Posts Tagged ‘Brian Eno’

David Runciman

29/03/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 28/03/2014

Os impasses que o Congresso Nacional criou no tortuoso processo de votação do Marco Civil da Internet foram acompanhados por muitos debates nas redes sociais. Vários comentários terminavam assim: “a democracia…” As reticências podiam ser interpretadas de diferentes maneiras. Elas expressavam condenação? Ou escondiam elogio realista, considerando os problemas como parte do jogo democrático? Quem costuma ler minha coluna, já dever ter percebido que gosto de ambiguidade. Mas não neste caso. Tomo posição clara: democracia é valor central, insubstituível, no meu pensamento. Colocá-lo em dúvida é atitude muito perigosa.

Não suporto gente que diz que vivemos em “suposta democracia”. Não estou contente com a situação do país hoje, é claro. Mas temos condições institucionais para combater o que consideramos errado, e melhorar o que já conquistamos. Obviamente, isso dá muito trabalho. (A batalha do Marco Civil, desde sua pioneira redação coletiva, prova que trabalho duro pode dar bons resultados.) Zuenir Ventura foi certeiro – sábado, neste jornal – na identificação de posturas preguiçosas cada vez mais comuns no nosso ambiente atual: a “indignação resignada” e o “inconformismo conformado”, “sem poder de transformação”, ou – pior – com nostalgia da ditadura. Sua percepção: “nas palestras e debates desse concorrido ciclo sobre os 50 anos do golpe, a democracia tem sido muito questionada, principalmente pelos jovens.”

Não é só parcela da juventude brasileira que faz esse tipo de questionamento. A revista The Economist – que desde o “fim da história” muitas vezes parece se comportar como governante do planeta, inclusive pedindo demissões de ministros mundo afora (é mais uma dessas instituições globalizadas que não foram eleitas por ninguém, mas que querem atuar como nossos xerifes) – publicou recentemente ensaio de seis páginas com o título “O que deu errado na democracia”. Tudo termina em receitas para o revigoramento democrático, mas passa até por declarações de professores universitários chineses que – com petulância inflada por crescimento econômico autoritário, não tão atingido pela crise de 2008 (que ainda sacode e União Europeia e desemprega muita gente dos EUA) – agora ganham notoriedade ao declarar que “a democracia está destruindo o Ocidente”.

O ensaio da The Economist não cita David Runciman, mas muitos de seus parágrafos parecem dialogar com as ideias inspiradoras/inovadoras (mesmo sendo volta a Tocqueville) que esse professor de política e “fellow” do Trinity Hall de Cambridge publicou em “The confidence trap”, livro lançado no final de 2013 com o subtítulo “Uma história da democracia em crise da Primeira Guerra ao presente”. Nunca tinha ouvido falar em Runciman. Pesquei seu nome na conversa entre Brian Eno e Danny Hillis que comemorou os 10 anos de seminários da Long Now Foundation, organização que pretende pensar nossos próximos 100 séculos. Eno também indicou “The confidence trap” para a biblioteca que a Long Now está montando com cerca de 3.500 livros para formar um “Manual de civilização”.

Entre as epígrafes do livro de Runciman encontramos Samuel Beckett ordenando: “Tente novamente. Fracasse novamente. Fracasse melhor.” Esse é um bom resumo: a cada capítulo encontramos a história de um “fracasso” da democracia, quando muita gente poderosa anunciava que ela não tinha futuro, ou que algum regime autoritário seria seu futuro. Diante de tantas ameaças, a democracia acaba gerando duas reações oscilantes, cada uma com suas armadilhas: de um lado, a complacência (as lições do passado democrático indicam que no final vamos escapar de mais um aparente beco sem saída; então ninguém precisa batalhar pela transformação); do outro, a impaciência sem noção (a democracia promete mundos e fundos, mas sempre tem problemas de “delivery”, por isso todos seus governos eleitos geram decepção).

Em “The confidende trap”, aprendemos que, no longo prazo, a democracia se fortalece com todas essas crises e queixas, “muddling through” (expressão adorada por Eno, de difícil tradução, pois mistura resolução com trapalhada) todas as ameaças, escapando da derrocada na última hora. Essa capacidade de adaptação diante do imprevisível é uma das vantagens da democracia diante da rigidez do caminho único (e sem críticas internas) das ditaduras. Ainda que, no curto prazo, tudo pareça estar dando errado, numa sucessão de escândalos, no final – até agora – a democracia prevalece. Parabéns a todos nós pelo Marco Civil da Internet. Como sempre na história democrática, não é hora de descansar: continua a luta (primeiro no Senado) para que sua defesa da liberdade seja respeitada e aprimorada.

Anúncios

barulho diferenciado

10/11/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 09/11/2012

João Cabral de Melo Neto revela, em poema publicado na seção “Linguagens alheias” do livro “Agrestes”, entre “Debruçado sobre os cadernos de Paul Valéry” e “O último poema” (há versos mais punks?), algo que “contam de Clarice Lispector”. Conto novamente: uma conversa entre amigos, com “dez mil anedotas de morte”, é interrompida pela chegada de outros amigos “vindos do último futebol”, com comentários que refaziam o jogo “gol a gol”. Clarice espera educadamente (educação pela pedra) a animação futebolística esmorecer e faz seu pedido: “Vamos voltar a falar na morte?” Parece, por linhas bem tortas, o que aconteceu nesta coluna: interrompi a conversa sobre nosso país (segundo Brian Eno) para falar na morte de Luis Alberto Spinetta. Agora retomo: vamos voltar a falar no Brasil?

Percebo que o Brasil, também com milhares de anedotas, é meu assunto preferido, ao qual sempre volto. Mesmo quando meu tema era rock argentino, na verdade eu estava falando no nosso país, “fechado demais”. Ou grande demais, um vasto mundo, cercado – lá bem longe – por um deserto dos bárbaros (entre eles, os que nos vendem iPads). Nosso problema não seria complexo de vira-latas, e sim excesso de autoestima (inventamos até o orgulho de ser mestiço – rótulo para aqueles que não têm raça pura, isto é, os vira-latas). Meu defeito também: acredito piamente (mesmo rindo dessa crença) que podemos dar jogo de cintura para o resto do mundo, fazendo chover havaianas coloridas nas areias escaldantes para além de nossas fronteiras nacionais.

Por isso, minha fixação com as roupas de penas que Brian Eno usava na época do Roxy Music. O fato de aquele estilo espalhafatoso (os ingleses dizem “flamboyant”) ser visto com embaraço, ou como piração juvenil, me entristece, ou que torna o mundo mais triste. Passamos a viver sob uma ditadura de um bom gosto minimalista de chatice avassaladora. Tudo é contido, clean, “sofisticado”. Mesmo a contestação política tem bom design, e as passeatas parecem desfiles de Ricardo Tisci. O Brasil não pode entrar nessa onda para ter assento no conselho de segurança artística mundial. Como disse Oswald de Andrade: “Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval.” Logo agora que somos “potência”: parar (o Carnaval) por quê?

Arto Lindsay, nosso melhor embaixador (ainda vou escrever texto só sobre sua obra aqui nesta coluna), já enfrentou sérios problemas buscando traduzir o Brasil moderno para o mundo, sem cortar nossos excessos para tornar nossa imagem mais aceitável para padrões elegantes dominantes. Colaborei com a montagem de seu espetáculo sobre Carmen Miranda para o festival Next Wave da Brooklyn Academy of Music, quartel general do bom gosto “radical”. Acabou que minha principal função foi acompanhar Aurora Miranda na coxia, para passar o texto (“Eu beijei o Mickey Mouse.”) antes de sua entrada no palco. Foi assim que escutei umas diretoras do festival furiosas com a atuação de Regina Casé (pareciam as gralhas que adoram atacar Regina nas “redes sociais” com os mesmos argumentos caretas) ao lado de Laurie Anderson. Elas acusavam: over the top! Respondi, vermelho, com raiva, como se tivesse baixado em mim um Caetano “é proibido proibir”: “ela nasceu over the top e vai ser sempre over the top. O Brasil é over the top, Carmen Miranda era over the top! Vocês querem mergulhar Carmen em gel antisséptico para transformá-la em símbolo cool?”

Ainda não vi o documentário sobre Hélio Oiticica. Regina viu e me contou a reação de nossos amigos mais jovens que a acompanharam ao cinema. Ficaram chocados, assustados. Eles não conheceram Hélio ao vivo. Eu tive a sorte de encontrá-lo pessoalmente algumas vezes, incluindo a abertura daquela exposição no Hotel Meridien (acho que Lygia Clark também estava presente) e em algumas atuações explosivas em debates. Hoje, sinto no ar dos tempos minimalistas (nada contra Robert Morris) uma perigosa tendência: dar um banho de loja da Prada (e de Fundação Prada) em Hélio, tornando sua obra apenas chique, uma espuminha de culinária pós-molecular a ser servida em vernissages com a presença de François Pinault ou Bernard Arnault (feio o pedido de cidadania belga para fugir de impostos franceses – mas o mundo das artes “radicais” adora gente rica, agora também gente rica brasileira, e não liga para esses tipos de deslizes). Há colecionadores que prefeririam que Hélio tivesse parado nos metaesquemas, tão mais vendáveis, não é mesmo?

O mundo não é perfeito, limpinho: Hélio preferiu ocupar o MAM com a escola de samba da Mangueira. Um barulho louco. Talvez a missão do Brasil agora seja fazer o mundo não dormir com um barulho diferenciado do nosso tamanho.

mini/maxi

27/10/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 26/10/2012

No sábado passado participei de conversa pública com Brian Eno no Circo Voador (obrigado Marcello Dantas), bem atrás do trecho dos Arcos do Lapa onde ele projetou suas 77 milhões de pinturas. Sua fala mais surpreendente foi resposta para questão de Alê Youssef sobre a relação entre novas possibilidades de produção artística e ativismo político, principalmente em países com longo histórico de injustiças sociais como o Brasil. Nunca escutei elogio nacional tão objetivo e convicto. Nada de país do futuro. Para Eno já somos o lugar do planeta onde as experiências sociais e políticas mais avançadas acontecem, coisas impossíveis na China ou Reino Unido (as outras duas nações citadas, como referências comparativas). Aqui e agora. Simples assim.

Eu pensava que Caetano Veloso seria o único componente da banda “Artistas (quase não músicos) filhos de funcionários dos Correios e que amam os escritos de Roberto Mangabeira Unger“. Estava enganado. Eno, cujo pai era “postman” em  Woodbridge (a Santo Amaro da Purificação britânica?), também se revelou maravilhado com a leitura de Mangabeira, autor que conheceu através de citação de Richard Rorty, um de seus filósofos preferidos. Ficou mais impressionado com a descoberta posterior das conexões, mesmo turbulentas, entre Mangabeira e o governo brasileiro. Na Inglaterra, pessoas com ideias tão originais e radicais não poderiam ter nenhum laço próximo com a política oficial.

Outro brasileiro que Eno declarou admirar é José Júnior, do AfroReggae. Disse até que tem vontade de aprender português só para entender, sem tradução, o que Júnior fala. Ao que tudo indica, a admiração pode se transformar em projetos comuns. Interessante a configuração cultural que o Rio vem ganhando. Alan de Botton no Complexo do Alemão. Brian Eno em Vigário Geral. Seremos a nova Barcelona? É só hype?

Seja o que for: nossa responsabilidade, diante do mundo, já aumentou. Esse povo gringo todo espera de nós alguma lição (logo eu, falando por nós…). Antes, temos que encontrar maneira de explicar para o mundo o que somos, sem pudor. Não podemos tentar apenas agradar suas expectativas de civilização “avançada”. Pensei em indicar para Eno a leitura de Gilberto Freyre. Não deu tempo (mas talvez ele leia este texto, como leu o da coluna da semana passada, com a ajuda – geralmente engraçada – do Google Translate). Gilberto adorava jardins. Eno descreve o trabalho de jardineiro como atividade oposta àquela do arquiteto controlador, que conhece a forma final do edifício que vai construir. Os jardins incorporam o acaso, o imprevisível. Mas Gilberto ia além e classificava os jardins em dois tipos: o chinês, mais anárquico [“Irregulares, variados, cheios de imprevistos.”], e o francês, mais geométrico. O jardim brasileiro seria mais chinês, talvez com um grão de perverso barroquismo: aqui o ornamental, o pomar (e mesmo a horta medicinal) e o quintal se misturam, desafiando qualquer lógica, mesmo taoísta.

(Não sei onde eu estava com a cabeça, mas nas filmagens de Além-Mar, série de programas para TV sobre as terras onde se fala português, pedi para um imigrante angolano ler trecho sobre jardins de “Sobrados e mucambos” tendo como locação o Jardim de Lou Lim Ieoc, o mais bonito de Macau, onde Eugénio de Andrade escreveu os seguintes versos: “Deste jardim o que levo comigo / é um ramo de bambu para servir / de espelho ao resto dos meus dias.” Copiei Eugénio e também trouxe meu ramo, que me serve de marcador de páginas para seus livros.)

Eno se recusou a responder uma de minhas perguntas. Talvez tenha pensado que eu queria conversar sobre o Roxy Music. Não fui explícito: eu estava falando do Brasil. Simon Reynolds escreveu artigo sobre os 40 anos do lançamento do primeiro disco do Roxy Music. Defende que o visual glam não envelheceu bem (mesmo as capas seriam hoje politicamente incorretas), mas o som continua novo. Não concordo: quando vi a roupa que Eno usava nos shows do Roxy Music exposta no museu Victoria & Albert, achei tudo novíssimo e bem brasileiro. Onde anda aquela extravagância na sua obra atual? É um anjinho barroco enrustido dentro um “armário” minimalista?

Arto Lindsay, que também participou da conversa no Circo Voador e conhece Eno desde que ele produziu o disco No New York, depois veio ponderar: as roupas e os batons usados no Roxy Music foram uma aventura juvenil, em ambiente que exigia homens mais femininos; aquilo não teria a densidade estética que eu estava imaginando. Porém, penso eu, a não resposta à minha pergunta indica a vontade de uma ruptura extrema, como se tal passado não tivesse nenhuma consequência no artista de hoje. Estranho: Eno para mim se torna artista muito mais interessante justamente por ter tido aquele passado, que percebo ainda atuante, mesmo negado, na sua obra atual. Tal ideia só ganha força dentro de mim: desenvolvi mais uma teoria do antropólogo doido que tenta explicar os problemas do mundo atual, e a missão do Brasil, com o tal armário minimalista dominante (mesmo quando há modinhas maximalistas). É coisa séria, maluca e longa: fica para outra coluna.

o tempo de Eno

20/10/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 19/10/2012

Brian Eno projetará, de hoje a domingo, 77 milhões de pinturas sobre os Arcos da Lapa. O número – 77 milhões (que está no título da instalação) – impressiona. Mas não espere avalanche frenética de imagens, como em videoclipe anos 80. As pinturas de Eno se sucedem lentamente, buscando produzir outra temporalidade, na contramão da disparada tecnológica que transformou nossa história contemporânea numa era de revoluções – quase sempre em vão – por segundo. A experiência pode ser pensada como um “corretivo” diante da diminuição “patológica” de nossa capacidade de atenção. Em entrevista, comentando a reação das pessoas – que chegaram a passar horas imersas na desaceleração dos sentidos – diante de outras montagens dessa mesma instalação, Eno profetizou com otimismo: estamos na verdade ficando mais capazes de focar (ou dispersar) nossa atenção em processos cada vez mais longos e “paradões”.

Não por acaso, Eno é membro do Conselho de Diretores da The Long Now, uma fundação que escreve nosso ano corrente como 02012 e quer estimular pensamentos sobre os próximos milênios. Já citei, no primeiro texto desta coluna, a conversa entre Eno e Will Wright (o criador do game The Sims – Eno compôs a música de “Spore”, outro jogo de Wright), um dos arquivos mais preciosos disponíveis na internet, cortesia da The Long Now Foundation. Numa de suas primeiras falas, Eno descreve – de forma resumida e provocativa – seu método de composição. Não é de “cima para baixo”, com a camisa de força de um todo pré-concebido imposta ao material sonoro; é mais como o trabalho de um jardineiro que lança a semente para ver o que acontece.

Ao contrário da música “narrativa”, linear, que tenta ostensivamente capturar nossa atenção (excitando-a ao extremo, como se estivesse numa maratona – sendo assim, a diminuição da capacidade de atenção é, paradoxalmente, atenção redobrada, anabolizada, que não consegue capturar nada), seu objetivo é criar um ambiente no qual podemos flanar despreocupados. Quem precisa de pressa?

Lentamente, porém viralmente, as ideias de Eno tomaram conta da realidade cultural contemporânea, cada vez mais semelhante a uma de suas instalações. Sua estreia na cena musical, com a banda Roxy Music, completa agora 40 anos. Desde aquela época se intitulava “organizador de eventos musicais”, um não-músico (hoje são muitos os não-músicos levando a música adiante; em 1972 tal atitude era novidade espantosa), que fazia “tratamento” nos sons dos outros instrumentos do palco. Ainda na década de 1970 partiu para carreira solo (e de produtor) exuberantemente heterogênea e influente: o disco “Music for airports” (com o manifesto da “música ambiente”), a triologia berlinense de David Bowie (e muito tempo depois o “Outside”, que sempre redescubro com maior admiração), o “My life in a bush of ghosts” (o primeiro – quando não havia sampler-  a samplear o folclore planetário?) com David Byrne , a primeira gravação da no wave, os lançamentos de maior sucesso comercial do U2, e muito mais. Chegou até a fazer o som para a inicialização o Windows 95, versão do sistema operacional da Microsoft.

Algumas das obras de Eno estão entre os discos que mais escutei (e que gosto de escutar) na vida (vale indicar “The Pearl”, lançado em parceria com o pianista Harold Budd). O não-músico é um dos meus músicos preferidos de todos os tempos, tão amado como Claudio Monteverdi, Dorival Caymmi, Miles Davis ou Lata Magenshkar. Como se isso não fosse o bastante, é também um dos pensadores – também de todos os tempos – com quem mais aprendo (dentro de uma linhagem que vai de Epicuro/Sófocles/Sêneca/Plotino a Cage/Caetano/Gil/Clarice/Deleuze). O que mais valorizo nas pessoas é a capacidade de ter boas ideias. E Eno não para de ter ideias cada vez melhores, nas áreas mais variadas (urbanismo, ciência, filosofia etc.)

Por exemplo: seu trabalho com música/pintura generativa (como a instalação que veremos na Lapa) transpõe questões de ponta da teoria da complexidade (como regras simples podem gerar sistemas cada vez mais complexos) para nossa vida cotidiana e educação de nossos sentidos. O que nos leva a reconfirmar algumas de suas intuições sobre o rumo que as coisas estão tomando. São palavras de Eno em 1992, mas a ficha ainda está caindo hoje: “a história é substituída por estórias, o curador se transforma num contador de estórias”. Por isso devemos aproveitar bem a presença desse excelente “storyteller” (termo da moda?) no Rio. Agradeço ao projeto “Outras ideias para o Rio” por espalhar tantas boas ideias/estórias (como é que bom se perder no labirinto transparente de Robert Morris em plena Cinelândia!) pelas ruas da cidade.

Eliane Radigue e Santo Estevão

16/07/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 08-07-2011

Eliane Radigue, que completará 80 anos em 2012, apareceu nesta coluna na semana passada, entre Brian Eno e Luc Ferrari, e como compositora pioneira de música eletrônica/concreta, além de parceira de xadrez de Marcel Duchamp. Ela merece muito mais espaço. O melhor seria realizar no Rio de Janeiro uma retrospectiva de sua obra, como a que aconteceu em Londres, entre 12 e 26 de junho. Tive a sorte de estar nas margens do rio Tâmisa num desses dias e fui ouvir a apresentação de “Jetsun Mila”, uma de suas criações mais amadas, na igreja de St. Stephen Walbrook. Adoraria poder ter a mesma experiência dentro da Igreja de São Francisco da Penitência, ali no Convento de Santo Antônio, deslumbrantemente restaurada, um dos lugares mais bonitos do mundo.

“Jetsun Mila” é composição de 1986, já da fase budista de Eliane Radigue, feita em sintetizador ARP. Inspirada na vida de Milarepa, iogue e poeta tibetano do século XI, a música tem 84 minutos. Na igreja londrina o som estava distribuído em seis alto-falantes, cuja fonte era um único laptop, comandado por assistente da compositora. Interessante notar a simplificação recente dos concertos de música eletrônica, ou eletro-acústica, ou concreta. Ainda nos anos 90 vi apresentações com muitos equipamentos no palco, sobretudo gravadores de rolo. Já neste século, estive num concerto de Pierre Henry, de quem Eliane Radigue foi assistente, que tinha início com a introdução de um CD numa máquina, gesto realizado com solenidade. A banalidade tecnológica da situação – um clique de mouse no laptop – não faz o ritual perder sua pompa. O público reage como se estivesse diante de uma orquestra e seu maestro genial.

A igreja de St. Stephen Walbrook (nosso querido Santo Estevão, que também já foi homenageado em coluna passada, quando escrevi sobre a banda St. Etienne) reforça o clima solene. Mesmo sendo o templo mais racional, limpo, exato no qual já estive presente (por isso gostaria de ouvir a mesma música em ambiente barroco carioca), as vibrações místicas são evidentes (a razão é também portal para a iluminação…) Seu arquiteto foi Christopher Wren, que ali experimentou várias idéias que depois ficariam mais grandiosas na Catedral de St. Paul. Em St. Stephen tudo tem escala reduzida, e a simetria é muito mais rigorosa, sem ornamentos excessivos. Tal limpeza incomodou gerações de fiéis que tentaram embelezar o ambiente com pinturas, madeiras e até vidros coloridos nas janelas. Só depois da reconstrução da igreja, que foi vítima dos bombardeios da Segunda Guerra, é que suas características originais reapareceram. Com uma adição fundamental/monumental, mas totalmente harmônica com os planos de Wren: um altar do escultor Henry Moore.

O altar é uma enorme pedra redonda de mármore (vindo da Itália, do mesmo local onde Michelangelo se abastecia), que pesa várias toneladas – e o peso é bem “visível”. Sua localização também mudou: não fica mais num dos lados da igreja, mas no centro, e os bancos para os fiéis, de design igualmente moderno, formam vários polígonos (palavra que tem lugar de destaque em Crystalline, nova excelente música da Bjork) em torno da obra radicalmente moderna de Moore. Deus está no centro e não em um dos cantos do edifício sagrado.

Escutamos a música de Eliane Radigue sentados nos bancos da igreja, virados para o altar central, sem padre para celebrar a cerimônia. A música vinha de nossas costas, ou dos alto-falantes colocados no outro lado da igreja. À nossa frente o bloco de mármore de Henry Moore, que apesar de branco, lembrava (na minha imaginação sempre surpreendente, até para mim mesmo) o monólito negro de 2001, de Kubrick. Contei quantos éramos no público: 62 pessoas, entre elas 17 mulheres e um homem de terno preto, camisa preta e gravata vermelha. Quase todos com os olhos fechados (o cara do meu lado não moveu um único músculo durante os 84 minutos da música). Eu me sentia meio traidor por estar olhando os outros, em vez de meditar no meu cantinho. Mas garanto que estava meditando de olhos abertos e andando, com consciência certamente alterada, tendo que encontrar meu não-lugar entre duas tradições religiosas: aquela visualmente cristã, mesmo com o contraste clássico-moderno Wren-Moore, com a outra auditivamente budista Milapera-Radigue, talvez tudo unido por uma terceira (sub)corrente, absolutamente moderna, Radigue-Moore.

O resultado psicodélico de tudo isso (peço desculpa mais uma vez pela minha imaginação destrambelhada): era como nós, o público, fossêmos aqueles hippies que nos anos 60 tentaram fazer o Pentágono levitar. O altar pesadão de mármore, que ganha beleza de seu peso, agora – sob efeito da música – parecia leve, sua concretude se esvaziava com o toque da varinha de condão sonora tibetana-eletrônica. A pedra, duplamente abençoada (pelas rezas cristãs e budistas), tornava-se milagrosamente vazia.

Brian Eno acaba de lançar um novo disco, chamada “Drums between the bells”, que pode ser escutado na íntegra no site da revista Wired. É uma colaboração de Eno com o poeta Rick Holland. A música acompanha a poesia falada por muitas vozes diferentes (e uma capa com foto de São Paulo, não a catedral, mas nossa vizinha de ponte aérea – segundo Eno “a cidade mais cidade-esca do mundo ocidental” [“the most city-ish city in the Western world”]). Quando ouvi a primeira faixa, fui transportado novamente para a igreja de St. Stephen: seu título é “Abençoe este espaço”. Só posso responder: amém.


%d blogueiros gostam disto: