Posts Tagged ‘Lucien Jephargnon’

vazio

16/02/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 15/02/2013

Enquanto eu escrevia sobre a abundância (ver a coluna da semana passada), uma série de artigos decretou “o vazio da cultura” no Brasil. Fiquei me sentindo alienígena. Vivo em planeta diferente daquele habitado por quem não enxerga nada potente em nosso país. Meu problema é oposto: não dou conta da quantidade de coisas interessantes que considero merecedoras de divulgação/debate neste meu pequeno espaço no jornal. Estou sempre em dívida com uma lista enorme de pautas que não perdem a atualidade. São trabalhos culturais brilhantes, que podem despertar vocações artísticas em muito mais gente se forem conhecidos melhor.

Sei que este meu otimismo desvaloriza meu passe. É mais chique falar mal de tudo. A maledicência nos garante aplausos calorosos em palestras. Atrai igualmente muitos seguidores no Twitter. Viramos heróis por causa de nossas opiniões do contra. Natural que assim seja: Lucien Jephargnon, historiador que já foi tema de uma coluna inteira por aqui, publicou um livro delicioso chamado “Era melhor antes”. Essa modinha pessimista já dura 30 séculos: ninguém pode pretender ser original dizendo que hoje tudo vai mal.

No século primeiro, Petrônio, autor de “Satyricon”, escreveu sem humor nenhum: “Fica pior a cada dia… Ninguém mais acredita que o céu é céu”. Plínio o Jovem não gostava dos jovens de seu tempo: “eles não respeitam ninguém, não imitam ninguém; são os modelos deles mesmos”. O poeta Juvenal afirmava que o problema vinha de longe: mesmo no tempo de Homero a raça humana já era decadente e “a terra só alimenta hoje homens perversos e atrofiados.” Temos sorte de estarmos vivos vinte e um séculos depois…

Vivos mas vazios? Penso que o vazio tem sido menosprezado nessas lamentações. Os budistas propõem conceito precioso para sairmos bem desse niilismo paralisante: Shunyata – quer dizer vazio, mas também interdependência e abertura. Como fala o monge coreano Misan (que descobri por causa de “Gangnam style”): “o mundo vazio que inclui tudo”. Tudo conectado. Talvez aí resida a chave para compreender a distância entre o modo como percebo o que há de importante na dinâmica cultural contemporânea e aquele que denuncia nossa perdição. Contra o “era melhor antes”, digo que não é melhor agora: é diferente; as coisas estão mais abertas e interdependentes. No lugar do regime da escassez que produz gênios, temos um regime de criatividade distribuída em rede, e o processo criativo é mais aberto, à procura de obras abertas, permanentemente inacabadas.

Por isso não é útil tentar convencer os apóstolos do vazio “não budista” de que não estamos tão decadentes assim, apresentando exemplos de vigor nas artes de agora. Não vou convencê-los: Tom Jobim ou Guimarães Rosa vão ser sempre “melhores” do que meus interesses atuais, até porque são produtos de um mundo onde fazia sentido ser “melhor” assim, quando todos os olhares/julgamentos podiam apontar para a mesma direção. No mundo pós-internet, tudo está junto e misturado: a retromania (todo o passado cultural a um clique), a xenomania (toda a diversidade cultural a um clique), a facilidade de produção (todo smartphone vai se tornar rapidinho estúdio cinematográfico, além de distribuidora).

Não estou dizendo que obras geniais não existam. Por exemplo (correndo o risco de fazer o que eu disse que é inútil): tenho certeza que “Daytripper”, de Fábio Moon e Gabriel Bá é um dos grandes momentos da criação nacional, em qualquer gênero – e demonstra claramente a maturidade das histórias em quadrinhos brasileiras, com muito mais gente desenvolvendo trabalhos originais e reconhecidos mundialmente. Porém, seu público é bem específico, e mesmo que estabeleça seu cânone particular, dificilmente vai adquirir status de conhecimento/reconhecimento geral. Não por falta de qualidade, é claro.

Pensei nisso ao abrir link que Ronaldo Lemos (ele deveria ser coautor desta coluna) me mandou para a lista de 100 melhores discos brasileiros de 2012, seleção do Rockinpress (que se diz “a página bege da música brasileira”): nunca nem tinha ouvido falar de metade dos artistas listados. Digo isso envergonhado, plenamente consciente da seriedade do trabalho de quem fez a escolha dos “melhores”, todos nas minhas bookmarks para tentar escutar suas músicas depois, um depois que talvez nunca chegue.

É a mesma sensação que tenho ao abrir a página do Carlito Azevedo no caderno Prosa deste jornal. Fico alegre só de saber que há tanta gente nova escrevendo poesia com tanta qualidade (e intuo o debate crítico que torna possível essa produção). Anoto nomes para ler mais, quando der. Não fico angustiado com tanta oferta. É assim mesmo. Êta vazio gostoso!

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novo mestre

08/06/2012

texto publicado em minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 25/05/2012

Lucien Jerphagnon, historiador da filosofia, morreu em setembro, com 90 anos. Não tinha ouvido falar no seu nome até ler uma entrevista publicada postumamente. De lá para cá, virou um de meus mais jovens heróis. Como não ficar fascinado por alguém que tem coragem de declarar “vivo numa torre de marfim, e o marfim é excelente isolante”? Parece erudito ranzinza, que acha tudo chato, e quer distância das ruas? Que nada. Logo em seguida, ele se desdiz, para nos deixar perceber que seu marfim é bem maleável (devo sempre avisar: minha tradução é MUITO livre): “Eu efetivamente sempre procurei traiçoeiramente tocar a zona na cabeça dos outros, porque isso lhes prestava serviço. Sobretudo na cabeça de gente que é muito segura de si! Mas sempre com humor. O humor revela a profundidade que o sério não teria revelado. Ele toca a zona nas cabeças. E dali ninguém retorna, e fica feliz por não retornar.”

Não retornei mais para o ex-my-mundo depois do contato com os ensinamentos de Jerphagnon. Mergulhei em vários de seus livros ao mesmo tempo (pena que muitos estão esgotados). E estou felicíssimo com o regime bagunceiro que ele instituiu em minha mente (várias das citações a seguir foram tiradas do livro de entrevistas “De l’amour, de la mort, de Dieu et autres bagatelles”) . Provavelmente teria o conhecido antes se eu fosse fã de Michel Onfray. Mas nunca li Onfray, não sei bem explicar o motivo. Talvez porque ache que já sei tudo – e de certa forma concorde com tudo – o que está escrito em seus best-sellers filosóficos, que lá não vou aprender nada realmente surpreendente. Engano meu: teria pelo menos ouvido falar de Jerphagnon, mestre querido de Onfray, enquanto ele ainda vivia, e – quem sabe – teria saído em busca de algum acesso direto à sua torre de marfim zoneada.

Jerphagnon deve ter sido excelente professor. Bem-humorado, mas rigoroso, eruditíssimo. Queria ter sido seu aluno. Sobre sua relação com seu discípulo mais famoso: “Onfray foi excelente estudante. Ele ‘caiu’ no meu curso quando eu explicava ‘De rerum natura’ de Lucrécio. Notei que havia um estudante que me observava fixamente; voltou depois das provas e ficou como ouvinte livre de meus cursos por um bom tempo. Tinha grande capacidade de assimilação.” Como sempre em Jerphagnon, essa introdução não nos prepara para o que vem depois, um resumo de seu método pedagógico (que surpreendentemente inclui o elogio da decoreba), ou sua utopia de ensino: “Eu repito que nunca tentei forjar em meus estudantes, a minha própria maneira de pensar. O que me interessa é tirar deles um pensamento próprio, ainda nascente, e ajudá-los a fabricar uma inteligência e uma vida interior. Então ninguém deve se espantar que Michel Onfray seja agora, do ponto de vista filosófico, o oposto de seu ‘velho mestre’. E isso me deixa alegre, pois ele provou que não produzo clones.”

Se Onfray for considerado um hedonista grego, Jerphagnon seria um neoplatonista romano, um pagão encantado com o cristianismo. Uma educação que produz tal diferença mestre-discípulo só pode ser bacana. Conclusão: “O bom professor é um mestre que por sua ciência ou sabedoria dá a seu discípulo aquilo com o qual poderá ser plenamente ele mesmo, algo que ele não tinha ideia antes”. Ou melhor: “o bom professor é aquele que dá vontade de ser um bom estudante”. Obviedade? Platitude? Como dizia o escritor norte-americano David Foster Wallace: “nas trincheiras cotidianas da existência adulta, platitudes banais podem ter importância de vida-ou-morte.” Jerphagnon cultivava esses enunciados simples, claros. Por convicção: “ninguém tem jamais o direito de chatear um leitor que não nos fez nada! Eu mesmo tenho horror de me entediar lendo textos. Largo aquilo rapidinho.”

Que o estilo não nos engane: o que Jerphagnon diz de maneira fácil, nada pedante, pode ter conteúdo dificílimo, como um conceito bem esotérico de Plotino (seu filósofo preferido), ou uma nova ideia poderosa que nocauteia nossa visão de mundo anterior, tudo embasado em pesquisa detalhista do mais exigente rato de biblioteca e arquivos (muitos em línguas “mortas”). Sobre a relação dos romanos com a cultura grega, ele advoga que “Roma teve a elegância, a simplicidade e a inteligência, ela que os havia conquistado, de se deixar “tomar” pelo gregos. […] Roma descobriu bem cedo que se helenizar não seria perder sua identidade, mas melhorá-la, aprofundá-la.” (Muitos movimentos culturais contemporâneos, tão zelosos na defesa do que pensam ser princípios imutáveis de suas identidades, deveriam ouvir isso…)

Sobre a relação dos romanos com os primeiros cristãos, sua descrição não é convencional: “Desde que seus adeptos se mantivessem tranquilos, um deus a mais ou a menos não incomodava ninguém: em matéria de deuses, Roma era uma cidade aberta. Mas logo foi notada sua ausência [dos cristãos] de todas as cerimônias de culto. Aquilo era chocante: em que adorar o deus Fulano impediria de adorar os outros?” O mais diferente e ameaçador na nova seita era a confluência entre religião e moralidade, entre credo e consciência pessoal.

Jephargnon escreveu “A loba e o cordeiro”, romance sobre os tempos finais do Império (o primeiro livro que o autor indica para quem nunca o leu), com seus alto-funcionários cosmopolitas (os que como Pôncio Pilatos perguntavam “o que é a verdade?”) percebendo que aquilo que os chocava nos cristãos tinha mais poder que armas, mesmo as bárbaras. Uma civilização caça a outra, desde sempre. Jerphagnon pergunta: qual vai caçar a nossa?


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