confederados

Fazendo pesquisa para escrever o post anterior, descobri esta entrevista com Chino Amobi. De lá para cá, não parei de pensar nas respostas sobre sua adolescência nos arredores de Richmond, capital do estado americano de Virgínia, antiga capital dos Estados Confederados da América. Na escola, outros alunos tinham a bandeira confederada decorando as mochilas. Também costumavam caçar. E seus pais não permitiam que tivessem amigos negros. Enfim, todos prováveis futuros eleitores de Trump, que moram a cerca de 100 quilômetros de Charlottesville. Resumo: “It was a very fractured experience.” Mesmo assim, a conexão com um filho de imigrantes nigerianos, como Chino, que hoje também se identifica como “queer”, era uma espécie de realidade paralela, facilitada pelos mesmos interesses na cultura pop. Juntos, viam desenhos animados na TV. E, surpreendente, ouviam muito rap.

O que mais me interessa nisso tudo: qual o real “lugar” do “gosto” cultural hoje em dia? Muita gente deve considerar que ouvir rap e cultivar ideais confederados são “atitudes” incompatíveis. O hip hop sempre combateu o racismo. Daí minha surpresa, talvez ingênua, diante de uma realidade bem mais complexa. Seria fácil resolver tudo dizendo que a garotada confederada consome o rap de maneira superficial ou “alienada”. Seria também fácil acusar o hip hop, como produto da indústria cultural, de não ser tão potente… Mas, quem sabe (eu e minha mania de imaginar possibilidades de reviravolta em aparentes becos sem saída…), a fratura cultural contemporânea talvez seja bem mais grave que imaginamos: a garotada – do seu extremo conservador ao extremo progressista – já desenvolveu estratégias mentais para cultivar sentimentos opostos e elementos culturais contraditórios, sem maiores traumas psíquicos.

Há outra opção: passamos por uma mutação civilizatória – ou apocalíptico-antropológica – que esvaziou radicalmente (tal qual uma massa de Baudrillard) os significados de “marcadores” que encantaram “estudos culturais” do século passado.  “Estilo” e gostos deixaram de fazer sentidos, não são pistas para nenhuma identidade, nem parte de processo coerente de formação de subculturas. Por exemplo: hoje uma pessoa toda tatuada (seja homem, mulher, trans ou não etc.) até no dedo mindinho (aquilo que antes geralmente indicava espírito transgressor…) pode ser porta-voz da caretice mais careta do planeta, tipo patricinha de Beverly Hills sem noção alguma…  Vamos ter que aprender a conviver (“as if!“) cada vez mais com essas hordas de paradoxos ambulantes. Se isso é bom ou ruim para o futuro da humanidade, ainda é cedo para saber. Provavelmente, para continuar complexo e paradoxal, é bom e ruim ao mesmo tempo.

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