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relevância

11/01/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 10/01/2014

Na semana passada, Ronaldo Lemos, colega de apresentação do programa Navegador, publicou no Facebook link para a sua coluna da Folha de S. Paulo. O texto começava assim: “O Google soltou sua já ‘tradicional’ lista de termos mais buscados durante o ano. Na lista das celebridades, o primeiro lugar ficou com o MC Daleste, que venceu Anitta e Nanda Costa. Daleste foi também o quinto termo mais pesquisado em toda a rede brasileira no ranking geral.” O primeiro comentário dos habitantes do país de Zuckerberg era suscinto. Apenas um “viixi”. O segundo dava voz a ceticismo que circulou pela Internet duvidando dos resultados do Google: “Como confiar num ranking que não tem Snowden ou NSA e tem BBom?” Também fiquei intrigado.

Cristina De Luca, a quem sigo fielmente desde que fazia dupla dinâmica feminina pioneira com Cora Rónai no caderno “Info etc.” deste jornal, resumiu dúvidas gerais em seu blog: “Estariam os gigantes da rede agindo como o Ministério da Verdade, criado por George Orwell no livro ‘1984’? Lembram? Era o setor responsável por alterar informações já publicadas em jornais antigos e divulgá-las novamente de acordo com a conveniência do sistema.” Ela sugere respostas, fugindo da paranoia: “Ô De Luca, isso é pura teoria da conspiração, dirão muitos. A unanimidade é burra e a Internet está repleta de faits divers, celebridades, etc. A mídia não influencia em nada as redes sociais e já perdeu relevância para os buscadores, dirão outros. Pode ser… Não tenho as respostas para as minhas inquietações e acho que jamais as terei.”

Minha própria experiência nesta coluna pode sugerir pistas singelas para nosso aprofundamento nesse mistério sem solução. Meu texto sobre Snowden da semana passada teve apenas 1 “curtida” no Facebook. Meu texto sobre Daleste teve 3.900. Mesmo entre os leitores de jornal parece que há nítida diferença de interesses. Porém, Cristina De Luca toca em ponto para mim o mais sensível: a perda de influência da “mídia tradicional” diante das “novas mídias”. Parecem mundos sem contato entre si. Falo isso desde o texto de divulgação do Central da Periferia, que agora está sendo reprisado no Viva e merece ser visto como documento de época, que a academia não registrou devidamente. Aquela produção musical, que deu no funk paulistano do Daleste, não precisou de jornal/rádio/gravadora/TV/etc. para se tornar popularíssima. O fosso entre os dois mundos torna-se cada vez mais intransponível?

Alex Bellos, um dos poucos colegas (gosto desse termo usado pelo pessoal do funk para se referir aos seus melhores amigos) jornalistas que anotam minhas sugestões de pauta (e que lançará em breve nova edição de seu livro sobre o futebol brasileiro), foi quem me deu a dica: leia Charlie Brooker. Nunca tinha ouvido falar nesse nome, mas assinei imediatamente o RSS de sua coluna no The Guardian. Descobri que é celebridade multimídia britânica. E tem um dos textos mais devastadores do planeta. Faço toda essa introdução apenas para citar trecho de sua coluna de final de ano: “apesar de todos os esforços deste jornal para fazer as pessoas se importarem com as revelações de Edward Snowden sobre a bisbilhotice da NSA, a resposta típica foi algo como um inexpressivo ‘bá, típico’.”

(Tenho que abrir este longo parêntese para ousar traduzir outro trecho desta coluna de Brooker, descrevendo dança de Miley Cirus que atraiu bem mais atenção que Snowden: “Ela também estirou muito a língua – e a estirou violentamente, como uma girafa atacando um galho especialmente verdejante. Na verdade não – mais violento do que isso. Ela a estirava como se seu rosto estivesse tentando atirá-la contra um muro no lado oposto da cidade.”)

Meu esforço, em várias edições desta coluna, aproveitando o caso Snowden para debater questões importantes do nosso futuro cibernético, parece que também foi em vão. Se o The Guardian não conseguiu, por que eu teria mais sucesso? Mas para ser justo: além da curtida anônima no Facebook, um leitor, Francisco Pereira, mandou a seguinte mensagem para o email da redação do Segundo Caderno: “Muito interessante, mas creio que Hermano cometeu um engano. Fui consultar o artigo na New York Review of Books; o número 850.000 se refere aos leitores do Guardian e não aos funcionários da NSA, que segundo Der Spiegel são 40.000.” Infelizmente não, Francisco: o jornal tem cerca de 180 mil assinantes ou 8,4 milhões de visitas mensais no seu site. Alan Rusbridger repetiu o número (850.000) em várias ocasiões, inclusive em depoimento no parlamento britânico (VER LINKS EM NOTA DESTE POST). Se não forem funcionários ou gente com alguma ligação formal com a NSA, quem seriam? Mas acho que ninguém se importa com isso.

vazio

16/02/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 15/02/2013

Enquanto eu escrevia sobre a abundância (ver a coluna da semana passada), uma série de artigos decretou “o vazio da cultura” no Brasil. Fiquei me sentindo alienígena. Vivo em planeta diferente daquele habitado por quem não enxerga nada potente em nosso país. Meu problema é oposto: não dou conta da quantidade de coisas interessantes que considero merecedoras de divulgação/debate neste meu pequeno espaço no jornal. Estou sempre em dívida com uma lista enorme de pautas que não perdem a atualidade. São trabalhos culturais brilhantes, que podem despertar vocações artísticas em muito mais gente se forem conhecidos melhor.

Sei que este meu otimismo desvaloriza meu passe. É mais chique falar mal de tudo. A maledicência nos garante aplausos calorosos em palestras. Atrai igualmente muitos seguidores no Twitter. Viramos heróis por causa de nossas opiniões do contra. Natural que assim seja: Lucien Jephargnon, historiador que já foi tema de uma coluna inteira por aqui, publicou um livro delicioso chamado “Era melhor antes”. Essa modinha pessimista já dura 30 séculos: ninguém pode pretender ser original dizendo que hoje tudo vai mal.

No século primeiro, Petrônio, autor de “Satyricon”, escreveu sem humor nenhum: “Fica pior a cada dia… Ninguém mais acredita que o céu é céu”. Plínio o Jovem não gostava dos jovens de seu tempo: “eles não respeitam ninguém, não imitam ninguém; são os modelos deles mesmos”. O poeta Juvenal afirmava que o problema vinha de longe: mesmo no tempo de Homero a raça humana já era decadente e “a terra só alimenta hoje homens perversos e atrofiados.” Temos sorte de estarmos vivos vinte e um séculos depois…

Vivos mas vazios? Penso que o vazio tem sido menosprezado nessas lamentações. Os budistas propõem conceito precioso para sairmos bem desse niilismo paralisante: Shunyata – quer dizer vazio, mas também interdependência e abertura. Como fala o monge coreano Misan (que descobri por causa de “Gangnam style”): “o mundo vazio que inclui tudo”. Tudo conectado. Talvez aí resida a chave para compreender a distância entre o modo como percebo o que há de importante na dinâmica cultural contemporânea e aquele que denuncia nossa perdição. Contra o “era melhor antes”, digo que não é melhor agora: é diferente; as coisas estão mais abertas e interdependentes. No lugar do regime da escassez que produz gênios, temos um regime de criatividade distribuída em rede, e o processo criativo é mais aberto, à procura de obras abertas, permanentemente inacabadas.

Por isso não é útil tentar convencer os apóstolos do vazio “não budista” de que não estamos tão decadentes assim, apresentando exemplos de vigor nas artes de agora. Não vou convencê-los: Tom Jobim ou Guimarães Rosa vão ser sempre “melhores” do que meus interesses atuais, até porque são produtos de um mundo onde fazia sentido ser “melhor” assim, quando todos os olhares/julgamentos podiam apontar para a mesma direção. No mundo pós-internet, tudo está junto e misturado: a retromania (todo o passado cultural a um clique), a xenomania (toda a diversidade cultural a um clique), a facilidade de produção (todo smartphone vai se tornar rapidinho estúdio cinematográfico, além de distribuidora).

Não estou dizendo que obras geniais não existam. Por exemplo (correndo o risco de fazer o que eu disse que é inútil): tenho certeza que “Daytripper”, de Fábio Moon e Gabriel Bá é um dos grandes momentos da criação nacional, em qualquer gênero – e demonstra claramente a maturidade das histórias em quadrinhos brasileiras, com muito mais gente desenvolvendo trabalhos originais e reconhecidos mundialmente. Porém, seu público é bem específico, e mesmo que estabeleça seu cânone particular, dificilmente vai adquirir status de conhecimento/reconhecimento geral. Não por falta de qualidade, é claro.

Pensei nisso ao abrir link que Ronaldo Lemos (ele deveria ser coautor desta coluna) me mandou para a lista de 100 melhores discos brasileiros de 2012, seleção do Rockinpress (que se diz “a página bege da música brasileira”): nunca nem tinha ouvido falar de metade dos artistas listados. Digo isso envergonhado, plenamente consciente da seriedade do trabalho de quem fez a escolha dos “melhores”, todos nas minhas bookmarks para tentar escutar suas músicas depois, um depois que talvez nunca chegue.

É a mesma sensação que tenho ao abrir a página do Carlito Azevedo no caderno Prosa deste jornal. Fico alegre só de saber que há tanta gente nova escrevendo poesia com tanta qualidade (e intuo o debate crítico que torna possível essa produção). Anoto nomes para ler mais, quando der. Não fico angustiado com tanta oferta. É assim mesmo. Êta vazio gostoso!

perigo

19/01/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 18/01/2013

Sexta-feira passada foi dia sombrio na internet. Sendo preciso: o problema começou na noite de quinta-feira, quando o departamento de “Homeland Security” do governo dos EUA recomendou a desabilitação do Java de nossos browsers. O período de notícias ruins se estendeu até a manhã de sábado, quando soube do suicídio de Aaron Swartz. Apesar da pouca idade (26), ele teve (e continuará tendo) importância decisiva para o modo como está organizado o melhor de nossa vida on-line. Nesta semana, minha tarefa foi refletir sobre a fragilidade extrema de tudo que contamos como garantido.

Sou muito influenciável. Levo a sério decretos de autoridades. Nunca tinha visto governo com posição tão explícita contra um programa de computador. Sou usuário (é o mesmo termo para drogados) que não teme mudar as “configurações avançadas” (escondidas) dos softwares. Até conserto sozinho o hardware. Meio em pânico, não entendi direito qual era o risco e, além do Java, desabilitei também o JavaScript (como leigos vão saber que não são a mesma coisa?) Nossos afazeres domésticos andam cada vez mais insuportavelmente complexos. [Aqui instruções para quem quer desabilitar ou desinstalar o Java de seu computador e de seu browser.]

Ali começaram outros problemas (e até a finalização deste texto, não há solução confiável para o bug do Java ). O Yahoo, por exemplo, parou de funcionar. Tive que fazer downgrade para versão antiga, reaprendendo comandos esquecidos. Alguns recursos já banais desapareceram. Como mandar email sem autocompletar os endereços? Pensei ter voltado para a ciberidade da pedra (e olha que uso email desde quando não havia web – para enviar mensagens era necessário decorar vários comandos Unix).

Sites como o Twitter simplesmente se tornaram inoperantes. Ao tentar acessá-lo recebia apenas o aviso: “O Twitter faz uso pesado do JavaScript. Se não pode habilitá-lo no seu browser, você deve ter uma experiência melhor no nosso site para celular.” Como viver sem trending topics no laptop? Como controlar a síndrome de abstinência? Autodiagnóstico: nunca pensei que era dependente de tanto serviço baseado nesse tal de JavaScript.

Pelo menos o vacilo foi meu: eu que desabilitei o Java – posso reabilitá-lo se não aguentar o cold turkey (como fiz com o JavaScript, que – depois descobri – também tem seus problemas). Li que os usuários de Mac receberam tratamento diferenciado. A Apple desabilitou remotamente o Java de quem possui seu sistema operacional mais recente. Desta vez foi para “nosso bem”, para facilitar nossas vidas, para poupar-nos de erros, para nossa proteção (lembrei da música da Plebe Rude). Mas é perigo óbvio: e se nossos fabricantes de computador puderem decidir tudo a que devemos ter acesso “sem risco”? Paranoia tipo Philip K. Dick?

Aaron Swartz dedicou sua vida para combater essa paranoia, inventando ferramentas que aceleram a livre circulação da informação pela rede e aumentam o poder dos usuários contra grandes empresas/governos. Com 14 anos, foi um dos principais criadores [depois de publicar a coluna descobri que ele foi co-autor da especificação do RSS 1.0, seja lá o que isso for] do RSS (do qual sou dependente – não visito mais nenhum site, os feeds de RSS trazem notícias e posts que me interessam; foi assim que soube do seu suicídio, mesmo com meu apagão do JavaScript, que fez meu leitor de RSS, o Google Reader, parar de funcionar). Essa foi apenas sua primeira criação importante (leia resumo de sua vida na coluna de Pedro Doria publicada terça-feira neste jornal, que deu foto de Aaron na primeira página).

Em fevereiro, aconteceria o julgamento que poderia condenar Aaron a três décadas de prisão. A acusação (nada ainda foi provado) era de ter roubado alguns milhões de artigos acadêmicos cujo acesso é comercializado a peso de ouro por uma organização chamada JSTOR. A intenção (também não provada) seria distribuir esse conteúdo livremente na internet (mas tudo não saiu de seu laptop). A perspectiva de ser preso (muita gente diz que o objetivo era usá-lo como bode expiatório contra hackers e “pirataria” – os procuradores responsáveis por seu caso precisam ser investigados – mas o sistema legal caduco é o que mais necessita de revisão urgente) e anos de convívio com depressão devem ter sido os motivos do suicídio.

Perdi a oportunidade de conhecer Aaron pessoalmente, quando esteve no Rio há quatro anos, e ficou hospedado na casa do Ronaldo Lemos. Como era muito jovem, pensei que seria fácil encontrá-lo em outras ocasiões. Lição: não deixe para hoje o que poderia ter feito ontem. Ronaldo, em coluna da Trip, publicou entrevista feita durante a visita brasileira. Vale a pena reler o trecho sobre escola. Ronaldo também me passou o link para post onde Aaron comentava os 100 livros que leu em 2008. Fiquei dependente dessa lista publicada todos os anos. A de 2012 não saiu. Vamos ter que conviver com essa nova abstinência. Terrível perda para quem acredita no potencial criativo da internet.

Julian Dibbell

23/04/2011

texto publicado em minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 15/04/2011

Julian Dibbell, segundo Caetano Veloso, é jornalista “que sabe muito sobre música popular brasileira – e tem uma visão muitas vezes original e sempre inteligente sobre o tema”. O elogio, em “Verdade tropical”, se referia especificamente ao artigo de 1988 e do Village Voice, onde Julian caracterizava “João Gilberto como o Elvis do Brasil”. A afirmação, feita “quase em tom de brincadeira”, se revelava como “imediatamente rica de estímulos para uma mente brasileira.” Minha amizade de quase três décadas com Julian sempre teve este efeito sobre minha mente: incentivo poderoso para enxergar o Brasil e o mundo de forma renovada. Minhas descobertas são sempre mais alegres quando compartilhadas com (ou estimuladas pelo) Julian. Para mim, nada de melhor se pode viver com um amigo.

Aquele Julian que comparou João Gilberto e Elvis parece personagem de outra encarnação, na qual poderia ter sido importante brasilianista ou crítico musical. Eu o conheci quando era um daqueles estudantes estrangeiros que a PUC recebe no Rio. Impressionava seu português (costumo dizer, sem brincadeira, que meu português é pior que o dele), aprendido por acaso com professor mórmon que deu aula de graça na sua “high school”. Causava também espanto seu conhecimento sobre a música brasileira dos anos 60, muito antes do tropicalismo virar moda mundial com o empurrão de David Byrne (que, levado por Arto Lindsay, apareceu uma vez na minha casa, quando Julian era meu hóspede. Byrne, pouco depois de ser capa da Time, estava lançando True Stories no Rio. Arto me apresentou Byrne e Caetano. Julian e Beth Nolasco me apresentaram Arto – eu era fã de sua banda DNA mas não sabia de suas conexões brasileiras, descobertas quando Julian o entrevistou para seu – e de Joe Levy, que depois foi editor da Rolling Stone – fanzine Nadine, publicado em Yale. Como já repetiu Caetano: este mundo é um pandeiro.)

Descobrimos, eu e Julian, o cyberpunk ao mesmo tempo. Ele leu meu exemplar de “Neuromancer”. Julian voltou para os EUA no final dos anos 80 e, por cartas, começou a me falar sobre as maravilhas da internet. Encontrei o Alternex, do Ibase, que era a única porta de acesso – fora de governo e poucas universidades – à internet no Brasil. Deixamos o papel de lado para trocar mensagens por email, que naquela época exigia a memorização de dezenas de comandos Unix. Também nos encontrávamos virtualmente no LambdaMoo, um bisavô do Second Life que funcionava só com texto, pois a web ainda não fora inventada. Apesar do novo tipo de proximidade, senti que os computadores podiam nos afastar. Julian trocou de avatar: parou de escrever sobre música e o Brasil, e virou pensador/desbravador da vida on-line.

Em 1993, ainda no Village Voice, apareceu “Rape in cyberspace”, artigo hoje clássico para os estudos sobre a internet, falando sobre a confusão virtual/real dentro do LambdaMoo. Esse texto se tornou o primeiro capítulo do seu livro “My tiny life” e mote para muita coisa que publicou nos anos pioneiros da revista Wired. Julian foi mergulhando cada vez mais no mundo ciberespacial, e chegou a se tornar – na vida real – comerciante de itens de games on-line, com os quais ganhou quase tanto dinheiro quanto como jornalista, experiência narrada no livro “Play money”, cuja sequência foi reportagem na China – para o New York Times – sobre as “gold farms”, lugares onde garotos trabalham em regime de semi-escravidão produzindo dinheiro de jogos virtuais, depois convertidos em dinheiro real.

O feitiço brasileiro não iria deixar Julian escondido em algum lugar obscuro da rede, fora do nosso alcance. Há até uma lenda de que ele teria sido um dos maiores responsáveis pela disseminação do Orkut no Brasil. Não foi bem assim: entrei no Orkut a convite do pessoal da Insite paulistana (que tinha algum contato interno no Google – acho que foi ali que a onda brasileira do Orkut começou). Não sei se mandei convite para o Julian ou se o encontrei depois por lá. Sua contribuição para o ciberespaço brasileiro foi menos apoteótica, mas talvez mais decisiva. Gil iria fazer sua primeira viagem como ministro para a Midem, feira da indústria fonográfica. Descobri que John Perry Barlow, autor da “Declaração de independência do ciberespaço”, faria palestra no evento. Pedi ajuda a Julian, que colocou Gil em contato com Barlow.

Na época, Julian dava aula com Lawrence Lessig, do Creative Commons, em Stanford. Pouco tempo depois os dois mais Barlow e Gil participaram de um seminário sobre direito e internet organizado no Rio por Ronaldo Lemos e a FGV. Meses adiante, eu estava com Julian em São Paulo, entrevistando José Serra sobre patentes e genéricos e em seguida, ciceroneados por Sérgio Amadeu e João Cassino, visitando telecentros, para uma matéria da Wired que foi lançada com show pró-Creative Commons, de Gil e Byrne, em Nova York.

Lembrei de tudo isso ao ver a palestra (vimeo.com/21964000) que Julian deu em Copenhagen na semana passada, sobre games e morte. Reflexão mais uma vez original e estimulante, complexificando a relação entre computadores (a metafísica/máquina de Alan Turing) e violência. Devemos aproveitar suas últimas incursões nessa área. Ainda este ano, Julian vai abandonar o tecnojornalismo por uma pós-graduação em Direito. Nova mutação em sua carreira. Tomara que o Brasil o encontre novamente, logo mais, à frente.

extremismo cognitivo

03/01/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 03-09-2010

Cass R. Sunstein é professor de direito em Harvard. Atualmente está de licença pois virou o principal membro da administração de seu amigo presidente Obama para cuidar da elaboração de novos marcos regulatórios que lidam com problemas tão diferentes quanto a taxação de carbono ou a crise habitacional. Não se espante com essas credenciais cascudas: quando encontrar um de seus livros, leia. Sunstein escreve bem, expondo assuntos complexos e polêmicos de forma clara, leve, original. No Brasil, foram lançados recentemente, pela editora Campus, seus “A verdade sobre os boatos“, “Nudge – O empurrão para a escolha certa” (com Richard Taller, como co-autor) e “A era do radicalismo – Entenda por que as pessoas se tornam extremistas“. Nos Estados Unidos, ele publicou também outras obras cujos títulos já mostram sua inclinação pop: “Infotopia“, “República.com 2.0” ou “Por que as sociedades precisam de discordância“.  São quase livros de auto-ajuda para bons governos e para a boa vida em sociedade a partir dos impasses/possibilidades do mundo pós-digital. Ou pelo menos para entender o que parcela influente do atual governo norte-americano pensa.

Já apelidaram o núcleo da filosofia política proposta por Sunstein de “paternalismo libertário” ou “libertarianismo paternalista”. O ponto de partida é a constatação de que as pessoas não são racionais o tempo todo. Fazemos escolhas péssimas, erradas, ou somos induzidos a escolher o que não precisamos, ou o que vai nos prejudicar (por preguiça, por medo de perder dinheiro etc.), com mais frequencia do que desejamos ou podemos admitir. Diante dessa constatação, Sunstein não propõe que as políticas governamentais façam as escolhas certas no lugar das pessoas, mas que deem um “empurrãozinho” para as melhores escolhas. Essas estratégias já são usadas por marqueteiros ou por departamentos de vendas.(Tipo cartão de crédito não solicitado que chega pelo correio como se tivéssemos ganhado um prêmio – temos preguiça de ligar para o cancelamento e acabamos pagando a anuidade…) Mas poderiam ser usadas para o bem comum, como em campanhas anti-dengue ou usos mais racionais de impostos. No livro “Nudge”, há vários exemplos práticos de como isso pode funcionar.

Com menos receitas, mas não com menos material bom para pensar, o livro (presente do meu amigo Ronaldo Lemos) “A era do radicalismo – Entenda por que as pessoas se tornam extremistas” é meu atual favorito. O título em inglês é um pouco diferente, mais abstrato, porém talvez mais preciso quanto a seu conteúdo: “Indo aos extremos – como mentes parecidas unem e dividem”.  De certa forma suas preocupações já tinham sido formuladas em trabalhos anteriores, e giram em torno dos riscos que a ciberbalcanização da internet trazem para a democracia. Na rede, uma das maravilhas é a facilidade de encontrarmos pessoas que pensam como nós, que têm os mesmos nossos interesses, por mais específicos e pouco usuais que sejam esses interesses. Toda maravilha apresenta seus perigos: nesse caso o principal é passarmos a viver em microguetos, sem contato com gente que pense diferente ou que discorde de nossos pontos de vista.

O que Sunstein mostra, a partir de muitos exemplos baseados em pesquisas comportamentais e recentes acontecimentos (como a crise dos bancos e fundos de investimento em 2008), é que quando estamos entre iguais a tendência é que radicalizemos cada vez mais nossas opiniões comuns, perdendo contato de diálogo com quem pensa diferente. O próximo passo é ignorar o diferente, ou tentar exterminá-lo. Todo mundo deve ter percebido algo assim no ar dos tempos atuais. Mesmo nas áreas mais banais. Num site frequentado por indies, os comentários ficam cada vez mais indies-roxos-extremistas, e opiniões divergentes (alguém que admite ter gostado do último clipe da Rihanna…) são esculachadas, quando não censuradas, sem piedade nenhuma, e muitas vezes acompanhadas por linchamentos públicos. Isso aconte em blogs de esquerda, de direita, gays, católicos, ambientalistas, fashionistas, e assim por diante, com divisões cada vez mais esotéricas (como descreve Sunstein: “vivem na câmera de eco de seu próprio design”).

Não há solução fácil para essa situação. Sunstein admite: quando falamos com gente parecida, nos sentimos energizados, é mais fácil partir para a ação, conquistar direitos, combater preconceitos. Se ficamos muito tempo avaliando opiniões contrárias, é provável que acabemos por “relativizar” nossas próprias certezas, ficamos mais tolerantes e respeitosos, mas também podemos nos tornar mais apáticos, indiferentes, passivos. Lembro de “Um sábio não tem idéia“, livro do filósofo francês François Jullien, especialista em China. O sábio chinês se mantém aberto a todas as verdades. Nunca toma partido de nenhuma delas. Resultado: nunca dará um bom governante, pois quem governa não pode incentivar todas as posições e cotidianamente tem que fechar com uma delas.

É portanto uma questão de bom balanço. E de criações de novas ágoras (ou fortalecimento democrático de antigas ágoras, com a televisão ou o jornal) onde grupos diferentes possam se comunicar ou se encontrar, com novos canais de intercomunicação e mediação entre suas fronteiras. Sunstein dá conselhos para os governos: trocar as arquiteturas de controle por arquiteturas da “serendipidade“, que facilitem encontros por acaso. Das surpresas desses encontros não planejados é mais fácil surgir boas novidades que promovam a “diversidade cognitiva”.


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