Archive for the ‘Brasil’ Category

wuwei

07/07/2020

Impressionante como Gilberto Gil faz coisas. Muitas coisas. Mesmo na precaríssima situação atual, lá está ele fazendo coisas sem parar, inventando normalidades possíveis onde não existe mais normal. Claro, toma todos os cuidados. Mas sabe: esta é a vida que temos que encarar, é preciso não parar de fazer coisas.

Curioso: há quase exatos 23 anos lançou Quanta, disco que contém Pop wu wei, um dos meus sambas preferidos. É o que declara: “eu faço tudo para não fazer nada”. E termina rezando: “Se Deus achar que eu mereço viver sem fazer nada / Que eu faça por merecer”. Talvez Gil tenha alcançado essa graça, e fazer tanta coisa seja sua maneira peculiar de não fazer nada.

Lições do taoismo: wuwei pode ser traduzido como inação. É o contrário de ação: coisa planejada, com objetivo preestabelecido, que exige enorme esforço para virar realidade. Por sorte, estive perto de Gil em muitos momentos importantes. Aprendi: ele não age assim. Seu estilo é diferente: vai surfando nos acontecimentos, seguindo ventos, correntes e marés, procurando fortalecer o lado bom daquilo que acontece, seja perda ou ganho. É coisa obviamente difícil, extremamente difícil. Como comenta Giorgio Sinedino em sua preciosa tradução do Dao De Jing (que dei para Gil quando ele estava bem doente): a inação não é “simples far niente“, mas “‘seguir o curso das coisas’ – adaptar-se às novas situações e dar-se por satifeito com o que se recebe (ou perde).” Não deve ser percebida como conformismo, tem sua dimensão política: é também “método de governo”. Que não deve ser confundido com liberalismo vulgar: a alegoria do arco de Laozi recomenda: “Faz descer o que está ao alto, eleva o que está embaixo; tira do que tem em excesso, acrescenta ao que não tem o bastante.” Caminho para moderação, tranquilidade e harmonia. Que inclui combate contra a desigualdade.

A pandemia nos ensinou: todos os planos rígidos foram interrompidos. Todo mundo foi forçado a se adaṕtar a uma situação totalmente inesperada e inescapável. Ler Laozi, e escutar/observar Gil, é ajuda vigorosa: não desanimar, aprender a fazer coisas melhores.

(Assim, com Gil, termino de recomendar os 3 livros que estavam na minha cabeceira antes da pandemia e continuam a me animar agora: Goethe, Sêneca, Laozi. Que trio. Claro que suas palavras vão reaparecer muito por aqui. E nas outras coisas que farei.)

Cabelo Cobra Coral

20/06/2020

Estava publicando o post anterior, sobre amigos mostrando trabalhos na pandemia, quando chegou mensagem do amigo Cabelo anunciando o lançamento do seu disco Luz com trevas.

Demorou: estava esperando esse disco há muito tempo. Cobrava sempre, quando tinha oportunidade. E chega logo agora, nesta nossa situação desesperada, cada vez mais “do nada para lugar nenhum” (como diz a letra de Je Vous Salue Marie). Aquele velho ensinamento: onde há perigo cresce o que salva. Luz com trevas, com sua descrição do abismo (e tendo o Rio como capital do abismo, percorrido de mototáxi), aponta possibilidades para abrir caminhos, por onde a luz possa escapar.

Porém, como escreve Fred Coelho no release: o pensamento de Cabelo é não binário. Não é luz e trevas. É luz com trevas. Sem separação, sem fronteira clara entre os domínios da claridade e da escuridão. Tudo trans, incapaz por princípio de estabelecer em qual momento termina a celebração e começa a transgressão. É sempre celebração transgressora, rebelião sem trégua, fim pra frente ou pra cima, propondo acelerações com muitos desvios, cada degrau dando em estradas bifurcadas, onde encontramos muitas personagens mutantes (o mototaxista, a abusada, o avô etc.), entidades que, mais que ouvidas, podem ser incorporadas (continuo seguindo Fred Coelho).

Tudo EXUberante. Tanto que começa com um novo ponto para Exu, orixá que abre caminhos, coloca as diferenças em comunicação/confusão, destruindo maniqueismos e soluções simples. Portanto, esse é um disco que foi/é/será uma exposição, que era/é/será “cinema expandido”, e assim por diante, em expansão constante e explosiva – como ovos-bombas.

Na primeira audição, agora neste momento, minha canção preferida é Raio de Amor, funk bem raiz (sim tudo pode virar raiz, a raiz não está no início: fundamentos a gente inventa) que, diante de uma Amazônia em chamas, chama xamã. O disco invoca portanto o encontro de orixás e xamãs, estratégia na qual a cultura brasileira deveria se especializar para se salvar. O orixá baixa para o mundo humano. O xamã sobe para o mundo espiritual. Em algum lugar, no meio do caminho bifurcado, dessa Stairway to Heaven tropical(ista), pode estar a solução.

Enquanto a solução/salvação não chega, e – antes disso – enquanto também não aprendemos que “o novo normal é não haver normal”, melhor seguir as lições de Cabelo Cobra Coral, aproveitando o lançamento deste grande disco: para tirar o mau olhado, para proteger a nossa casa, é preciso mandar brasa, em todos os sentidos e direções, lançando muitos raios de amor por aí.

amigos mostram trabalhos

16/06/2020

Muitos amigos trabalhando, ou inventando novas maneiras de mostrar seus trabalhos para o mundo pós-pandemia. Não dá para ficar parado. Quatro exemplos animadores:

Affonso Uchoa: seu filme Sete Anos em Maio está sendo exibido online via Embaúba Filmes (vale a pena conhecer os outros títulos que estão disponíveis no site dessa valente distribuidora mineira). Forma e conteúdo impressionantes. Obra necessária para quem quiser entender como o crack se tornou parte íntima da tragédia urbana brasileira. Obra necessária para quem quiser pensar o melhor do cinema brasileiro hoje e amanhã.

Josh Krigg (ver também meu comentário sobre Bull Dancing aqui): depois do Lado 2 Stereo, do Skate Aranha, do Zula System etc., Josh se aventura solo (mas tendo como parceiro Andy Newmark, simplesmente o baterista do Sly & the Family Stone em Fresh – segundo Brian Eno o disco pioneiro em colocar a bateria no lugar certo da mixagem – e de muita coisa de John & Yoko). Na música publicada agora na quarentena ele aconselha: Calm down, my brother! A exclamação no título é apropriada, Josh sabe bem do que está falando/cantando: ele também produz calma, no corpo, sendo mestre, via Zoom, de “meditação física”, uma prática que inventou em algum lugar entre Teresina e Amsterdam, entre o Método Feldenkrais e a Psicomagia.

Beto Villares: lançou seu segundo disco, Aqui Deus Andou, no início de março, pouco antes do confinamento. Pena, não deu nem para anunciar direito a boa notícia. O som é ótimo para “desatar o nó”, para não afundar, para não empacar em nossas casas hoje fechadas (“já que o mundo já não é o mesmo”): “sonha com sonhos mais altos”. Com direito a duas faixas instrumentais, Festa Baile e Ôôô (viva Teixeira de Manaus!), além do solo em Minha Lua, que provam que Beto é mestre em guitarradas variadas, um dos grandes guitarristas do Brasil.

Leandro Lehart: seu disco Sincretismo, lançado no meio de abril em pleno confinamento, abre com Sorriso aberto, a solução para a depressão compartilhada por Jovelina Pérola Negra. E segue com seleção magnífica de sambas, quase todos recentes, mas com arranjos percussivos de batuques afrobrasileiros de várias procedências temporais. É a história do samba em deliciosa confusão (urbana, suburbana e rural como queria Paulo Moura, em disco também com capa de Elifas Andreato), de um jeito que só Leandro Lehart é capaz de (re)inventar. Tudo nivelado um alto astral.

Nos tempos de agora, tudo isso é milagre.

nova dramaturgia popular

14/06/2020

Entre os inúmeros e excelentes talentos do meu amigo, e parceiro de trabalhos na quarentena, Renan Bianco, o que tem me proporcionado mais alegrias é sua capacidade de descobrir muita gente criativa na internet, revelando muita coisa que para mim já indica o nascimento de uma nova dramaturgia popular brasileira. Posso estar deprimido, mas quando chega algum de seus sempre surpreendentes links sei que vou ficar animado novamente. Foi assim que ontem, por exemplo, eu me apaixonei pelos vídeos produzidos por Faela Maya, que no Instagram se descreve como blogueira fracassada, digital sem influência, e produtora de “humor made in Interior”, mais especificamente na cidade de Jaguaribe, Ceará. Para dar uma ideia, dois links: este e mais este. São tantas as informações importantes sobre o quotidiano confinado nas periferias brasileiras que o conjunto da obra poderia ser saudado como uma tese de antropologia visual. E também é impressionante o domínio, intencionalmente tosco, da construção dramatúrgica via novas tecnologias.

Claro: essas coisas lembram os primeiros vídeos do Carlinhos Maia ou tudo o que me interessa no Whindersson Nunes. Mas obviamente há uma tradição mais antiga alimentando cada frame de cada vídeo publicado descentralizadamente em tantas redes sociais (o Tik Tok é território lotado por gente trilhando caminhos semelhantes, muito difícil acompanhar tudo ou ter uma visão geral do fenômeno – “problemas” da abundância). Penso nas encenações teatrais que integravam os shows musicais diários que Tonico e Tinoco faziam no início de suas carreiras (uma vertente que iria dar no cinema com Mazzaropi). Penso mais: nos teatros de mamulengos, ou nas inúmeras encenações folclóricas que o povo brasileiro chama de brincadeiras, e que são constantemente remixadas em sua longa história criativa (e que depois são remixadas em ambientes mais oficialmente reconhecidos como Arte – li recentemente, maravilhado, as peças A pena e a lei e As conchambranças de Quaderna, de Ariano Suassuna – como são atuais!). Outro link, desta vez cortesia generosa de Gustavo Nogueira, outro amigo parceiro de trabalhos de quarentena: esta família que faz paródias das coreografias das comissões de frente de escola de samba. É muita ideia boa.

Certamente: o humor é traço comum. Bakhtin explica. E via humor conseguimos entender melhor as transformações recentes da sociedade brasileira, que as interpretações mais sérias têm muita dificuldade de compreender, e até de enxergar. Acompanho com muito interesse, igualmente, a evolução do humor evangélico brasileiro, algo que parece que nem entra no radar de muitos comentadores preconceituosos (que acreditam que o neopentecostalismo não tem humor nenhum), das paródias do Pastor Jacinto Manto (procure no GloboPlay uma entrevista que o Pedro Bial fez com ele há vários anos, o que mostra como não é algo que apareceu ontem) aos memes produzidos pelo perfil Instagram gospelmente (“#HumorCristão, edificação e Entretenimento!” – outra dica do Renan Bianco). E muito mais.

É preciso prestar MUITA atenção nessas novidades, e nas conexões dessas novidades com a história da cultura brasileira. Não adianta: nada é simples, ou fácil de entender: o Brasil é MUITO complexo.

passagem do tempo

13/06/2020

Escutar novamente Analog fluids of sonic black holes agora, depois dos protestos contra o racismo no planeta inteiro, é tarefa obrigatória para quem quer entender tudo que está acontecendo. Esse disco de Moor Mother ganha sentido mais profundo e urgente do que aquele que já podia ser percebido na época de seu lançamento, em novembro do ano passado. Muitas de suas poesias poderiam se transformar em cantos das multidões nas passeatas. Sim, eu sei bem: já virou lugar comum dizer que várias coisas ganharam ares de profecia no momento em que estamos vivendo. Mas neste caso, é a mais pura verdade. Mesmo as críticas do disco – ver por exemplo, esta do Pitchfork, esta do Guardian – hoje soam igualmente proféticas.

Nesse caso, não chega a ser exatamente uma surpresa. Rasheedah Phillips, companheira de Camae Ayewa (a Moor Mother – as duas são parceiras também em projetos que conjugam arte e militância, como o Black Quantum Futurism e o Community Futures Lab), há anos defende uma concepção afrofuturista do tempo, contra a linearidade mecânica que desemboca num futuro excludente, impondo a necessidade de invenção de outras noções de progresso. (Recomendo a leitura dos artigos de Rasheedah Phillips publicados no livro We travel the space ways, coletânea que inclui textos, artes plásticas, histórias em quadrinhos, extratos de roteiros cinematográficos e muito mais, gerando um panorama muito diverso do afrofuturismo, com autores/criadores como Kodwo Eshun, Greg Tate ou Jim Chuchu – o título é uma homenagem a Sun Ra – que falta ele faz, ainda bem que tive a sorte de ver um de seus shows, totalmente apoteótico, rodei por todo o universo com sua música prafrentex, suas roupas e refrãos espaciais.)

Ainda sobre Analog fluids of sonic black holes: que incrível terminar com a faixa afro(futurista)brasileira Passing of time, com a poesia dizendo em inglês “minha mãe, minha avó, minha bisavó colheram tanto algodão que salvaram o mundo”, ao mesmo tempo em que Juçara Marçal canta em português “direto ao coração” repetidas vezes. Deu vontade de escutar novamente também o Baião das Princesas, gravação de A Barca (Juçara foi uma das fundadoras), uma das coisas mais bonitas que há no mundo salvo (e salve Pai Euclides!), que sempre me faz chorar de tanta beleza.


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