Posts Tagged ‘rock’

microgravidade

05/10/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 04/10/2013

Só uso Facebook e Twitter para pesquisas eventuais. Não tenho amigos, não sigo ninguém, nem tenho seguidores por lá. Então, muitas vezes, demoro meses para conhecer os últimos mimes. (Sim, lanço aqui uma campanha para, em português, escrevermos “mime” em vez de “meme”. A pronúncia, com “i” depois do primeiro “m”, é a correta, mesmo em inglês. A inspiração para a criação da nova palavra, popularizada pelo biólogo Richard Dawkins, vem do grego “mímesis”, lembrando imitação. Por isso, no lugar de “memética”, “mimética” também explica melhor o objeto da nova “ciência”.) Por exemplo: só em agosto fui ver o clipe de “Space Oddity” feito pelo astronauta canadense Chris Hadfield a bordo da Estação Espacial Internacional, que se tornou viral – com quase 18 milhões de views – em maio.

Cheguei ao vídeo por caminho torto. Uma matéria do jornal The Guardian trazia o link para post publicado no blog da equipe britânica do Twitter, com análise sobre os modos diferentes de “viralização” de três grandes mimes de 2013. A campanha da Dove sobre “beleza real” foi a que teve repercussão mais descentralizada. Era um amigo passando o link para o outro. Já os vídeos sobre cereais matinais do ator Ryan Gosling (os canadenses estão em todos os lugares…) viraram hits a partir da divulgação feita por dois grandes “formadores de opinião tuiteira”. O clipe de “Space Oddity” teve fonte única: a mensagem vinda literalmente do espaço, do computador de Chris Hadfield, que na época comandava a estação espacial. Lição: não existe um só caminho ou uma só receita para o sucesso na internet. E a mimética é ciência que apenas engatinha.

Meu caso já contraria o padrão analisado no post do blog do Twitter. Não faço parte da maioria que teve acesso ao link do clipe como seguidor direto do astronauta. (Um artigo da revista The Economist aborda a confusão jurídica que esse vídeo criou: afinal, gerado no espaço, segue a legislação de direito autoral de que país?) Mesmo assim várias dessas quase 18 milhões de visualizações são minhas. Fiquei fascinado, não pelos dotes musicais de Chris Hadfield, mas pela oportunidade de bisbilhotar o interior da estação espacial. Aquilo deveria parecer o futuro, mas já tem cara de ficção científica com visual datado, como o 2001 de Clarke/Kubrick. Não há um computador central paranoico como Hal, mas na cena periférica podemos ver claramente vários laptops ThinkPad da IBM/Lenovo. (Artistas usam Mac, cientistas usam ThinkPad.) Li na Wikipedia que todos rodam sistemas operacionais Debian. Não importa: laptops já têm visual retrô, ainda que abarrotados de software livre.

Fui rever o vídeo que David Bowie fez para o relançamento norte-americano de “Space Oddity” (música de 1969, mas que alcançou sucesso mundial depois da turnê de “Ziggy Stardust”). A filmagem aconteceu durante a gravação do LP “Aladdin Sane”. O equipamento do estúdio, com todos aqueles milhares de botões hoje obsoletos, era o que dava ambiente visual futurista para a música. Mesas de mixagem de não sei quanto canais, laptops, violões flutuando em microgravidade: tudo se transforma em peça de museu rapidamente, não importa se demora décadas ou semanas após a última conferência da Apple. Como as roupas de Ziggy Stardust ou de Johnny Rotten, expostas no Victoria & Albert ou no Metropolitan.

Estamos comemorando os 40 anos de “Aladdin Sane”. Lembro de quando vi a capa desse disco pela primeira vez, com 13 anos, no caminho da escola, passando pela vitrine de uma loja de discos do setor comercial da SQS 310, em Brasília. A imagem de Bowie com cabelos vermelhos espetados e com aquele raio maquiado no rosto foi uma das mais marcantes da minha vida. Em tempos politicamente incorretos o crítico Lester Bangs sacaneava aquilo como estilo “homo from Aldebaran”. O que me causava mais estranheza não era o lado andrógino (quem era David, quem era Angie?), mas sim o que havia ali de alienígena. Eu já queria viajar para os confins do universo com a tripulação de Jornada nas Estrelas (e não me importava com o risco de ficar perdido no espaço). Ainda quero.

Depois comprei o vinil. O que mais gosto, até hoje (mesmo no CD com remasterização Sound+Vision), é a estranheza também alienígena do solo de piano de Mike Garson na faixa título (que tem o complemento numérico “1913-1938-197?” – Bowie estava esperando a Terceira Guerra). No meu início de adolescência, sem informações sobre free jazz ou Webern, não sabia de que galáxia poderiam vir aqueles sons. Li na Wikipedia (como viver sem ela?) que, na gravação, Garson tentou primeiro um estilo blues, depois latino, mas Bowie queria outra coisa. Mesmo retrô, ainda soa “avant-garde”.

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rezo por ele

03/11/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 02/11/2012

Luis Alberto Spinetta morreu no dia 8 de fevereiro. Peço desculpas pela notícia atrasada. Só soube dela recentemente. Os jornais brasileiros ignoraram o que aconteceu. Perdemos um dos principais artistas surgidos aqui neste canto do planeta, a América do Sul. Um anjo, de carne e osso. Por isso, neste Dia de Finados, interrompo a reflexão sobre o Brasil a partir do meu encontro com Brian Eno, e rezo por Spinetta. Também em retribuição a todas as vezes que ele rezou por nós. Spinetta, com Charly García, compôs “Rezo por vos”, uma das canções mais tristes e duras que já ouvi. “Rezo, rezo, rezo, rezo / Morí sin morir / Y me abracé al dolor / Y lo dejé todo por esta soledad.”

Impressionante o tempo que fiquei sem saber que ele partiu nos deixando sozinhos por aqui. Durantes anos li os suplementos No, do jornal Página 12, e Si, do Clarín, buscando novidades da cultura jovem argentina e latino-americana, tentando loucamente estabelecer pontes entre lá e cá. Desisti? Preciso reconhecer que minhas forças não são as mesmas. Unir o continente é missão quixotesca. Pouca gente no Brasil parece interessada nisso. Somos país fechado demais.

Lembro os dias de 1997 que passei em Porto Alegre como curador do festival MTV Tordesilhas. Andei pelas ruas da cidade com o pessoal das bandas Café Tacuba (México – que acaba de lançar “O objeto antes chamado disco” – o melhor título de todos os tempos?), Aterciopelados (Colômbia), Los Tres (Chile) e Illya Kuriaki and The Valderamas (Argentina – que tem Dante Spinetta, filho de Luis Alberto, como componente), todos juntos e misturados, em momento de pico criativo. Não havia música mais potente sendo produzida no mundo. Mas aquilo parecia segredo nosso, bem particular. Os gaúchos, que imaginávamos ser o público mais receptivo no Brasil para esse tipo de experiência, não apareceram no Gigantinho, o ginásio onde o festival foi realizado, mesmo com Paralamas e Skank tocando no mesmo palco (duas bandas que lotavam sozinhas outros shows na cidade).

Lembro também do tempo em que Charly Garcia morou em Copacabana, tentando encontrar algum canal de comunicação com o público brasileiro. Nossos encontros pelas ruas do Rio não eram interrompidos por ninguém. Era como se eu estivesse acompanhado por um anônimo, um total desconhecido. Pouco tempo depois, quando encontrei Charly numa esquina de Buenos Aires, tivemos logo que nos esconder no primeiro bar, pois na calçada era impossível dar dois passos sem autógrafos ou declarações de amor de fãs enlouquecidos (mesmo um motorista de caminhão que passava do outro lado daquelas largas avenidas), uma devoção que nunca vi igual diante de músicos brasileiros. Era como se o voo Galeão-Ezeiza me transportasse para Alma Ata no Cazaquistão, ou lugar semelhante com o qual temos quase nenhum intercâmbio artístico.

Mesmo Fito Páez, quando chega por aqui, ainda precisa ser apresentado com o autor daquela música cantada pelos Paralamas ou por Caetano. Será que um dia vai poder ser apenas Fito? Utopia? Não sei mais o que fazer para que isso aconteça.

Foi Fito quem me apresentou à obra de Spinetta. Os dois gravaram juntos o disco “La la la”, que tem versões fulminantemente belas para “Parte del aire” e “Gricel”. Fiquei fascinado com a outra voz, com maneirismos semelhantes aos que já tinha ouvido no disco “Giros”, de Fito, a obra que abriu meus ouvidos para a música contemporânea argentina. Não sabia quem tinha influenciado quem. Só depois descobri que Spinetta, considerado pai do rock argentino, era grande ídolo de Fito. Fui atrás de seus discos, uma coleção imensa deles, e até hoje ainda tenho alguns de seus álbuns para escutar pela primeira vez (não escuto todos de propósito, para ter sempre algo “inédito” no futuro).

Spinetta se tornou conhecido como integrante da banda Almendra, no final dos anos 1960. Seu primeiro LP sempre aparece na lista dos melhores do rock argentino. Ali já está anunciada toda sua carreira, mesmo o flerte sério com o jazz e a música eletrônica, na qual vira e revira a tradição da canção, como se fora um Chico Buarque (em fase Guinga) que ama Beatles, Rolling Stones e Beach Boys. Escute “Laura va”, desse LP “Almendra” (1969), ou “Lago de forma mia”, do CD “Pelusion of milk” (1991). Tudo é frágil, parece que vai se desmanchar no ar, parece que aquela sofisticação melódica vai dar em beco sem saída, mas milagrosamente tudo se salva com um simples “oh”.

Sensação muito estranha: para o Brasil, é como se Spinetta não tivesse vivido. Agora, depois de sua morte, rezo para possa um dia nascer em nosso imaginário com – assim termina “Rezo por vos” – “amor sagrado”.

Ordem unida: “Ya no pienses mas que tu angel partió”.

metal

16/06/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 15/06/2012

Slayer foi a banda que me fez gostar de heavy metal. Claro, antes eu já admirava Led Zeppelin ou Black Sabbath. Mas pensava as músicas “Black Dog” e “Paranoid” apenas como rock. Quando, no final dos anos 1970, Jimmy Page ou Tony Iommi passaram a ser considerados precursores de um estilo de rock que já era chamado de metal, toda minha atenção estava voltada para o punk, cuja cartilha anarquista me colocava em extremo oposto estético: avisem a seus discípulos que solos de guitarra não vão me conquistar, nem bate cabeças com chicotadas de cabelos longos. Até que o Slayer lançou “Reign in Blood”, sua obra prima de 1986. De lá pra cá o jogo virou: heavy metal é a única vertente, com inúmeras subdivisões cada vez mais esquisitas, que acompanho com entusiasmo no rock contemporâneo.

Tudo isso se confirmou, e ficou mais claro, quando tive o privilégio de ver o Slayer tocando todas as faixas de “Reign in Blood” ao vivo em Londres poucas semanas atrás, comemoração um pouco tardia dos 25 anos do lançamento deste disco. Era noite de gala para a comunidade heavy metal mundial. Fãs vieram até do Japão especialmente para a ocasião única (ao que tudo indica não haverá repetição deste show especial em nenhum outro palco). Para quem não tem familiaridade com o estilo: era ocasião equivalente a um concerto com Bob Dylan tocando todo “Bringing It All Back Home” ou Ornette Coleman com todo “Free Jazz”, discos que inauguraram novos universos sonoros, abrindo espaço para muitas outras inovações posteriores. O metal contemporâneo, do grindcore ao doom, não seria o mesmo sem “Reign in Blood”. Vou além: a música mais inovadora atual, de qualquer ramo, tem nesse disco um de seus mais sólidos fundamentos.

O Slayer que tocou “Reign in Blood” em Londres não era a mesma banda de 25 anos atrás, não apenas por causa da substituição de um dos guitarristas (Jeff Hanneman foi picado por uma aranha e ainda está se recuperando de algo que em inglês se chama “necrotizing fasciitis”, provocado por uma bactéria que literalmente come a carne humana – e poderia, ironia macabra, ser título de álbum de death metal. No show londrino, quem tocou em seu lugar foi o não menos sensacional Gary Holt, da banda Exodus – seus solos absurdos, em dueto com Kerry King, pareciam ser produzidos por um theremin descontrolado.) O resultado sonoro no palco não podia deixar de levar em consideração tudo o que aconteceu na história do metal, depois – e por causa – do lançamento do disco, quando peso e barulho atingiram intensidades radicalíssimas. Então “Reign in Blood” ficou mais atual do que já seria se tivesse sido tocado exatamente como foi gravado em 1986 (naquela época sua novidade vinha principalmente de um encontro entre metal e punk abençoado pela produção de Rick Rubin, que estava também ajudando a inventar a sonoridade mais pesada do hip hop).

Outro elemento tornava o show mais especial: era a noite de abertura da edição 2012 de I’ll Be Your Mirror (IBYM), um dos eventos da família de festivais All Tomorrow’s Parties (ATP), conhecida por suas escalações vanguardistas, livres da obrigação de apresentar os sucessos do momento. Os organizadores das ATP geralmente convidam músicos, como os componentes do Sonic Youth ou do Portishead, para serem curadores. A segunda noite deste IBYM foi programada pelo Mogwai (não assisti pois do Mogwai quero ficar apenas com a memória de seu show no cais do porto do Rio em 2002, com aquela santa barulheira na qual submergi em algum lugar da platéia entre a Paula Toller e o Daniel Galera). Então o convite para o Slayer tocar no festival também significava uma declaração como esta: metal é música de qualidade, arte prafentex – é mundo que deve conviver bem com o resto da vanguarda musical contemporânea.

Dava para perceber esse novo status artístico olhando para o público. Longe está o tempo em que era possível identificar um fã de metal pela sua roupa ou seu cabelo. No IBYM havia calça skinny (muita, ainda) ao lado do x-large hip hop/skatista, ao lado do coturno punk e assim por diante, como se toda a história da cultura juvenil inglesa se reunisse ou embaralhasse num mesmo tempo. Cabelos brancos e curtos também eram encontrados facilmente em cabeças balançando agitadas ao som de “Angel of Death”. Afinal, o adolescente que tinha 15 anos quando escutou “Reign in Blood” em 1986 agora tem um pouco mais de 40. Eu tenho 52 e não me senti velho no local (como tenho me sentido em vários outros shows, onde pareço ter o dobro da idade do mais velho da platéia e do palco – é o preço que pago por manter minha curiosidade afiada como a de um garoto que está descobrindo o mundo agora). Sensação interessante de constatar que o que era antes marca de conflito geracional agora pode ser link entre todas as faixas etárias e os velhos se comportam de forma mais “doidona” que os novinhos. E todos usam essas bolsas de pano onipresentes nos “looks descolados” [como detesto essas duas palavras, “look” e “descolado”] deste início de verão olímpico inglês.

O ecletismo também era evidente nas estampas das camisetas: Deicide, Agnostic Front, Mastodon e até Burial. Cheguei atrasado, mas consegui ver o pré-doom do Sleep e o pós-doom do Wolves in The Throne Room. Um blog de metal só fez uma reclamaçõa:o vinho recém-lançado pelo Slayer, chamado – é claro – Reign in Blood, não estava a venda. Não senti falta: havia uma barraca com chá verde.

Malcolm McLaren

28/12/2010

texto publicado na minha coluna no Segundo Caderno do Globo em 23-07-2010

Lembrança é cruel: atrai mais lembrança.  Desde que escrevi sobre Johannesburgo na coluna da semana passada, não parei de pensar na África. Tive a sorte de conhecer várias cidades africanas, que me proporcionaram experiências incríveis, fontes de algumas das melhores e piores recordações que carregarei pelo resto da vida. Estive em Praia, Dacar, Lagos, Maputo, Bissau, Luanda, isso para falar só de capitais. Visitei também Kinshasa, quando era capital da vida noturna do continente, além de sede da ditadura terrível de Mobutu Sese Seko. Em jantar na casa de um diplomata, eu comentava meu fascínio diante do ambiente, contrastante com o clima político desastroso, de festa constante do Matonge, bairro musical da cidade, insinuando que não deveria haver lugar mais animado no mundo. O mordomo – sim, há mordomos no mundo diplomático, e eles podem se intrometer em conversas dos patrões… – ao ouvir meus elogios, desdenhou: “você fala isso pois não conhece Cartum.” Tive que me recolher a minha ignorância. Desde aquele  momento, Cartum ocupa lugar mítico no meu imaginário. Um dia ainda verei a folia dos bailes sufis nos seus desertos periféricos.

Na falta de Cartum, continuo a venerar aquele lado rumba de Kinshasa, que talvez não exista mais. Assim como aquele país não se chama mais Zaire. Tempos distantes. Na época, na minha mochila de viagem, não podia faltar um walkman. Será que os garotos de hoje em dia sabem o que é um walkman? Como fita cassete é a moda um tanto boba e retrô  do momento talvez seja novamente chique ter esses aparelhos. Os meus sempre tinham rádio, e eu gravava a programação FM e AM dos lugares que visitava. Tenho ainda o registro de um programa político de Brazzaville, a capital da República do Congo, separada de Kinshasa pelas águas do Congo. O regime político na outra margem do rio era comunista, ou uma vertente africana do comunismo. O programa era doutrinário, feito para dar às massas um gosto de Revolução e patriotismo. A música de fundo dava tons afro para o discurso verbal. Tinha algo de moderno também, como se buscasse indicar um futuro glorioso e negro para o mundo. Mas algo parecia estranho, não sabia bem o quê. De repente, a iluminação punk: identifiquei a música. Era uma das faixas do Duck Rock, o disco sensacional – um dos melhores de todos os tempos, segundo minha humilde opinião – de Malcolm McLaren, que apresentou o pop africano e o hip hop para muita gente, na contramão de um momento em que o bacana era ser gótico e triste.

Contei essa história para o próprio Malcolm McLaren, anos depois. É óbvio, ele vibrou ao ouvi-la pois sempre se pensou como um ladrão, e adorava ser roubado também. Malcolm roubou ritmos zulus, e ainda fez um coral zulu louvá-lo cantando “i’m a sex pistol man”: nada melhor do que ter sua música roubada por um regime comunista africano. Isso é que é metaroubo.

Meu encontro com Malcolm McLaren não foi menos absurdo. Tudo começou com um telefonema da Regina Casé, dizendo que tinha sido convidada para um jantar em homenagem ao sex pistol man na casa do adido cultural francês no Rio (o que seria do nosso mundo sem diplomatas e mordomos?), pois estava lançando seu disco “Paris”. Regina sabia que Malcolm era um dos meus grandes heróis e me deu de presente a oportunidade de tietá-lo.

Provavelmente por sermos seus maiores fãs no jantar, quando fomos nos despedir, pois eu queria ir ao lançamento de um livro de Hermínio Bello de Carvalho, ele disse que iria sair conosco. Há prova: uma foto na livraria Timbre, no Shopping da Gávea: eu, Hermínio, Regina, Malcolm e Paulinho da Viola! Isso é uma das coisas que mais gosto de fazer na vida: juntar gente diferente. Mas colocar lado a lado o príncipe da pureza do samba e o ladrão detonador da impureza punk, isso vai ser difícil de superar.

Malcolm morreu este ano. No texto em sua homenagem, publicado na revista Art Forum, Greil Marcus escreve o que considero ser o mais sério elogio que se pode emitir sobre qualquer pessoa: “ele fez coisas que transformaram o mundo num lugar mais interessante.” Mesmo quem nunca ouviu falar seu nome, vive de alguma maneira sob sua influência. Sem o punk, golpe de mestre de Malcolm, não haveria quase tudo de mais emblemático da arte contemporânea, de Blade Runner a Damien Hirst, passando pela última coleção da Givenchy e por qualquer rave. Não forma, nem conteúdo, mas sensibilidade. Estamos imersos na sensibilidade punk até bem mais que o pescoço ou o cabelo moicano arrepiado.

Uma das mais interessantes obras deixadas por Malcolm foi seu programa de governo, lançado em 1999, quando ameaçou se candidatar à prefeitura de Londres. Eram 16 propostas, todas aparentemente dementes, mas que ainda hoje nos desafiam plenas de bons sentidos. Gosto particularmente da idéia do carnaval na Oxford Street, da arquitetura feita por sem-tetos, de artesãos nas grande cadeias de lojas, de transporte por carros elétricos ou a cavalo, de democracia eletrônica e bares dentro das bibliotecas. Hoje, neste ambiente eleitoral chocho, mas não só no Brasil, a maioria quase absoluta dos políticos banca o bom moço, e não fala nada polêmico, tentando concordar sempre com todas as pesquisas de opinião, mesmo contraditórias. Há raríssimas propostas realmente surpreendentes, capazes de nos tirar do lugar comum certinho e produzir alguma mudança boa. Malcolm McLaren vai fazer muita falta.


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