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11/06/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 03-06-2011

Uma das armas mais poderosas da cultura da escassez, antes da abundância proporcionada pelos meios digitais, foi o segredo. Como o acesso às informações era difícil e caro, e sua distribuição monopólio de poucos canais de comunicação (ciosos de manter artificialmente um alto nível de raridade, para garantir preços também elevados num regime de muita procura e “pouca” oferta, onde poucos produziam e muitos só podiam consumir), as pessoas escondiam suas “fontes” a sete chaves, ganhando respeitabilidade por serem as primeiras a saber das coisas, prestígio “exclusivo” logo convertido em grana e/ou poder. Lembro de jornalistas de cultura no Brasil que criaram fama não pela originalidade de suas reportagens mas apenas por terem acesso privilegiado a revistas internacionais que não chegavam às nossas bancas, e cujos nomes eram mantidos na surdina. Havia estratégia parecida para o monopólio do sucesso entre as equipes de baile funk até final dos anos 80. Os discos – antes de haver funk carioca – eram todos importados, comprados a peso de ouro num mercado precário e paralelo. Quem descobria um sucesso raspava o selo do vinil para as equipes concorrentes não descobrirem o nome da música. A mesma coisa acontecia entre os sound systems da Jamaica pré-reggae, com discos de rhythm and blues importados de Nova Orleans.

Hoje, tudo isso seria impossível. Ouvimos falar de uma nova banda que algum hipster diz que vai ser a “next cool thing” no Cazaquistão e em poucos cliques já podemos ver o seu concerto da noite de ontem que tinha na platéia apenas dois caçadores de tendências japoneses. Vivemos um tempo de transparência cada vez mais impositiva e perturbadora (vide os efeitos do WikiLeaks), onde os instantes que separam a “descoberta” da “massificação” não são suficientes para ninguém tirar onda (“eu falei antes disso”), muito menos para ganhar dinheiro com isso ou emplacar a matéria na capa da revista. Marshall McLuhan, em 1974, comentando o escândalo Watergate, já decretava: “Nenhuma forma de segredo é possível na velocidade elétrica. Seja no mundo das patentes, no mundo da moda, no mundo político. O padrão se torna claro uma milha antes que qualquer pessoa possa falar qualquer coisa sobre ele. Na velocidade elétrica tudo está sob efeito do raio X. […] Não é possível mais o monopólio de conhecimento que muitas pessoas cultas tinham até poucos anos atrás. Isso não é mais possível sob condições elétricas. Tanto na vida profissional quanto na vida privada.”

A nova situação tem outras consequências interessantes. Para continuar usando o exemplo das equipes de som: se todos os DJs podem ter acesso simultâneo às mesmas músicas, milhões de músicas, então vale mais sua seleção, sua “curadoria”, separando aquilo que realmente vale a pena no meio da avalanche de novidades. As novas tendências também ficam por aí dando sopa para todos os jornalistas – o que importa não é o furo, mas o tratamento para o fenômeno, a maneira original de apresentá-lo para os leitores, conectando-o ao (ou destacando-o do) fluxo ininterrupto de “últimos gritos”. E num mundo da abundância, onde há tantos bons DJs quanto jornalistas, o valor vira função não da raridade, da exclusividade (pois mesmo para o muito caro, há cada vez mais bilionários), mas da atenção que seu “produto” (ainda que esse produto seja apenas selecionar outros produtos) pode ganhar num mundo abarrotado de coisas disputando “consumidores” também famintos de atenção e assim por diante, ao infinito. Precisamos então pagar para gente que preste atenção por nós, para que não percamos nada que realmente possa nos interessar, e também possa mudar nossas vidas, como dizem que até uma boa canção – ou um perfume – é capaz.

Por isso acho que as revistas têm longo futuro. Elas prestam atenção por nós, poupando nosso tempo. O que é escasso não é mais a informação, ou o acesso à informação; o que é raro hoje é tempo para prestar atenção. Sendo assim, uma revista pode escolher caminhos variados para ser bem-sucedida. Um deles é cobrir um determinado segmento da oferta das “coisas”. Gosto por exemplo da Giant Robot (fui até na festa de seu primeiro aniversário, em Los Angeles, 1995), a melhor fonte de informação sobre cultura pop asiática fora da Ásia. Tento ler também todos os números da Bidoun, com campo de cobertura mais abstrato, que talvez possa ser definido por um cosmopolitismo experimentalmente moderno quase sempre de origem árabe, mas não necessariamente islâmico. Já falei aqui na coluna também da The Wire, leitura essencial para quem precisa de música aventureira.

Outra possibilidade é um olhar mais generalista, para o qual tudo de interessante interessa. Veja o caso da 032c, revista semestral de língua inglesa editada em Berlim, que está completando 10 anos de atividade. Foram portanto 20 números, o último deles ainda se encontra em bancas e livrarias cariocas que costumam vender revistas importadas. Nas suas páginas, os suspeitos de sempre, poderosos do mundo da arte contemporânea: Rem Koolhaas, Juergen Teller, Hedi Slimane, Hans-Ulrich Obrist, sempre eles. Mas tudo com olhar animado, que nos faz acreditar que vivemos no mais criativo dos mundos possíveis. Além disso, o dossiê sobre Rei Kawakubo, da Comme des Garçons e uma das pessoas mais inteligentes do planeta, deve ser lido como um grande tratado sobre o que realmente merece nossa atenção.

Século McLuhan

07/05/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 29-04-2011

Meu amigo André Stangl, que conheci nos tempos pioneiros dos estudos ciberculturais baianos e hoje vive em São Paulo, manda avisar: Marshall McLuhan está de volta aos meios universitários paulistanos, depois de anos numa certa berlinda. Mais precisamente: segunda e terça-feira será realizado “O século McLuhan”, evento realizado pelo Atopos, centro de pesquisa “fora-de-lugar”, mas de certa forma baseado na ECA da USP (inscrições em www.atopos.usp.br/mcluhan). O leitor pode se perguntar: qual século, o XX ou o XXI? Qualquer um. Tom Wolfe, na introdução para o livro “Understand me” (cujo título é uma brincadeira com seu clássico “Understand media” e que foi publicado no Brasil, pela Ediouro, como “McLuhan por McLuhan”), afirma: “Não consigo pensar em outra figura que tenha assim dominado um campo de estudo inteiro na segunda metade do século XX. Na virada do século XIX e nas primeiras décadas do XX, havia Darwin na biologia, Marx na ciência política, Einstein na física, e Freud na psicologia. Desde então houve apenas McLuhan nos estudos da comunicação”. Outras pessoas dizem que as profecias de McLuhan só se tornarão realidade, ou dominarão nossa realidade, agora depois do ano 2000. Mesmo assim, o evento se refere a um outro século, bem mais preciso: em 2011 comemoramos os 100 anos de nascimento do cara que, entre outras coisas, nos disse que o mundo se transformou numa aldeia global e que o meio sempre foi a mensagem.

Fiquei surpreso ao ser lembrado que McLuhan nasceu em 1911. Isso significa que quando publicou suas obras mais inovadoras e de maior impacto já tinha mais de 50 anos e cerca de três décadas dando aulas. De certa forma, livros como “A galáxia Gutenberg” ou o “Understanding media” parecem ser trabalhos de uma mente mais jovem, capaz de comprar qualquer briga sem temer perder respeitabilidade conquistada em já longa carreira acadêmica. McLuhan permaneceu jovem audacioso até o final de sua vida, em 1980. Foi um desses muleks eternos como John Cage, Miles Davis, Mário Pedrosa, para quem a idade transmite não peso intelectual, mas leveza para encarar o mundo ainda com mais audácia e liberdade. É possível comprovar isso assistindo os vários vídeos com aparições de McLuhan na TV dos anos 60 e 70 que estão disponíveis na internet. Uma alma bondosa, talvez anônima para evitar problemas relativos a direito autoral, nos fez o favor de compilar todos essas imagens num único site para a comemoração do centenário. Procure por “Marshall McLuhan Speaks” em qualquer ferramenta de busca. Além da introdução de Tom Wolfe, que começa com a aparição de McLuhan no filme “Noivo neurótico, noiva nervosa” de Woody Allen, podemos ver clipes de suas respostas, divididas por assunto, que revelam como sua maior diversão era causar polêmicas, ou falar aquilo que fundia a cuca de seus interlocutores, que mesmo com vontade de não levá-lo à sério acabavam se deixando encantar pela convicção maluca, e inteligência impressionante, do mestre pop.

Quem ainda estiver desconfiado, talvez por causa dos ternos de McLuhan (afinal o meio, nesse caso corpo e roupa, passa muita mensagem), deve visitar o UbuWeb (viva Kenneth Goldsmith! Todo mundo leu sua entrevista no Prosa & Verso? Aula obrigatória…), fechar os olhos e escutar os arquivos com a gravação do LP “The medium is the massage”, lançado por McLuhan pela Columbia Records no final dos anos 60, portanto quando ele tinha quase 60 anos. O que está ali registrado é uma das experiências de colagem sonora mais radicais e psicodélicas da história da indústria fonográfica. A Wikipedia diz que a produção foi de John Simon, que já assinara a beleza minimalista de “Songs of Leonard Cohen”. Com a “massagem midiática” o espírito era de total maximalismo, imagino que uma tentativa de registrar para a posteridade como podemos aproveitar melhor aquilo que McLuhan chamava de “espaço acústico”, onde tudo convive ao mesmo tempo agora, sem centro e periferia, sem a linearidade da escrita e do campo visual.

Se possível, e os neurônios deixarem, esculache a audição lendo ao mesmo tempo a entrevista que McLuhan deu para a Playboy em 1969. Kevin Kelly (tenho que escrever uma coluna sobre este outro cara urgentemente), no blog que era apenas para preparar seu maravilhoso e já-lançado livro “The technium” mas onde há novos posts e tomara que nunca tenha fim, disse que McLuhan não escrevia: deitava no sofá e começava a falar seus deliciosos absurdos, que eram transcritos por alunos. Era um feiticeiro da oralidade, uma máquina de produzir slogans, uma campanha permanente de marketing para seu próprio pensamento. Por isso se dava tão bem em entrevistas. Na da Playboy, bem longa, estava especialmente inspirado. A primeira resposta, eu gostaria de dar hoje, para explicar o que tento produzir aqui nesta coluna: “Estou fazendo explorações. Não sei onde elas vão me levar. Meu trabalho é desenhado para o objetivo pragmático de entender nosso ambiente tecnológico e suas consequências psíquicas e sociais. Mas meus textos constituem o processo mais que o produto completo da descoberta; meu propósito é empregar os fatos como sondas investigativas, como meios de insights, de reconhecimento de padrões, mais que usá-los no sentido tradicional e estéril de classificação, categorias, contêineres. Eu quero mapear novos terrenos e não cartografar velhas fronteiras.”


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