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bots e humanos

14/04/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 13/04/2011

Fotos no Twitpic revelam que havia sim humanos, com óculos 3-D de aro branco, na platéia da retrospectiva do Kraftwerk no MoMA de Nova York, iniciada terça-feira. Depois do congestionamento na fila virtual, quando os ingressos se esgotaram em uma hora e meia, e foram vendidos para apenas 1,2% daqueles que ali viveram inédito sufoco cult-eletrônico, surgiu boato nas redes sociais afirmando que somente robôs tiveram sucesso na compra. Ainda não descartei tal possibilidade. Um exército de programas-robôs, preparados para entrar na fila com a pontualidade de relógios atômicos, pode ter sido comandado por hackers-cambistas, que depois venderam as entradas por até 50 vezes mais que o preço inicial generoso só permitido com patrocínio. Se isso aconteceu, seria cumprimento perverso da profecia do próprio Kraftwerk, autor da música “The robots”, cuja letra dizia: “fomos programados para fazer tudo que você quiser, nós somos os robôs”.

“The robots” abre o álbum Man Machine, de 1978. Não é caso isolado na obra do Kraftwerk, que tem na reflexão sobre a relação homem-máquina (mesmo bicicleta, ou aparelho de eletrocardiograma, vedetes de faixas de “Tour de France”, seu disco mais recente) um de seus eixos principais. Vi os dois shows da banda no Tim Festival. O primeiro, em 1998, era executado por toneladas de equipamento. Computadores ainda eram enormes naquele século. Em 2004, o mesmo resultado sonoro e visual foi obtido apenas com laptops. Na platéia era sempre impossível distinguir o programado do improviso, o que as máquinas ou os humanos tocavam. Quem acha playback inautêntico, um atentado contra a verdadeira música, fica indignado com apresentações do Kraftwerk. Em 1998, as cortinas se abriam, as máquinas já estavam tocando sozinhas, os músicos só entravam no palco vários minutos depois. Quando os humanos iam para o camarim, no final do show, os computadores continuam fazendo a platéia dançar. Os componentes do Kraftwerk eram nossos professores numa aula extremista sobre arte conceitual. O que importava era a idéia – genial – e não quem a executava. A “mão” humana ocupava lugar assumidamente secundário no espetáculo.

Um momento muito esperado em todos os shows é quando robôs físicos aparecem no palco para fazer sua dança mecânica. Todos os movimentos são primários, repetitivos, mas a reação do público é sempre de fascínio. O futurismo do Kraftwerk tem ar retrô, apesar de ser produzido com tecnologia de ponta. Talvez nunca tenhamos robôs como aqueles, com corpos que imitam o dos humanos. Hoje temos “bots” espalhados pela internet em forma de cookies ou vírus cada vez mais inteligentes (comprar ingressos antes de nós é bobagem perto de suas outras atividades, que talvez não consigamos mais controlar). Dizem que mais da metade do tráfego da rede é feito por esses “seres” artificiais, com seus corpos de bytes.

O historiador da ciência George Dyson, que acaba de publicar livro sobre a pré-história dos computadores nos porões de Princeton, lembra que se antes os computadores eram chamados de “cérebros eletrônicos” (pois tentavam simular o modo humano de pensar), hoje é a química reprodutiva da vida, embutida em códigos genéticos, que inspira o desenvolvimento dos robôs que vivem on-line. Dyson chega a perguntar: para que nos preocuparmos com viagens interplanetárias de corpos físicos? Mais útil seria mandar bots virtuais explorar os confins do universo (e quantos bots já há em atividade no telescópio Hubble, olhando o que não podemos ver?)

Quando damos nossas voltas na internet, muitas de nossas interações são feitas com entidades não-humanas, que se comportam como gente. Muitos perfis em redes sociais são fakes bem especiais: não há pessoas ali “atrás”; há bots tentando se passar por humanos. E quando eles, como a Rachel de Blade Runner, acreditarem que são humanos, ou mais humanos que os humanos? Serão nossos melhores companheiros? Nossos herdeiros imortais?

Como escrevi na coluna passada, enquanto estava na fila para comprar ingresso para a retrospectiva do Kraftwerk, fazia em contato, em outra “aba” do meu browser”, via redes sociais, com milhares de pessoas que viviam o mesmo perrengue. Essa já é nossa “realidade aumentada”: habitamos o mundo real e o mundo virtual simultâneamente, humanos e máquinas em simbiose cada vez mais refinada. Às vezes, mídias diferentes se espelham e nós humanos somos usados como interfaces entre elas, como abelhas polinizando (obrigado Manuel de Landa via Kodwo Eshun) plantas de distintos recantos da floresta. Vi toda esta temporada do “Esquenta!” com o computador ligado para saber o que as pessoas (aquelas que antigamente eram classificadas de público passivo) comentavam sobre o programa (sou um de seus criadores). A conversa acontece quando o programa está no ar. Quase todas as nossas atrações, de Roberto Leal a MC Carol (aquela da vó que tá maluca), viraram Trending Topic mundial no Twitter. Diziam que a TV ia acabar por causa da internet. Mas se não fosse a TV, sobre o que as pessoas conversariam na internet? Ou a TV nos usa para conversar com a internet?

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Também escrevi aqui sobre a Dama do Bling. De lá para cá, descobri várias outras cantoras com nomes igualmente sensacionais. Lá vai uma lista de angolanas: Titica (há comentário no YouTube: “esta jovem era homem”); Tuga Agressiva; ou, minha preferida, Noite Dia, que já fez dueto com Puto Lilás.

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PercPan 2010

07/01/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 01-10-2010

Não gosto de quem legisla em causa própria. E de quem utiliza sua coluna para fazer propaganda de seus próprios trabalhos…  Mas o texto hoje é utilidade pública. Este fim de semana em Salvador e no início da semana que vem aqui no Rio, com um show avulso em São Paulo, vai acontecer o festival PercPan. Junto a diretora Beth Cayres e com Carlos Galilea, jornalista do El País e um dos maiores conhecedores da música mundial e brasileira, fiz a curadoria desta edição. Já trabalhei em outros festivais. Sei como uma boa seleção de atrações é fruto de muita batalha, mas também questão de sorte. Depende daquela banda querer vir ao Brasil, aceitar o nosso cachê, nossas datas. A América do Sul nunca é prioridade no mercado de shows. Muitas vezes, fazemos planos perfeitos. No final do processo, chegamos a uma escalação totalmente diferente. Porém, neste PercPan, todos nossos melhores sonhos se tornaram realidade. Apesar de serem nomes desconhecidos do grande público (e é por isso que me sinto na obrigação de escrever este texto – os jornais ainda não publicaram artigos sobre quem vem tocar), não pode haver festival mais bacana, em qualquer lugar do mundo. Se você tem algum interesse por música, por favor – para o seu próprio bem – não perca nenhum show. É oportunidade rara para ver nomes que dificilmente se apresentarão no Brasil novamente.

Não estou exagerando. Sou o maior crítico do que faço, sem piedade: procuro defeitos em tudo. Mas é difícil encontrar algum detalhe que não gosto neste PercPan. Não saberia indicar a melhor noite, ou uma única atração. O conjunto é o mais interessante, a proximidade entre estilos diferentes. Vou passar a fazer comentários específicos sobre cada atração. Quem quiser escutar as músicas antes, tendo que escolher o que vai assistir, pode entrar no site do festival, onde encontrará áudio e vídeo, além de mais informações.

Jon Pareles, o chefe da crítica musical do New York Times, já resumiu de forma provocadora: “A Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou, do Benin, pertence à lista muito pequena das melhores bandas de funk do mundo.” Completo: para mim é tão boa quanto a banda de James Brown no início do anos 70 ou a de Fela Kuti no final da mesma década. Era, até bem pouco tempo, um segredo africano. Foi preciso que um colecionador de vinil tenha visitado Cotonou à procura dos seus ídolos para descobrir que a banda continua na atividade, com a mesma força há quase 50 anos. Foi só em 2009 que fez seus primeiros shows na Europa e em 2010 nos Estados Unidos, para platéias eufóricas. Por aqui, este primeiro show tem significado especial por conta dos fortes laços culturais que unem as histórias do Brasil e do Benin, com tantas trocas no Século XIX (e antes) e poucas recentemente. O público brasileiro vai identificar elementos poderosos de candomblé e tambor de mina logo no início puramente percussivo do show. E depois, quando os instrumentos elétricos atacarem, vai cair num transe afrofunk de sofisticação absoluta.

O Hypnotic Brass Ensemble, de Chicago, é também uma das melhores bandas funk do mundo, apesar de tocar apenas com sopros e bateria. Não importa se toca num palco ou na rua, onde se apresenta sem microfones no meio do povo: seu suingue é irresistível, atraindo cada vez maior legião de fãs. Como os componentes do Gorillaz, que convidaram o Hypnotic para tocar em seu último disco e em sua próxima excursão. O repertório inclui versões para Fela Kuti, Outkast, Jay-Z e até Art of Noise.

Buraka Som Sistema é um coletivo luso-angolano que levou o kuduro, música eletrônica criada nas favelas de Luanda, para os mais influentes festivais do mundo e para fusões com house, dubstep e funk carioca, tendo gravado inclusive um grande sucesso com a nossa Deise Tigrona. O Nortec Collective reúne vários artistas baseados em Tijuana, na problemática fronteira México/EUA. A visão de mundo fronteiriça, inclusive a política de repressão/incentivo à imigração ilegal, influencia sua música, um cruzamento alucinado da eletrônica com o folclórico. O resultado muitas vezes parece um Kraftwerk de sombrero, embriagado pela dose certa de margaritas.

Não sei se a banda gosta desta comparação, mas é boa para atrair público: o Nova Lima está para a música afroperuana assim como o Bajofondo ou o Gotan Project estão para o tango. A combinação de pop e eletrônica com o tradicional é feita com elegância, sem perder a potência dançante jamais.  As Tucanas são mulheres que, em Portugal, misturam tradições musicais de todo mundo lusófono criando novos instrumentos de percussão e batucando também em seus próprios corpos. A Kocani Orkestar faz a festa misturando tradições ciganas e dos Balcãs.

Fui diminuindo os comentários sobre cada atração pois já estou na fronteira do espaço desta coluna. Não se trata de preferência. E ainda nem falei dos convidados brasileiros e dos apresentadores. A complexa fusão big-band-no-candomblé da Orkestra Rumpilezz, as novas big bands paulistanas reunidas no Movimento Elefantes, o pós-samba-duro-rap do EdCity, o carnaval indie do Bloco Cru: todos eles merecem colunas inteiras para comentar seus trabalhos. E os apresentadores são os bateristas Charles Gavin, João Barone e Igor Cavalera. Este último leva seu MixHell para a festa do Caneção.

O festival quer ser o MixCéu.  Bom rebolado, em todos os ritmos!


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