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somos todos erroristas

31/05/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 30/05/2013

Na coluna da sexta-feira passada fiz comentários sobre o sucesso retumbante e surpreendente do livro “O capital no século XXI”, de Thomas Piketty. Nunca, na história do planeta, um economista passou tão velozmente de culto universitário para celebridade pop. Mesmo assim, eu não estava preparado para encontrar no topo esquerdo da primeira página deste jornal, em sua edição de sábado, a seguinte manchete em tom quase policial: “Piketty acusado de erro”. O “New York Times”, o “Le Monde”, o “Frankfurter Allgemaine Zeitung”, o “Pravda” e quase todos periódicos importantes do mundo também deram destaque para a descoberta, pelo “Financial Times”, de contas e fórmulas incorretas em nosso novo “Capital”. O debate acadêmico virou paixão de massa como um lançamento da Beyoncé?

Parece que o que está em jogo é a salvação do capitalismo, cotadinho. As acusações do “Financial Times” serviriam para provar que – ufa! – não estamos condenados a crescente desigualdade, pois – se analisadas corretamente – as estatísticas não revelam uma concentração de renda crescente na mão do 1%. Pelo que consigo entender, Piketty não é Marx, nem prega o desaparecimento da burguesia. Sua proposta, com taxações maiores sobre grandes riquezas, tenta salvar do capitalismo de seus básicos instintos concentradores e, a cada vez mais curto prazo, suicidas. Toda economia precisaria de distribuição de renda para crescer e inovar. Porém (a polêmica do “Financial Times” deixa perceber), o problema principal se esconde além das contas, e se aproxima do misticismo: está todo mundo em busca de um “espírito” que faça as pessoas acreditarem que o capitalismo seja realmente capaz de produzir bem público.

Por isso, também na coluna passada, recomendei a leitura de “O novo espírito do capitalismo”, calhamaço de Luc Boltanski e Ève Chiapello que analisa as justificativas que o capitalismo criou para motivar/mobilizar multidões (operários, administradores de empresa, donos de bancos etc.) a colaborar com seu sistema de acumulação baseado em lucro (antes considerado pecado) e trabalho assalariado. Claro, o assunto ficou pop, mas no mundo pop quase ninguém tem tempo para livros de quase mil páginas. Vou ser bonzinho: tenho recomendação mais prática para quem não quiser fazer feio nos debates de bares dos 99% e restaurantes dos 1%, entre observações sobre a Copa ou sobre o desfile de Raf Simons e Sterling Ruby. Leia qualquer coisa do autor para quem Boltanski e Chiapello dedicaram seu “O novo espírito”: Albert O. Hirschman. São obras sempre curtinhas e deliciosas.

Não vou chatear ninguém resumindo aqui “As paixões e os interesses”, que em menos de 120 páginas revela como a cobiça, e consequentemente o “ganhar dinheiro”, foi sendo considerada a “menos pior” das paixões, uma paixão “calma”, que contribui para a paz coletiva (e entre as nações). Prefiro seduzir leitores com passagens mais pitorescas. Hirschman se orgulha de ser um autossubversivo, sempre alegre ao questionar os fundamentos de suas próprias ideias. Ele poderia fazer coro para o novo rap da chilena Ana Tijoux: “Somos todos erroristas”. Isto é, erramos sem parar, e muitas vezes errando é que encontramos as saídas inovadoras ou os caminhos, múltiplos, de fuga para frente.

A polêmica do “Financial Times” tornou explícito mais um Fla-Flu ideológico: agora temos também os extremistas pró e contra Piketty. Todos poderiam lucrar (hehehehe) se lessem com atenção, e coração aberto (sei que peço o impossível), o artigo “Opiniões peremptórias e democracia”, publicado no Brasil dentro da coletânea “Auto-subversão” (a edição ainda tem grafia anterior ao Acordo Ortográfico). Diante de um ambiente no qual há indiscutível “superprodução de opiniões” (e Hirschman escrevia em 1989, antes da WWW), uma pergunta nunca quer calar: seriam os indivíduos “capazes de valorizar tanto o fato de ter opinião quanto o de ter mente aberta, a combinar o júbilo por ganhar uma discussão com os prazeres de serem bons ouvintes e de ter a ‘índole persuadível’ de Jane Austen?”

Para Hirschman, os caminhos das mudanças de opinião são sempre imprevisíveis. Muitas vezes o bem comum é consequência da insistência em avaliação errada. Achamos que não há riscos, embarcamos numa canoa furada. Quando percebemos o erro já estamos em alto mar. Temos que tapar o furo em pleno movimento tempestuoso. Já gastamos tempo ou dinheiro demais para voltar atrás – e provavelmente nunca seguiríamos em frente se não estivéssemos com a corda no pescoço. Resumo: frequentemente, se não fosse o empurrão do erro, não faríamos nada e ficaríamos empacados no mesmo lugar ruim.

Mais uma citação, “com o devido respeito a Francis Fukuyama”: “o curso da história parece rumar com todo o vigor em direção contrária à visão que se tem do curso da história!” “Financial Times”, Thomas Piketty e suas turmas: todos precisam aprender com os erros dos outros.

PS: Citação importante, tambem do artigo “Opiniões peremptórias e democracia”, que não entrou na versão publicada no jornal por falta de espaço: “Contribuições recentes à teoria da democracia ressaltaram o papel da deliberação no processo democrático: para uma democracia funcionar bem e perdurar, é essencial, afirmou-se, que as opiniões não sejam formadas plenamente antes do processo de deliberação. Os participantes do processo – o público em geral e seus representantes – devem manter um grau de abertura ou de caráter experimental em suas opiniões e estar dispostos a modificá-las em consequência de argumentos que serão apresentados pelas partes oponentes e, mais simplesmente, à luz de novas informações que podem surgir no decorrer de debates públicos. Sem um processo político que manifeste pelo menos alguma aspiração a esse quadro reconhecidamente um tanto idílico, a democracia perde sua legitimidade e fica, assim, ameaçada.”

capitais

24/05/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 23/05/2014

Todas as pessoas que costumam ler jornais, no mundo inteiro, já devem estar cansadas de ouvir falar no sucesso de “O capital no século XXI”, livro de Thomas Piketty. Ao que tudo indica, nunca houve vendas semelhantes na história das editoras acadêmicas, ou das publicações de ciências sociais. De políticos a diretores de bancos privados, uma multidão escreve artigos com sua opinião sobre a leitura. Repentinamente, desigualdade é o assunto do momento mesmo entre conservadores. E vemos um intelectual francês dominar rodas de conversa que antes só admitiam pensamentos difundidos originalmente em inglês.

Acontecimento inesperado? Ao ver o nome de Piketty na vigésima sétima posição de sua lista 2014 de “pensadores top” no planeta (quase sempre professores de universidades dos EUA ou da Inglaterra – mesmo quando têm origens em outros países, como Mangabeira Unger, Amartya Sen ou Ha-Joon Chang), a revista “Prospect” sentiu necessidade de observar: “é também uma lembrança de quão velozmente as modas intelectuais podem mudar.” Curioso: Piketty e seu colaborador Emmanuel Saez já estavam juntos na posição 62 da lista de 2013. Sinal de que o sucesso atual tem raízes mais antigas, e – apesar de suas proporções – não deve ter sido surpresa absoluta para analistas atentos do “hit parade” das ideias. A “Prospect”, em seus comentários sobre os vencedores do ano passado, apontava a influência de Piketty e Saez na campanha Obama, e linkava matéria de 2012 no New York Times que já tratava a dupla como o novo “cool” em termos intelectuais.

Então: todo século tem o seu “Kapital”, divulgado com formas renovadas de ciência mimética? Sempre é interessante observar os caminhos pelos quais esse tipo de sucesso meteórico é produzido (aqui não precisa haver nenhuma intencionalidade), ou como obras semelhantes não conseguem alcançar a mesma visibilidade. Quando percebi que Piketty tinha ocupado bem mais que 1% das páginas mais sérias dos jornais, pensei logo que todo século precisa ter também seu “A ética protestante e o espírito do capitalismo”. Estamos com sorte: já podemos comprar “O novo espírito do capitalismo”, livro de Luc Boltanski e Ève Chiapello.  Porém, e apesar de no seu lançamento de 1999 ter sido saudado como clássico, esse outro calhamaço não conseguiu nem 1% da empolgação conquistada pelo novo “Capital”. Procurei agora resenhas nos jornais brasileiros (o lançamento por aqui aconteceu, pela Martins Fontes, em 2009) e encontrei apenas notas curtas – quase nada se comparadas com a densidade de suas 800 páginas.

Seria “O novo espírito do capitalismo” francês demais? Talvez. Não está baseado numa pesquisa quantitativa que apresenta tantos dados novos como “O capital no século XXI”. Mas o assunto é bem “anglo”, com a leitura inovadora, no âmbito das ciências sociais mais politicamente engajadas, da bibliografia de administração ensinada nas principais “business schools” que seguem o modelo de Harvard, com milhares de MBAs que formam “empreendedores” planeta afora. Boltanski, antropólogo que já tinha feito sucesso escrevendo sobre justificações jurídicas, e Chiapello, professora de administração que estudara a relação de artistas com seus “marchands”, mostram como o capitalismo soube absorver as críticas pós-Maio 1968 (incluindo seus reflexos hippies no Vale do Silício) e agora recomenda organizações em redes descentralizadas, valorizando mobilidade e repudiando hierarquias tradicionais, para lidar com todos seus impasses.

Claro, os tempos mudaram. No primeiro parágrafo do “Novo espírito”, encontramos a “coexistência” de “um capitalismo em plena expansão” com “a degradação da situação econômica e social de um número crescente de pessoas”. Em Piketty – apenas 14 anos depois, e pós-crise de 2008 – não temos mais a expansão, ou temos o entendimento de que mesmo em tempos expansivos o capitalismo pode degradar os ganhos dos 99%. É um mundo muito mais sombrio, onde os fracassos cultuados nos manuais de administradores em rede se transformam num macrofracasso civilizacional. Parece que vozes como a de Kenneth Rogoff – ex-economista chefe do FMI que teve artigo publicado neste jornal lembrando “que, nas últimas décadas, bilhões de pessoas no mundo em desenvolvimento, particularmente na Ásia, escaparam de níveis de pobreza desesperadores” – não podem ser ouvidas sem desconfiança. Não há clima para nenhum otimismo no debate de ideias atual? Qual será a próxima bibliografia para business schools que deixaram de acreditar que as redes funcionam?

Nada está claro. Vale a pena ler Piketty junto com Boltanski/Chiapello, ao mesmo tempo. Livros enormes, eu sei. Nossos problemas atuais não são menores.


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