Posts Tagged ‘Gilberto Freyre’

anjo moreno

22/12/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 21/12/2012

No domingo passado Sandra de Sá cantou “Olhos coloridos” no “Esquenta!” (sou um dos criadores desse programa). A canção, lançada em 1982, é cada vez mais atual. Paradoxalmente, pode também ser considerada datada. Sua letra diz: “a verdade é que você tem sangue crioulo”. O coro confirma enfático: “todo brasileiro tem!” Poderia ser hino de orgulho negro. O problema é que a palavra “crioulo”, para muitos ouvidos, é hoje classificada como xingamento. Além disso, ficamos sem saber se “Olhos coloridos” (com refrão “sarará-crioulo”) elogia a negritude ou a mestiçagem, ou mesmo equipara mestiçagem a negritude. Talvez, seu interesse mais atual resida nessa ambiguidade.

Regina Casé, antes de pedir para Sandra de Sá cantar essa música, fez o elogio de Barack Obama. A conexão, bem óbvia, foi ideia minha. Lembrei dois episódios do primeiro governo Obama, também carregados de intrigantes ambiguidades, confundindo categorias raciais e trazendo novamente para o discurso político palavras que muita gente gostaria de ver eternamente silenciadas. Regina falou o essencial no “Esquenta!”, aqui vai meu complemento.

Logo na primeira conferência de imprensa, antes da posse, Obama precisou abordar “questão de suma importância”: a escolha do cachorro que suas filhas levariam para a Casa Branca. Dois aspectos principais teriam que ser levados em consideração: o animal seria hipoalergênico (pois Malia, uma de suas filhas, é alérgica) e preferencialmente viria de “abrigo”. Nesse momento da entrevista, Obama lançou, como algo desimportante, comentário muito retuitado: sua família não estaria procurando uma raça específica, e o primeiro-cão poderia até ser “um ‘mutt’ como eu”. “Mutt” quer dizer vira-lata. “Primeiro presidente negro” soa imponente historicamente. Mas “primeiro presidente vira-lata”?

“Mutt” é termo ainda moderado, apesar de poder também ser traduzido como “estúpido”. Obama foi além, caindo em território racialmente mais “incorreto”. Na primeira entrevista que um presidente dos EUA concedeu para talk show matutino (o “The View”, da rede ABC, em 2010), Barbara Walters lhe lançou a seguinte provocação: por que se chama de negro e não de birracial (já que filho de negro com branca)? A resposta começou se referindo à “crise de identidade” vivida durante a juventude: “você sabe, parte do que compreendi foi que o mundo me via como afro-americano e isso não era algo do qual eu deveria fugir. Era algo que eu deveria chegar junto e abraçar.” Inesperadamente completou o raciocínio de forma perigosa: “E a coisa interessante sobre a experiência afro-americana neste país é que nós somos um tipo de povo ‘mongrel’. Quero dizer, somos todos meio misturados.”

Pronto, falou a palavra proibida. Talvez estivesse pensando novamente em “mutt”, mas saiu “mongrel”. Os dois vocábulos querem dizer a mesma coisa: “de raças misturadas”. Mas “mutt” tem ainda conotações fofas – “mongrel” é quase palavrão. Whoopi Goldberg, também no programa como entrevistadora, logo mandou um “yeah” de aprovação. Outros negros ficaram indignados. Glen Ford, editor executivo do site Black Agenda Report (“notícias, comentários e análises da esquerda negra”), chegou a falar em crime, afirmando que “mongrel” é um epíteto racial politicamente mais carregado do que “nigger”. Ninguém ligou muito para o complemento da fala de Obama, que expressava visão nova do ser humano como essencialmente mestiço: “Agora, isso é mesmo verdadeiro para a América branca também, mas nós [afro-americanos] sabemos mais sobre isso.”

Uma correção: a visão é nova para os americanos dos EUA. Nós, aqui, no Brasil, temos uma longa tradição de pensar positivamente a mestiçagem, chegando até ao orgulho de nossa condição crioula. Obama, em sua entrevista para o programa da ABC apenas repetiu a letra de “Olhos coloridos” ou remixou tese de Gilberto Freyre. Não devemos nos enganar pensando que era mais fácil combater o preconceito antimestiço em 1933, quando “Casa Grande e Senzala” foi lançado. Naquela época o pensamento dominante condenava a mistura racial como degeneração biológica. Porém, mesmo sem essa base “científica”, a reação contra a fala “mongrel” de Obama nos revela como ainda causa espanto a afirmação de nossa mistura essencial.

No Esquenta! que vai ao ar depois de amanhã, Regina e Fernanda Montenegro lerão poemas. Para Fernanda, “Poema de Natal” de Jorge de Lima; para Regina, “Natal” de Murilo Mendes. Escolhi o Murilo Mendes da versão 1959, não o original de 1935. Houve troca significativa, talvez influência de Gilberto: o “anjo sereno” virou “anjo moreno”. É o que desejo para o mundo: tudo, mesmo um anjo, é ainda mais sereno quando se reconhece moreno, “mutt” ou “mongrel”.

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mini/maxi

27/10/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 26/10/2012

No sábado passado participei de conversa pública com Brian Eno no Circo Voador (obrigado Marcello Dantas), bem atrás do trecho dos Arcos do Lapa onde ele projetou suas 77 milhões de pinturas. Sua fala mais surpreendente foi resposta para questão de Alê Youssef sobre a relação entre novas possibilidades de produção artística e ativismo político, principalmente em países com longo histórico de injustiças sociais como o Brasil. Nunca escutei elogio nacional tão objetivo e convicto. Nada de país do futuro. Para Eno já somos o lugar do planeta onde as experiências sociais e políticas mais avançadas acontecem, coisas impossíveis na China ou Reino Unido (as outras duas nações citadas, como referências comparativas). Aqui e agora. Simples assim.

Eu pensava que Caetano Veloso seria o único componente da banda “Artistas (quase não músicos) filhos de funcionários dos Correios e que amam os escritos de Roberto Mangabeira Unger“. Estava enganado. Eno, cujo pai era “postman” em  Woodbridge (a Santo Amaro da Purificação britânica?), também se revelou maravilhado com a leitura de Mangabeira, autor que conheceu através de citação de Richard Rorty, um de seus filósofos preferidos. Ficou mais impressionado com a descoberta posterior das conexões, mesmo turbulentas, entre Mangabeira e o governo brasileiro. Na Inglaterra, pessoas com ideias tão originais e radicais não poderiam ter nenhum laço próximo com a política oficial.

Outro brasileiro que Eno declarou admirar é José Júnior, do AfroReggae. Disse até que tem vontade de aprender português só para entender, sem tradução, o que Júnior fala. Ao que tudo indica, a admiração pode se transformar em projetos comuns. Interessante a configuração cultural que o Rio vem ganhando. Alan de Botton no Complexo do Alemão. Brian Eno em Vigário Geral. Seremos a nova Barcelona? É só hype?

Seja o que for: nossa responsabilidade, diante do mundo, já aumentou. Esse povo gringo todo espera de nós alguma lição (logo eu, falando por nós…). Antes, temos que encontrar maneira de explicar para o mundo o que somos, sem pudor. Não podemos tentar apenas agradar suas expectativas de civilização “avançada”. Pensei em indicar para Eno a leitura de Gilberto Freyre. Não deu tempo (mas talvez ele leia este texto, como leu o da coluna da semana passada, com a ajuda – geralmente engraçada – do Google Translate). Gilberto adorava jardins. Eno descreve o trabalho de jardineiro como atividade oposta àquela do arquiteto controlador, que conhece a forma final do edifício que vai construir. Os jardins incorporam o acaso, o imprevisível. Mas Gilberto ia além e classificava os jardins em dois tipos: o chinês, mais anárquico [“Irregulares, variados, cheios de imprevistos.”], e o francês, mais geométrico. O jardim brasileiro seria mais chinês, talvez com um grão de perverso barroquismo: aqui o ornamental, o pomar (e mesmo a horta medicinal) e o quintal se misturam, desafiando qualquer lógica, mesmo taoísta.

(Não sei onde eu estava com a cabeça, mas nas filmagens de Além-Mar, série de programas para TV sobre as terras onde se fala português, pedi para um imigrante angolano ler trecho sobre jardins de “Sobrados e mucambos” tendo como locação o Jardim de Lou Lim Ieoc, o mais bonito de Macau, onde Eugénio de Andrade escreveu os seguintes versos: “Deste jardim o que levo comigo / é um ramo de bambu para servir / de espelho ao resto dos meus dias.” Copiei Eugénio e também trouxe meu ramo, que me serve de marcador de páginas para seus livros.)

Eno se recusou a responder uma de minhas perguntas. Talvez tenha pensado que eu queria conversar sobre o Roxy Music. Não fui explícito: eu estava falando do Brasil. Simon Reynolds escreveu artigo sobre os 40 anos do lançamento do primeiro disco do Roxy Music. Defende que o visual glam não envelheceu bem (mesmo as capas seriam hoje politicamente incorretas), mas o som continua novo. Não concordo: quando vi a roupa que Eno usava nos shows do Roxy Music exposta no museu Victoria & Albert, achei tudo novíssimo e bem brasileiro. Onde anda aquela extravagância na sua obra atual? É um anjinho barroco enrustido dentro um “armário” minimalista?

Arto Lindsay, que também participou da conversa no Circo Voador e conhece Eno desde que ele produziu o disco No New York, depois veio ponderar: as roupas e os batons usados no Roxy Music foram uma aventura juvenil, em ambiente que exigia homens mais femininos; aquilo não teria a densidade estética que eu estava imaginando. Porém, penso eu, a não resposta à minha pergunta indica a vontade de uma ruptura extrema, como se tal passado não tivesse nenhuma consequência no artista de hoje. Estranho: Eno para mim se torna artista muito mais interessante justamente por ter tido aquele passado, que percebo ainda atuante, mesmo negado, na sua obra atual. Tal ideia só ganha força dentro de mim: desenvolvi mais uma teoria do antropólogo doido que tenta explicar os problemas do mundo atual, e a missão do Brasil, com o tal armário minimalista dominante (mesmo quando há modinhas maximalistas). É coisa séria, maluca e longa: fica para outra coluna.

cartas para inventar o Brasil

25/08/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 24/08/2012

Sou antigo, do tempo em que havia cartas. Que prazer narcisista era chegar em casa e encontrar um envelope pesadão, anunciando muitas páginas de novidades ou pensamentos de gente que dedicara longas horas de seus dias (incluindo a fila do correio) apenas para ficar em contato comigo. Quem só conhece email, que é outra alegria, nunca vai ter ideia do que era uma correspondência da “vida real”, com longo intervalo entre a postagem e a resposta. A impossibilidade da instantaneidade dava graça para o jogo de palavras. Sinto muita falta daquela difícil e custosa brincadeira. Ainda bem que o mercado editorial brasileiro tem publicado muitos livros de cartas. Mato a saudade bisbilhotando correspondências alheias.

Descobri, atrasado, dois livros que se transformaram em leituras preferidas de 2012: “Em família: a correspondência de Oliveira Lima e Gilberto Freyre” e “Cartas 1924-1944 – Câmara Cascudo e Mário de Andrade”. Devorei cada uma de suas páginas com a ansiedade de quem está tomado por uma telenovela. As cartas de um livro poderiam até ser embaralhadas com as do outro: muitas vezes falavam do mesmo assunto (por exemplo, o Congresso Regionalista de 1926), e eram como que uma conversa de turma, aquela que estava inventando o Brasil, ou a ideia de cultura brasileira dominante hoje.

Era realmente um país novo. Seus intérpretes tinham que se transformar também, para entender – ou mesmo conseguir enxergar – a novidade. Cada um de seu modo, de lugares diferentes. Oliveira Lima e Gilberto Freyre, no período em que trocavam cartas (de 1918 a 1828, quando Oliveira Lima morre), tinham vidas obviamente cosmopolitas, viajando constantemente entre várias cidades do Brasil, dos EUA e da Europa. (Incríveis os recursos para que as cartas chegassem a seus destinatários: eram usados endereços de amigos, de consulados, de hoteis. Havia sempre pedidos de livros, revistas, jornais, que chegavam de navio, avião, trem, com cuidadosos cálculos para economizar no preço da postagem. Muitas vezes usavam, ao mesmo tempo, o correio aéreo para algo mais urgente, avisando que carta mais longo já tinha seguido por via marítima. E cada época com suas redes de IPs. Por exemplo: no cabeçalho de uma carta que Oliveira Lima escreve de Lisboa encontramos, em francês, os dados de seu hotel: “Tele{graphe:  PALACE LISBONNE {phone: NORTE 357071”)

Já Câmara Cascudo e Mário de Andrade viviam mais quietinhos, um baseado quase o tempo todo em Natal, o outro em São Paulo, os dois sempre reclamando da falta de dinheiro ou tempo para viajar. Mesmo assim não eram menos cosmopolitas. Estavam ligados em todas as novidades de vários cantos do mundo. Cascudo (nas cartas chamado até de Cascudete) chega a passar o endereço de Stravinsky para Mário (carinhosamente chamado de “bestão”). Lição óbvia: o mundo não precisou esperar pela internet para ficar totalmente conectado. A conexão era demorada, muito mais cara. Mas estava ali, disponível, excitante. Nada muda tanto assim sob o sol.

Nas cartas de Cascudo e Mário havia a cumplicidade de gente da mesma geração (apesar de Mário nunca perder um tom professoral, de quem sabe ser mais famoso, até mesmo para corrigir o estilo da escrita e do pensamento do amigo/compadre). Já o ainda adolescente Gilberto (na primeira carta ele tinha 18 anos – e já sabia que era inteligente demais) escrevia para o diplomata Oliveira Lima, com o respeito que um discípulo dedica para um mestre. Pela correspondência chego até a desconfiar que tenha sido seu mestre mais importante. Em carta de 1921, Gilberto se mostra “alarmado” com o problema da mistura de raças no Brasil, demonstrando compartilhar opinião dominante na época, a que condenava a mestiçagem e esperava a salvação no “imigrante branco”. Na sua resposta, Oliveira Lima resume tese que só seria publicada em “Casa grande e senzala” 12 anos depois: “Eu mesmo não sei se a solução […] que estamos inconscientemente ou antes instintivamente dando ao problema não é mais acertada do que a que deliberadamente lhe têm dado os Americanos.” Depois pergunta se o “espetáculo da fusão” não é preferível ao “da exclusão”. Questionamento ainda atual?

Esta coluna é só para recomendar a leitura de todas essas cartas deliciosas e reveladoras, com suas invenções do Brasil. Para dar água na boca, uma receita que Cascudo – em 1929, no Crash daquele tempo – passa para Mário: “Descobrimos um novo quitute. Batizei-o ‘Tapioca Tarsila’. Tem um gosto que lembra o azul e o róseo da senhora do poeta Pau Brasil. Tapioca de goma (caroço grosso), coco ralado e leite do mesmo, açúcar e canela, a forno meio quente e 10 minutos para corar em fogão fechado. Maravilhoso!”

Jorge Caldeira

10/01/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 29/10/2010

Jorge Amado, escrevendo sobre o lançamento de “Casa-grande e senzala”, não economizou o tom bombástico: “Foi uma explosão […] Quem não viveu aquele tempo não pode imaginar a sua beleza […] o livro de Gilberto deslumbrava o país, falava-se dele como nunca se falara antes de outros livros.” Monteiro Lobato foi até mais apoteótico: “qual o Cometa de Halley, irrompera nos céus da nossa literatura…” Diante desses comentários, fiquei com inveja. Não me lembro, desde que me tornei devorador de livros, de um lançamento sobre o Brasil que tivesse gerado tal deslumbramento. Ou mesmo que tivesse provocado apenas em mim surpresa capaz de desnortear minha visão de país, propondo uma maneira realmente nova de pensar nosso lugar no mundo.

Talvez os livros, não apenas quando falam do Brasil, tenham perdido esse poder. Games e softwares ganharam corações e mentes, de forma contundente, apesar de pouco analisada, e sem produção nacional de peso. Por exemplo: Halo:Reach, game recém-lançado, vendeu 200 milhões de dólares no primeiro dia, em todo o planeta. Isso é que é um cometa de Halley mercadológico, que irrompe nos céus da consciência contemporânea fora do radar da crítica artística, sem deslumbrar figurões da literatura de país algum. Porém, mesmo com essa competição “desleal” de outros estímulos culturais, provavelmente o verdadeiro problema não seja somente mídia (game ou livro), mas também o tal “conteúdo” (o “Brasil”, o “nacional”), e assim – abruptamente – a ausência desses livros em nossa vida atual fica bem explicada, ou eternamente sem explicação.

Então – quando eu já estava conformado, jogando “Little big planet” – surge o “História do Brasil com empreendedores”, de Jorge Caldeira. Terminei a  leitura há meses. Tentei fazer pouco caso, ou abafar meu espanto. Claro que ouvia elogios, mas todos meio “blasés”, ou distanciados, como se proferidos por personagens do Dolce Vita de Fellini, naquela festa final, quando – diante do oferecimento de um strip-tease – alguém diz: “Não novamente, todo mundo já viu você nua.” Prudente, fiquei esperando a contestação de algum historiador, metralhando dados para provar que o que Caldeira diz está errado. Nada, até agora. Isso quer dizer que todo mundo aceitou a nova interpretação do Brasil? Ou ninguém leu direito, ou deu importância ao que leu?

Estranhíssima situação. No meu pensamento, as teses de Caldeira foram – como naquela música do Peninha“crescendo, crescendo, me absorvendo e de repente eu me vi completamente” delas, tomado pelo livro. E tenho que confessar: o Brasil deixou de ser o mesmo país em que eu vivia antes da leitura. Não é exagero: se vamos, a partir de agora, levar a sério o que está escrito em suas páginas, mesmo os livros didáticos precisam ser reescritos. Nas escolas, aprendemos que a economia colonial brasileira não se desenvolveu pois tudo que era produzido aqui ia para Portugal. Caldeira revela um outro início de país, com mercado interno mais dinâmico que o da metrópole, com vida rica fora da casa-grande e da senzala. Somos ensinados, desde criancinhas nas primeiras aulas de História, a pensar uma colônia apenas com senhores e escravos. “História do Brasil com empreendedores” fala de uma terra que tinha, na pior das hipóteses, mais de dois terços da população composta por homens livres. Meu espanto: como os outros livros nos “esconderam” essa gente toda, esse tempo todo? E o que fazer, a partir de agora, com o aparecimento dessa “nova” e decisiva população?

Como se isso não bastasse, Caldeira ainda lança várias outras idéias que para mim são alegremente pertubadoras, e exigem revisão cuidadosa de várias de crenças anteriores. Com Gilberto Freyre, eu imaginava que a mestiçagem brasileira tivesse origem ibérica, talvez árabe. Vários bons momentos de “História do Brasil com empreendedores” viram essa idéia pelo seu avesso “perspectivista”: nossos índios se tornam os “miscigenadores” mais radicais e obstinados. Certa vez, em entrevista, Aílton Krenak me disse que os índios não tinham lugar em “Casa-grande e senzala” – eram os que ficavam fora, à espreita, prontos para o ataque. Para Caldeira, o ataque já aconteceu, na surdina, mudando os corpos de senhores e escravos, sem que eles percebessem ou escrevessem sobre isso em seus livros de História, ou contra-História.

Fui procurar outros livros de Caldeira. Dei sorte de encontrar um exemplar da edição esgotada de “A construção do samba”, que reúne ensaios dos anos 1980. Incrível não ter conhecido esses textos antes de ter escrito o meu “O mistério do samba”, com tantas preocupações em comum. Foi interessante reencontrar Donga, que agora pode ser “lido” como um empreendedor, inventor de um “negócio”, o da música popular no Brasil, entre o “mercado” e a autenticidade, entre a “roda” e o consumo de massa. Na perspectiva de Caldeira, o sambista – como o trabalhador livre da colônia – deixa de ser apenas o excluído, para se tornar também – ao mesmo tempo – agente de sua própria história, mesmo de forma informal.

A informalidade, “o fio do bigode” e o favor acabam se tornando os maiores inimigos dos empreendedores. O crescimento da periferia – ainda que exuberante – fica contido, à margem. Com metade da sua força de trabalho na informalidade, o Brasil precisa enfrentar esse problema mais que central. Pense nisso, antes de votar no domingo.

ainda Gilberto Freyre – “a vida às claras”

01/01/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 20-08-2010

Fernando Henrique Cardoso fez a conferência de abertura na recente homenagem da Flip para Gilberto Freyre. Decidiu falar de improviso, mas sobre as idéias de um longo ensaio que pode ser lido na internet. No primeiro parágrafo, comentando o deslumbramento proporcionado pela escrita do autor de “Casa grande e senzala”, FHC relembra o incômodo que sentiu ao se deixar fascinar pela beleza de um texto que o “arqui-conservador” Borges publicou para agradecer outra homenagem, esta prestada por uma academia chilena silenciosa diante dos horrores de Pinochet. Seu dilema: “o brilho do talento do escritor argentino me [fez] esquecer quem era o homenageado, quem o homenageava e em quais circunstâncias. Não é possível, pensei, que o senso estético me afaste tanto da moral.” Quando li essas palavras, angustiadas e corretas, me lembrei de um artigo de jornal publicado por Gilberto quando tinha apenas 25 anos. É uma dessas pérolas de incorreção, impossíveis de serem enunciadas por um ex-presidente que ainda tem muito a perder politicamente com qualquer ambiguidade em seus pensamentos públicos.

Aviso aos leitores sensíveis: quem precisa de um moralismo com separação clara entre o Bem e o Mal não deve se aventurar pelo resto desta coluna. Gilberto não escrevia para quem procura certezas, para quem quer fortalecer os fundamentos éticos inabaláveis, ou para quem não pode encarar o mais sério do mundo com uma saudável dose de elegante bom humor. No artigo “Viver às claras” (Diário de Pernambuco, 15-5-1925) – na verdade um elogio da penumbra – essas características típicas de seu estilo de argumentação se apresentam em versão mais perigosa, abrindo imenso telhado de vidro (por favor: com insulfilm, para ficar escurinho mesmo ao meio-dia de sol) e dando de graça munição pesada para inimigos. Era tudo bem intencional, calculado. Gilberto já havia declarado ser mais “doloroso” viver sem inimigos do que sem amigos. Obviamente: “inimigos dignos de nós mesmos, do nosso tamanho”. Por isso, ele tinha prazer em produzir grandes inimizades intelectuais.

Mas vamos logo ao perigo, confissão culpada de FHC assumida como convicção infeliz mas transbordante de orgulho e boa prosa: “prefiro o pecador com pudor dos seus pecados ao pecador que peca às claras. Sob um critério rigidamente moral pecar às claras será talvez superior a pecar às escuras ou à meia-luz. Mas sob o critério estético-moral, que infelizmente é o que eu sigo, pecar às escuras é mais bonito; e o próprio sabor do pecado se aguça na discrição.” Daí preferir também, ao doente que “que nos conta em minúcias seus padecimentos e às vezes nos expõe suas feridas”, o “doente para si”. O que resvala numa apologia da “boa hipocrisia” (há a má…), contra “espontaneidade dos impulsos e dos instintos”, e vai até ao combate contra o urbanismo francês de avenidas claras e largas, traçadas como num tabuleiro de xadrez, em favor da manutenção do zig-zag sombrio de nossas antigas ruas quase árabes. Mas isso não significa preferência pelo pecado: mesmo a manifestação da virtude, para ser bela, deve ser realizada com o máximo de pudor.

Consequência lógica (mesmo Gilberto não suportando a lógica…): seria preferível ser racista “para si” do que racista “às claras”. Radicalizar Gilberto seria tornar o pudor tão poderoso, tão sufocante, para o racismo, não deixando dele nenhum vestígio. Assim como radicalizar o elogio da miscigenação seria praticar com tal rigor e extremismo nossa mulatice para não mais haver nenhum espaço para sobrevivência das discriminações baseadas em raças, que continuam a penalizar nosso cotidiano – mesmo quando sabemos que raças são categorias científicas duvidosas.

Talvez o Brasil já tenha escolhido o caminho político oposto, com opção pela vida às claras confundida com a única possibilidade democrática. Mesmo ser mestiço virou ameaça. Anos atrás, quando a inscrição para o Enem não era online, uma amiga lindamente morena foi impedida de se declarar parda pois, como não era pobre, parecia que estava querendo aproveitar as cotas para sucesso fácil e imerecido nas provas. Ela nunca tinha se pensado como branca, não se considera branca, mas foi obrigada – moralmente e pela funcionária que recebia a sua inscrição – a se declarar branca. Este ano, ajudei meu sobrinho a preencher um questionário sociocultural para vestibular. Além de ter que dizer se era a favor ou contra cotas para afrodescendentes, estudantes de escolas públicas ou filhos de policiais, precisava também declarar qual era sua raça. Em casa, sempre o ensinei a ter orgulho de sua herança misturada, visível em nossos olhos indígenas, na maravilhosa variação de tonalidades de pele na família. Sempre considerei isso um aprendizado político, emancipador: pensando-se mestiço, atento para todas as consequências dessa identidade misturada, ele deveria se engajar nos movimentos contra o racismo e contra qualquer discriminação com base em raça. Mas ali, ao buscar acesso à universidade, ele aprendia – para não usurpar direitos de quem pode realmente de beneficiar com cotas, para acabar com a injustiça social/racial brasileira – que precisava se declarar branco.

Impossível não pensar: estamos perdendo algo importante, que poderia ser utilizado – talvez como nunca foi, devidamente – no combate ao racismo? Não quero pecar às escuras. Porém quem tem certeza que acentuar a diferença entre brancos e negros é a melhor maneira de acabar com o pecado?


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