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Taniguchi Toussaint

02/07/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 24-06-2011

Jiro Taniguchi cria mangás diferentes daqueles publicados na maioria das revistas de história em quadrinhos japonesas (peço desculpas a quem sabe que mangá é estilo japonês de quadrinhos; tenho que me policiar para encontrar maneiras de repetir esse tipo de informação, pois sempre encontro leitores queixosos de não ter familiaridade com assuntos que trato aqui como se fossem de conhecimento geral; meu objetivo é tirar esse tipo de informações valiosas de seus guetos nerd-otakus, espalhando-as para outras pessoas que queiram delas se apropriar para renovar suas visões de mundo). O mangá é mais conhecido por sua linguagem veloz, com lutas e monstros, ou romances semi-eróticos para meninas. Se os criadores comerciais estão mais para a Ilíada, ou filme de Peckinpah, Taniguchi se parece mais com haiku de Bashô, ou imagem captada por câmera dirigida por Ozu (cineasta sempre citado como uma de suas principais influências). Frédéric Boilet, cartunista (ou mangaká, criador de mangás) francês, já lançou até um manifesto dando nome a esse outro estilo: “nouvelle manga”, ou simplesmente “la” mangá, a versão “feminina” de “le” mangá, como o gênero é mais conhecido em países francófonos, grande mercado editorial para quadrinhos inovadores.

No Brasil, Taniguchi tem publicados poucos livros. “Gourmet”, lançado em 2009 pela Conrad, é uma obra-prima – o caminho zen em busca da comida perfeita, no restaurante mais improvável. A editora Panini, em sua coleção Planet Manga, publicou “O livro do vento” (história de samurai, entre o “le” e o “la” mangá – mangá andrógino?) e “Seton”, sobre o naturalista inglês Ernest Thompson Seton, do qual ainda espero o segundo volume. Em português temos também belo e radicalmente contemplativo (na verdade um tratado sobre a contemplação) “O homem que caminha”, lançado como encarte do jornal lusitano Correio da Manhã, e encontrado apenas com muita sorte em algum sebo. Irmão de “O homem que caminha” é “Le promeneur”, publicado na Bélgica pela tradicionalíssima Casterman, que popularizou Tintin pelo mundo. A tradução em português seria “O passeador”? Palavra estranha, passeador. Prefiro “O homem que passeia”, e declaro que é minha obra preferida de Taniguchi, até segunda ordem.

Com desenhos de Taniguchi e roteiro de Masayuki Kusumi (o mesmo roteirista de “Gourmet”), “O homem que passeia” é formado por oito passeios de um mesmo homem por sua cidade japonesa. O quinto passeio, “Os pepinos amargos no meio da noite”, é bem emblemático da maneira taniguchiana de pensar a (ou passear pela) vida. Começa com uma visita à casa de um amigo, que termina às 3 da madrugada. Nosso querido passeador resolve voltar para casa a pé, caminhada que levará uma hora e quinze minutos. Há algum suspense no ar: pepinos amargos e a travessia de ruas desertas. Mas nada de ruim acontece. Apenas reflexões ambulantes sobre a cidade que dorme e o amigo que acaba de se separar da mulher. Tudo menos dramático que o som do mergulho de uma rã ou o movimento sutil do pousar de uma borboleta em haiku mais que perfeito e tranquilo. Essas qualidades de Taniguchi, mais sua sensibilidade diante daquilo que existe de poesia na banalidade do cotidiano (tanto na natureza quanto na cidade), já produziram uma legião de admiradores para sua obra, como o cineasta belga Sam Garbarski, que levou para as telas – em 2010 – uma de suas mangás, Bairro Distante.

Há indícios de que os belgas são vítimas alegres e preferenciais do desenho fascinante de Taniguchi. A edição de “O homem que passeia” da Casterman também brinda o leitor com uma entrevista com seu autor e perguntas formuladas pelo escritor (belga, claro) Jean-Philippe Toussaint. A conversa gira em torno de uma possível filosofia do passeio, definida por Taniguchi como atividade sem objetivo e limite de tempo, que desencadeia um “estado de disponibilidade”, gerando descobertas por acaso e “um dever de ser uma liberdade”. Toussaint fala de uma “doce curiosidade”, com pitadas de nostalgia e melancolia, nos desenhos de seu entrevistado mangaká. Talvez esteja falando mais de seus próprios escritos, que nos últimos anos perderam grande parte das características mais irônicas de seus primeiros livros e se tornaram cada vez mais contemplativos e asiáticos. Seu “Autoretrato (no estrangeiro)”, de 2000, começa em Tóquio e, depois de visitar Berlim, Quioto, o Vietnam e a Tunísia, retorna a Quioto, para diante de uma estação de trem abandonada, com a chuva molhando o rosto no lugar das lágrimas que não consegue chorar, descobre que a escrita era uma forma de resistir ao “brusco testemunho da passagem do tempo”, com sua corrente que leva tudo.

Estranho. Essa nostalgia, ou melancolia, tem cara européia, não japonesa. Os caminhantes de Taniguchi colocam a “interioridade” à flor da pele, em cada passo que diz sim ao mundo, e a tudo de novo que o tempo traz para o mundo. Toussaint, na entrevista para seu editor chinês que foi publicada na edição de bolso de Fugir (seu livro que ganhou o Prêmio Medicis 2005 e teve edição brasileira pela Bertrand), declara: “como escritor, eu não julgo, eu pego aquilo que vem, com a idéia de que o contemporâneo é sempre apaixonante.” Por isso a cena central de Fugir é uma ligação celular, mesmo que seu autor não use celular. Há um conflito ali, que não aparece em Taniguchi. A vida tem menos lágrimas para quem aprendeu a passear bem.

mangá

22/02/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 24/12/2010

Hoje é véspera de Natal. Se você ainda precisa comprar presentes, tenho uma sugestão. Não é muito criativa – só sei dar livros ou discos… Mas é dica prática, e pode agradar pessoas de muitos gostos diferentes: presenteie mangá. Nos últimos anos, uma leva bem eclética dessas histórias em quadrinhos japonesas – lidas de trás para frente – invadiu livrarias brasileiras e mundiais. Não perca tempo achando que é leitura só para crianças. Há de tudo, inclusive publicações que deixam muitos marmanjos chocados, ou alegremente perdidos.

A estética do mangá tem raízes aéreas, absorvendo nutrientes de diversas tradições, não só as cultivadas em solos nipônicos. Técnicas milenares da ilustração japonesa se encontraram com os mais comerciais comics norte-americanos e também com as mais estranhas experiências gráficas européias. Paul Gravett esteve recentemente no Rio analisando detalhes dessa história durante a Comic Con. Eu perdi a palestra. Ainda bem que a editora Conrad lançou no mercado brasileiro seu “Mangá – como o Japão reinventou os quadrinhos“, referência para quem quer conhecer melhor esse mundo não tão novo assim, pois já tem mais de meio século de intensa atividade criativa.

Osamu Tezuka aparece em quase todos os capítulos do livro de Gravett, inclusive com seu personagem Astro Boy na capa. Não há como não reconhecer sua importância como o principal produtor daquilo que define os quadrinhos japoneses de hoje, nas suas várias tendências. Tezuka é mestre para todo criador de mangá. A Conrad publicou sua biografia em quatro volumes (e em quadrinhos, é claro). Outro presente espetacular, para todas as idades, é a coleção completa de “Buda“, em 20 volumes, a saga de Sidarta segundo Tezuka. É deslumbrante. Não foi à toa que ganhou o Eisner Awards, um Oscar dos quadrinhos. Conheço adolescentes que hoje se consideram budistas só porque leram esses mangás na infância.

Agora no final do ano, chegou às nossas livrarias um dos primeiros sucessos de Tezuka, “Metrópolis” (editora New Pop), publicado no Japão em 1949. Eu já tinha visto o filme, dirigido por Rintaro e lançado depois da morte de Tezuka (que em vida nunca autorizou a filmagem de sua história), com imagens elaboradíssimas. O constraste entre o que vemos na tela e no papel é evidente: o mangá tem desenho quase ingênuo, bem infantil. Porém, gosto das duas versões. A inadequação de traços naives para contar uma história sinistra da gerra/simbiose de homens e máquinas, do natural e do artificial, dá charme extra para o trabalho de Tezuka em início de carreira.

Nada infantis são as “Mulheres“, de Yoshihiro Tatsumi (editora Zarabatana). Deixamos o mundo dos super-heróis, da ficção científica, para entrar nos bastidores sombrios de relações demasiadamente humanas, e realistas, da sociedade japonesa hoje, com suas taras, prostitutas, criminosos, amores trágicos. Tatsumi inventou o termo “gekigá” para denominar seus mangás adultos, desconcertantes e até cruéis. A crônica dessa invenção, misturada a uma narrativa de romance de formação, pode ser lida no calhamaço (850 páginas) “Uma vida em deriva“, auto-biografia (combinada com uma reflexão muito pessoal sobre a história japonesa pós-Segunda Guerra) em quadrinhos de Tatsumi, ainda não traduzida para o português, mas com elogiada edição em língua inglesa.

Se Tezuka é solar (mesmo quando aborda temas sinistros como em “Adolf“, pesada reflexão sobre o nazismo que tem como personagem central um judeu japonês), e Tatsumi noturno, talvez eu me sinta mais em casa com Jiro Taniguchi. Com seu desenho, no Brasil, temos o primeiro volume de “Seton” (editora Panini Comics – quando sairá a sequência?), uma história deleuziana (devir animal) de um naturalista e sua relação com os lobos selvagens. Já em “Gourmet“, outro lançamento da Conrad, o assunto é a perambulação de um cara bem comum pelas ruas de cidades como Tóquio e Osaka à procura, mesmo sem a consciência da procura, da comida perfeita, que pode aparecer nos lugares mais banais. A orelha do livro não exagera ao insinuar: “é possível que o lugar ideal para essa obra seja a seção de poesia”. Poesia contemporânea, com emoções concretas, como se educadas por uma pedra de João Cabral. Essa contemporaneidade contemplativa e distanciada, onde o núcleo duro das coisas e do desenho é o vazio do aqui-agora zen, é levada a extremos deliciosos em “O andarilho”, mangá de Taniguchi penso que ainda não publicado no Brasil (mas que tem traduções inglesa e francesa).

A oferta de quadrinhos japoneses não se limita à ficção. Os mangás exercem fascínio tão poderoso em tanta gente que muitas outras áreas tentam tornar seus livros mais divertidos ou vendáveis contratando um mangaká (criador de mangá) para cuidar das aparências e roteirização do conteúdo. Temos por exemplo o livro “Japonês em quadrinhos” (Conrad), de Marc Bernabé. Mas seu uso do mangá é secundário diante de uma estrutura mais convencional de texto, muito texto. O mangá (mesmo com ordenamento ocidental das páginas, da frente para trás) torna-se realmente fio condutor em outra coleção de livros didáticos traduzida para português pela Novatec. Os assuntos são cabeludos: biologia molecular, banco de dados etc. Haverá sempre alguém que vai vibrar ao receber um mangá sobre estatística como presente de Natal. Ainda bem que o mundo não é homogêneo.

scott pilgrim e cia.

25/12/2010

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 25/06/2010

 

Uma das melhores iniciativas recentes do mercado editorial brasileiro foi a criação do selo Quadrinhos na Cia, pela Companhia das Letras. Confesso não acompanhar com muita atenção as novidades das “graphic novels“. É muita coisa boa, com novos artistas de peso surgindo em vários países. Preciso de filtros para me orientar, indicando o que é mais bacana. Quadrinhos na Cia virou meu filtro preferido para esse universo. Confio no gosto de quem escolhe o que publicar. Ou melhor, o selo tem um gosto parecido com o meu, mesmo para aquilo que desconheço. Muitos de seus autores se já tornaram centrais no meu panteão literário: Gene Luen Yang, de O Chinês Americano; Craig Thompson, de Retalhos; Dash Shaw, de Umbigo Sem Fundo – leituras obrigatórias, com visões artísticas originais, complexas e perturbadoras.

 

Mesmo assim, com todas essas descobertas indutoras do efeito “quero mais”, mantenho um certo pé atrás diante dos mundo dos quadrinhos hypados. A luta pela sua legitimação como Arte foi – ou tem sido – tão séria, que talvez seus criadores tenham adquirido o vício de se levar a sério demais, ainda que buscando permanecer no conforto contestatório de um mítico underground (Gonzolândia! Todo mundo tem a Disney que merece…), ou – pior – de uma sensibilidade indie. Tenho cada vez menos paciência para tudo que tem cheiro de indie, de filme premiado em Sundance a namorada de Pete Doherty. Há um maneirismo vazio e adolescente bobo que quer – como um Super-Homem de calça skinny – parar o mundo no início dos anos 80, ao som do mesmo riff de guitarra repetido ad infinitum. Por isso, ainda que confiando no julgamento editorial do Quadrinhos na Cia, demorei a encarar Scott Pilgrim Contra o Mundo. A menção na contracapa ao “vibrante mundo do rock’n’roll canadense” atuou como exterminador de meus neurotransmissores consumistas. Considero Arcade Fire ou Broken Social Scene tolices pretensiosas, intoleráveis. Então, só depois de apalpar, “com o amor táctil que votamos aos maços de cigarro”, suas capa e páginas em várias idas a livrarias, é que fiz a compra. A obra de Bryan Lee O’Malley, o criador de Scott Pilgrim, virou minha obsessão principal desta semana, desencadeando um carinho descontrolado por qualquer coisa canadense, mesmo suas bandas indies (“são crianças, não sabem o que fazem…”).

 

Resultado: já li todos os outros livros Scott Pilgrim (esperarei ansioso o lançamento o último volume no dia 20 de julho, se a obsessão durar até lá) e o Lost at Sea, primeira produção de Bryan, mesmo que ainda não lançados pelo Quadrinhos na Cia. Vi os trailers do filme que estreará em agosto baseado na série, e já formei minha opinião que Michael Cera, o ator de Juno, foi a escolha certa para encarnar Scott, apesar de ele parecer sempre Michael Cera, ou justamente por isso: Scott é um pouco cada um de nós que fomos adolescentes em qualquer década e país do planeta pós-rock. Conferi o material disponível na internet sobre o game também baseado na série, mas percebi que a pancadaria ninja domina, acabando com o contraste delicioso entre ação e momentos-nada, com suas encanações existencialmente românticas, existentes nos quadrinhos. Pois é nessa amalucada oscilação de tons e estilos narrativos que está o mais curioso e sedutor de Scott Pilgrim, quando o blá-blá-blá indie – dominante em Lost at Sea, cuja protagonista acredita não ter alma – é decorado por um visual mangá e por recursos gráficos dos jogos eletrônicos, como mudanças de nível na partida ou indicadores de quantidade de karma ou “vida” de cada uma das personagens.

 

Alexandre Lancaster, nossa enciclopédia de cultura pop japonesa, diretamente de Todos os Santos, no Grande Meier (terra de Lima Barreto), decreta – em seu blog Maximum Cosmo – que Scott Pilgrim é “a primeira grande obra pop do mangá canadense/americano”, e analisa com detalhes (“No segundo volume, as calhas horizontais entre os quadros se tornam mais espessas do que as verticais – uma característica tradicional do mangá.”) como a mestiçagem nipônica foi ganhando espaço durante a obra. Bryan Lee O’Malley – que é mestiço coreano-francês-canadense, se sentindo fora de lugar nesses vários ambientes étnicos – pensa o que faz uma derivação do mangá, já mixando alguns estilos bem específicos dentro da rica história dos quadrinhos japoneses. E talvez isso seja o mais interessante: já chegamos naquela fase em que, como aconteceu com o rock, a novidade do Japão vai se adaptando às realidades culturais diferentes do resto do mundo, gerando produtos híbridos, orientais-locais.

 

NOTÍCIAS DO OVERMUNDO – Tomado por essa nipomestiçagem global, encontro o anúncio da Game Anime Expo, que vai se realizar em Aracaju no final de julho. A agenda do Overmundo já havia publicado notícias sobre eventos semelhantes em Santo André, São Luís, Teresina, Natal, Palmas etc. São sempre reuniões de milhares de adolescentes, de todos os grupos étnicos e classes sociais, unidos pelo seu interesse por pop japonês, quadrinhos e jogos eletrônicos. Na Expo de Aracaju fui surpreendido, lendo a lista de palestrantes, por uma cena sergipana de produção de games, com empresas como Fluidplay, Elfland e Lumentech, todas exportando seu produtos há vários anos. Hoje, não importa nossa localização geográfica, próxima ou não dos “centros”, para o estabelecimento de conexões artísticas-produtivas globais.

 


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