Posts Tagged ‘neutralidade da rede’

mesh

27/08/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 19/08/2011

Na semana passada, a Amazon lançou o Kindle Cloud Reader. Só é necessário um browser para comprar/ler os livros em qualquer aparelho, seja desktop, laptop, tablet, smartphone. Esse lançamento foi interpretado como uma declaração de guerra contra a taxa de 30% cobrada em todas as vendas quando usamos aplicativos da loja da Apple. Algumas semanas atrás, a empresa de Steve Jobs baixara decreto proibindo apps que levassem o consumidor a fazer compras sem usar seu sistema de pagamento interno. O Google aceitou a regra. A Amazon deu o fora da loja e desenvolveu aplicativos para os velhos browsers, que felizmente ainda vêm instalados em todos os aparelhos e nos permitem navegar por uma internet que não é território particular de nenhum CEO. Até quando essa porta de escape ficará destravada? Cada vez mais, quando compramos um aparelho da marca A ou B, estamos fazendo opção por um acesso internet do tipo A ou B, que quer ir apenas até onde seus fabricantes têm controle.

No ano passado, os consumidores brasileiros venceram pequena batalha contra a Motorola (hoje Google?), que havia anunciado que alguns de seus aparelhos vendidos por aqui não teriam direito ao Android 2.2. Os consumidores da América do Norte e da Europa poderiam fazer o upgrade, mas não os “latinos” do lado de cá. Depois de um panelaço virtual no Twitter, a Motorola voltou atrás, e liberou a novidade com muito tempo de atraso. Ninguém nos explica isso quando compramos um smartphone: os fabricantes decidem quando e como as atualizações dos sistemas operacionais poderão (ou não) ser baixadas para nossas máquinas. Além do fabricante, há a telefônica: algumas vezes se o aparelho foi comprado numa loja genérica, ele poderá ser atualizado, mas se foi comprado na telefônica X ou Y, vai precisar de outras liberações complexas. É claro que há maneiras de hackear a máquina, fazer seu “debranding” (que incrível esse verbo!), mas isso pode ser crime, punido por legislações precárias, formuladas num tempo que o mundo não tinha esse tipo de problema. Ficamos geralmente passivos, esperando que as empresas que vivem do nosso dinheiro decidam o que é melhor para nossa comunicação.

Os smartphones, na verdade, não são nada espertos, e muitas vezes nos tratam como bobos. Jonathan Zittrain, professor de Harvard e autor do livro “O futuro da internet e como pará-lo”, chama as novas máquinas – que vão ser cada vez mais o principal meio de acesso para as tais “classes populares” – de “terminais patetas”. Um “desktop” antigo, mesmo rodando um primitivo MS-DOS, tratava o usuário com mais respeito. Era possível até mudar de sistema operacional quando nos desse na telha. Trocamos a liberdade por praticidade, mobilidade, menor peso e tamanho? Fizemos as contas, na hora da mudança? Ou o que importa mesmo é que uma app é muito mais cool?

Os fabricantes e as telefônicas apresentam outras justificativas para as novas restrições. Entre as mais repetidas está a de que hoje tem muito mais gente baixando arquivos pesados, sobretudo vídeo. As redes físicas e o espectro eletromagnético (por onde fazemos transmissões aéreas e via satélite de dados) estariam congestionados, operando no seu limite. Por isso a opção de cobrar mais caro por determinados serviços, ou proibir outros. Mas veja bem: essa é apenas uma opção diante do problema. Há outras. A opção atual, diante da abundância, do povo que invadiu as arquibancadas, é criar uma sala VIP, que é um meio – com suas pulserinhas coloridas – de recriar, artificialmente, a escassez. Em vez de encontrar uma maneira de aumentar democraticamente o espaço de todos, diminuímos as poltronas da classe econômica para colocar camas na primeira classe. Funciona, até um dia que vira um riot londrino… E temos que lembrar sempre que espectro eletromagnético é um bem público. São nossos governos que decidem quem pode usar e como pode usar suas várias frequências de transmissão. Devemos cobrar contrapartidas sociais e democratizantes para esses usos.

Se os fabricantes e as telefônicas controlassem a internet desde o seu início, dizendo que serviços são permitidos ou não, provavelmente não teríamos MP3, voz sobre IP (que permite ligação Skype), ou até mesmo o YouTube, o Google, o Facebook, tudo que colocou em cheque o modelo de negócios da mídia “tradicional”. A telefônica mataria o Skype, a TV a Cabo sufocaria o YouTube. O peer-to-peer continua sendo visto como vilão, não como solução. É sistema engenhoso, que coletiviza custos de conexão e armazenamento, já que os arquivos ficam disponíveis em nossos discos rígidos (muitas vezes subutilizados) para toda a rede, podendo contribuir para o bem geral. O peer-to-peer é a verdadeira nuvem, sem necessidade das fazendas eletrônicas e ecologicamente suspeitas dos computadores do Google ou de sei lá quem, que agora cuidam de todos nossos dados mais preciosos.

Outra possibilidade é o compartilhamento de nossas conexões. Por que todos apartamentos de um prédio precisam de seus wi-fis separados? Há também propostas interessantes de “mesh networking” criando redes de celulares e roteadores, utilizando melhor – também coletivamente – a parte do espectro que ainda é livre. Muita coisa para fazer, muitos aparelhos para conectar uns aos outros. Não dá é para ficar parado, isolado, esperando que a empresa A ou B nos diga o que podemos fazer. Um outro cibermundo é possível.

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neutralidade

20/08/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 12/08/2011

Agora falando sério. Neutralidade da rede. Espectro eletromagnético. Tem gente que tampa os ouvidos ao ouvir esses nomes, achando que são temas para cientistas e políticos debaterem. Agindo assim, deixam que decisões centrais de suas vidas sejam tomadas à sua revelia, aceitando sem questionar sérias restrições às suas liberdades. Não adianta: hoje tudo que tem impacto é combinação cabeluda de ciência, política, marketing, antropologia e assim por diante, em regime transdisciplinar geralmente alucinado. Tudo é “complicado” (palavra da moda, não só entre locutores de rádio que anunciam congestionamentos): não adianta olhar o problema de um só lado. Suas “lógicas” se embaralham de maneira às vezes monstruosas. Temos que dar um jeito de conviver com ou lutar contra esses monstros (por exemplo: regulamentações para transgênicos, hedge funds etc.), que são, muitas vezes, questões de vida ou morte, individuais ou planetárias.

Então: neutralidade da rede. O que isso tem a ver com nossas vidas? Tentarei ser o mais simples possível. Começando: a internet só se desenvolveu de maneira tão rápida e com aplicações tão distintas entre si pois nasceu como rede neutra, que não discriminava os dados que circulavam pelos seus servidores, conectados por fios ou pelo ar. Isto quer dizer: o trabalho dos servidores era receber os dados, agrupados em “pacotes”, e encaminhá-los para seus destinos finais. Os dados poderiam ser textos, vídeos, áudios – que eram tratados por todos os servidores igualitariamente, sem privilégios para tipos específicos de dados e sem identificar quais os “conteúdos” desses dados. A própria estrutura técnica da internet, descentralizada (sem um servidor central tomando conta de tudo), tornava impossível a censura: se um servidor resolvesse ser barreira, os pacotes de dados iriam encontrar outros caminhos para seguir suas viagens pela rede.

A internet era a estrada. Qualquer tipo de veículo, contendo qualquer tipo de carga, poderia trafegar por suas pistas, praticamente sem polícias rodoviárias, e principalmente sem faixas com asfalto melhor para quem pagasse mais pedágio ou faixas exclusivas (seletivas) para determinados meios de transporte (como caminhões ou ônibus) – e mesmo sem regras para ambulâncias em emergências trafegarem mais rápido. Na internet não havia classe executiva: todos os passageiros entravam no avião pela mesma fila. Repare bem: estou falando da estrutura técnica, não de diferentes planos de acesso, com preços diferentes para velocidades de conexões diferentes. Nesse sentido técnico, uma rede de eletricidade pode ser considerada neutra: pagamos – em tese também – pelo que consumimos, mas a casa A não pode ter energia de melhor qualidade que a casa C. (Essas analogias são precárias: estão aqui para facilitar a compreensão – não devem ser tomadas ao pé da letra.)

Falo da internet no passado, como um alerta. As coisas estão mudando, novamente bem rápido. Já temos o início de internets diferentes, para provedores diferentes, e para aparelhos diferentes. A batalha agora deixou de ser apenas acesso para todos; é preciso dizer também que tipo de acesso queremos. Um exemplo: nos Estados Unidos, há um serviço de acesso chamado Metro PCS, destinado para classes populares, que permite YouTube ilimitado, mas bloqueia outros sites de streaming de video. Não é possível também fazer ligações via Skype. Isto é, a internet de quem paga mais caro tem Vimeo e Skype. A internet Metro PCS é “diferenciada” – como a população que iria invadir Higienópolis pela nova estação do metrô paulistano. Jardim murado é bobagem perto dessa cerca elétrica de alta voltagem.

Já há novas tecnologias para identificar os conteúdos dos pacotes de dados que acessamos. O objetivo é estipular tarifas diferentes para serviços diferentes – texto, vídeo, áudio etc. Alguns provedores já fizeram experiências diminuindo a velocidade de download e upload para serviços Peer-to-Peer, ou P2P, através dos quais muita gente troca arquivos pesados – tanto legais quanto ilegais – pela internet. Outros já bloquearam sites como o Pirate Bay, ou diminuíram a qualidade de conexão de serviços como games on-lines (na semana passada foi criada a Canadian Gamers Organization – para fiscalizar esse tipo de abuso contra o consumidor naquele país). Então fica evidente: nada impede que os mesmos recursos sejam usados para censurar determinado tipo de conteúdo, com consequências nefastas para direitos democráticos básicos.

Muitas dessas ameaças estão bem mapeadas no artigo “O crescente divisor digital”, recém-lançado pela The New America Foundation. Essa fundação, presidida pelo jornalista Steve Coll (da New Yorker e do Washington Post, vencedor de dois prêmios Pulitzer) e que tem em seu conselho nomes que vão de Fareed Zakaria a Francis Fukuyama (provando que não é nada radical), busca investir em novos pensadores e novas ideias para enfrentar novos desafios americanos. As pesquisas que desenvolve não podem ser pensadas como obras de ideologia contra a livre iniciativa. Por isso mesmo soa mais preocupante aquilo que descreve como a “quebra” da internet em várias redes. A internet do meu aparelho Android vai ser inevitavelmente diferente da internet do seu iPhone? Respostas na próxima coluna, também com a volta de espectros que rondam a nossa tecnocivilização.

contra muros

13/08/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 05/08/2011

Muita gente me escreveu para elogiar a coluna da semana passada. Aqui do meu ladinho, da minha sonífera ilha particular, fiquei insatisfeito. Diante do texto publicado, achei o tom muito reclamão. Fiquei destemperado, talvez despeitado, tomado por uma antipatia pré-histórica pelo Facebook, sobretudo pela maneira como virou moda no Brasil, resultado de atitude preconceituosa contra a favelização do Orkut, fenômeno que ficou mais conhecido como “orkutização”. Quando vi os “favelados” no Orkut, pensei: agora é que isso aqui vai ficar bom, cada vez mais perto do amálgama de Jorge Mautner. Que nada: os ricos debandaram. É o que está acontecendo com o BarraShopping, já perceberam? A “favela” invadiu mesmo o puxadinho New York City Center, com sua laje UCI. Gostei: poderia ficar com o perfume 40 graus do Rio fausto-fawcettiano, muito além do melhor que a tal ascensão da Classe C já nos proporcionou. Novamente que nada: a garotada rica migrou para o Rio Design Barra, cujo cinema tem até estranha sala VIP 40 reais, “exclusiva” como o Facebook de tempos atrás.

Porém, todo mundo já percebeu: o Facebook orkutizou. Agora posso me sentir bem por lá (os ricos vão ter que se esconder em algum submundo criptografado do Anonymous?) Mesmo assim continuo implicando: o Facebook (700 milhões de cadastrados!) parece ter projeto para colonizar a internet, até que não reste mais nada além de sua rede social, até que vire o cibermundo todo e ninguém possa mais escapar de seus muros, pois não existiria nada do ladinho de fora. Então preciso lembrar, para não ficar só na reclamação, que ainda há muita vida além do jardim, que deve ser preservada para garantir a biotecnodiversidade da rede, fonte – a única sustentável – de sua riqueza.

Talvez seja por aí mesmo o caminho da resistência, radicalizando essa analogia com a militância ecológica (tão útil quanto aquela outra analogia, urbanística, comparando a internet livre com as ruas “tradicionais” de uma cidade, não cercadas – cujo comércio corre perigo diante do sucesso murado dos shoppings). Precisamos de produções e consumos conscientes também em nossa vida digital. Dá mais trabalho levar a sacola para o supermercado ou investigar a autenticidade do certificado que nos diz que aquele produto não contribui para a degradação ambiental/social? Claro que dá. Mas não adianta: as coisas boas da vida dão trabalho mesmo, e nessas coisas está incluída a transformação do mundo em lugar menos chato.

Na hora de consumir, algumas ponderações alegres são necessárias. Começarei citando exemplos banais. Já que na coluna passada falei dos browsers: gosto mais do Chrome. Porém, não suporto a ideia de uma internet controlada pela empresa Google. Então, uso a nova versão do Firefox (mesmo que seja mais pesada para meu computador), parte do trabalho da Fundação Mozilla, tudo desenvolvido na melhor tradição do software livre. Na hora de lançar o blog, por que usar os serviços comerciais de um Blogger, por que não usar os softwares também livres do WordPress? Não por ser uma escolha politicamente correta, mas por ser um serviço melhor mesmo, muito mais “customizável”, onde os controles ficam em nossas mãos. Isso exige um pouco mais de dedicação para aprender como tudo funciona? Não vou enganar ninguém: a resposta é sim – porém, as vantagens depois do aprendizado são imensas, até como exercício aeróbicos para nossos neurônios subutilizados.

Há tarefas necessárias que dão mais trabalho. Por exemplo: ler Termos de Uso e Políticas de Privacidade de todos os serviços que usamos na rede. Há muitos absurdos nas entrelinhas. Ou explícitos nos parágrafos de maior destaque. Por exemplo: ao concordar com os termos de serviço do Farmville, aquele joguinho inocente, o usuário dá para a empresa Zynga a licença “perpétua” de usar qualquer de seus conteúdos para comercializar, reformatar ou mesmo sublicenciar, abrindo mão, “sempre que as leis aplicáveis permitirem”, inclusive de direitos morais. Bobagem? É só um passatempo de crianças? Veremos… Claro, não podemos contratar advogados a cada vez que utilizarmos um novo serviço. Mas assim estamos em desvantagem, pois as empresas têm sempre advogados poderosos escrevendo esses contratos. Precisamos nos unir em organizações de defesa do ciberconsumidor (que quase sempre é também um ciberprodutor) para fazer valer outros direitos.

Precisamos também – isso é inevitável – dedicar algum tempo para aprender não apenas o juridiquês, mas as questões que estão por trás de seus termos esotéricos ou de propostas de mudança de leis. Não dá para continuarmos fingindo que projetos como o Marco Civil da Internet, que esteve em consulta pública por tanto tempo e agora enfrenta labirintos legislativos, é coisa de especialista. Ali está sendo decidida parte essencial de nossas vidas futuras, atualizando garantias de nossas liberdades. Outros temas são bem mais cabeludos, e nem por isso os “leigos” devem deixar de formar opiniões sobre eles. Como o debate sobre a “neutralidade da rede”, que envolve pesados interesses de telefônicas que gostariam de selecionar, com preços e velocidades diferentes, os dados que chegam até nós pelos seus cabos. Ou pelo ar. E aí chegamos à questão essencial da democratização da utilização do espectro eletromagnético, onde circulam nossos dados. Mas isso é assunto de sobra para divertidas próximas colunas.

Gov 2.0

23/02/2011

texto publicado em minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 21/01/2011

Na coluna da semana passada, apenas para introduzir o debate sobre classificação indicativa, falei de Gov 2.0. O assunto merece mais atenção do que aquele parágrafo introdutório. Tudo bem, o Segundo Caderno não é lugar para falar de política sem ligação clara com o mundo da cultura. Porém, não tenho nem dúvida: por trás do Gov 2.0 está acontecendo uma das transformações culturais mais interessantes deste novo século, que redefine o lugar da política em nossas vidas. O fato de ter o onipresente 2.0 na sigla é apenas mais uma evidência de suas conexões para além do Estado, para além da política convencional.

Hoje tudo é 2.0. Há medicina 2.0, educação 2.0, marketing 2.0 etc. Isso tem a ver com a utilização da internet em todos esses ambientes, mas não é só a tecnologia que importa, ou o que mais importa. A mudança principal acontece no relacionamento entre as pessoas, sendo praticamente irrelevante se estão em contato para fazer publicidade, política ou tratamento médico. Cada uma dessas áreas, mesmo com a resistência de antigos detentores do poder, tem agora que se abrir para a colaboração de todos. Não são mais caminhos de mão única, do centro para a periferia dos vários saberes e práticas. São redes, de muitos para muitos, sem distinção precisa entre quem fala e quem escuta, quem produz o “conteúdo” e quem o consome, quem manda e quem obedece.

2.0, em muitos contextos, é quase sinônimo de aberto, seguindo o modelo informático do “código aberto” (ou “open source”, em inglês, que por sua vez é quase sinônimo de “free software“, mas não há espaço aqui para abordar as sutis – e não tão sutis assim – diferenças políticas nas quais essas denominações se fundamentam). Gov 2.0 pode ser traduzido por governo aberto, ou “open government”. Tem gente que diz que hoje a abertura da internet está ameaçada (ou “a web está morta“) por causa de fatores tão díspares quanto o modelo de negócios do iPad, as “apps” de celulares, a reação anti-ou-pró-wikileaks, ou o cada vez mais poderoso combate reacionário contra a “neutralidade da rede“. Talvez tenham razão, se olharmos só para a rede. Mas se considerarmos a maneira como os princípios “libertários” da abertura da rede se “infiltraram” no mundo “off-line” (será que ainda dá para separar on-line de off-line?), o panorama é mais favorável a ambições democráticas. Um dos elementos dessa “expansão” aberta é bem visível: os pensamentos de muitos governos estão cada vez mais parecidos com os dos hackers.

As experiências do governo brasileiro felizmente não são únicas. Há países em que a “abertura” do modo de se governar acontece de forma mais planejada e consistente. A Casa Branca, por exemplo, criou a Open Government Initiative, que tem como lema “transparência, participação, colaboração”. São palavras do presidente Obama: “A abertura vai fortalecer nossa democracia e promover eficiência e eficácia no governo.” Já os australianos criaram um termo mais viril: não fizeram uma iniciativa e sim uma Government 2.0 Taskforce, que busca “promover transparência, inovação e agregar valor à informação governamental.”

Acompanho com mais atenção as experiência do governo do Reino Unido, até porque muitas delas são lideradas por Tim Berners-Lee, o inventor da web 1.0, que já promete a 3.0 (ou web semântica, em que os dados poderão “conversar” entre si, produzindo novos usos para as informações, sem interferência humana). Na “Spending challenge“, a Secretaria do Tesouro de Sua Majestade organizou uma elaborada consulta para que todos os cidadãos pudessem sugerir cortes de orçamento. Em “YouFreedom“, os súditos da Rainha podiam dizer que leis queriam ver abolidas.

Na semana passada, o site O’Reilly Radar (capitaneado por Tim O’Reilly, o inventor do termo “web 2.0” e o organizador do Gov 2.0 Summit que aconteceu em Washington em 2011) publicou uma lista de organizações de “inovação cívica” cujos trabalhos devem ser acompanhados de perto em 2011. Só ideias extremamente bacanas. Como a da organização “Code for America“, que tem como objetivo criar aplicações que ajudarão o governo a oferecer melhores serviços para os cidadãos. Ou a “Civic Commons“, que inventa sistemas para que prefeituras possam compartilhar softwares, não precisando pagar para criar programas que já foram desenvolvidos em outras cidades, ou mesmo em outras secretarias da mesma cidade.

Claro que nada disso significa a conquista da utopia. O motor da democracia é a crise, e maiores liberdades são conquistadas em meio a crises constantes. Como diz o historiador Pierre Rosanvallon, do Collège de France, em debate recente promovido pela revista “Le nouvel observateur“: o ideal democrático se sustenta sobre eternas contradições: entre a representação e o “movimento direto”; entre votar em quem pensa como pensamos e votar nos governantes mais eficientes; entre o “povo” e o “indivíduo”; entre a eleição como momento do “yes we can” e a pós-eleição como império das dificuldades para se fazer o que podemos…

Rosavallon alerta: “formas de progresso democrático podem também mascarar tentações de regressão.” É preciso que todas essas ferramentas de governo colaborativo não se aliem a populismos que querem promover a descrença total em processos eleitorais.  O Gov 2.0 vai precisar sempre de um bom Gov 1.0.


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