outras tempestades

Shakespeare é o que a(o) ChatGPT quer ser quando crescer, caso evolua de seu estágio atual de “papagaio(a) estocástico(a)” e ganhe imaginação. Não precisamos entrar no debate que tenta provar a identidade “real” do bardo inglês (nada a ver com Bard, a(o) bot falante do Google) para ter certeza que o algoritmo (ou floresta de algoritmos) que embalava a atividade neuronal poética de quem escreveu “ser ou não ser” consumia mais energia que os parques de computadores da Amazon. Tudo respeitando limitações históricas e geográficas, mas trabalhando nos limites do que era possível conhecer/ler/encenar/compartilhar nos reinos de Elizabeth I e Jaime I. Suas obras reprocessavam muitos textos de muitas outras autorias, misturando modos de falar ou viralizando o uso de vocábulos, às vezes com efeito retardatário como aconteceu com “swagger“, que recentemente ganhou as “ruas” via hip hop. Porém, é óbvio: com brilhantes surpresas criativas, quase a cada verso, que ainda espero ver a inteligência artificial produzir (pois sou da tribo do Kraftwerk, gente amiga de robôs).

Bom de pensar: Shakespeare como software replicante, totalmente amigável para novos usos, impulsionador de outras criatividades, quanto mais alienígenas melhor. E nada pode ser mais maravilhosamente alienígena, e ao mesmo tempo de uma familiaridade desconcertante (pelo menos para gente brasileira amiga de centenárias modernidades antropofágicas), do que Uma A Outra Tempestade, a “tradução-exu” que André Capilé e Guilherme Gontijo Flores fizeram de Une Tempête, por sua vez a “adaptação para um teatro negro” que Aimé Césaire inventou “a partir” de The Tempest de Shakespeare.

Tempest. Tem peste. Tempête. Tempestade. Tempestades. Outras. Muitas. Em tempos de catástrofes climáticas, pandemia (que não acabou), crimes ambientais em série, casas e pessoas soterradas o tempo todo no Brasil, é preciso atenção desesperada para encontrar, no meio de tanta destruição, nos escombros por todos os lados, sementes de resistência/rebelião/renascimento. Seguindo a lição de Muniz Sodré, nesta conversa com Ailton Krenak na Flip 2021, a “Flip das plantas”. Seguindo igualmente, a lição do Caribe de Suzanne Césaire, parceira de obra e vida de Aimé, com seus ciclones, vulcões, maremotos, onde “tudo se racha, tudo desaba no barulho do rasgamento das grandes manifestações”, até que que surge o sol e o canto que mata as cigarras haitianas. Como escreve Helena Martins no Posfácio de Uma A Outra Tempestade: “A tempestade perturba contornos, desarranja linhas de divisão […] Ao amolecer o chão, também desenterra coisas que estiveram ali e nem sabíamos. E pode regenerar a terra que destrói.”

Aqui é uma tempestade na língua, um arrasa-quarteirão na torre de marfim onde foi colocado o inglês de Shakespeare, retomando as perturbações que divertiam seu público original, popular ou cortesão – ou no francês ainda predominantemente parisiense de Une Tempête. Segundo o prefácio de Paulo Henriques Britto (Uma A Outra Tempestade tem a sorte de ter posfácio, prefácio e orelha – de Nina Rizzi – que ao meu ver se tornaram acompanhamentos fundamentais para o núcleo da obra, o coração do ciclone…): “um diálogo com dois autores canônicos que mobiliza uma extraordinária gama de recursos poéticos do nosso idioma”.

Extraordinária mesmo! O idioma atravessado por muitos outros idiomas. O idioma enxurrada, desmilinguindo o cânone, encontrando outros cânones entre o que vaza o tempo todo (e como tudo e todo mundo vaza nessa tempestade de Capilé e Flores!). Idioma água, com suas mecânicas de fluídos. Ainda Suzanne Césaire: “a água distende seus membros para uma consciência mais ampla de seu poder de água”. Ainda Helena Martins: a tempestade “esculpe formas na água”. O que pode e o que quer uma língua líquida, uma língua furacão? O que leva ribanceira abaixo ou pelos ares? O que fica? O que aparece?

Esculturas líquidas, ou de lama (Salubá!), sempre precárias, precarizadas ao extremo. Aprendemos com Deleuze e Guattari logo no início de Mille Plateaux: “não há língua em si, nem universalidade da linguagem, mas um encontro de dialetos, patoás, de gírias, de línguas especiais. Não há ‘pessoa falante-fiscal’ [minha tradução-exu…] ideal, nem comunidade linguística homogênea. […] Não há língua-mãe, mas a tomada de poder por uma língua dominante numa multiplicidade política.” Essa uma-a-outra-tempestade bagunça o coreto da dominação, se é que sobrou algum coreto em alguma praça palaciana.

Aimé Césaire convida Exu para a ilha tempestuosa de Shakespeare. Capilé e Flores convidam Nhanderu, deus guarani, e iniciam os trabalhos com a voz de Sycorax, a bruxa mãe de Caliban (ou melhor, X, como ele exige ser chamado), que permaneceu muda em tempestades anteriores. Ela profetiza: “Falo falaz língua de escravidão que vocês usarão.” Vocês: nós. O sopro de sua boca, e de todas as outras bocas que se desentendem naquela ilha de desterros, naufrágios e servidões, vira vendaval que paradoxalmente nos condena – para continuar me apropriando das palavras de Helena Martins – a um mundo onde “linguajares se misturam, sujam-se entre si, conspurcam-se: equivocam-se, liberam-se. Uma festa.”

Festa estranha com gente esquisita. Assustadora – mas várias vezes não contive a gargalhada. Como não se descontrolar quando X diz que tudo “tá tranquilo, tá favorável”, e assim o MC Bin Laden, antes do “feat.” no controle com o Gorillaz, escala o cânone shakespeariano? Bem que Sycorax avisou. E o resultado não é ousadia ou transgressão. É beleza pura.

Poderia terminar por aqui, no favorável. Para deixar que cada pessoa que enfrenta o texto tempestuoso escolha seus momentos preferidos de êxtase/pânico poético sem minha falaz influência e meus spoilers. Seria generoso de minha parte, mas como dar vazão a tudo que rabisquei em cada página durante minha leitura?

Primeiro tenho necessidade de tornar pública minha curiosidade bisbilhoteira: qual o método “língua quebra-pedra” (tanto bate até que fura…) de Capilé e Flores? Andam por aí com o microfoninho do whatsapp pressionado 24/7 registrando qualquer novidade verbal que cruze seus caminhos (por territórios tagarelas de geografias tortuosas que forçam vizinhanças entre CTGs de prendas minhas com barris dobradíssimos de plantations reconvexas) como se fossem Emílias em países de invencionices gramaticais probabilísticas? Onde tudo isso fica armazenado e como depois se mistura em redações finais cut-and-pasteadas? E qual o objetivo dessas desaventuras na ilha das maravilhas sinistras, calabouço das torturas da língua em erupção permanente?

Vou pirar, como brincadeira de ChatGPT com muitos bugs e que mesmo assim tenta fazer sua tradução-exu de palavras/ideias alheias. Pense num ringue tipo UFC. De um lado Próspero. No seu cinturão está escrito; “E eu sou o Poder.” Com a medida que seu dono determina como justa. O formato do ringue não é octogonal, nem imita os contornos da ilha: ele termina numa encruzilhada, ou – na língua de X – encruziada. A luta na real, para além de encantamentos e xingamentos, é sempre adiada. Nem ninguém consegue escapar, ninguém consegue voar com as asas da liberdade, mesmo quando X decreta que a encruziada “já tá aberta”, mesmo quando os navios estão prontos para zarpar com Próspero. Ou mesmo quando X revela que sabe que é tudo fake news, ilusionismo, caricatura criada por um “truqueiro de mentira”.

É o encontro da “antiNatureza” com Natureza cordial. Uma não pode viver sem a outra. Estado permanente de guerra. X diz: “não me interessa paz não”. Próspero traduz qualquer de suas frases assim: “porrada vai cantar, vai dar no pelourinho!” Até que um dia entra em parafuso: “o que é o poder se eu não posso domar minha preocupação?” E assim começa a virar onça, como personagem de Rosa…

X pode experimentar devir-jaguar também? Monstro pode? X para Próspero: “suncê me roubou tudo, até a identidade!” Ou:”mentiu tanto que me deu imagem falsa”: “um subcomum subdesenvolvido subcapaz”. O que bate com o diagnóstico de Suzanne Césaire para um problema caribenho: “o esforço de adaptação a um estilo estrangeiro exigido do martinicano criou um estado de pseudo-civilização que se pode qualificar de anormal, de monstruoso.”

Fico querendo ouvir a continuação da guerra, quando só restar X e Próspero-onça na ilha. Minha coisa preferida é hipermonstruosidade? Talvez não, espero alguma bonança, uma outra bonança radical. Talvez aquela indicada por Miranda, nas suas árias do futuro, nas suas visões de admiráveis mundos novos. Custo a acreditar que ela vai se casar mesmo com o mané Ferdinando quando o casal chegar na Zooropa, no “velho mundo mercado de pulga”. Seu encontro com Exu e Nhanderu foi fulminante, fatal até demais: Miranda tem chance de ser “a pomba-gira do absoluto”. Certamente isso é muito mais do que o Fim da História.

Pomba-gira do absoluto. Há entidade mais poderosa para abençoar o fogo com o qual a poesia brasileira contemporânea anda brincando? Sim, sou deslumbrado, gosto de deslumbramento, mesmo inventado (o nosso amor a gente inventa), conscientemente exagerado. Contudo, não devo ser a única pessoa a perceber que vivemos um momento privilegiado na criação poética nacional, do qual Uma A Outra Tempestade é marco glorioso (esse meu gosto por adjetivos pomposos…) Muitas vozes de diversidade impressionante. Muita conversa entre várias obras, muita invenção (trans)autoral. Muitas editoras valentes.

Exemplos? Para ficar só com metade da dupla que inventou Uma A Outra Tempestade, cujos livros estão espalhados ao redor da tela onde escrevo: impossível dar conta da diversidade/qualidade produzida aos borbotões (e com rigor “acadêmico” espantoso) por Guilherme Gontijo Flores (mestre também de colaborações com outras pessoas/artes).

A fórmula H2O que conecta as Odes Olímpicas de Píndaro de Tebas com cantos para mamãe Oxum, cercado por desenhos de François Andes, em Entre costas duplicadas desce um rio. O “crédito ou débito? quer sua via?” de História de Joia. O Arcano 13, renga (“escrita colaborativa de origem japonesa”) com Marcelo Ariel (na introdução “mestre Sampaio” canta: “o pior dos temporais aduba os jardins”… utopia desesperada…) Os tantos &s do final de carvão::capim. As traduções de Safo, Rabelais etc. (E um dia volto aqui para falar de Tradução-Exu, o ensaio, igualmente assinado pela dupla Flores & Capilé, que faz companhia amorosa para Uma A Outra Tempestade – companhia também em curso-vídeo que o algoritmo do YouTube encontra facilmente).

Isso só para citar lançamentos bem próximos destes nossos anos de Peste. Ou que atravessam estes nossos anos de Peste. Atravessam e furam. E friccionando antiNatureza e Natureza evocam proteções. Como uma vacina mRNA aplicada diretamente na(o) ChatGPT alucinada(o) pela imaginação de Shakespeare e da Pomba-Gira do Absoluto.

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