Archive for the ‘Brasil’ Category

Whindersson Nunes

09/12/2017

Sábado passado: fui ver a gravação do novo DVD de Whindersson Nunes na Jeneusse Arena aqui no Rio. Era meu primeiro contato ao vivo, fora da internet, com youtubers em ação. Logo com o mais popular do Brasil. Tudo impressionante. Congestionamento na avenida Embaixador Abelardo Bueno, desses que a gente só vê em show de megabanda internacional ou final de campeonato de futebol. Só que nesse caso a multidão ia ver uma só pessoa, um cara do interior do Piauí de 22 anos, que não teve gravadoras multinacionais nem divulgação na mídia “tradicional” para iniciar sua carreira. Aquilo tudo ainda cheirava a sinal poderoso de novos tempos, muito novos.

Eu estava com a Regina Casé. Por isso fomos convidados para passar no camarim do Whindersson antes do show. Lembramos nosso primeiro encontro com ele, no início de 2013. Foi sua primeira viagem de avião e primeira aparição em programa de TV em rede nacional. Ele logo comentou: “pois é, hoje tenho um jatinho.”

Ao nosso redor, sua família e amigos piauienses, no Rio para a noite de gala, todo mundo com roupa de festa. Só Whindersson de chinela, calção, camiseta sem manga. Slogan “day off forever” estampado no peito. Como se estivesse chegando ou indo para a praia ou para churrasco na casa de amigos íntimos. Alguém se aproximou dizendo que já estava quase na hora de ir para o palco, era hora de trocar de figurino. Resposta óbvia: “vou assim mesmo, estou pronto.”

Acho que havia umas 15 mil pessoas na plateia. É número novo para espetáculos teatrais brasileiros. Quem mais junta tanta gente? Paulo Gustavo? (De qualquer maneira, o público do Whindersson parece juntar mais gente que nunca foi ao teatro.)

As arquibancadas lá em cima pareciam lotadas. Mas no palco, produção mínima. Apenas uma cortina vermelha e um teclado. Iluminação nada pirotécnica. Dogma de stand-up comedy. Whindersson comanda toda a atenção somente no gogó, acompanhado por movimentos comedidos do seu próprio corpo.

Não tenho tempo para a reflexão sobre o espetáculo. Aqui anotações que espero desenvolver depois. Para não me esquecer. Ou para alguém pensar melhor.

Whindersson entra no palco ao som do rap “Norte Nordeste me veste” de RAPadura Xique Chico. É uma clara bandeira de orgulho nordestino, bem militante. Olhando o público ao meu redor ficava evidente que não estava na Feira de São Cristóvão. Gente bem carioca, “nova” classe média, muitos tons de pele, mas nenhum indício de presença majoritária de nordestinos. Meu pensamento constante, durante todo o espetáculo, mas que sempre me desafia quando vejo qualquer vídeo de Whindersson: como que essas multidões de todo o Brasil se identificam com a visão de mundo e mesmo a sensibilidade tão geograficamente localizadas de Whindersson? Que lugar cultural o interior do Nordeste ainda ocupa no Brasil, capaz de gerar um fenômeno ciberpopular tão grande assim?

Além disso, mas no mesmo caminho: claro que há referências constantes à cultura pop, principalmente ao mundo dos games, parte fundamental da formação de Whindersson. Mas o núcleo duro de seu story-telling é radicalmente nordestino, mas de um Nordeste que me parece antigo ou “endangered”. Não consigo entender direito como um cara de 22 anos faz sucesso falando de coisas que eu já pensava em vias de extinção quando eu era criança nos anos 1960 (sou também nordestino). Por exemplo: afirmar que na sua infância só havia dois tipos de bonecas; as dos rico abriam os olhos; as dos pobres estavam sempre esbugalhadas. Ou citar brinquedos de carrinhos de boi, mesmo com bois verdes de plástico. Das duas uma: ou Whindersson se inspira em memórias ancestrais, da “raça”, ou minha percepção está errada e esse Nordeste antigo é bem mais recente do que eu imaginava. Ou não: talvez essa aparência de antiguidade seja o que interessa, a representação de uma inocência perdida… Pátina eletrônica?

Inocência? Para ouvidos pouco acostumados, talvez o que mais se destaque nas piadas seja a escatologia adolescente. Porém, minha impressão é que tantas piadas sobre fezes e sexo também apenas enfeitam de marra uma essência que poderia ser classificada como singela, desconectada de um mundo urbano onde a ironia e/ou a trapaça bélica reinam. Provavelmente o momento de maior duração no espetáculo seja a narrativa sobre o dia em que criança, querendo alcançar um Mucilon escondido em cima do ármario da cozinha, quebra uma xícara do jogo que sua mãe ganhou como presente de casamento. Prender a atenção de público tão grande por tantos minutos com essa lembrança é para mim o mistério do Whindersson. O que demonstra cabalmente seu talento ímpar como contador de estórias, em regime minimalista de voz e gestos, tudo criando um ambiente carregado sim de poesia, a poesia nordestina citada na abertura do rap de RAPadura.

Sei que mais uma vez corro o risco de ser acusado de demagogia ao juntar esse tipo de celebridade do YouTube e poesia numa mesma frase. Mas no seu show anterior, “Marminino”, que vi no YouTube, pensei também em habilidade teatral poética ao passar pela cena do jogo de taco com o menino rico. (Nos outros vídeos do YouTube, Whindersson tem tom mais apressado, talvez também mais agressivo – no início de sua carreira a “inocência” e a falta de “ritmo” tinham papel mais central, como nesta microautobiografia.)

Mas não sei bem o que fazer com essas observações. Não há conversa crítica onde elas possam se encaixar, ou mesmo serem levadas em alguma consideração sem achincalhe brutal. Já vivi essa solidão em outros momentos, quando tentei elogiar o nascimento do funk carioca no final dos anos 1980 ou a técnica de pós-guitarrada do Chimbinha no final dos anos 1990.

E falando nisso: sim, percebo uma sensibilidade e um lugar no mundo parecidos no DJ Marlboro, em Chimbinha e em Whindersson. Até em certo “isolamento” no meio do furação do maior sucesso da cultura de (pós)massas. Na plateia da Jeneusse Arena havia pouquíssimas “celebridades” além da Regina Casé. Não vi também jornalistas. O que me espanta mais é a falta de curiosidade diante daquilo que faz esse sucesso avassalador na cultura brasileira de hoje, até para criticar com conhecimento os rumos que essa cultura está tomando ou já tomou.

PS: Outra pergunta: dá para pensar em Whindersson como herdeiro de uma tradição de comediantes nordestinos que inclui Renato Aragão, Chico Anísio, Tom Cavalcante e tantos outros? Por que essa relação nacionalizada do Nordeste com o humor? Envolve preconceito, e uma relação perigosa de riso e pobreza? Mas como comentou um amigo: possivelmente Whindersson tenha a ver mais com o paulista Golias, que também trabalhava com uma certa “inocência” do garoto pobre do interior.

 

 

 

 

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Mustafa é o cara?

27/11/2017

Continuo explorando o arquivo do podcast Talking Politics. Ali descobri também o Nine Dots Prize, vencido este ano por James Williams. Cada candidato concorria com um ensaio-resposta para a pergunta “Are digital technologies making politics impossible?” James Williams ganhou escrevendo sobre sua especialidade, a economia da atenção, elemento agora extremamente valioso num mundo que passou a ter informação em mega-abundância. Procurando mais informação (…), fui ver o vídeo de sua palestra publicada no abundante (e maravilhoso) canal de YouTube da RSA. Acabei clicando no link para outros vídeos e minha atenção foi capturada pela President’s Lecture pronunciada agora em novembro.

Tudo absolutamente fascinante, com pompa e circunstância reais. Literalmente: o palestrante é apresentado pela Princesa Real. Quando vai para o púlpito – em território que já recebeu Charles Dickens, Adam Smith, Benjamin Franklin, entre outros de igual peso pesado -, descobrimos que não usa gravata, sua aparência é pós-punk. Filho de um taxista imigrante vindo da Síria, seu nome é Mustafa Suleyman. Seu discurso é radical. Na sessão de perguntas e respostas, alguém da platéia resume tudo como anti-capitalismo. E Matthew Taylor, chief executive da RSA, faz desabafo que poderia ser entendido assim: “esse é o tipo de palestra-chutando-o-pau-da-barraca que alguém faz quando está se aposentando, quando não tem mais o que perder, e pode fazer autocrítica feroz”. O problema é que Mustafa está, podemos dizer, no início de sua carreira, ou melhor – depois de uma ascensão fulminante (hoje é capitalista talvez já bilionário) -, ocupa o centro do poder no mundo da inteligência artificial (relembrando: Putin disse que quem se tornar líder na área de inteligência artificial, dominará o mundo… Hoje ninguém está mais próximo de liderar o desenvolvimento da inteligência artificial do que Mustafa e seus amigos).

Aprendi agora (nunca tinha ouvido falar de Mustafa, conhecia apenas o poder da sua empresa): ele é um dos três fundadores da DeepMind, a empresa britânica de inteligência artificial e machine learning comprada pelo Google em 2014 por 400 milhões de libras (e que já mostrou excelente serviço vencendo o campeão mundial de Go com o AlphaGo).  Os outros dois: Demis Hassabis, amigo da infância londrina de Mustafa e filho também de imigrantes (grego cipriota e cingapuriana de etnia chinesa), e Shane Legg, nascido em Rotorua, no norte da Ilha do Norte da Nova Zelândia. Seu encontro é típico (sei que estou exagerando) da cultura cosmopolita londrina atual, que lucra com a circulação de pessoas e ideias de origens bem diferentes.

Mustafa abandonou o curso de filosofia e teologia em Oxford para criar a Muslim Youth Helpline. Depois fez muita coisa, inclusive se tornando um dos principais incentivadores da criação da Partnership on Artificial Intelligence to Benefit People and Society, organização que reúne as principais corporações de inteligência artificial do mundo.

Interessante, muito interessante mesmo, ver uma pessoa como Mustafa, com as ideias e a biografia de Mustafa, ocupando todos esses lugares de enorme poder, capaz de fazer (se isso é possível) crítica contundente do poder enquanto o exerce, defendendo propostas que enfrentam abertamente a maré conservadora que parece dominante. O que nos leva a questionar essa aparência de dominância: se Mustafa faz a President’s Lecture da RSA, com aprovação real em tempos de Brexit, o jogo político contemporâneo é bem mais complexo do que aquele que as redes sociais (cada vez mais controladas pelas inteligências artificiais das corporações membras da Patternship…) nos deixam perceber.

 

Contagem, Ceilândia e o outro Brasil

25/11/2017

Conheci o João Dumans quando ele trabalhava no Cine Humberto Mauro, em Belo Horizonte. Eu acreditava piamente que seu futuro era ser crítico de cinema. Respeitava suas opiniões. Mesmo assim, nosso contato era bem esporádico. Durante alguns anos não trocamos nem ao menos um oi. Mas no final de 2014, meio que do nada, chegou email – que começava com um esperado “há quanto tempo!” – me convidando para a exibição de “A vizinhança do tigre”, filme que contava com sua colaboração no roteiro e na montagem. O que mais me deixou curioso vinha a seguir: “Indico também dois filmes que farão parte da mesma mostra: “Branco sai, preto fica”, do Adirley Queiroz, e “Ela volta na quinta”, do André Novais. Na minha opinião (tendenciosa e comprometida), a reunião desses três filmes num mesmo festival é um dos acontecimentos cinematográficos mais importantes do ano no Brasil. São três representações absolutamente originais da periferia, e absolutamente diferentes entre si – e além disso, feitas por realizadores muito jovens, todos eles vindos dos lugares que filmam.”

Pelo tom, senti que deveria levar aquela declaração bem a sério. Ela anunciava o aparecimento de algo importante e que só poderia crescer forte. Não tinha ouvido falar dos diretores pois andei um tempo sem acompanhar as novidades dos festivais de cinema ou do cinema brasileiro/mundial em geral. Vi os filmes. Concordei com o João: a existência daqueles filmes era realmente um excelente acontecimento, parecia mesmo um “movimento” auspicioso. Mas fiquei quietinho, esperando as próximas produções, para ver onde aquilo ia dar.

Nova interrupção da comunicação com o João. Só agora em novembro de 2017 chegou novo email. Outro convite. Desta vez para ver “Arábia”, filme codirigido por João e Affonso Uchoa, que assinou a direção de “A vizinhança do tigre”. Continuo tão desligado que nem sabia do prêmio de melhor filme em Brasília nem da carreira brilhante em festivais internacionais, apontado como o futuro do cinema brasileiro. Um giro rápido pelo YouTube me atualizou (inclusive sobre as novidades das carreiras de Ardiley e André) e confirmou: a opinião do João no email de três anos atrás pode ser lida hoje como profecia realizada.

No cinema, esperando a sessão começar, ao reencontrar com o João comentei citando aquele email: deu certo, não deu? Fiquei sem saber o que sentir: é para ficar alegre ou triste com o ter dado certo? Estranha sensação de ver essa consolidação de uma escola cinematográfica “de periferia” no momento em que o país “oficial” tomou um outro rumo, completamente diferente daquele que gerou essa “escola” (fala-se de uma “escola de Contagem”) de filmes. Seus diretores são certamente herdeiros de uma outra época, parecem exilados ou extremamente deslocados no Brasil atual, como se habitassem universo paralelo, o do país que poderia ser e deixou de ser.

Quando “Arábia” terminou, eu continuava a não saber se estava triste ou alegre. O filme é uma grande vitória, tanto política quanto estética, um passo seguinte digno para “A vizinhança do tigre” (que já amadureceu como indubitavelmente uma das melhores obras artísticas brasileiras deste século). Porém, meu primeiro comentário quando reencontrei o João depois da sessão foi: “muito triste, né?” Eu ainda estava sob o impacto do monólogo final do filme (espero que isto aqui não seja um spoiler…), que ouvi como um atestado de óbito para um determinado projeto de construção de justiça social no país. Não deu certo, perdemos a oportunidade. Temos que recomeçar do zero.

Será? A própria existência e qualidade daquele filme, feito pelas pessoas que fizeram aquele filme, não é prova de que algo mudou para melhor, de que não há como voltar atrás diante do que foi conquistado? Todas essas novas escolas e todos esses novos olhares de produção audiovisual brasileira não podem mais ser ignorados. Todos esses coletivos que passaram a fazer cinema nestes últimos 20 anos não vão mais ficar parados, passivos. Mas que caminhos vão criar para continuar a produzir, agora que o “mundo” mudou?

Volto a ficar alegre, pensando que serão múltiplos caminhos, abertos na marra. João estava certo: esses novos filmes “periféricos” são absolutamente diferentes entre si. Mesmo a diferença entre “A vizinhança do tigre” e “Arábia” é instrutiva a esse respeito. Não há uma única “periferia”, nem uma única experiência periférica. Essa multiplicidade social se reflete em representações estéticas também múltiplas. Apesar disso, quero forçar a barra por aqui, e falar do que vejo de comum nessas produções cinematográficas.

Primeiro, o mais óbvio: nunca as periferias ou bairros pobres/populares (e suas personagens) apareceram desse jeito tão cru em nossas telas. Não estou aqui para dizer que só gente da periferia consegue produzir as imagens “verdadeiras” desses lugares e pessoas. Aprecio olhares “de fora”, que muitas vezes conseguem perceber aquilo que quem é “de dentro” não enxerga, inclusive por causa da “proximidade”. As visões desses novos cineastas foram treinadas certamente pelo estudo de muitas outras cinematografias, brasileiras ou estrangeiras, “de arte” e “comerciais”. Mas acrescentaram algo de novo ao intenso debate anterior.

Por exemplo: sua recusa de uma direção de arte “embelezadora”. Em muitos filmes anteriores, feitos geralmente por gente de outros bairros da cidade e outras classes sociais, geralmente havia uma tendência para o pitoresco, para o artesanato. A periferia urbana era representada por uma vila antiga do subúrbio, casas com azulejos coloridos nas fachadas. Pobres rurais viviam em casinhas de sapê, mulheres com vestido de chita, lenço no cabelo, dormindo em redes, comendo comida “típica”, ouvindo música não pop. Desapareciam shortinhos, tops, camisetas piratas da Abercrombie (ou de campanhas de políticos), sofás ou TVs de plasma comprados na Casa & Vídeo. “Eles”, os pobres, precisavam ser os guardiões de nossa autenticidade perdida, para público de festival de cinema aplaudir.

Talvez, no cinema, eu tenha visto essa periferia “real” antes, retratada dessa maneira, em cenas dos filmes de super-heróis bate-bolas de Felipe Bragrança ou naquele documentário “Santa Cruz” de João Moreira Salles, e poucos outros. Mas nos filmes de Affonso, Ardiley e André (só para citar alguns dos novos diretores), ela aparece como protagonista em toda sua profusão de batimento de lajes, falta de reboco e precariedade urbanística. É o que há, ou o que precisa ser visto. A câmera faz enorme esforço para não julgar nada (mesmo sabendo que nenhum plano é inocente, e que nunca vai ser possível mostrar tudo): não está ali para separar o belo do feio. Está totalmente familiarizada com aquele mundo ao redor. Mesmo quando inclui novidades de um outro artesanato, como as próteses e adaptações para a vida em cadeira de rodas na Ceilândia, cidade satélite do presente/futuro de “Branco sai, preto fica”. Ou o aparelho para medir pressão arterial ou as sessões de vídeos do YouTube em “Ela volta na quinta”. Ou a recusa de rúcula em “Arábia”. Ninguém ali é bobo, desinformado, coitadinho. Gosto especialmente das cenas de música em “A vizinhança do tigre”: o metal vira passinho e depois rap. Tudo misturado, apaixonado. Quem pode dizer qual a música verdadeira ou a mais autêntica naquela “comunidade”? A câmera, mais uma vez, não quer julgar nada. Mesmo quando condena o que está errado no mundo todo.

Outro elemento comum nesses filmes, talvez complementar a essa maneira (talvez maneirista) peculiar, quase impossível, de ser realista: um tomar partido com enorme gosto pelo infraordinário (vide Georges Perec) ou a busca militante, evidentemente intransigente,  pelo “o transordinário na experiência humana ordinária” (vide o discurso de posse de Guimarães Rosa, na Academia Brasileira de Letras, que completou recentemente 50 anos). Isso está em Affonso/João e em Ardiley, mas fica totalmente comovente no amor pelo cotidiano nos filmes do André, onde a família do diretor atua como os melhores atores que há. Mesmo no curta “Quintal”, tudo que acontece de extraordinário e absurdo é vivido e registrado como se fosse o mais banal dos acontecimentos comuns.

Pensando nisso, volto a ficar alegre. E triste. Voltando também a ter dúvidas sobre o futuro dessa “escola” (ou de todas as escolas). Essas obras são presentes para o Brasil: aumentam nossa capacidade de entender a nossa complexidade, com outros novos olhares, atentos para detalhes que antes “ninguém” via, e que podem ser pistas valiosas para repensarmos nossos lugares no mundo. Não sei se o país hoje reconhece essas (ou se reconhece nessas) boas dádivas. Não sei nem se percebe o que ganhou (fruto de muito esforço). Torço para que esse novo cinema não se transforme apenas em sucesso de festivais e mostras “paralelas”. Tomara que toda essa gente que começou a lançar filmes recentemente invente rápido novas estratégias para produzir e incentivar o aparecimento de novos olhares em muitos outros lugares. Que a periferia não volte a ser apenas periférica.

 

redes sociais

25/11/2017

Gostei da expressão: recovering utopians. Tenho me sentido também em processo de convalescença dessa doença de ter acreditado em muitas utopias. Apostei em muita coisa coisa que deu errado. Acreditei que o mundo estava melhorando. Militei, por exemplo, pela popularização da internet, como instrumento de democratização e justiça social (mesmo me esforçando para manter o espírito crítico ligado). Hoje, olho com horror, tristeza e decepção para a transformação das redes sociais em ambientes de poluição máxima. As promessas de liberdades se transformaram nesse lixo de condomínios fechados controlados por três ou quatro megacorporações? E no paraíso das fake news?

Porém, há algo estranho no reconhecimento de que essa minha reclamação tenha se transformado em lugar comum. Hoje, todo mundo fala mal das redes sociais, como se elas fossem a origem de todo o mal. Tem gente se aproveitando disso para reafirmar, sem originalidade nenhuma, que era melhor antes. Não era. Muito dessa conversa é produto do ressentimento de quem perdeu o poder com a nova caótica situação. E quer de volta o monopólio da fala centralizada. Claro, não estamos bem. Estamos péssimos. Mas não há volta. É preciso fugir para frente.

Volto a citar Paul Virilio: “eu não acredito que possamos recusar a tecnologia, por assim dizer, voltar ao Ano Um. Não podemos parar tudo para nos darmos tempo para pensar. Acredito que é no interior da própria investigação da tecnologia que encontraremos, não uma solução, mas a possibilidade de uma solução. […] A frase de Hölderlin – ‘Mas onde o perigo cresce, cresce também aquilo que salva’ – é muito importante para mim.”

Citação que é mais uma frágil tentativa de consolo do que uma profissão de fé.

Outra citação, talvez mais pragmática: final do texto da Wendy Brown na Art Forum de fim de 2016, escrito antes da vitória do Trump: “We have to be very imaginative and undogmatic – not simply drawing on current trends, on past left thinking or hoped for solutions from markets and technology. We have to be absolutely inventive, creative, open, pluralistic, and humble. And we have to be totally committed to nonstupidity.”

complexo militar-industrial

23/11/2017

Artigo muito esclarecedor sobre as novíssimas peripécias da inteligência artificial no New York Times (obrigado Sandra Kogut por me passar o link): Can A.I. Be Taught to Explain Itself? Eu não conhecia ainda a sigla X.A.I.… Muito prazer? Boa sorte para os que tentam ensinar “accountability” para as máquinas. Hoje, cada vez mais, mesmo quando elas “acertam”, poucos humanos sabem explicar direitinho quais os caminhos que seus pensamentos artificiais seguiram para tomar aquelas decisões… Já acho que não tem mais volta… São inteligências bem alienígenas…

Porém, fiquei bem mais impressionado ao reconfirmar algo que aprendi nos anos 1980 lendo Paul Virilio. Se não fosse o investimento estatal-militar (sobretudo via DARPA), não teríamos nem internet, nem machine learning. Mesmo a Siri, da Apple, nasceu soldadinha. Qualquer indústria “civil”… É tudo sobra da preparação constante para a guerra. E ainda tem gente que acredita que o maior motor da inovação é o tal mercado…

Citações de Paul Virilio retiradas do livro “Guerra pura” (uma longa entrevista conduzida por Sylvère Lotringer), lançado no Brasil em 1984 (aquele ano…) pela Brasiliense: “o comércio surge depois da chegada da guerra a um lugar, depois do estado de sítio”. Ou: “foi a fortaleza como fortificação permanente que instituiu a cidade em permanência. A sedentariedade urbana está, assim, vinculada à durabilidade do obstáculo.” Em resumo: “a cidade é o resultado da guerra ou, pelo menos, da preparação para a guerra.”

Para que fui lembrar disso logo agora, quando acabo de descobrir a obra de Brian Hayden, que defende que a civilização toda teve origem não na guerra, mas na festa, no desejo de farrear?

 


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