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Miley Polly Jonas Crowley etc.

11/10/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 10/10/2014

 

A coluna estava de férias quando Miley Cyrus cantou no Brasil. Peço perdão pelo assunto antigo. Na verdade, nem quero falar sobre esses shows, mas sobre polêmica ainda mais remota, que já deve estar escondida em lugar inacessível das “timelines” da maioria. Cada vez mais rápido as pessoas esquecem acontecimentos “marcantes”, mesmo quando bateram recordes de retuitagem. Então talvez seja necessário ajudar a memória dos leitores.

No show de premiação do MTV Video Music Awards 2013, a apresentação de Miley Cyrus, com roupa de látex e bunda empinada simulando movimentos sexuais (uma dança conhecida como “twerking”), foi comentada em tempo real por 360.000 tweets por minuto, desbancando a performance até então campeã – neste novíssimo quesito – de Beyoncé no Super Bowl. Grande parte do público se declarava chocado: afinal aquela era drástica mudança de imagem para uma artista que até então participara de coreografias bem mais inocentes como Hannah Montana, brinquedo multimídia da Disney. Pais se revelaram preocupados com o trauma que a súbita transformação poderia causar nas mentes de suas filhas pré-adolescentes, que tinham em Miley Cyrus modelo de recato e boa educação, at´p religiosa.

Com o lançamento de clipes cada vez mais explícitos, os 140 caracteres dos tuítes se mostraram insuficientes para expressar reações indignadas. Houve uma enxurrada de cartas abertas para Miley Cyrus, de procedências as mais variadas. A mais famosa foi assinada por Sinead O´Connor (que no mundo da infância da internet já tinha causado várias polêmicas, como quando rasgou fotografia do papa João Paulo II, em edição do “Saturday Night Live” de 1992), com o seguinte apelo pessoal: “não deixe que a indústria te transforme numa prostituta.” A culpa recairia nos homens gananciosos que controlariam, sem escrúpulos, a carreira das jovens cantoras.

Cartas abertas para Sinead O’Connor, como a escrita por outra cantora, Amanda Palmer, com pontos de vista pós-feministas, afirmavam o direito de Miley Cyrus, ou de qualquer outra mulher ou garota, de usar seu corpo segundo sua própria vontade, sem ser acusada de estar sendo manipulada por fantasias e modelos de negócio masculinos. O debate ficou tão acalorado, e as interpretações tão sofisticadas, que a atriz Ann Magnuson publicou uma carta aberta “para acabar com todas as cartas abertas”, cheia de palavrões, acusando suas autoras – é a minha interpretação de texto hilário – de estarem sendo manipuladas por provedores de internet machistas.

Contrariando a ordem de Ann Magnuson, Polly Superstar – que começou sua carreira como estilista de roupa de látex e é anfitriã do Kinky Salon, festa fetichista de San Francisco (agora copiada em várias outras cidades do mundo) – escreveu mais uma carta aberta, desta vez não destinada para uma pessoa específica, mas para o Sexo. Sim, começa desta maneira: “Querido Sexo”. Ninguém pode acusar sua autora de puritana, ou conservadora, ou moralista. Polly já quebrou todos os barracos. Por isso fica comovente encontrar na sua carta frases como: “Oh Sexo, sei que é confuso”; “você quer usar seus sapatos de vadia, seu espartilho, seu batom vermelho, mas isso significa que você está sucumbindo à pressão?”; “Sexo, você vive uma crise de identidade”.

Parece a crise de algumas escolas cariocas que tentaram negociar limites para a altura do shortinho em sala de aula e depois tiveram que desistir quando garotas de 12 anos diziam que eram donas de seus corpos. Mas sim, sabemos que é confuso, muito complexo. Quando o telão do show de Beyoncé divulga trechos do discurso feminista da escritora Chimamanda Ngozi Achidie (que acaba de ter romance lançado no Brasil), quem pode dizer ao certo se aquilo é atitude libertária ou justificativa comercial? Ou os dois lados estão para sempre juntos e misturados?

Ouvi falar de Polly Superstar e sua carta aberta para o Sexo no programa de rádio “Expanding Mind” (disponível em podcast na internet), do meu amigo tecnoxamã Erik Davis (já foi tema de coluna por aqui). Lá também ouvi entrevista com Gary Lachman, guitarrista da primeira formação da banda Blondie e hoje um dos melhores historiadores do ocultismo contemporâneo, lançando uma biografia de Aleister Crowley. Ele comenta que Kevin Jonas, do Jonas Brothers (outra criação da Disney), tem foto famosa usando camiseta com foto de Crowley estampada. Outro retrato está pendurado na sala de ingleses famosos na National Gallery de Londres. É a pá virada no trono do “establishment”.

Qual o limite entre a contracultura e o mainstream careta? Como sair da “tradição de ruptura” nomeada por Octávio Paz. Tema para outra coluna, comemorando seu centenário.

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contentamento

19/02/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 19/11/2010

Alguns heróis da nossa adolescência se tornam motivo de embaraço com o passar dos anos. Um exemplo pessoal: Carlos Castañeda. Foi ídolo absoluto quando eu tinha 14 anos. Mas depois descobri que sua obra não era levada a sério em rodas adultas ou acadêmicas. Escondi os livros em lugar invisível, para visitas, da estante. Mas não deixei de comprar escondido os novos lançamentos, até “O lado ativo do infinito”. Nem deixei de reler sempre reverentemente algumas páginas, como aquelas de “Uma estranha realidade” que falam da “loucura controlada” e que continuam me guiar/consolar como nenhum outro ensinamento filosófico ou religioso. Hoje posso – eu que warholamente não ouso contradizer nenhuma moda, ou que cultivo respeito especial por desnecessárias regras de etiqueta – fazer toda essa confissão sem vergonha, pois Castañeda voltou a ser levado a sério e deve ser citado com total correção intelectual.

Claro, já havia os elogios de Deleuze. Mas se muitos gostam de pousar de deleuzianos, poucos leram Mille Plateaux com atenção. Agora, o negócio ficou mais sério: todo “Coyote anthropology”, novo livro de Roy Wagner, o antropólogo mais cultuado do momento, é praticamente um rito de canonização de Don Juan. Conceitos como tonal e nagual são tratados com a mesma seriedade que uma estrutura elementar do parentesco de Lévi-Strauss. Tudo bem, é certamente o livro mais doido que li na vida. Enfrentei suas páginas sem entender quase nada, e acho que só vamos começar a decifrar seu significado daqui a uns vinte anos. Tem toda a pinta de obra definitiva, daquelas que se tornam os melhores exemplos das conquistas intelectuais de uma época. Roy Wagner tem alguns clássicos da bibliografia antropológica, como “A invenção da cultura”, recém-lançado no Brasil. Agora foi além do clássico, virou enigma incontornável e central para o pensamento contemporâneo.

“Coyote anthropology” é um diálogo entre o próprio Roy Wagner e um coiote. Isso mesmo, um coiote falante, hilário, que parece saído de desenho animado. O Roy Wagner personagem do livro fala cheio de gírias e sem cerimônia acadêmica, misturando observações sobre mitologia de Papua e seu próprio divórcio, mediadas por lingüística pós-memética. O incrível é que apesar de tantos aparentes absurdos, nada soa gratuito e nunca duvidamos da seriedade do que está sendo dito.  Suas aparências enganam: não é um livro pop. Não vai freqüentar, infelizmente, a lista de mais vendidos.

Então continuo esperando um novo Castañeda, para nossa época cyberpunk. Um Paulo Coelho tecno e radicalmente psicodélico. Por vezes acreditei que meu querido amigo Erik Davis poderia assumir esse papel. Até dei esta ordem: “vire o novo Castañeda!” Mas ele não me obedeceu e no lugar de best-sellers, resolveu fazer pós-graduação em teologia. Erik é autor de Techgnosis, relato completo sobre as conexões entre esoterismo e tecnologia. Também escreveu: um tratado brilhante sobre o disco “Led Zeppelin IV”, aquele de “Stairway to heaven”; um guia sobre a Califórnia visionária; e acaba de lançar “Nomad codes”, coletânea de ensaios sobre assuntos tão diversos como o Goa trance, o dub de Lee Perry e novos cultos xamânicos birmaneses.

Erik, na tentativa de se livrar da responsabilidade que eu jogava no seu colo, me apresentou aos livros de Jed McKenna. Os títulos são adoráveis: “Iluminação espiritual: a coisa mais maldita”; “Iluminação espiritualmente incorreta”; “Guerra espiritual”. É uma triologia, já concluída. Ao que tudo indica, não haverá sequências, apenas seqüelas no cérebro que quem se aventura na leitura. Não importa quem é Jed McKenna. Pode ser pseudônimo de um único autor, pode ser pseudônimo usado por um coletivo, tipo Luther Blissett. Mesmo as pessoas (Lamas e PhDs…) que recomendam os livros nas contracapas surgem de um universo paralelo. Toda essa pós-modernice e jogos de espelhos editoriais não devem nos enganar: é o conteúdo que importa.

O ensinamento vai na contramão dos livros de auto-ajuda disponíveis no mercado. Quase todos os gurus new age nos vendem a iluminação como uma coisa fofinha, tranqüila, sorridente. Jed McKenna diz o oposto. Se você acha o caminho de “Se eu quiser falar com Deus”, a música do Gil, desagradável (“tenho que lamber o chão”, “tenho que me achar medonho”), prepare-se para o muito pior, e olha que o objetivo não é se aproximar de nenhuma divindade. O narrador iluminado da triologia espiritualmente incorreta tem a coragem de declarar, depois de passar por tudo de ruim inevitável no caminho para seu (anti)nirvana: “estou contente, e o contentamento é supervalorizado”. Ou então: “Eles dizem que ninguém é perfeito, e isso é um fato literal. Se você quiser tornar-se perfeito, torne-se ninguém.” E repetindo: a estrada para tornar-se ninguém não é nada agradável. O bom desses livros é que, ao terminá-los, a não ser que seja realmente um santo, dono de toda coragem do mundo,  você vai querer tudo, menos iluminação. O que parece bom negócio: há tantas outras coisas, menos malditas, para se querer por aí… De volta a Castaneda, por via tortas: apesar de fã nunca tive a menor vontade de passar por tudo que ele descreve nos livros. O efeito para mim sempre foi anti-escapista. Ficava aliviado com minha vidinha comum, no mundo não-iluminado. Contente. Mas, afinal, para que serve o contentamento?


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