Posts Tagged ‘Vivienne Westwood’

The Wire

09/01/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 15-10-2010

Há poucas semanas, Arthur Dapieve, companheiro colunista das sextas-feiras aqui no Segundo Caderno, revelou seu espanto ao constatar que os artistas que enfeitam as últimas capas de sua revista de música pop favorita, a Mojo, têm em média 60 anos. Fui logo conferir as capas da minha revista de música favoritiva, a The Wire. A comparação aparentemente não faz muito sentido. Afinal, a The Wire  (não confundir com a Wired) não trata só de música pop. Em suas páginas lemos também sobre jazz, música clássica, world music, dub, metal e vários outros gêneros, sobretudo em suas fronteiras mais extremas. Mas por não ser novidadeira, como a Mojo, talvez a experiência comparativa possa dar o que pensar.

Este ano, a The Wire publicou capas com os seguintes artistas: Chris Watson, The Bug, Felix Kubin, Excepter, Konono No. 1, Alasdair Roberts, Wadada Leo Smith. Não sinta vergonha se não ouviu falar em nenhum deles. Isso é bem The Wire, uma revista de nicho, para quem tem gosto fora da norma. Mas procure por esses nomes no Google. Além de escutar música boa e supreendente, você descobrirá que a banda noise-improv Excepter foi fundada em 2002 e que Wadada Leo Smith vive na vanguarda do jazz desde os anos 60. Muitos grupos étnicos, gerações, orientações sexuais e filosofias artísticas convivem na revista. Para a música avançada, depois de tanto tempo de modernismo, idade não é mesmo documento. Terry Riley foi capa com barba de Papai Noel, aos 73 anos. Joanna Newson foi capa com vestidinho neo-folk, aos 24. O público da revista deve gostar dessas mudanças bruscas. Ou pelo menos eu gosto, e provavelmente por isso essa seja a única revista que assino. Outras revistas que leio têm similares. A The Wire é única.

A soma dos assinantes com quem compra a The Wire em bancas do mundo inteiro não lotaria o Maracanã (mas incluiria nomes como Matt Groening, criador dos Simpsons, e Thurston Moore, do Sonic Youth – os dois assinantes há mais de 15 anos). Tive oportunidade de conversar com Tony Herrington, editor da revista, no final de um recente debate sobre música experimental londrina. Ele me disse que o número de assinaturas se mantém constante há algum tempo, na marca de 85 mil. Esse público fiel paga as contas da revista e a excelência de seu jornalismo ousado, que não se importa com o que está na moda ou o que é conhecido. Com essa segurança, a revista nem pensa, como a maioria das outras publicações, em deixar de lado o impresso para virar apenas site na internet. É o papel que sustenta a empreitada toda. Adoro receber meu exemplar pelo correio, quando confirmo mensalmente que ajudo a financiar a produção daquele conteúdo de qualidade. Sinto que faço parte de um coletivo com responsabilidade global. Um mundo sem a The Wire seria um mundo bem mais pobre.

Falo tudo isso com segundas intenções, que não se resumem somente em fazer propaganda e conseguir mais algumas assinaturas para a revista. A lição pode ser mais geral: revista boa e jornal bom não vão acabar por causa da internet. Precisamos cada vez mais de filtros confiáveis que nos ajudem a navegar pelo maremoto informacional digital, com estonteante abundância de ofertas de todos os tipos de produtos, para todos os tipos de público. O que importa é encontrar esse público, o seu público. Não é preciso necessariamente pesquisa de marketing, para saber o que o público quer. No caso da The Wire, seu público quer o que não sabe, quer descobrir o novo radical. Se as capas viessem com tudo o que conheço e gosto, cancelaria minha assinatura. É claro que para ser assim, ninguém pode esperar ter sucesso estrondoso de vendas. O público vai ser pequeno, mas nunca vai trair seu “modelo de negócios”, pois sabe que em nenhum outro local poderá encontrar a seleção e o aprofundamento que sua publicação apresenta e garante. A ambição vem a reboque: o pequeno pode se tornar referência poderosa, como é a The Wire, que indiretamente acaba influenciando outras revistas e o modo como as pessoas vão ouvir música no futuro.

Sem ilusões: é claro que no futuro as massas não vão consumir Eliane Radigue – mas traços de Eliane Radigue estarão cada vez mais presentes em todas as músicas, assim como a música concreta influenciou o hip hop. Nesse sentido, o debate sobre música experimental em Londres, mediado por Tony Herrington, foi revelador. Eu até me senti superior, vindo do Rio, terra do Plano B, nosso templo experimental da Lapa. A mesma situação, aqui e lá. Apesar de cenas vibrantes, com muitos músicos talentosos, poucos lugares para tocar. Em Londres hoje praticamente só existe o Café Oto, e alguns espaços nas galerias de artes plásticas. Para radicalismos, as artes plásticas sempre tiveram mais grana, principalmente numa cidade onde a Tate Modern virou atração turística tão popular quanto o Big Ben. Então todo mundo se vira como pode. Kaffe Matthews, charmosa debatedora, disse que tem feito cada vez menos performances ao vivo com seu laptop. Em vez disso, se dedica à criação de “móveis sonoros”, que pelo menos por enquanto não podem ser copiados em redes P2P.

PS: Vivienne Westwood nos persegue. Agora está toda vanguarda sustentável na publicidade da DHL: ela “tem um dedo no pulso e um olho no planeta”. Just like us. Nós, quem, cara-punk-pálida?

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tudo punk-dominado

06/01/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 24-09-2010

Duas semanas atrás, em  Londres. Tudo punk-dominado: impossível, com olhar atento/”antenado”, circular pelos arredores chiques de New/Old Bond Street sem encontrar algum vestígio da influência cada vez mais consolidada que Vivienne Westwood exerce em certa cultura contemporânea. Os folders de suas novas coleções ordenavam em letras garrafais: “Compre menos”. Havia uma exposição de seus sapatos na loja de departamentos Selfridges. As vitrines da Lee traziam o lançamento de jeans com sua assinatura. E dentro do Palácio de St. James, residência real, na Garden Party organizada pelo príncipe Charles, Vivienne Westwood era a curadora de moda. Apenas Vivienne Westwood não. O material de divulgação do evento a tratava por Dame Vivienne Westwood, título ainda de alguma nobreza que recebeu em 2006.

Nada mal para alguém que inventou, junto com seu marido Malcolm McLaren e o designer situacionista Jamie Reid, o estilo visual e indumentário dos punks. Ou que, ainda no início dos anos 80, dizia fazer “moda de confrontação” e declarava: “Tenho uma visão política da moda: é uma maneira de contestar o sistema.” Interessante encontrá-la agora no núcleo duro do “sistema”, entronizada nas lojas mais comerciais e aliada de um príncipe que não esconde uma visão artística tradicionalista, vide seus ataques a toda tentativa de construção de edifícios de arquitetura (pós)moderna em Londres. Mudou o sistema ou mudou Vivienne Westwood?

A Garden Party do príncipe Charles não era uma festa qualquer, sem causa. Havia uma isca: os jardins cheios de História dos palácios Clarence House, St. James, Marlborough House e Lancaster House, geralmente cercados por forte aparato de segurança, estavam abertos para a população plebéia. Claro, era preciso pagar as libras da entrada, mas, repetindo a propaganda, por uma boa causa: o dinheiro arrecadado seria aplicado em alguma iniciativa ecologicamente correta de Sua Alteza. Muitos debates, shows, exposições de projetos que nos incentivavam a poupar energia, deixar de viajar, não desperdiçar nada e até plantar a própria comida seguindo o exemplo da horta orgânica cultivada ali mesmo pelo Príncipe de Gales.

Confesso que fico sempre meio apavorado nesses ambientes verdes, achando que sou culpado pelo fim do mundo. Também tenho implicância com a idéia de que a Natureza é boazinha e que tudo que é artificial faz mal. Mesmo assim consegui me divertir nos jardins reais, descobrindo gente bem maluquinha, não apenas velhinhas fazendo bolsas com o tecido das cortinas velhas dos palácios. Como o  pessoal de moda reunido pela curadoria da Dame Vivienne Westwood. Tenho certeza que suas criações vão ser cada vez mais presentes em qualquer passarela: o pessoal do coletivo Noki House of Sustainability, a atriz Emma Watson (Hermione nos filmes de Harry Potter) agora também eco-designer, ou a estilista Orsola de Castro, líder do movimento do “upcycling”, o termo fashionista para reciclagem.  Mas em nenhum momento deixava de causar estranheza a presença de idéias até bem extremistas em local tão “estabelecido”.

O ar estranho dos tempos, onde está tudo – conservadores e vanguardas – junto e misturado, ficou mais denso quando entrei, bem do lado dos palácios, no prédio do Institute of Contemporary Arts (ICA), ocupado pelos russos do Chto Delat?, coletivo ou “plataforma” formado por artistas, filósofos, críticos e escritores que tentam fundir teoria política, arte e ativismo. (E quando lembramos do poder que magnatas pós-Perestroika, como Roman Abramovich, exercem hoje em Londres – do futebol do Chelsea ao circuito de arte, isso para falar só na “superestrutura”… – tudo fica ainda mais pesado e animado.) Chto Delat? pode ser traduzido como Que Fazer?, título do livro de Lênin, que trata das “questões palpitantes  do nosso movimento”. O pessoal do Chto Delat? faz muitas coisas bem palpitantes: vídeos, instalações, performances, um jornal, seminários etc. Para Londres prepararam várias ações diferentes que poderão ser acompanhadas online até 24 de outubro.

Assisti o final de um seminário que durou 48 horas. Os participantes tinham mesmo que ficar 48 horas juntos, inclusive comendo e dormindo juntos nas galerias do ICA. Terminou com uma performance brechtiana. O tema era “Que lutas temos em comum?”, tudo comandado por Olga Egorova, artista que cria umas roupas filosóficas (a que mais gostei era um vestido com a seguinte declaração bordada, estilo Leonilson, no peito: “acordo às 6 para ler Hegel”). No palco, divididos, dois grupos: os artistas e os ativistas. Atrás deles um coro cantando hinos comunistas. Os artistas recebem convite para exposição patrocinada por uma grande corporação, os ativistas fazem campanha contra a aceitação do convite. Na platéia, a Liga dos Trabalhadores Culturais Revolucionários protesta: tudo aqui seria uma farsa ingênua, promovida com dinheiro público inglês.

No final, palmas, risos – obviamente nenhuma conclusão. Sigo dali para a festa de 16 anos da Rinse FM, rádio que era pirata e comemorava sua oficialização recente no dial londrino. A programação era também extremista: dubstep, UK funky, grime. Muito subgrave esquisito. Na fila da entrada, mais de três mil garotos normais, nada esquisitos. De volta à contradição dominante: a contestação no poder, o choque e o banal de mãos dadas. Mundo complexo este “nosso”.


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