Posts Tagged ‘MC Daleste’

relevância

11/01/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 10/01/2014

Na semana passada, Ronaldo Lemos, colega de apresentação do programa Navegador, publicou no Facebook link para a sua coluna da Folha de S. Paulo. O texto começava assim: “O Google soltou sua já ‘tradicional’ lista de termos mais buscados durante o ano. Na lista das celebridades, o primeiro lugar ficou com o MC Daleste, que venceu Anitta e Nanda Costa. Daleste foi também o quinto termo mais pesquisado em toda a rede brasileira no ranking geral.” O primeiro comentário dos habitantes do país de Zuckerberg era suscinto. Apenas um “viixi”. O segundo dava voz a ceticismo que circulou pela Internet duvidando dos resultados do Google: “Como confiar num ranking que não tem Snowden ou NSA e tem BBom?” Também fiquei intrigado.

Cristina De Luca, a quem sigo fielmente desde que fazia dupla dinâmica feminina pioneira com Cora Rónai no caderno “Info etc.” deste jornal, resumiu dúvidas gerais em seu blog: “Estariam os gigantes da rede agindo como o Ministério da Verdade, criado por George Orwell no livro ‘1984’? Lembram? Era o setor responsável por alterar informações já publicadas em jornais antigos e divulgá-las novamente de acordo com a conveniência do sistema.” Ela sugere respostas, fugindo da paranoia: “Ô De Luca, isso é pura teoria da conspiração, dirão muitos. A unanimidade é burra e a Internet está repleta de faits divers, celebridades, etc. A mídia não influencia em nada as redes sociais e já perdeu relevância para os buscadores, dirão outros. Pode ser… Não tenho as respostas para as minhas inquietações e acho que jamais as terei.”

Minha própria experiência nesta coluna pode sugerir pistas singelas para nosso aprofundamento nesse mistério sem solução. Meu texto sobre Snowden da semana passada teve apenas 1 “curtida” no Facebook. Meu texto sobre Daleste teve 3.900. Mesmo entre os leitores de jornal parece que há nítida diferença de interesses. Porém, Cristina De Luca toca em ponto para mim o mais sensível: a perda de influência da “mídia tradicional” diante das “novas mídias”. Parecem mundos sem contato entre si. Falo isso desde o texto de divulgação do Central da Periferia, que agora está sendo reprisado no Viva e merece ser visto como documento de época, que a academia não registrou devidamente. Aquela produção musical, que deu no funk paulistano do Daleste, não precisou de jornal/rádio/gravadora/TV/etc. para se tornar popularíssima. O fosso entre os dois mundos torna-se cada vez mais intransponível?

Alex Bellos, um dos poucos colegas (gosto desse termo usado pelo pessoal do funk para se referir aos seus melhores amigos) jornalistas que anotam minhas sugestões de pauta (e que lançará em breve nova edição de seu livro sobre o futebol brasileiro), foi quem me deu a dica: leia Charlie Brooker. Nunca tinha ouvido falar nesse nome, mas assinei imediatamente o RSS de sua coluna no The Guardian. Descobri que é celebridade multimídia britânica. E tem um dos textos mais devastadores do planeta. Faço toda essa introdução apenas para citar trecho de sua coluna de final de ano: “apesar de todos os esforços deste jornal para fazer as pessoas se importarem com as revelações de Edward Snowden sobre a bisbilhotice da NSA, a resposta típica foi algo como um inexpressivo ‘bá, típico’.”

(Tenho que abrir este longo parêntese para ousar traduzir outro trecho desta coluna de Brooker, descrevendo dança de Miley Cirus que atraiu bem mais atenção que Snowden: “Ela também estirou muito a língua – e a estirou violentamente, como uma girafa atacando um galho especialmente verdejante. Na verdade não – mais violento do que isso. Ela a estirava como se seu rosto estivesse tentando atirá-la contra um muro no lado oposto da cidade.”)

Meu esforço, em várias edições desta coluna, aproveitando o caso Snowden para debater questões importantes do nosso futuro cibernético, parece que também foi em vão. Se o The Guardian não conseguiu, por que eu teria mais sucesso? Mas para ser justo: além da curtida anônima no Facebook, um leitor, Francisco Pereira, mandou a seguinte mensagem para o email da redação do Segundo Caderno: “Muito interessante, mas creio que Hermano cometeu um engano. Fui consultar o artigo na New York Review of Books; o número 850.000 se refere aos leitores do Guardian e não aos funcionários da NSA, que segundo Der Spiegel são 40.000.” Infelizmente não, Francisco: o jornal tem cerca de 180 mil assinantes ou 8,4 milhões de visitas mensais no seu site. Alan Rusbridger repetiu o número (850.000) em várias ocasiões, inclusive em depoimento no parlamento britânico (VER LINKS EM NOTA DESTE POST). Se não forem funcionários ou gente com alguma ligação formal com a NSA, quem seriam? Mas acho que ninguém se importa com isso.

sua história, nossa tragédia

13/07/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 12/07/2013

O MC Daleste – assassinado sábado enquanto se apresentava no palco de conjunto habitacional da Vila San Martin (periferia de Campinas, SP) – era um dos artistas mais populares do Brasil. Faça uma pesquisa no YouTube (atualmente o termômetro mais fiel da popularidade musical): contei agora 16 vídeos com mais de 2 milhões de visualizações, entre 750 mil resultados. Há de tudo, até reportagem sobre sua chegada ao aeroporto do Recife, recebido por representantes de fã-clube pernambucano. Provavelmente se não fosse outro vídeo, que documenta o instante do crime, sua morte brutal não teria sido noticiada pelos jornais. Entraria apenas para alguma estatística sombria de homicídios de garotos negros e pobres nas cidades brasileiras.

Mesmo assim não houve mensagens de pêsames da presidência ou do MinC, como ocorre habitualmente em caso de mortes de artistas populares. Se a mesma coisa tivesse acontecido com músico “de boa família” durante show realizado em bairros “nobres” não tenho dúvida: seria comoção nacional, com avalanche de tributos nos cadernos culturais. Não culpo jornalistas: a maioria não tinha a menor ideia do sucesso do MC Daleste. O funk paulistano é parte do mundo “invisível” da música mais popular hoje no país. Seu sucesso continua independente das instâncias tradicionais de consagração e divulgação que ainda vigoram na imprensa.

Só ouvi falar do MC Daleste recentemente, de forma bem pouco usual. Durante a exibição do “Esquenta!”, seus fãs organizavam mutirões no Twitter transformando hashtags pedindo a presença de seu ídolo no programa em TTs. Renato Barreiros, que é pesquisador do “Esquenta!” e meu guia para as novidades do funk de São Paulo, foi quem me deu a notícia do assassinato: “era hoje o maior ídolo da juventude de periferia de SP. Eu o conhecia bem, era um moleque bom, super alegre e que não tinha envolvimento com nada errado.”

Renato foi subprefeito da Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo. Na sua gestão começou a organizar festivais de funk na cidade, percebendo bem no inicio a importância que esse ritmo teria para a cultura paulistana. Foi momento de relação virtuosa entre poder público e música periférica, que não teve continuidade em governos posteriores. No Rio, o abandono/invisibilidade do funk foi o maior incentivo para a invenção do “proibidão”. Em São Paulo, onde a polícia passou a proibir bailes, há agora essa matança em série de MCs.

As letras de MC Daleste utilizavam procedimento comum em canções da Legião Urbana. Quando meu grande amigo Renato Russo cantava “eu moro com a minha mãe, mas meu pai vem me visitar”, não falava sobre sua família. Os versos “a violência é tão fascinante, e nossas vidas são tão normais”, de “Baader-Meinhof blues”, não devem ser interpretados como apologia ao terrorismo. Também eram muito variados os “eus” dos funks de Daleste. Em “Angra dos Reis” quem fala é adolescente em busca de “ostentação”. Em “Mãe de traficante” ouvimos: “oh meu filho, não faça mais isso pelo amor de Deus / não me faça passar por onde eu não preciso / siga meu exemplo, sou trabalhadora / mas infelizmente não fiz faculdade / foi dias e noites lutando e lutando / mas tudo o que eu tenho foi com dignidade”. Sempre retratos de gente que o compositor via ao seu redor. Não concordava necessariamente com o que estava cantando.

Daleste só foi explicitamente autobiográfico em versão improvisada de funk disponível no YouTube. O resultado é um dos depoimentos mais contundentes sobre a realidade brasileira contemporânea. Enorme vontade de viver. Transcrevo a letra, para que mais gente possa “passar adiante” sua história, nossa tragédia: “quando comecei / passava a maior dificuldade / e lá em casa era fora de realidade / é revoltante eu sei / senti o gosto do veneno / até os 13 anos de idade não tinha banheiro / e lá em casa as paredes eram de madeira / lembro como se fosse agora / quando abria a geladeira, não tinha nada para comer / a barriga vazia / mas amanhã eu vou pra escola / como na merenda / sábado e domingo é difícil / mas a gente aguenta / mas a fome não é nada / em relação ao principal / nunca entendi porque não tive a família normal / minha mãe e meu pai trabalhando / e meu irmão na escola / minha irmã mais velha na faculdade / mas a vida é foda / tudo ao contrário meu destino aconteceu / mas entreguei tudo isso na mão de Deus / e hoje estou aqui, passando adiante / cantando minha história pra quem gosta de funk / muito obrigado pela atenção de todos vocês / o resto dessa história venho cantar outra vez / eu sou vencedor na porra do bagulho / sou funkeiro sim e disso me orgulho / levo no peito as cicatrizes do preconceito”.

PS: sobre “apologia” é muito importante ver/ouvir com atenção os 10 minutos deste vídeo de 2011


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