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nômade

05/11/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 28/11/2011

Peter Fry fez 70 anos na semana passada. O Brasil tem tido o privilégio de conviver com esse antropólogo de origem britânica desde 1970, quando ele aportou em Santos para ser professor na Unicamp. Um de seus livros ganhou o título “Para inglês ver”. Tomara que continue nos vendo, nos ensinando a ver e aprendendo conosco a ver por um bom tempo. Seu olhar de quem não nasceu aqui muitas vezes é o mais brasileiro de todos e nos força a cultivar, contra sonhos poderosos de identidade certinha e estável, tudo aquilo que nos torna diferentes, originais e imprevisíveis. Peter se naturalizou brasileiro, escolheu ser brasileiro, mas felizmente não perdeu o espírito nômade, inquieto, de quem se sente em casa – e quem disse que casa é sempre lugar do conforto? – no deslocamento entre Europa, África e Américas, bagunçando as fronteiras artificiais (raciais, de “gênero”, religiosas e outras) que aparecem todos os dias para separar o que deveria ficar sempre misturado – uma mistura que ganha novos significados todos os dias.

Seu nomadismo não é apenas geográfico. Peter não tem medo de trocar de continentes ou de ideias. As situações mudam, e devem mudar também as ferramentas para compreendê-las, ou mesmo para percebê-las. É preciso ter coragem para dizer que estávamos equivocados no passado, que aquela maneira antiga de ver o mundo não nos serve mais, e que chegou a hora de partir para outra, para a próxima, sem apego. Tive lição prática dessa sua estratégia saudavelmente mutante durante a defesa da minha tese de doutorado (que deu origem ao livro “O mistério do samba”), quando Peter fazia parte da banca de examinadores. Eu havia atacado um de seus textos, o clássico “Feijoada e soul food”, e pensava que isso poderia causar mal-estar, ou pelo menos debate difícil, em nosso diálogo. Para minha surpresa, ele foi logo dizendo que a crítica que eu lhe fizera era procedente, e declarou que já tinha superado aquele modo de ver as coisas.

Sua curiosidade com relação ao diferente e sua disponibilidade para mudar de visão de mundo sempre que necessário se mantêm intactas nestas sete décadas de vida – é incrível ainda hoje acompanhar sua vitalidade juvenil, depois de tantas mudanças e experiências bombásticas. Desde os primeiros momentos, literalmente: quando nasceu, os campos ingleses ao redor da maternidade estavam sendo literalmente bombardeados por aviões alemães. Sua mãe tinha saúde frágil, e Peter passou sua vida em colégios internos, tendo a educação britânica mais tradicional. Entrou para Cambridge, para ser matemático. Trocou de curso. Teve aulas, trabalhou ou teve contato próximo com alguns dos antropólogos mais importantes daquela época: Edmund Leach, Mary Douglas (que lhe ensinou a dar aulas), Jack Goody, Roger Bastide, Michel Leiris, Peter Rivière. Por acaso foi fazer pesquisa de doutorado na então Rodésia, onde aprendeu a língua shona. Por sorte foi adotado pela turma de Max Gluckman, que se interessava pelas relações da África com a modernidade “ocidental”, em todas suas contradições. Nesse período, teve oportunidade de conhecer Moçambique, ainda colônia portuguesa, e ficou fascinado com as diferenças entre as maneiras de se pensar as raças desenvolvidas pelas colonizações britânicas e portuguesas. Não via uma como melhor que a outra: eram surpreendentemente diferentes.

Na volta para a Inglaterra, não conseguiu mais se adaptar aos tons cinzas da vida britânica. Vivia deprimido. Foi aprender português numa aldeia perdida no norte de Portugal. Então soube que a Unicamp estava contratando novos professores e se mudou para o Brasil. Aqui estudou religiões e línguas afrobrasileiras, colaborou com as primeiras experiências de imprensa gay, e se mudou para o Rio onde foi professor no Museu Nacional e do IFCS, local em que ajudou a implantar importante (também para o Brasil) programa para estudantes de países africanos de língua portuguesa. Nesse meio tempo voltou para a África, como representante da Fundação Ford no Zimbábue e em Moçambique. Ali financiou projetos de pesquisa pioneira sobre transformações políticas e culturais locais. Recentemente no Brasil mergulhou de forma apaixonada no debate sobre as cotas, identificando racialismo em propostas que pretendem acabar com a discriminação por raças – vários militantes pró-cotas passaram a tratá-lo como inimigo, quando na verdade deveriam tê-lo amigo fundamental no combate ao racismo (é muito empobrecedor dividir o mundo entre prós e contras qualquer coisa – como ensina Peter o melhor da antropologia é consequência da crítica contra essencialismos rasteiros). Hoje, aposentado da universidade, é um dos principais articuladores da revista virtual Vibrant, que traduz textos de antropólogos brasileiros para aumentar a circulação de nossas ideias planeta afora, produzindo mais diferenças de visões do/no mundo. Ufa!

Relembrei várias dessas aventuras de Peter vendo os vídeos de sua entrevista que o CPDOC publicou online como parte do excelente projeto “Cientistas sociais de língua portuguesa – histórias de vida”. Há várias outras entrevistas – com Gilberto Velho, Boaventura de Sousa Santos, Janet Mondlane etc. – no site cpdoc.fgv.br/cientistassociais). Lá há também uma preciosidade: a restauração do filme “Days of rest”, que Peter dirigiu em Zâmbia, em 1969, sobre membros de uma igreja protestante que hoje chamamos de neopentecostal.

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ainda Gilberto Freyre – “a vida às claras”

01/01/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 20-08-2010

Fernando Henrique Cardoso fez a conferência de abertura na recente homenagem da Flip para Gilberto Freyre. Decidiu falar de improviso, mas sobre as idéias de um longo ensaio que pode ser lido na internet. No primeiro parágrafo, comentando o deslumbramento proporcionado pela escrita do autor de “Casa grande e senzala”, FHC relembra o incômodo que sentiu ao se deixar fascinar pela beleza de um texto que o “arqui-conservador” Borges publicou para agradecer outra homenagem, esta prestada por uma academia chilena silenciosa diante dos horrores de Pinochet. Seu dilema: “o brilho do talento do escritor argentino me [fez] esquecer quem era o homenageado, quem o homenageava e em quais circunstâncias. Não é possível, pensei, que o senso estético me afaste tanto da moral.” Quando li essas palavras, angustiadas e corretas, me lembrei de um artigo de jornal publicado por Gilberto quando tinha apenas 25 anos. É uma dessas pérolas de incorreção, impossíveis de serem enunciadas por um ex-presidente que ainda tem muito a perder politicamente com qualquer ambiguidade em seus pensamentos públicos.

Aviso aos leitores sensíveis: quem precisa de um moralismo com separação clara entre o Bem e o Mal não deve se aventurar pelo resto desta coluna. Gilberto não escrevia para quem procura certezas, para quem quer fortalecer os fundamentos éticos inabaláveis, ou para quem não pode encarar o mais sério do mundo com uma saudável dose de elegante bom humor. No artigo “Viver às claras” (Diário de Pernambuco, 15-5-1925) – na verdade um elogio da penumbra – essas características típicas de seu estilo de argumentação se apresentam em versão mais perigosa, abrindo imenso telhado de vidro (por favor: com insulfilm, para ficar escurinho mesmo ao meio-dia de sol) e dando de graça munição pesada para inimigos. Era tudo bem intencional, calculado. Gilberto já havia declarado ser mais “doloroso” viver sem inimigos do que sem amigos. Obviamente: “inimigos dignos de nós mesmos, do nosso tamanho”. Por isso, ele tinha prazer em produzir grandes inimizades intelectuais.

Mas vamos logo ao perigo, confissão culpada de FHC assumida como convicção infeliz mas transbordante de orgulho e boa prosa: “prefiro o pecador com pudor dos seus pecados ao pecador que peca às claras. Sob um critério rigidamente moral pecar às claras será talvez superior a pecar às escuras ou à meia-luz. Mas sob o critério estético-moral, que infelizmente é o que eu sigo, pecar às escuras é mais bonito; e o próprio sabor do pecado se aguça na discrição.” Daí preferir também, ao doente que “que nos conta em minúcias seus padecimentos e às vezes nos expõe suas feridas”, o “doente para si”. O que resvala numa apologia da “boa hipocrisia” (há a má…), contra “espontaneidade dos impulsos e dos instintos”, e vai até ao combate contra o urbanismo francês de avenidas claras e largas, traçadas como num tabuleiro de xadrez, em favor da manutenção do zig-zag sombrio de nossas antigas ruas quase árabes. Mas isso não significa preferência pelo pecado: mesmo a manifestação da virtude, para ser bela, deve ser realizada com o máximo de pudor.

Consequência lógica (mesmo Gilberto não suportando a lógica…): seria preferível ser racista “para si” do que racista “às claras”. Radicalizar Gilberto seria tornar o pudor tão poderoso, tão sufocante, para o racismo, não deixando dele nenhum vestígio. Assim como radicalizar o elogio da miscigenação seria praticar com tal rigor e extremismo nossa mulatice para não mais haver nenhum espaço para sobrevivência das discriminações baseadas em raças, que continuam a penalizar nosso cotidiano – mesmo quando sabemos que raças são categorias científicas duvidosas.

Talvez o Brasil já tenha escolhido o caminho político oposto, com opção pela vida às claras confundida com a única possibilidade democrática. Mesmo ser mestiço virou ameaça. Anos atrás, quando a inscrição para o Enem não era online, uma amiga lindamente morena foi impedida de se declarar parda pois, como não era pobre, parecia que estava querendo aproveitar as cotas para sucesso fácil e imerecido nas provas. Ela nunca tinha se pensado como branca, não se considera branca, mas foi obrigada – moralmente e pela funcionária que recebia a sua inscrição – a se declarar branca. Este ano, ajudei meu sobrinho a preencher um questionário sociocultural para vestibular. Além de ter que dizer se era a favor ou contra cotas para afrodescendentes, estudantes de escolas públicas ou filhos de policiais, precisava também declarar qual era sua raça. Em casa, sempre o ensinei a ter orgulho de sua herança misturada, visível em nossos olhos indígenas, na maravilhosa variação de tonalidades de pele na família. Sempre considerei isso um aprendizado político, emancipador: pensando-se mestiço, atento para todas as consequências dessa identidade misturada, ele deveria se engajar nos movimentos contra o racismo e contra qualquer discriminação com base em raça. Mas ali, ao buscar acesso à universidade, ele aprendia – para não usurpar direitos de quem pode realmente de beneficiar com cotas, para acabar com a injustiça social/racial brasileira – que precisava se declarar branco.

Impossível não pensar: estamos perdendo algo importante, que poderia ser utilizado – talvez como nunca foi, devidamente – no combate ao racismo? Não quero pecar às escuras. Porém quem tem certeza que acentuar a diferença entre brancos e negros é a melhor maneira de acabar com o pecado?


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