Posts Tagged ‘Blitz’

LusoMuitaCoisa

12/07/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 11/07/2014

Logo nas primeiras horas de domingo, dia da final da Copa, a Praça do Comércio de Coimbra, Portugal, receberá o show de rap “Há palavras que nasceram para a porrada”, marcando o encerramento do Colóquio Internacional Epistemologias do Sul. Como o rap encontrou com a epistemologia? O colóquio foi organizado pelo “Alice – espelhos estranhos, lições insuspeitas”, projeto de pesquisa dirigido por Boaventura de Sousa Santos, professor catedrático da Universidade de Coimbra. Boaventura tem conexão antiga com o hip hop, com atenção especial para o rap em língua portuguesa. Esse interesse se fortaleceu recentemente. Ele se encontrou com vários rappers e sugeriu temas para composições, todos relacionados com debates do colóquio. Agora é a hora de ouvir os resultados.

Nomes que se apresentarão no show de Coimbra: LBC Souldjah, Hezbó MC, Chullage e Capicua. Os três primeiros têm famílias cabo-verdianas. Capicua é a única mulher na apresentação, e provavelmente a rapper mais criativa no uso do nosso idioma. Seu nome é Ana Matos, e vem de família que poderia ser classificada como elite branca, com pai professor de engenharia na Universidade do Porto. Na adolescência se cansou de grunge e “música triste” e passou a ouvir reggae. No bar Comix havia noite de improvisação, sua grande escola. Acaba de lançar seu segundo disco, chamado “Sereia louca”, que anda recebendo notas máximas em todas as resenhas da imprensa lusitana.

Merece. Procure na internet o clipe de “Vayorken” (palavra que quando criança usava quando precisava dizer que seus pais estavam em Nova York, e agora virou homenagem à cidade que inventou o hip hop). Tem clima de autobiografia sem medo de provocar vergonha alheia, narrando os conflitos de uma mãe que tentava impor um figurino de “mini comunista” para uma criança que sonhava ser professora de wind surf e se vestir com Jane Fonda em vídeo de ginástica. Logo os primeiros poemas e os elogios para a redação na escola indicam outro caminho, que vai dar no feminismo hoje militante. Outro clipe, o de “Mão pesada”, faz o elogio da força da mulher do norte de Portugal. Fala de “beijo à carioca”, mas é outro estilo de beijinho no ombro: “Grito sou guerreira, desnorteio, sou nortenha / E impero porque carrego o meu sonho convicta / Tripo, sou tripeira, de ferro sou ferrenha / E não nego que mantenho o meu trono invicta!”

Gosto especialmente da faixa “Soldadinho” que tem a participação especial de Gisela João. Incrível como Portugal anda produzindo novos grandes fadistas em série. Gisela João já é a grande revelação nesse ambiente que leva as lições de Amália Rodrigues adiante. Seu último disco foi eleito o melhor de música portuguesa de 2013 pela revista Blitz, que geralmente se dedica mais ao rock. Apesar do gosto musical eclético (cantores preferidos: James Blake, “o gajo dos xx”, Maria Bethânia, Lhasa de Sela, António Zambujo), sua maneira poderosa e extremamente emocional de cantar reverencia a tradição. Isso fica evidente no CD “Sem filtro”, que a Blitz lançou encartado em sua edição de março deste ano, com gravações ao vivo e quase caseiras, feitas em poucos canais, nas quais a voz de Gisela João é acompanhada apenas por guitarra portuguesa, viola de fado e viola baixo. Mesmo com tal minimalismo instrumental dá para perceber, pelo calor dos aplausos, que a reação do público (no Teatro do Bairro e no Centro Cultural de Belém) é maximalista, consagrando uma nova diva.

Esse mesmo número da Blitz, com Beck na capa, traz também longa reportagem sobre a banda Clã (que tive o prazer de entrevistar, para a série de TV “Além-mar”, quando lançavam o disco “LusoQualquerCoisa”), e uma matéria intitulada “Portugal 2014”, onde a revista aponta os nomes que “vão dar o que falar”. Fui escutar todos eles nas Soundclouds da vida. Impressiona a diversidade: do encontro de Nick Drake com Animal Collective na banda You Can’t Win, Charlie Brown (em inglês sim) ao folclore lusitano reprocessado por eletrônica do duo Ermo (discípulo das “recolhas” de Michel Giacometti, que mesmo tendo vindo da Córsega foi autor do melhor mapa das sonoridades rurais lusitanas).

Sempre que passo um curto tempo sem ler a imprensa portuguesa, quando retomo o contato sou surpreendido por uma enxurrada de lançamentos imperdíveis. Agora, talvez a crise econômica tenha acelerado a criatividade lusitana. Então a notícia de segunda edição garantida do Festival do Fado (em agosto, e com Gisela João) só pode ser recebida com alegria. Precisamos acabar com a impressão de que os dois lados do Atlântico se comunicavam melhor com caravelas.

Anúncios

Dr. Bakali

30/04/2011

testo publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 22-04-2011

Dr. Bakali escreve a coluna “Viagens na minha linha”, na Blitz, revista portuguesa de música pop. Seu título é ciberbrincadeira com “Viagens na minha terra”, livro de Almeida Garrett que se tornou clássico, com sua mistura de realidade e ficção, para a definição da identidade romântica lusitana. Na coluna do Dr. Bakali, minha terra, ou pátria, deixa de ser minha língua, para ser minha linha, ou o mesmo minha onda “wireless”, que me conecta ao mundo, cuja paisagem mistura agora o on-line e o off-line (onde o “on” é muitas vezes garantia de existência do “off”). Descobri “Viagens na minha linha” lá na sua origem mais remota, em 1994. Tive oportunidade me encontrar duas vezes com o próprio Dr. Bakali no século passado. Garanto: ele existe fora da linha. Mas perdemos o contato. Incrível como ele desaparece, sem rastros, via internet. Esta semana, quase como uma miragem, deparei-me com o número de dezembro de 2010 da Blitz misteriosamente recém-chegado às bancas do Rio. Acho que nunca tinha visto a revista por aqui antes. Fui folhear e lá continuava a “Viagens na minha linha” – para mim, uma viagem no tempo.

Claro, comprei a revista, que tem preço de publicação brasileira talvez como forma de se desculpar pela demora de sua chegada no além-mar (veio de caravela?). Não teria comprado pela capa, com mais uma foto da banda Arcade Fire em reportagem “melhores do ano” passado, bem passado. Mas eu tinha que conhecer quais viagens o Dr. Bakali anda fazendo ultimamente lá na linha dele. Foi uma surpresa vê-lo ainda viajando. Pois sabia que tinha deixado a Blitz, acho que quando a revista ainda era jornal semanal, estilo NME, conhecido como “o” Blitz. Agora, bisbilhotando a internet, percebi que sua volta aconteceu em 2006. Perdi muitas colunas. Não importa: o texto publicado sob a capa do Arcade Fire, resume viagens anteriores e merece ser lido com atenção por quem tem algum carinho por sua própria linha.

Diz a lenda que a Blitz foi a primeira revista européia a ter um cantinho na internet. Por sorte gravei seu lay-out primitivo, quase só texto que assustava os leitores: “Seja bem-vindo ao web-site do Blitz! A partir de agora está por sua conta e risco. Arrisque-se, pois, que a vida são dois bits. Zero e um. O Blitz está, calmamente, a brincar com seu código genético de modo a reproduzir-se num clone eletrônico”. Depois pedia opiniões, até se o leitor se interessaria por mais imagens, que na época demoravam uma eternidade para baixar. Quem estava por trás da experiência era o webmaster Dr. Bakali. Na sua coluna de dezembro passado, ele não esconde a saudade: “Twitter, Facebook (FB), Hi5, MySpace, etc., roubaram-nos o prazer do HTML 1 […] A Web não era lá coisa bonita de se ver, mas dizia muita coisa sobre quem falava”. Hoje tudo mudou: “Não somos donos da nossa própria sintaxe ou gramática. Somos autênticos papagaios.” Trabalhamos de graça na “grelha” dos outros. Por exemplo: os 140 caracteres do Twitter, para o qual alegremente tanta gente licencia – sem nunca ler o contrato – seu “conteúdo”. Dr. Bakali pensa que o design pós-2.0 da rede “condiciona não só a forma de expressão […] mas igualmente nossas escolhas do que queremos ou devemos exprimir”. As empresas donas das redes sociais podem fazer praticamente tudo com o que publicamos por lá.

Crianças, há “muito” tempo “atrás”, eu e o Dr. Bakali viajamos em linhas diferentes das que existem agora. Cada site era um site diferente, ninguém sabia ainda como um site deveria ser. E todos os sites conversavam uns com os outros, ninguém precisava ir no Twitter para estabelecer os links. Lembro quando apresentei o Dr. Bakali ao Dr. Mabuse, que diretamente do Recife criava o Manguetronic, talvez o primeiro programa de rádio (antes do aparecimento do podcast) realmente interessante da internet brasileira (Mabuse: não encontrei o texto que Bakali escreveu para o Manguetronic com as 10 razões para não deixar Portugal – aquilo tudo está armazenado em algum lugar?).

Lembro também de encontrar, em carne e osso, quase “todo mundo” da internet portuguesa em reunião marcada num bar cubano do Bairro Alto de Lisboa, onde as pessoas bebiam rum, ouviam pré-doom-metal e jogavam Magic, aquelas cartas RPG. Tudo em busca de novas viagens. Dr. Bakali saiu do Blitz, ajudou a fundar o Terra à Vista, que foi uma espécie de Geocities lusitano, com muitos brasileiros a bordo. Participou também da aventura do Lugar Comum, galeria/centro criativo situado em Cascais, que teve papel fundamental para a carreira de muitos produtores de arte digital portuguesa com certeza. Com todo esse passado, “Viagens na minha linha” desconfia das grelhas atuais. Mas sem cair na tentação de voltar à terrinha, onde só temos atenção para o familiar. Dr. Bakali recomenda desconfiança também para com “amigos” das redes sociais que podem ser “sereias atraindo-nos para a perdição e o esquecimento”, confirmando apenas o que já sabemos e fortalecendo preconceitos.

Tomara que a Blitz continue a aparecer assim milagrosamente em nossas bancas. Sinto falta de tudo que nos coloque em contato com Portugal (e neste número da revista li também sobre o Camané, incrível fadista, e descobri a música transmontana da banda Galandum Galundaina). Que o Dr. Bakali possa continuar viajando por aqui, na nossa linha de passe tropical.


%d blogueiros gostam disto: