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aliens e locais

05/05/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 04/05/2012

Chia. Entre em qualquer loja de produtos naturais e você vai comprovar: é a semente da moda, ocupando lugar de destaque nas prateleiras, com muitas embalagens diferentes, geralmente mínimas e caras. Os rótulos dizem que faz um bem horrível. Já testei: parece comida alienígena, digna de ser servida pela Whoopi Goldberg no bar de “Jornada nas estrelas – a nova geração”. Em contato com qualquer líquido, sua casca durinha sofre mutação instantânea ganhando consistência gelatinosa, quase psicodélica. Li em algum local da internet que duas colheres de sopa de chia eram combustível suficiente para sanguinários guerreiros astecas marcharem por 24 horas. Essa informação me deixou um tanto paranóico: chia, quinoa, amaranto… – por que essa onda pré-colombiana, logo agora? Tem a ver com o fim do mundo segundo o calendário maia?

Já deveríamos estar acostumados a essa globalização radical dos paladares. Mas quando chego numa feira, e encontro blueberries e dragon fruits à venda, não consigo deixar de pensar nas minhas férias dos anos 70, quando encontrava primos paraibanos que nunca tinham tocado em uvas ou morangos. Hoje facilidades de transportes e logística comercial transformaram nossas cozinhas em laboratórios de mash-ups culinários juntando ingredientes de origens geográficas disparatadas.

Sou também do tempo em que não havia lojas de koni em cada esquina. No início da década de 80, restaurante japonês na Zona Sul carioca era só um, que não existe mais: o Goemon, na rua Francisco Sá. Fui levado até lá, quando comi sushi pela primeira vez, por um amigo de Tóquio, que estava visitando o Rio. Acabei apresentando o peixe cru para muita gente, inclusive paulistanos que nunca tinham pisado na Liberdade, bairro ainda praticamente inexplorado por quem não tinha família nipo-brasileira.

Não estávamos “atrasados”. O antropólogo Theodor C. Bestor, de Harvard, escreveu um artigo muito esclarecedor sobre a emergência do sushi como comida global, partindo do comércio de atum “bluefin” na Costa Noroeste dos EUA. Até os anos 70, naquele litoral, essa espécie era vítima apenas da pesca esportiva, e geralmente virava ração de gato. No Japão, pelo contrário, era comida nobre. Vários fatores explicam a difusão desse gosto para o resto do planeta. Com a imposição da regra das 200 milhas em muitos países, os pesqueiros japoneses foram expulsos de vários mares e a captura do bluefin se internacionalizou. Ao mesmo tempo houve a emergência econômica nipônica, a moda de comida saudável, a transformação de tudo que tem ar zen em base para estilo de vida sofisticado. Resultado: sushi virou cool, pelo menos até os anos 90, quando, com a crise japonesa, muito peixe que antes voava para Tóquio passou a ser vendido mais barato em mercados locais, e os hashis entraram em processo de orkutização. O que é muito bom: finalmente podemos comer sashimi na Rocinha.

Essa história da popularização do peixe cru dá um ar conspiratório para hábitos gastronômicos. Fica parecendo que nossos paladares são controlados por forças macroeconômicas obscuras, onde as flutuações da Bolsa de Tóquio determinam o emprego do sushiman cearense. Nem tudo é tão amarrado assim. As economias mexicana e peruana não estão bombando a ponto de produzir artificialmente demanda global por chia ou quinoa. Essa tendência pré-colombiana atual deve seguir caminhos mais prosaicos, como aquele que o kiwi percorreu até virar ingrediente comum nas saladas de frutas do Bibi Sucos. Foi uma escriturária de Los Angeles que resolveu importar a fruta asiática para os EUA e batizou-a com o nome kiwi como estratégia de marketing. A história do tomate também é curiosa: no início do século XIX, propagandeado por seus benefícios medicinais, era tão exótico quanto a chia. Demorou, mas acabou se orkutizando como ketchup.

Atualmente, tudo ficou mais acelerado e misturado. Os netos de Vasco da Gama esperavam meses pelas caravelas que traziam canela das Índias. Ninguém poderia sonhar com a complexa rede informatizada de abastecimento dos nossos supermercados contemporâneos. Assim como toda a produção cultural planetária pode ser baixada com poucas carícias na touch-screen, todos os sabores chegam em nossas casas via delivery. Simon Reynolds, além de popularizar o termo retromania para denominar a disponibilidade de toda história da música via internet (e o eterno “regaste” de estilos passados), também anda analisando a xenomania (o contrário da xenofobia) que mistura ritmos de várias procedências geográficas numa mesma pista de dança. Somos todos nômades etnoculturais, remixando informações, coisas, sensações, emoções, não importa onde foram criadas, cultivadas, produzidas.

Claro que o excesso e a abundância geram também efeitos contrários, entre eles a busca do local, do simples antiglobal. Não é a toa que, na lista 2012 das 100 pessoas mais influentes do mundo publicada pela revista Time, Ferran Adrià saúda o chef dinamarquês René Redzepi como “aquele que estabelece o caminho para frente”. Sabemos que Redzepi valoriza o ingrediente que pode ser plantado, pescado, criado nos arredores de seu restaurante. Provavelmente não encontraremos chia em suas mesas. O que pode ser uma decisão sustentável (o comércio global queima muito petróleo). Então teremos que voar para a Dinamarca para provar suas invenções? Gasto de petróleo também. Comer chique e saudável virou dilema ecológico.

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1967-2011

31/12/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 23/12/2011

Provavelmente, o acontecimento musical mais importante de 2011, entre “formadores de opinião”, foi o lançamento não de disco, mas sim de livro: o “Retromania”, de Simon Reynolds. Ninguém precisa ler suas 496 páginas para conhecer o conteúdo. As ideias de “Retromania” foram tão debatidas e enriquecidas na internet que o texto original parece ultrapassado. Isso vai acontecer cada vez mais com todos os produtos culturais, que se tornarão obras em progresso, sempre em modo “beta”, sem edição definitiva, ou com versão final logo transformada em matéria prima para remixagens eternas – o que vem confirmar parte da tese de “Retromania”, que vivemos um tempo em que o novo é resultado de um “revival” ininterrupto de modas passadas.

O próprio Simon Reynolds já aproveitou a onda retrô. É de sua autoria a obra (“Rip it up and start again”) que se tornou referência básica para o conhecimento sobre a era pós-punk, na qual uma parcela influente de nossa juventude vai viver para sempre, como se a cultura da humanidade inteira se resumisse a um show do Gang of Four em 1981. Vamos ter que nos acostumar com essas tribos que habitam tempos históricos culturais diferentes, tudo ao mesmo tempo agora. Mesmo cultuando o passado, elas vão ser anunciadas como o futuro – ou pelo menos como a última moda de quem está mais conectado com presente, sendo protagonista da definição do espírito do seu tempo (não importa que sua sonoridade tenha sido criada pela geração de seus pais ou avós). Então resta a dúvida: ninguém vai mais criar nada realmente novo? Em música: nunca mais vamos ouvir o que ninguém nunca ouviu antes?

Diante dessa garotada hipster-passadista, fico alegre/espantado ao constatar que os discos mais inovadores de 2011 foram produzidos por artistas de mais de 60 anos. Mais interessante ainda: meus dois lançamentos preferidos do ano têm a ver com 1967.

O primeiro foi gravado em 1967, mas não tinha sido lançado até o mês passado. É “Smile”, o disco inacabado dos Beach Boys. Imaginava que nunca iria ouvi-lo de cabo a rabo, e teria me contentar com os fragmentos que apareceram como faixas bônus de caixas de CD ou com a regravação que Brian Wilson lançou em 2004. Tudo já era uma maravilha, mas não me preparou para a mixagem/masterização que 2011 nos deu de presente. Muita música pop-experimental recente, de Jim O’Rourke a Panda Bear, tentou levar para frente as lições dos Beach Boys, mas agora comprovamos que nada foi tão radical como o “original”. Smile poderá ainda por muito anos nos servir de guia para o futuro da arte. Impossível não ficar desconcertado ao perceber que aquilo foi gravado sem mesas de muitos canais, sem computadores, sem samplers, sem softwares como Pro Tools, com músicos tocando e cantando juntos (como conseguiam fazer isso? mesmo hoje com toda a tecnologia, seria quase impossível).

Outra razão para desconcerto: o experimentalismo de “Smile” está sempre a serviço da beleza totalmente angelical, beleza que dói de tão bela, mais que aquele trecho adorado da Quinta Sinfonia do Sibelius. Não dá para existir algo que supere “Surf’s Up”, mesmo com letra escalafobética de Van Dyke Parks. É para se ajoelhar e ficar chorando na frente das caixas de som ou sob o fone de ouvido do Dr. Dre.

O outro disco mais inovador de 2011 tem a ver com 1967 por tabela. É “Recanto”, de Gal Costa. Em 1967, ela e Caetano Veloso lançaram “Domingo”. 44 anos depois os amigos baianos se reúnem novamente para nos presentear com um álbum que quase se chamou Segunda. Esperava algo assim da música popular do Brasil há anos. Imaginava que seria obra de músico de poucos anos de vida. Porém, os mais jovens pareciam vítimas de culto a um passado mais criativo, diante do qual só podemos tentar enfeitar nossa inferioridade com trinados de teclado Hammond e chiado de vinil. (Nesse ambiente o funk carioca emergiu como uma ilha futurista, com o uso mais desabusado da tecnologia em território nacional. Mas todos sabemos que funk não faz parte da tal “linha evolutiva” da MPB, e muitos críticos fizeram o possível para mantê-lo isolado na favela pré-UPP.) Foi preciso novamente a ação de heróis tropicalistas para nos salvar. (E depois reclamam da centralidade de Caetano em nossa cultura: não aparece ninguém mais jovem para fazer seu trabalho, então ele precisa continuar orientando nosso carnaval e inaugurando novos monumentos.)

Semelhança de “Recanto” com “Smile”: a radicalidade estética e a esquisitice sonora estão a serviço da canção, da bela canção. (E que safra de canções há em “Recanto”! – com as melodias que fazem falta nos discos da Bjork, ou do Alva Noto.) Reconfortado, preciso fazer coro para a letra de “Mansidão”: “está tudo onde deve estar”. Finalmente.

***

Minha coluna passada me obrigou a reler vários artigos de Michael Ventura. Redescobri o deslumbrante “Hear that long snake moan”, talvez o melhor texto já escrito sobre o rock, ou sobre a história da música popular dos EUA. Aqui tenho espaço para comentar apenas um detalhe: Ventura revela que o Brasil não é o único lugar do mundo onde se diz “aqui ninguém é branco”; há um ditado sulista norte-americano que é até mais específico: “there ain’t no white people in New Orleans” (não há brancos em Nova Orleans). Todos os branquelos iam pedir a benção de Marie Laveau, cabeleireira e sacerdotisa voodoo. Por isso o batuque se manteve vivo na cidade e hoje até neguinhos brasileiros podemos dançar “Miami Maculelê”.

Saint Etienne

14/05/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06-05-2011

Saint Étienne, além de ser o nome françês para Santo Estêvão, protomártir da Igreja Católica, é também cidade da França, e o time de futebol dessa cidade. Atravessando o Canal da Mancha, e perdendo o acento agudo na viagem, vira nome de banda – provavelmente a banda mais chique da história da música pop (e a mais londrina depois do The Kinks?). Para não haver dúvidas de que foi uma homenagem ao time, seu primeiro disco, “Foxbase alpha”, de 1991, tem início com a vinheta “This is radio Etienne”, com narração de locutor futebolístico da terra de Étienne de La Boétie, que logo dá lugar a uma versão celestial e dançante (a Wikipedia classifica a banda como “alternative dance”) de “Only love can break your heart, canção de Neil Young. Preciso deixar logo claro: Saint Etienne é minha banda pop preferida, talvez a mais completa tradução da perfeição pop. Continuando exagerado: sua música é uma das melhores coisas da vida, talvez só comparável a um doce de caju bem feito. Infalivelmente, quando coloco um de seus discos para tocar, fico alegre. Uma alegria leve, mas potente, que aumentou recentemente quando soube que a banda voltou a viajar, primeiro para um show em Cingapura, e agora para uma excursão escandinava. Isso aumenta minha esperança de um dia vê-la tocando no Rio.

Sean O’Hagan, músico dos grupos Microdisney e The High Llamas, escreveu no jornal The Guardian que os componentes do Saint Etienne são “românticos urbanos”. Eu diria mais: ninguém pode amar tanto a vida na cidade – ou, especificamente, a vida em Londres – quanto eles. Sua mais recente compilação de sucessos é intitulada “London conversations”. Toda sua obra pode ser pensada como um hino de amor para essa cidade, compartilhável em outras realidades urbanas diferentes, sobretudo vistas por gente que não sente nenhuma vontade de trocar a confusão metropolitana por uma casa no campo. Em seu último álbum de estúdios, o concentual “Tales of Turnpike House”, lançado em 2005 e narrando a vida de condôminos de um edifício londrino, há a faixa “Relocate” cuja a letra é a enésima briga de um casal: a mulher que quer ar puro, porcos e galinhas; seu marido não dá o braço a torcer: “eu amo a cidade, sei que não é bonitinha, mas pelo menos tem vida”. Duas visões se mundo incompatíveis. Não preciso nem dizer de que lado a banda Saint Etienne está.

Eu andei pelas ruas de Londres em julho de 2005, na época em que a cidade sofreu vários atentados. Olhava para seus típicos ônibus de dois andares, vermelhos, e não podia deixar de pensar: “lá vem uma bomba”. Foi nessa viagem que comprei o DVD Finisterre, que trazia um documentário sobre Londres cujas imagens eram projetadas nos shows que o Saint Etienne fez para o lançamento do disco de mesmo título. Não pode haver mais sincero elogio para uma cidade e sua capacidade de se transformar, superando várias crises sem se fechar em tola xenofobia. Londres é o que é por ser ponto de encontro especial, de forte identidade, mesmo mutante. Costumo dizer que uma cidade não fica completa, satisfeita consigo própria, se não produz um estilo musical para chamar de seu. Londres produziu o drum’n’bass e as variantes do two-step garage. Aquilo é primeiro de Londres. Mas seus bairros também souberam absorver invenções sonoras de todos os continentes, do barroco alemão ao rhythm’n’blues norte americano (até chegar ao reggae de Kingston e ao house de Chicago), dando-lhes seus sotaques (pois são vários) inconfundíveis. O Saint Etienne processa – em seu estúdio-instrumento-musical – Burt Bacharach, Ennio Morricone, nothern souldisco italiano, dub e outras belezas/estranhezas e o resultado se tivesse GPS daria as coordenadas geográficas do mapa londrino.

Vários de seus discos têm o costume de apresentar vinhetas entre as canções – por sua vez sempre frágeis, algo tronchas, vaporosas que quase se desmancham na primeira audição (vide “London belongs to me”) até revelar sua já citada perfeição – e textos de escritores nos encartes. Douglas Coupland, autor do mais-que-influente romance “Generation X”, produziu uma mistura de ficção e juramento de fã para acompanhar o disco “Good humor” (o lançamento mais pop da gravadora “grunge” Sub Pop?). Para ele, mesmo as palavras “Saint Etienne” transmitem o sentimento de “um mundo onde as mulheres usam pérolas e podem cantar afinadas”, ou “um mundo onde a nostalgia é fora de propósito pois todos nós vivemos num presente glorioso”. (É preciso acrescentar: Sarah Cracknell, cantora do Saint Etienne se veste como uma senhora chique e tem voz afinadamente anti-expressionista de elegância bem britânica.)

Gosto também do texto de Simon Reynolds publicado no encarte de “Sound of water”, que lança a idéia de que o “adorável” – ou simplesmente a busca do belo – pode ser a nova vanguarda, e que o experimental não precisa ser chato ou “difícil”. Em cada canção do Saint Etienne, os mais belos lugares comuns da tradição pop convivem com um rigor eletroacústico produtor de esquisitice braba, audível só para quem se interessar por esse “dark side” do som.

Apenas uma coisa me incomoda no Saint Etienne (algo que também chega a me irritar em Londres): uma ditadura exagerada do bom gosto. A imagem, o som, a referência: tudo opressivamente certo. Mas é assim: não existe nada apenas perfeito. Nem na perfeição pop.


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