Yonne de Freitas Leite

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 16/01/2015

Yonne de Freitas Leite, que faleceu há menos de um mês, foi criadora fundamental no campo de estudos de línguas indígenas no Brasil. Para homenagear pessoas tão desbravadoras como ela, posso apenas afirmar que é nosso dever continuar seu trabalho, seguir seu exemplo. Yonne definiu o que fazia como “pesquisa infinda” – “melhor seria ainda infinita” – e nos deixou indicações de como seguir em frente, de tarefas urgentes que só podem ser levadas adiante coletivamente. Lição principal: “o fenômeno da linguagem é tão vasto, tão complexo que nem usando todas as teorias existentes se dá conta da totalidade de seus aspectos. Nem uma só pessoa.” É preciso sempre mais gente na turma de Yonne.

Não fui seu aluno. Mas tive a sorte de aprender muito com ela em encontros informais na casa de Gilberto Velho. Ficava sempre impressionado com a elegância, o humor refinadíssimo (com aparência de seriedade total) e a curiosidade sempre juvenil (no bom sentido) de Yonne. Acho que nunca conversamos sobre linguística ou línguas indígenas. Seus interesses eram bem ecléticos e seus ensinamentos não se limitavam ao mundo acadêmico. Por exemplo: serei sempre grato por ela ter me apresentado a obra de Alberto Mussa, muito antes dos muitos prêmios literários. Yonne disse: “preste atenção nesse menino, ele conhece iorubá, árabe e escreve muito bem.” Sua indicação era uma ordem. Comprei o primeiro livro e até hoje leio os seguintes na semana de lançamento.

Yonne sempre repetia, de muitas maneiras diferentes: o conhecimento não tem fim, e conhecer é uma das maiores alegrias inventadas pelas culturas humanas. Ela era desse tipo diante do qual mais me sinto próximo, gente amiga do inacabado, daquilo em desenvolvimento e em transformação, sempre procurando uma abertura para não fechar as coisas, encontrando espaço para o próximo passo. Isso pode se tornar, paradoxalmente, uma convicção prática: “Não tenho, nem nunca tive, a intenção de confirmar ou infirmar ou redirecionar teorias já existentes. O que desejo é que essas teorias me ajudem a entender melhor meus dados.” Há sempre uma maneira de entender ainda melhor. Há muitas melhorias a serem feitas por todos os interessados.

Arregacem as mangas. Muito trabalho pela frente. Para quem não conhece a obra de Yonne, recomendo como introdução a leitura de dois livrinhos, bem curtos, mas cheios de boas ideias. Não por coincidência foram escritos em parceria. Yonne gostava sempre da coautoria. O primeiro livro é “Origens da linguagem” (Zahar), com Bruna Franchetto. Em menos de 50 páginas, temos um resumo das aventuras da linguística, de seu remoto passado grego até as mais recentes controvérsias pós-Chomsky. (Parêntese pitoresco: Yonne conheceu Chomsky como um presente dos céus. Literalmente. Ela fazia trabalho de campo numa aldeia dos índios Tapirapé. Um avião do Correio Aéreo Nacional jogou lá do alto um pacote que continha o livro “Current issues in linguistic theory”.)

O segundo livrinho é o “Como falam os brasileiros” (também Zahar), escrito em parceria com Dinah Callou. Quem pensa que sabe reconhecer os sotaques nacionais vai ser surpreendido por essa leitura. Exemplos da variedade (regiões, classes, gêneros, idades etc.) no uso de vogais abertas, de ritmos das frases (mais ou menos “cantados”), do artigo definido diante de nomes próprios, da escolha entre o “nós” e o “a gente” ou do “ter” e do “haver” podem nos revelar que “não há, necessariamente, uma coincidência entre o comportamento linguístico dos falares e de suas áreas geográficas respectivas: Recife, por exemplo, incluída na região Nordeste, aproxima-se, muitas vezes, mais de Porto Alegre que de Salvador.” Claro: esse tipo de pesquisa está apenas começando. No livro (publicaso em 2002) aprendi que “só agora está em curso a elaboração de um atlas geral, o ‘Atlas linguístico do Brasil’ (ALiB), tarefa cogitada há 50 anos, mas sempre adiada”. (Para comemorar: seus dois primeiros volumes foram lançados no final de 2014.)

É empreendimento gigantesco. Porém, além do português, temos que pensar também nas quase duas centenas de línguas indígenas faladas em território nacional. Esse número já torna o Brasil um dos países mais ricos linguisticamente no mundo. Mas devemos lembrar que isso é parcela mínima da diversidade original. “Em 500 anos, uma perda de 85%” E o risco é que mais línguas desapareçam. Yonne estudou por cinco décadas a língua Tapirapé, falada por cerca de 400 pessoas, sempre descobrindo mais complexidade. “Linguas indígenas – Memórias de uma pesquisa infinda” (organizado por Bruna Franchetto e Thiago Coutinho-Silva, publicado pela 7Letras), livro que reúne seus mais importantes artigos, termina clamando pela criação de um Centro de Documentação Indígena. “Esse é o meu sonho que não sei se verei se realizar.” Precisamos realizar o sonho de Yonne.

 

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