antropológico e mesmo os anthropological blues de Roberto da Matta. É isso realmente o que queremos? Podemos criar também IAs antropólogas brasileiras?

*****

Há uma maneira brasileira de pensar? Conseguiríamos aqui construir uma inteligência artificial realmente outra, alienígena para padrões dominantes, ou fora do projeto Putin de dominação mundial? O Brasil não acabou? Por que insisto nessa ideia de que o Brasil tem algo de original para propor para o mundo? A realidade recente toda não me contradiz?

Sou insistente, repetitivo, não consigo sair desse loop… Quando Cláudio Pinhanez me convidou para o colóquio da IBM brinquei com ele: temos que inventar uma inteligência artificial antropófaga, ou tropicalista. Lembrei os aforismos do Manifesto de Oswald: “nunca fomos catequisados, fizemos foi o carnaval”. E o carnaval é sim uma outra forma de inteligência, bem artificial. Mais um aforismo, este mais adequado ao tema em questão: “nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós”. Há inteligência artificial ilógica? Outra lembrança: admitimos sim, entre nós, o nascimento da lógica paraconsistente de Newton da Costa, e que poderia nos guiar no caminho para uma IA brasileira ambígua, não entre o sim e o não, mas acreditando piamente no sim e no não, tudo ao mesmo tempo agora, uma outra lógica talvez também chinesa (lembremos que – como Gilberto Freyre sonhava – o Brasil é a China Tropical).Uma IA que talvez nos ensine a lidar com a mistura não apenas como entropia, e sim como um sinal de que nada é puro. Pensar a bagunça, na bagunça – isso não deveria ser considerado tarefa impossível para seres inteligentes.

Outro caminho: fazer a IA virar escritora fan fiction de Guimarães Rosa (via também Eduardo Viveiros de Castro) se metamorfoseando em IA onça, não humana. Gosto da ideia de Close AIs e Far AIs. Quanto mais longe a gente conseguir ir, melhor, mais surpresas. Ir além de Wittgenstein: se um leão falar, vamos dar um jeito de entender o que ele diz. Remixagem xamânica de “formas de vida”, algumas naturais  (mas nem todas humanas), outras artificiais. Navegando contra a (in)sensatez de John Searle, seguindo trilha multinaturalista: pensamento é um só, corpo e perceptos/afectos são múltiplos. Ou não. Vamos descobrir. Ou não tão longe: que tal uma IA que fale as quase 200 línguas indígenas ainda vivas no Brasil? Sei que as IAs ainda engatinham no português. Mas por que se contentar com pouco?

*****

Durante o período em que fazia pesquisa em busca do que falar no colóquio da IBM, ouvi – como faço religiosamente – vários episódios do podcast do meu amigo Erik Davis. Foi assim que descobri o pensamento de Ken Goldberg. Não parei mais de devorar, como uma onça, suas ideias, que saio por aí replicando memeticamente. O texto que escreveu para o Wall Street Journal é um bom resumo. Gosto especialmente – eu empenhado deleuziano – de sua ordem para esquecermos a Singularidade e pensarmos a multiplicidade. Não um algoritmo único no final da História. mas um enxame de sistemas cognitivos, baseados em uma matilha de modelos diferentes, junto com humanos e outras formas de vida, não guerreando pela dominação total/mundial, mas estabelecendo múltiplas formas de colaboração entre si.

Assim, guiado por Ken Goldberg, cheguei ao conceito (já patenteado!) de random forest, ou florestas randômicas (explicação simples neste podcast). Tudo por aí me atraí, e tento juntar com o que acho interessante quando penso em IAs brasileiras: não um monólito 2001, copiado igual em todo o universo, mas um conjunto fuzzy de fragmentos muito diversos, cada um com sua experiência, e a soma das experiências produzindo um carnaval, ou carnavais. Mandei o artigo do Ken Goldberg para o Eduardo Viveiros de Castro. Ele me respondeu, sintético e preciso: “Sobretudo temos de colocar a floresta literal nesta multiplicidade… Fazer o salto, da Amazon à Amazônia…”

*****

Minhas melhores descobertas de livros não acontecem com o uso dos algoritmos da Amazon. Foi numa estante de livraria tradicional que encontrei “La France contre les robots” de Georges Bernanos. Contém textos escritos por volta de 1945, quando estava exilado no Brasil, cuidando de uma fazenda em Barbacena. Fiquei fascinado, imaginando Bernanos no seu cavalo, indo todo dia da fazenda para um café na cidade, onde escrevia em francês seus sermões desancando os imbecis. Digo isso como introdução pitoresca para citar um trecho que agora, com a IA, faz novo sentido: “O perigo não está nas máquinas, senão deveríamos realizar o sonho absurdo de destruí-las pela força, à maneira dos iconoclastas que, espatifando as imagens, pensavam aniquilar também as crenças. O perigo não está na multiplicação das máquinas, mas no número incessantemente crescente de homens habituados, desde sua infância, a desejar apenas aquilo que as máquinas podem dar.”

Lembrei-me então de outro europeu aqui exilado, o português Agostinho da Silva, em suas entrevistas publicadas no livro “Vida conversável”, que é um dos meus favoritos, sempre na cabeceira. Não era contra as máquinas. Achava que deveríamos prestar homenagens ao parque industrial que pode contribuir para a “libertação do homem”, se bem utilizado. Acreditava que a economia global já produz o suficiente para um regime de renda universal, onde só trabalharia quem quiser e gostar daquele trabalho específico. Mas o professor Agostinho da Silva escreveu o seguinte: “Nunca ninguém enamorado do imprevisível conseguiu construir uma máquina.”

Então com essa mistura improvável de Georges Bernanos com Agostinho da Silva ficam aqui minhas sugestões para um projeto realmente original de IA brasileira: vamos imaginar outros desejos, múltiplos? E outras máquinas que nos presenteiem com o imprevisível? Máquinas que produzam as transformações desejadas por Gilberto Gil em “Cibernética“, canção dos anos 1970:

Onde lia-se alfândega leia-se pândega
Onde lia-se lei leia-se lá-lá-lá

Anúncios

quem tem medo de espectro? – o retorno

15/11/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 14/11/2014

Não consigo mais escrever sem internet. Fico o tempo todo alternando “abas”, entre processador de texto e navegador, até para consultar a grafias ou gramática. Então, antes de iniciar esta coluna, liguei o wi-fi, que me respondeu com lista de redes ao alcance: há nove sinais com força suficiente para minha utilização. Mas os vizinhos tomaram cuidado de protegê-los com “cadeados” virtuais. Depois da reflexão da semana passada sobre a “escassez” do espectro eletromagnético, fiquei mais sensível para essas demonstrações de desperdício. Claro que seria mais racional, em termos de banda/grana, transformarmos essas redes privadas sobrepostas, e subutilizadas, em compartilhado wi-fi público. Porém, já fizemos escolha pela vida de cada um no seu quadrado espectral.

Sim, conheço movimentos pela abertura de todos esses cadeados, liberando as redes de nossas casas/empresas para quem passa por perto. Custos adicionais seriam compensados quando precisarmos da banda larga do wi-fi alheio. Pena: a indústria do medo nos faz pagar caro por isolamento, afirmando que qualquer abertura nos tornaria vulneráveis para ataques de ladrões de dados, como se toda conexão com a internet não fosse já arriscada (mesmo com todos os cadeados do mundo) ou como se as redes sociais, nuvens e governos não espionassem todos nossos passos eletrônicos. Não adianta: eu e meus nove vizinhos pagamos dez vezes pela “mesma” conexão.

Manuais de modem/roteador nos ensinam que espaço público deve ser evitado. Parece com congestionamento de SUVs blindados na porta de colégios de elite. Dizem as cartilhas de segurança: transportes públicos são perigosos. Resultado: em vez de brigar por melhores (em todos os aspectos) linhas de ônibus, os “poderosos” fogem das ruas, deixando o “comum” para quem “depende de programas sociais”. Abandono também visível na decadência dos orelhões – que não por acaso têm nome oficial de “telefones públicos”. Tudo indica que a “sociedade” já fez a escolha, aparentemente mais cômoda ou segura, de trocá-los por celulares privados e pela dependência de operadoras e fabricantes de “obsolescência programada”.

****

Estou parecendo velho comunista, perseguindo espectros, incluindo nostálgica ternura por wi-fi compartilhado? Enquanto escrevia o texto da sexta-feira passada, com link para o “Manifesto Comunista”, fiz pesquisa paralela sobre a utilização do termo “espectro” na obra de Marx e Engels. A língua alemã tem a palavra “Spektrum”, mas no “Manifesto” encontramos “Gespenst” que tem mais cara de “fantasma”. Tanto que quando apareceu em inglês pela primeira vez foi traduzido por “hobgoblin”, adequado para personagem de Tolkien. Traduções posteriores preferiram a maior seriedade de “spectre”. Mesmo assim, como demonstrou Derrida em seu “Espectros de Marx”, continuamos numa cena hamletiana, entre fantasmas e fetichismos (hoje fantasiados de “hedge funds” que rondam as novas crises do capitalismo).

****

Descobri, lendo a página “Verso” deste jornal (aquela que brinca com nossa percepção do real alterando o sentido da leitura), a comemoração dos 150 anos da Primeira Internacional, quando “os trabalhadores do mundo se uniram”. Tanto tempo depois, os fantasmas ocupam o centro do palco das representações mesmo sindicalistas: estamos aprendendo a lidar com “trabalho imaterial” ou com o “precariado”.

Hoje, em Nova York, tem início conferência chamada “Trabalho digital”, que pretende colocar em debate novas formas fantasmagóricas de trabalho (terceirizado, free-lancer, flexibilizado etc.), incluindo a polêmica sobre a definição do que fazemos nas redes sociais como “criação de valor” ou “exploração trabalhista” para/por empresas donas desses espaços (públicos? privados?) de convivência, onde temos avatares e encontramos robôs e “fakes” a cada instante. Multidões de espectros rondando nossas vidas. Novos invasores de corpos.

****

Quando Agostinho da Silva será descoberto em outras línguas, para além de nosso mundo lusófono? Em “Vida conversável”, publicado em 1994 pela Editora da UNB, ele defendia claramente a “abolição da obrigação do trabalho”. Nosso eterno professor lutava por um mundo em que “a máquina chegue a sua máxima elaboração, cujo fim será o de nunca nos oprimir, em que só tenham que trabalhar com ela os homens que lhe tenham amor, homens que estejam apaixonados pela máquina”.

****

Anunciado na coluna passada, o crowdfunding (“ajude-nos a construir o futuro que a humanidade merece”) do Ind.ie conseguiu arrecadar 43% de US$ 100 mil em menos de 24 horas. Mesmo sem contribuir todo mundo precisa ver o vídeo da campanha em https://ind.ie. Aparentemente nem os fantasmas ficarão fora da nova nuvem.

Abul Abaz

21/06/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 20/06/2014

Ontem foi dia de Corpus Christi. Em Pirenópolis, Goiás, essa data marca o início da Cavalhadinha, uma versão infantil – para menores de doze anos – da Cavalhada realizada durante as homenagens ao Divino Espírito Santo, duas semanas atrás. Como em muitas de nossas festas populares, as crianças fazem “mash-up” de elementos brincantes com procedências diferentes. Já escrevi que muitos mestres de brincadeiras brasileiras atuam com DJs misturando ousadamente várias tradições, inventando outros futuros para a vontade geral de festejar. A Cavalhadinha reúne “Imperador do Divino, Reis e Rainhas do Reinado de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, Pastorinhas, Congo e Contradança, catira feminina, Cavaleiros e Mascarados com seus cavalinhos de pau.”

De forma vigorosa, Pirenópolis realiza aquilo que Agostinho da Silva identificava como meta do “povo português”: “que a criança deve ser proclamada imperador do mundo, que é ela que tem que mandar no mundo e que é na medida em que manda que o mundo pode realmente melhorar.” Assim, todos podemos experimentar, na hora da festa, uma prévia da Idade do Espírito Santo: “do imprevisível, isto é, do gênio criador, plenamente solto de qualquer espécie de limitação.” O Divino “voa aonde quer”.

Interessante é ver essa vontade de “eliminar limitações” conectada, no cerrado brasileiro, com a reencenação de torneios medievais que, por sua vez, reencenavam descrições poéticas de batalhas entre cristãos e muçulmanos (ou mouros). Uma das fontes principais para essa memória popular foram “canções de gestas”, principalmente aquelas sobre as aventuras do imperador Carlos Magno e seus “Doze Pares da França”, a partir da emboscada em Roncesvales (na verdade, o ataque surpresa foi feito por bascos, mas a imaginação de trovadores preferiu editar a História para culpar o Islã).

Estamos em 2014, época de muitas lembranças bélicas. Além do centenário da Primeira Guerra Mundial e dos 70 anos do Dia D, talvez fosse importante guardar um tempo para recordar também os 1.200 anos da morte de Carlos Magno, provavelmente um dos criadores da ideia de Europa como civilização cristã e “ocidental”. Sua importância não pode ser menosprezada. O historiador Jacques Le Goff, que morreu este ano (tenho que escrever coluna em sua homenagem), afirma – em “A Idade Média e o dinheiro”, leitura excelente para momento de Piketty-celebridade – que Carlos Magno, em seu império, criou “um cenário muito mais bem ordenado quanto à moeda”, acabando com a descentralização da cunhagem por moedeiros, criando as bases primitivas para surgimento do capitalismo muitos séculos depois.

Mas não é sobre dinheiro que quero falar aqui. Não sei como veio parar nas minhas mãos o livro “Tornando-se Carlos Magno”, de Jeff Sypeck (professor de literatura medieval na Universidade de Maryland). São poucos os documentos históricos com informações sobre esse momento conturbado. Sypeck romanceia a partir dos dados disponíveis, mesmo tentando ir além da atmosfera carregada por mitos. Encontramos cenário bem mais complexo que aquele das cavalhadas, com divisão clara entre cristãos e mouros. As relações entre Aachen, pequena vila que se transformou em capital imperial, com os papas de Roma eram intricada rede de intrigas. No Oriente, havia Irene, comandado outro império, o bizantino, e se defendendo dos ataques de Bagdá, onde reinava o califa Harun al-Rashid. No extremo ocidental, na Península Ibérica, o Califado Omíada, expulso de Damasco para Córdoba pelos antecessores de Harun. Para lidar com tantas diferenças, Carlos Magno, além de guerreiro, foi hábil diplomata.

E que diplomacia. O trecho que mais me surpreendeu no livro trata da embaixada que Carlos Magno, procurando aliados contra Constantinopla e Córdoba, mandou para Bagdá. Dos três emissários, o único que retornou, cinco anos depois, foi um judeu chamado Isaac. Sim, um judeu, com missão de negociar com governo que controlava Jerusalém. Seus companheiros de viagem, Lantfrid e Sigimund, morreram no caminho. Porém, Isaac não voltou sozinho. Estava acompanhado por Abul Abaz, um elefante. Sua chegada em Aachen tem data precisa: 20 de julho de 802. Portanto, desconfio que não seja pura invenção de cronista maluco.

O elefante era presente do califa Harun para Carlos Magno. Causou espanto onde passava, não era um animal comum mesmo no norte da África. Imagine num barco cruzando o Mediterrâneo até aportar em Gênova, e depois atravessando paisagens alpinas. Abul Abaz, era esse o nome do elefante, virou meu herói, ponte gordinha contra o “clash” das civilizações. Deveria virar personagem da Cavalhadinha de Pirenópolis, entre os mascarados coloridos. Afinal, tradição é para ser renovada. Sempre.

gerações

09/02/2013

texto publicaldo na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 08/02/2012

Outro dia tentei fazer uma adolescente (13 anos) compreender que não é bacana ser descuidada com seus pertences a ponto de ter que trocar de celular a cada 30 dias. Ela não entendia meus argumentos: “mas os celulares não são dados de graça pela operadora?” Expliquei pacientemente: “não existe boca totalmente livre neste mundo”; os custos do aparelho estão incluídos no plano de serviços ou são retirados dos pontos do programa de fidelidade (e não podem ser encarados como brindes). Não adiantou: eu mesmo não acreditava que minhas palavras iriam convencê-la a mudar de comportamento. Senti até vertigem ao contemplar o abismo geracional que causava ruído em nossa comunicação.

Já apontei, em vários textos desta coluna, a questão central para o desentendimento: fui criado num mundo da escassez; os novos adolescentes estão acostumados com a abundância. Não existe tradução fácil entre essas duas economias. Quem tem a minha idade se lembra do tempo em que fazer interurbano custava uma fortuna. DDDs só eram utilizadas em ocasiões solenes. Hoje qualquer pirralho pode deixar o Skype ligado 24 horas por dia para ficar em contato direto com primos que moram em Hong Kong. Ainda sinto leve pânico quando vejo isso acontecer, esperando a conta astronômica, ou encarando tudo como desperdício. Os novos habitantes deste planeta já são produtos de uma cultura do “ilimitado” (começando pelos SMSs), mesmo com bombardeio da publicidade do apocalipse ecológico.

Meu discurso “o aparelho é pago pelo plano” ainda faz algum sentido, mas qualquer pessoa pode constatar: objetos industrializados, mesmo com tecnologia de ponta, estão ficando muito mais baratos, e acessíveis para um número a todo instante maior de pessoas (portanto, não estou tratando de problema de crianças da antiga classe média – o abastamento virou característica transclasse). O mercado já sabe: pagamos cada vez mais por serviço e não por coisas. E esse barateamento daquilo que é “material” tende a se radicalizar.

Em sua coluna mais recente, publicada no jornal The Austin Chronicle (olha a abundância aí, gente: pouco tempo atrás seria impossível ter acesso rápido a essa publicação sem viajar para o Texas), meu guru Michael Ventura comenta a robotização avassaladora das fábricas de coisas palpáveis. Inclusive nas plantações, exércitos de “agribots” vieram para ficar e cortar custos na produção de alimentos. Mesmo os robôs são produzidos por outros robôs. Seus preços diminuem com velocidade espantosa, o que aumenta o número de empresas que podem utilizá-los.

Com a chegada das impressoras 3-D, nossas fábricas robotizadas particulares, outros custos desaparecem: distribuição, intermediários do comércio, manutenção de equipamento etc. O valor de todas as coisas vai se aproximar de zero? Então como ensinar para as novas gerações que as coisas (facilmente substituíveis) têm algum valor? O recurso mais óbvio é produzir escassez artificial (por exemplo: o custo de fabricação de uma mochila na China é US$5, mas ao ganhar marca “exclusiva” seu preço fica 25 vezes maior). Mas até quando esse truque simbólico vai funcionar?

Ventura se preocupa mais com outra consequência deste nosso estado “das” coisas: além do preço dos objetos, o número de empregos também encolhe (até os serviços são dominados por máquinas: você não sente um frio na espinha quando liga para a operadora do seu celular e o atendente virtual sabe sua identidade, ouve sua voz e ainda diz “entendi”?). Então: “o que as pessoas vão fazer?” Com apenas robôs trabalhando, que regime político e econômico dará sentido ao mundo da produção? Veredito: “Não há mecanismo para parar a nova revolução industrial (e não estou dizendo que deva haver). Mas a eliminação da maioria dos seres humanos dos meios de produção mudará, bem, tudo.” Outra pergunta de Ventura: estamos condenados a virar filósofos procurando resposta para a velha pergunta sobre a serventia dos seres humanos, que pelo que parece só causam problemas para um mundo que está descobrindo maneiras de se complexificar sem nossa presença?

Agostinho da Silva (ele sempre reaparece por aqui) resume assim a história da Humanidade: o desejo de cada vez mais coisas nos levou a inventar um parque industrial que agora, “se bem utilizado”, pode ser instrumento de nossa libertação, criando economia da quietação, “que não semeie em nós o desejo”. Em outras palavras: com tudo “de graça” descobriremos que não precisamos de tantas coisas, e poderemos cuidar melhor do que já temos.

Prego a quietação e desejo bom carnaval para todos. Não tão contraditório assim: a folia nos ensina que, com quase nada, podemos ser abundantemente alegres.

Divino

18/06/2011

texto publicado em minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 10-06-2011

Neste domingo, por outra coincidência festiva de 2011 (que já juntou o Sábado de Aleluia com o dia de São Jorge), vai haver folias do Divino e quadrilhas para Santo Antônio em todo o Brasil. Sempre que observo o calendário das festas brasileiras fico impressionado. Já declarei que fazer festa é nosso maior talento nacional. Fui – irresponsavelmente – até bem mais além e dei a seguinte sugestão maluca: o Brasil poderia se especializar em festa, fazer só festa na vida. Quem estivesse triste viria para cá, cairia na gandaia e voltaria para o seu país alegríssimo da silva, deixando por aqui seus iuans, rublos e rúpias (ainda nos interessam dólares e euros?) com os quais criaríamos uma potente economia da festa non-stop, que por sua vez nos daria lugar assegurado em qualquer conselho de segurança (sem alegria não há verdadeira segurança). Quem disse que fazer festa não dá trabalho? Teríamos empregos de sobra, mas com todo mundo ganhando a vida na flauta de pífano. Deixaríamos trabalhos chatos para os outros…

Todo ano surge festa nova no Brasil, e muitas assumem dimensões “dromos”. Samba dá no sambódromo, boi-bumbá dá no bumbódromo e assim por diante, pois atrás vem gente dançando em bloco gigantesco. Gosto de citar o exemplo da festa do carneiro ao vinho. Já ouviu falar em Peabiru? É cidade paranaense, que inventou esse festejo, que quase dobra a população da cidade todo ano. Impossível dizer qual festa vai vingar, virar tradição. Algumas tradições desaparecem, outras renascem (com ou sem apoio oficial), com dinamismo sempre surpreendente. O caso da Festa do Divino é muito bom para pensar, sobretudo quando se fala em preservação de patrimônios imateriais. No Século XIX, era a maior festa do Rio de Janeiro (ver o livro Império do Divino, de Martha Abreu, para excelente história dessa manifestação popular), realizada durante um mês no Campo de Santana. Hoje, praticamente desapareceu. O carnaval tomou seu lugar como celebração maior carioca. O gosto pela festa migrou de uma data para a outra, e nem por isso o Rio perdeu sua identidade. Identidade muda constantemente, e talvez se fortaleça com as mudanças.

O Festa do Divino migrou também, geograficamente. Em alguns lugares, cresceu, em meio a muitas alianças com outras folias e crenças. Como no Maranhão, onde o Divino tem fortes conexões com o Tambor de Mina, a religião afro-brasileira local. Ou como em Goiás: a cidade de Trindade realiza uma das maiores festas do Centro-Oeste, com tudo de mais novo que há no catolicismo pós-carismático brasileiro. Mesmo em meio a tantas variantes (é preciso lembrar a tradição mais caiçara, daqui do lado, em Paraty), a coincidência da véspera de Santo Antônio de Lisboa e do dia de Pentecostes me fez lembrar de suas raízes (aéreas e mutantes, com certeza) lusitanas. Mais especificamente voltei aos textos do meu grande mestre Agostinho da Silva, português que tantos bons presentes deu ao Brasil, inclusive um plano de “fuga para frente” (expressão de Waly Salomão) que poderia muito bem orientar a história de nosso futuro.

A Festa do Divino ocupou lugar central no pensamento de Agostinho da Silva, em sua vertente mais utópica (ou realista, depende do gosto do freguês/leitor/discípulo). Preciso citar suas palavras, que poderão ser lidas como uma reza neste domingo, pedindo ao Espírito Santo uma nova ideia de desenvolvimento para o Brasil e o mundo: “O dia em que se celebra o Espírito Santo era o dia em que o povo português dizia aquilo que queria. Sabem o que ele queria nesse dia? Que todas as crianças fossem de tal modo livres e desenvolvidas que pudessem dirigir o mundo pela sua inteligência, pela sua imaginação, não propriamente por saberem aritmética ou ortografia, mas por serem eles próprios, porque eram os pequenos, as crianças que deviam dar ao mundo e aos homens, o exemplo do que devia ser a vida. E em segundo lugar eles diziam que a vida devia ser gratuita, que ninguém tinha que pagar para viver e que trabalhar para viver. Que tendo a vida sido dada de graça, era inteiramente absurdo, passar o resto da vida a ganhá-la. E eles então achavam que a vida um dia há de ser de graça para toda a gente. E ainda uma coisa extremamente importante. Iam à cadeia da terra e abriam as portas para que todos os presos saíssem, para que ninguém mais passasse a vida amuralhado e encerrado entre grades; que viesse para a vida e na vida se retemperasse e na vida renascesse para ser aquilo que devia ser. Era uma anistia talvez. Um sinal de que um dia o crime desaparecerá do mundo…”

***

Pensei em Agostinho da Silva, em como ele esteve sempre a frente de seu tempo, ao ler a entrevista que Herman Daly, economista ambiental, deu recentemente para a revista Seed. Ele diz que o Banco Mundial ficou alegre ao constatar que vários países cresceram 7% ao ano por 25 anos. Se isso continuar a acontecer a economia mundial vai quintuplicar até 2033. Chegando lá, o mundo estará satisfeito ou desejaremos mais crescimento? Ou é crescimento pelo crescimento? Agostinho da Silva imaginava que o mundo já estaria rico o suficiente para uma deliciosa bolsa-família universal. Só trabalharia quem quisesse trabalhar, por prazer. Quantas hidroelétricas vamos ter que construir até que isso aconteça? Só o Espírito Santo poderá nos sossegar?


%d blogueiros gostam disto: