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tragédia e segurança

26/04/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 24/05/2014

O texto que Regina Casé enviou para a imprensa expressando a tristeza imensa que todos nós, da família “Esquenta!”, estamos sentindo depois da morte do DG, nosso brilhante dançarino, terminava assim: “é preciso que a Polícia esclareça essa morte, ouvindo todos, buscando a verdade. A verdade, seja ela qual for, não porá fim à tristeza. Mas é o único consolo.” Tenho certeza que nossa dor pessoal, familiar, é compartilhada por muito mais gente. Aproveito para agradecer as mensagens de solidariedade que recebemos, todas comoventes, não apenas por lidarem com um caso de luto particular, mas também por entenderem que a morte do DG é parte de uma tragédia nacional, que precisa ser combatida imediatamente, com máximos rigor e empenho.

Sinto vergonha em listar estes números. Mas precisamos revê-los, diariamente. Sei que estão disponíveis em documentos na internet e arquivos de jornais. Porém, como disse Átila Roque, da Anistia Internacional Brasil, somos vítimas de uma “epidemia de indiferença”, que torna praticamente invisível (a não ser em instantes dramáticos como o que vivemos, que tendem a ser esquecidos por quem não é próximo) uma situação “que deveria estar sendo tratada como uma verdadeira calamidade social.” Em vez de tratamento, nossa atitude indiferente, para não dizer cúmplice, perpetua a doença. Vamos aos números, então. Quem me ajudou a coletá-los foi a cientista social Silvia Ramos, pesquisadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes. O conjunto forma uma imagem de guerra: há cerca de duas décadas, são assassinadas bem mais que 30 mil pessoas por ano no Brasil. Isso dá uma taxa de mais ou menos 25 assassinatos por 100 mil habitantes, o que coloca nosso país entre os dez mais violentos do planeta.

Essas mortes não são distribuídas aleatoriamente por toda nossa população. As estatísticas variam – de maneira assustadora – por sexo, idade, cor e território. As taxas da Lagoa e do Leblon são europeias, com cinco homicídios por 100 mil habitantes. Em outros pontos da cidade, nas zonas Oeste e Norte, temos taxas de 75 por 100 mil. A taxa de homicídios de jovens negros do sexo masculino no Rio de Janeiro é de quase 200 (DG estaria entre esses 200) por 100 mil. Repito que o Brasil está entre os dez países mais violentos do mundo com taxa de 25 por 100 mil. Com 200, seríamos líderes isolados nesta relação sinistra. Números absolutos são ainda mais vergonhosos: de 1981 a 2010 foram assassinados 176.044 pessoas com 19 anos ou menos no país.

Quando Silvia Ramos cita essas estatísticas em seminários internacionais, a primeira reação da plateia é de incredulidade. Muita gente pensa que há algo de errado nos números. Depois da confirmação, surgem as perguntas: “E vocês deixam isso acontecer? E vocês não fazem nada?” Passo a pergunta para quem está lendo esta coluna: o que estamos fazendo? O que fazer? Não me agradam discursos apenas indignados. Quero propostas concretas para a resolução dos problemas.

Não sou especialista em segurança, mas tenho o privilégio de conviver com pessoas como Silvia Ramos ou José Marcelo Zacchi (no ano passado ele entrou também para a família “Esquenta!”), que desde a adolescência, primeiro fundando o Sou da Paz paulistano e depois o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, se dedica a esse campo de estudos e militância. Aprendo sempre com suas lições, como na apresentação – em torno da mesa eletrônica do programa “Navegador”, na GloboNews – da proposta de pacto suprapartidário (em texto suscinto, que precisa ser lido por todos, assinado por Renato Sérgio de Lima, Cláudio Beato, José Luiz Ratton, Luiz Eduardo Soares e Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, nomes vindos de lugares bem diversos de nosso espectro político) para uma reforma efetiva da segurança pública. Na mesma conversa conheci a PEC-51, principal projeto de reforma existente hoje no Congresso, que advoga inclusive um novo modelo de polícia para o país.

Logo após a exibição desse programa li, em redes sociais, vários comentários de policiais apoiando enfaticamente a reforma. Sinal que já vivemos em ambiente que torna possível uma conversa civilizada e democrática (sem a polarização radical que qualifica qualquer questionamento da atuação da polícia como “defesa de bandidos”) sobre as medidas necessárias para acabarmos com todos os tipos de violência. Ninguém precisa concordar com as propostas. Elas estão citadas aqui apenas como exemplos para serem debatidos. É necessario seguir adiante, lutar por mudanças urgentes. Tarefa de todos nós. Só assim passaremos a viver num país onde tragédias como a do DG não aconteçam nunca mais.

pessoas e conteúdos

21/07/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 20/07/2012

Já passou o bombardeio literário? Fico sempre bem impressionado com a repercussão da FLIP na imprensa. É um dos poucos eventos culturais – junto com as Fashion Weeks e o Rock in Rio – que sai dos segundos para os primeiros cadernos, disputando espaço e urgência editorial com as notícias mais importantes do dia. Considero divertido encontrar Jennifer Egan e Teju Cole, ou Carlito Azevedo homenageando Carlos Drummond de Andrade, entre inauguração pré-sal de Dilma Rousseff ou reunião de Angela Merkel para conter a crise do Euro.

Esse acompanhamento “em cima da hora” das palestras é antecedido, durante meses a fio, por muitas entrevistas exclusivas com convidados. Os anúncios das confirmações de cada escritor também ganham as manchetes. Até hoje, uma busca pelo meu nome na internet vai encontrar entre os primeiros resultados, e repetido em centenas de sites, o press-release da minha participação, em mesa secundária, na FLIP 2010. É a união entre trabalho de assessoria de imprensa impecável com receptividade extraordinária por parte dos jornalistas.

Amor eterno enquanto dura? Neste ano de 2012, notei um esfriamento no namoro FLIP-imprensa, que por pouco não virou momento tenso para discutir a relação. A participação de várias estrelas literárias foi descrita como “morna” ou “pálida”. Só me acalmei quando a Folha de S. Paulo decretou que a edição foi salva “aos 45 do 2º tempo”. O jornal reatou o romance com manchete bem assanhadinha na sua geralmente sisuda primeira página: “Com debates divertidos, Flip empolga no último dia”. (Vinha logo abaixo de “Novo presidente do Egito restaura Parlamento”.)

Divertido? Empolga? Fique tranquilo, não vou passar aqui sermão em jornalista e público que vão a encontros literários em busca de entretenimento. Não vou esbravejar contra a “lógica do consumo” que tomou conta da cobertura e da atitude da plateia mesmo em eventos de Alta Cultura. Sou contraditório (esse é meu bordão): gosto de Guy Debord e também do espetáculo. Porém, preciso defender com unhas e dentes o nosso direito ao morno, ao pálido, e – radicalizando – ao chato. Alguns dos espetáculos mais marcantes da minha vida, ou alguns livros que mais amei, foram de uma chatice avassaladora – e só atravessando vastos desertos de tédio (pois sou muito disciplinado) consegui perceber suas belezas. Se a chamada Alta Cultura perder essa permissão de nos entediar, muitas obras primas da Humanidade deixarão de ser criadas.

Também preciso defender os escritores malas. É muita crueldade exigir que, além de escrever bem, tenham talento para divertir ou esquentar plateias impacientes, com déficit de atenção ou com hiperatividade só controlada com muita ritalina. Ficou chato, não está a fim de enfrentar a chatice? Navegue pela internet do seu smartphone, mas mantenha um ouvido ligado no palco: quem sabe daqui a vinte minutos o escritor morno não solte uma frase brilhante de poucos caracteres e perfeitamente retuitável?

Sempre que participo de palestras, penso em Elizabeth Costello, personagem ranzinza de J. M. Coetzee. Suas falas públicas são desastrosas. Mesmo seu filho admite: “Não é o métier dela, a argumentação. Ela não deveria estar ali.” Mas os convites continuam, até para participar de ciclos de debates em cruzeiros marítimos. É uma escritora famosa e o mundo tem uma quantidade assombrosa e crescente de feiras literáriase eventos de “pensamento”, criando um mercado enorme que precisa ser alimentado com mais e mais atrações. O escritor aceita os convites insistentes. Dizer não a todos eles seria tão difícil quanto – para usar lugar comum em artigos sobre a FLIP – andar de salto alto nas ruas de Paraty. (Antônio Prata sugeriu, em coluna na Folha, que escritores emburrados, blasés e que não respondem “educadamente às perguntas que lhes fazem” deveriam ser tragados por um alçapão. Recomendo a mesma punição para algumas plateias, que poderiam procurar diversão alhures. Estou em dia raro de defesa de poderosos e eruditos: os escritores também voaram meio mundo, e o público muitas vezes os recebe com perguntas imbecis, que tiram qualquer um do sério. Cito novamente o filho da Elizabeth Costello: “palestras públicas atraem malucos e pirados como um cadáver atrai moscas.”)

Mesmo assim, com tanta demanda, talvez as Elizabeths Costellos do mundo (e esse tipo de maluco) tenham seus dias contados. Eventos tipo TED já nos acostumaram com conferências de 10 minutos todas embaladas por imagens velozes no power point e performances impecáveis/ensaiadas de palestrante transformado em show-man, com tiradas bem-humoradas, indignadas ou politicamente incorretas (é isso que esquenta o público) emitidas com timing perfeito. Ler demora, é chato: o grande público quer um resumo divertido.

Ou quer apenas um ponto de encontro badalado, para ver e ser visto, e depois ter assunto para comentar no Facebook. O Facebook parece ser destino e modelo para tudo (é o condomínio fechado que engoliu a cidade). Como bem identificou meu amigo José Marcelo Zacchi, hoje diretor do IETS (e uma das pessoas que mais gosto de copiar): essa rede social se tornou tão poderosa por apostar que a desculpa para interagir (FLIP, show de pagode etc.) é secundária. O que o povo quer é interação. A rede de pessoas toma o lugar da rede dos conteúdos – o que pode ser frustrante pra quem gosta de conteúdo, “mas é inegavelmente humano até o fim.”


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