ainda imigração

Agora falando sério: ninguém mais pode pensar com alguma propriedade sobre imigração no mundo sem ver a aula inaugural de François Héran para a nova cátedra Migração e Sociedade do Collège de France, proferida agora dia 5 de abril. É uma verdadeira lição, que coloca os pingos nos is, com muitos números, neste assunto ocupado por preconceitos e fake news. Fiquei pausando o vídeo o tempo todo, anotando informações surpreendentes, com as quais tinha contato pela primeira vez. No final um puxão de orelhas em Michel Foucault (comentei sobre seus maravilhosos cursos no mesmo Collège de France aqui): em defesa da boa estatística, Héran declara: “não é para dominar que o Estado deve contar, é para prestar contas.” Claro: poucos Estados contam bem ou prestam contas bem. Faltam muitos Hérans por aí. Por isso é bom aproveitar quando aparecem e nos transmitem seus ensinamentos.

Primeira surpresa: descobrir que só há, oficialmente, 3,4% de imigrantes internacionais no mundo. O número mais comumente apresentado – para dizer que vivemos crise migratória como nunca antes na história da humanidade – é 257,7 milhões de pessoas, muito mais impressionante. Mas quando vamos para a porcentagem com relação ao total da população do planeta, mesmo arrendondando para 5% (contando provável imigração não declarada), aprendemos que 95% dos humanos vivos nunca migraram para fora de seus países. Quando visitamos as chinatowns espalhadas por várias continentes calculamos implicitamente que a diáspora chinesa é enorme; mas fazendo as contas só 0,7% dos chineses nativos vivem fora da China. São poucos os países de muitos milhões de habitantes com mais 1% de sua população nativa vivendo fora de suas fronteiras (a porcentagem de brasileiros fora do Brasil também é de 0,7%). Como disse Adam Smith, citado por Héran, e processado por meu remix: “o homem é a bagagem mais difícil de ser transportada.”

Continuando a ser surpreendido: refugiados e gente que sai de seu país procurando emprego são minoria nessas já pequenas porcentagens. Por exemplo: na França são admitidos oficialmente cerca de 200 mil imigrantes por ano (mas isso não representa 1/4 do seu aumento populacional anual). Desse número, 50 mil ganham o direito de morar em solo francês por ter casado com franceses, 35 mil usando o direito internacional de viver com sua família, 60 mil usando o direito de estudar no estrangeiro. Só 18 mil usam direito de asilo… Números que produzem um quadro bem diferente daquele divulgado por alarmistas. Tudo isso, Héran enumera para combater a opção a favor/contra a imigração. Não há alternativa: temos que ir “com” a imigração.

Sendo assim, pós choque de realidade dos números e das contas, volto ao meu ponto de partida nesta série de posts. Diante do número pequeno de imigrantes com relação ao total da população mundial (e dos 95% que nunca migraram), chama mais atenção ainda encontrar vários deles entre os artistas/pensadores/inovadores mais influentes de nossa época (e – número importante para o contextualizar o assunto dos posts anteriores – a “diáspora” nigeriana soma apenas 0,6% da população nativa da Nigéria). Talvez a condição de migrante, entre dois ou vários mundos culturais, tenha a ver com necessidade de criatividade, para sobrevivência. Claro, não estou aqui para diminuir a tragédia que acompanha muitas migrações forçadas ou não. Mas como temos que seguir em frente “com” imigrantes, vale mais encontrar renovadas maneiras de bem acolhê-los, criando terreno fértil para que possam inventar também bons futuros – aqueles bons futuros, entre outros, que sem imigrar não podemos imaginar quais sejam – para nossas culturas.

PS: Outra citação, provavelmente muito conhecida (mas minha formação filosófica é bem precária, por isso estou sempre descobrindo o óbvio), de Rousseau, que vai aqui sem explicações para sua ressonância com o momento em que vivemos: “Mesmo a dominação é servil quando conectada com a opinião, pois você depende dos preconceitos daqueles que você governa com preconceitos.” Com a ajuda do Google cheguei a um complemento curioso: “Para comandá-los como é do seu agrado, você tem que se comportar como é do agrado deles.”

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