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1995 novamente

18/04/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 17/04/2015

Há sete dias, escrevi por aqui: “precisamos de uma boa história das cibercomunicações nacionais”. Naquela manhã de sexta-feira, a psicóloga Daniela Romão gentilmente me enviou mensagem avisando que temos a dissertação de mestrado “A trajetória da internet no Brasil”, defendida em 2006 por Marcelo Sávio de Carvalho na Engenharia da UFRJ. Eu conhecia a tese de doutorado da própria Daniela Romão, sobre cibersubjetividades contemporâneas, intitulada “Brincando de ser na realidade virtual”. (Em campo de estudo dominado pela negatividade, é admirável sua “visão positiva”, demonstrando que os “múltiplos eus” de nossa experiência online podem não ser encarados como patologia.) Por isso logo segui sua dica e baixei a dissertação do Marcelo Sávio de Carvalho, disponível em vários recantos da rede. Este meu texto de hoje tomou novo rumo a partir do muito que aprendi com sua leitura.

Claro, outros autores podem produzir histórias da internet no Brasil com mais detalhes. Porém, o básico, com seus momentos mais significativos, já está narrado por Marcelo Sávio de Carvalho. Começando pela origem mais remota das políticas públicas para telecomunicação no país, desde o Conselho Nacional de Telecomunicações de Jânio Quadros ou o Código Brasileiro de Telecomunicações de João Goulart. Mesmo antes de 1964, os militares, através de recomendações de estudos do Estado Maior das Forças Armadas, já inspiravam essas iniciativas, mostrando o embrião do perigoso link entre informática e segurança nacional que vai se fortalecer nas décadas seguintes. A Embratel foi criada em 1965, desprivatizando o setor, com foco em integração territorial. No início dos anos 1970, no auge da ditadura, surgiu a Coordenação de Assessoria ao Processamento Eletrônico (CAPRE), ligada à Presidência da República. Em 1978, a CAPRE foi substituída pela Secretaria Especial de Informática, tudo com vínculos tanto com o SNI quanto com o Conselho de Segurança Nacional, criando espaço inclusive para a reserva de mercado de informática e defendendo “controle governamental sobre os sistemas de informação de cada país” (alguma semelhança com a posição chinesa atual?).

A década de 1980 viu aparecer redes de dados como o Cirandão da Embratel, ou o projeto paulista de videotexto (a Telesp chegou a propor o “olhão”, terminal público que iria substituir o “orelhão”), e o avanço acadêmico para conectar as universidades, construindo os caminhos que formariam a espinha dorsal da rede que utilizamos até agora. Marcelo Sávio de Carvalho também dedica várias páginas para revelar o papel que o IBASE, pioneira ONG com sede carioca, teve na abertura do uso da internet para toda a população brasileira.

1995 foi realmente ano crucial nesta história. A Norma 004/1995 do Ministério das Comunicações comandado por Sérgio Motta, no início da onda de privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso, serviu de anúncio claro para a mudança, definindo a internet como “um serviço de valor adicionado, sobre o qual não haveria nenhum monopólio”. Logo depois, Sérgio Motta determinou que a Embratel “teria que encerrar suas atividades como provedora de acesso a pessoas físicas.” Em 1996, o ministro sentiu necessidade de reafirmar nos jornais: “O que o governo tem que fazer com os usuários da internet é deixá-los em paz.”

Gostaria de ter mais notícias sobre os bastidores dessa queda de braço entre o Ministério das Comunicações e a Embratel. Marcelo Sávio de Carvalho cita depoimentos de funcionários da estatal tentando se defender de acusações de voracidade monopolista. Outros futuros estudos também podem nos revelar melhor o pensamento sobre informática produzido por órgãos de “informação” na ditadura (talvez situando-o no panorama internacional da Guerra Fria, e pós-Guerra Fria, já que a palavra informação continua a ter poderosas relações com serviços “secretos” e tentativas de controle, como as denúncias de Snowden confirmam).

Ainda outros pesquisadores precisam se debruçar sobre a história da internet no Brasil depois de 2006, quando Marcelo Sávio de Carvalho defendeu sua dissertação. Ali foi ano de outra virada, aquela da viralização das redes sociais, quando a população brasileira toma gosto pelo Orkut, já tendo sido campeã ou vice-campeã (um pouco antes ou um pouco depois de 2006) de uso mundial em ferramentas/sites/comunidades como ICQ, YouTube, MSN e, recentemente, Facebook, Instagram, Twitter, Whatsapp. A afinidade do Brasil com a comunicação eletrônica está mais que comprovada. Precisamos de política para incentivar a conversão dessa apropriação frenética em invenção de nossas próprias ferramentas para o resto do mundo usar. A Estônia criou o Skype. Qual invenção brasileira vai ter impacto no ciberespaço?

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1995

11/04/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 10/04/2014

A internet comercial brasileira está completando duas décadas. Até 1995, nossa conexão com a rede mundial de computadores só era possível a partir de universidade, de órgãos governamentais e do Ibase, com seu pioneiro Alternex. No início daquele ano, ninguém ainda conseguiria prever qual o modelo de acesso que seria adotado no Brasil. A Embratel chegou a pretender ser provedor único. Seus planos monopolistas não deram certo, numa virada surpreendente, que ainda não foi bem investigada. Aliás, precisamos de uma boa história das cibercomunicações nacionais. Anoto aqui informações pitorescas para ajudar quem se dispor a realizar essa tarefa.

Em novembro de 1994, o caderno de informática do Jornal do Brasil publicou a lista de “todos os WWWs brasileiros”. Eram apenas 28 endereços, 26 de universidades mais o do Ibase e o da Caixa Econômica Federal. A matéria era didática, mas incompreensível para o leitor comum: “Com os WWWs, o usuário pode ‘visitar’ museus, instituições de pesquisa, a Casa Branca ou até assistir ao show dos Rolling Stones. A forma de apresentação do Web são as páginas.” Já em outubro de 1995, uma matéria d’O Globo tinha como manchete “Garanta seu espaço na Net” e trazia a lista dos 14 provedores de acesso cariocas e paulistas, quase todos BBSs que passaram a permitir conexões com a internet. Meses antes, Tadao Takahashi – então coordenador da Rede Nacional de Pesquisas (RNP), órgão que construiu a espinha dorsal da rede brasileira – anunciava que em 1997 esses provedores teriam 150 mil usuários.

Eram cálculos modestos. Computadores não eram itens de consumo exatamente populares. Modems faziam menos sucesso ainda. Conheci Tadao nessa época, quando a RNP tinha escritório no IMPA. Ele me procurou para organizar um estudo sobre os usos sociais que a internet poderia ter no Brasil, tentando planejar que tipo de acesso seria mais relevante. Eu, Jayme Aranha Filho e Eduardo Viveiros de Castro organizamos, a pedido da RNP, um evento com nome pomposo, mas bem precavido: Seminário Preparatório sobre Aspectos Socioculturais da Internet no Brasil, realizado nos dias 28 e 29 de agosto de 1995 no auditório do LNCC (Laboratório Nacional de Computação Científica), na Praia Vermelha. O objetivo era apenas elaborar recomendações para um macroprojeto de pesquisa que nortearia a abertura comercial da internet em território nacional. A RNP ainda pensava que isso seria feito com calma. Claro que a realidade atropelou a tentativa de planejamento. Quando a ciberporteira abriu, os brasileiros demonstraram que se sentem tão em casa na internet quanto em bloco de carnaval de rua.

Eu já tinha acesso Altenex desde o tempo em que para mandar um email era necessário decorar vários comandos Unix. Lembro minha emoção ao descobrir, quase secretamente, que durante a Rio 92, nosso acesso ao novíssimo WWW foi liberado. Por isso ficava sempre procurando maneiras mais estáveis e velozes de conexão. Recebi uma daquelas cartas, em maio de 1995, anunciando: “A EMBRATEL tem a satisfação de disponibilizar para V. Sa. o acesso à Internet na modalidade IP discado.” Deixava claro que era um “projeto piloto” e apresentava dois números de telefone, um para velocidades de acesso até 14.4 Kbps e o outro para 28.8 Kbps (facilitando a comparação: 1 mega de banda larga é quase 35 vezes mais veloz que 28.8 Kbps, e temos que incluir aí os perrengues com ruídos nas linhas telefônicas de 20 anos atrás). No “piloto” a vantagem seria conexão de dados gratuita; o usuário só pagaria pela ligação telefônica. Era mesmo uma tentativa de se tornar a única porta de entrada para a internet no Brasil. Acho que não durou nem até o final de 1996. Quando outros provedores foram autorizados a comercializar acesso, a Embratel dançou.

Guardei um encarte da revista “Internet Brasil” de setembro de 1996. É um “guia de home-pages e provedores de acesso do Brasil”. Não dá mais para contar. São cerca de 4 mil URLs, quase 150 vezes mais do que o número de menos de dois anos antes. São algo em torno de 300 provedores.

Que ninguém pense que o Brasil estava atrasado. A explosão popular da internet nos EUA aconteceu também em 1995. Em julho de 1994 a revista Time publicou capa sobre “o estranho mundo novo da internet”. Em novembro de 1994 a Business Week explicava “como a internet vai mudar a maneira como você faz negócios”. Em janeiro de 1995 a PC World – publicação mais especializada em nerds impossível – trazia na capa a seguinte manchete: “como se conectar à internet”. Nós brasileiros mergulhamos fundo e convictos na novidade estranha. Pena que até hoje mais como usuários do que como criadores de serviços. Assunto para a coluna da semana que vem.


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