Archive for the ‘poesia’ Category

complementos Ilustríssima 8

17/04/2021

Links (poucos) complementares para o texto de hoje:

Os portugueses adoram John Lurie e os Lounge Lizards.

Impressão genética para vacinas. O casal turco-alemão.

Camões.

Walter Hugo Mãe escreve sobre Adília Lopes aqui.

Sobre Dias e Dias.

Aqui estão minhas contas.

Não se envergonhe de não conhecer Adília Lopes – ela é inédita em muitos países, mesmo na Espanha. Nesse sentido, o Brasil é até privilegiado.

E Livros, de Caetano Veloso, com letra “apropriada” duas vezes no texto…

peço licença

09/07/2020

Os problemas criados pela “digitalização da cultura” se tornaram muito mais agudos durante a pandemia. Certamente não o maior deles: a abundância. Pouca atenção para tanta live, tanto podcast, esse tsunami de streaming. Como se informar sobre a quantidade avassaladora de eventos de todos os tipos, para todos os gostos? Cada pessoa cria seus filtros, seus algoritmos pessoais de recomendação, sua estratégia para navegar feeds-sem-fim identificando aquilo em que vale a pena clicar. É preciso também estabelecer relações de confiança com outras pessoas mais atentas para determinadas áreas da criação artística que não temos tempo para acompanhar. Por isso valorizo tanto quem faz bom trabalho de assessoria de imprensa, escolhendo bem aquilo que divulga com empolgação. Sem os emails da Bebel Prates, por exemplo, eu não teria escrito meu post sobre o BaianaSystem – foi fácil encontrar todas as informações importantes sobre a história da banda relendo as notícias que ela me mandou.

Esta semana recebi mensagem da Mônica Ramalho, elogiando o texto que publiquei sobre Thiago Amud e sugerindo, sem maiores informações, que eu escutasse Sylvio Fraga. Não reconheci o nome. Não tinha a menor ideia do tipo de música que me aguardava. Mas há anos faço boas descobertas a partir do que a Mônica divulga. Desta vez levei sua sugestão imediatamente a sério: no primeiro tempinho, fiz pesquisa no Google e a primeira coisa que encontrei foi a faixa Da vida no YouTube. Fiquei impressionado: parecia parente de um transsamba, com guitarra nervosa e repetitiva, um trumpete em arranjo ousado, um final abrupto. Da letra, na primeira audição, só pesquei evoé e éden – mas tudo indicava consistência de “palavra cantada” bem fora da curva. O YouTube emendou com Sono do burgo, com refrão “idiotas cidades” e uma percussão baiana que me fez reparar o nome Letieres Leite na foto que ocupa o lugar do vídeo.

Em seguida, descobri o site do Sylvio Fraga, vi a lista de livros (li logo uma orelha consagradora assinada por Antonio Cícero), artigos, traduções. Escrevi de volta para a Mônica confessando minha vergonha por não conhecer nada disso antes. Ela, com a paciencia de quem me manda informações sobre Sylvio Fraga desde pelo menos 2013, respondeu indicando a edição deste julho da Piauí, que traz página com sua poesia. Aí sim a coisa ficou séria: que maravilha esse conjunto de poemas. O grito do galo haitiano no celular do taxista na Rio Branco, o peso do bebê, o “me satisfaço com pouca atenção”, os “autoritários da indignação”, a repetição do “peço licença” que repeti no título deste post.

Tudo aquilo foi intimação para dever de casa: escutei os outros discos. São três até agora. Todos extremamente interessantes. O primeiro é mais inocente, mas tem artimanhas de férias no sítio. O segundo é mais urbano, irônico, distanciado, revelando um quinteto poderoso, bem evidente em Nogueira, faixa instrumental. O terceiro, Canção da cabra, vai mais longe: é uma densa viagem sertaneja, com Graciliano Ramos segundo Antonio Candido como guia (e o ínicio de São Bernardo transformado em letra de música). Minhas faixas preferidas são: Dulcinéias, com solo magnífico de flugelhorn comentado por uma bateria da pá virada; Sertões, onde brilha o arranjo para sopros e cordas de Letieres Leite celebrando “a vida sincera de um bicho qualquer”; e Euá, faixa de abertura, para orixá que me encanta desde que li o Senhora das possibilidades de Cléo Martins.

Depois fui ligando as pontas do email da Mônica. Quando escrevi meu post sobre Thiago Amud (que é autor das letras de Da vida, Sono do burgo e Euá) nem tinha reparado que O cinema que o sol não apaga foi lançamento de uma gravadora chamada Rocinante, da qual Sylvio Fraga é diretor artístico. Seu pequeno, mas poderoso, catálogo aponta para muitos novos rumos da música contemporânea do Brasil. Como ia dizendo: problemas da abundância, desta vez problema bom: um email curtinho, pedindo licença, me abre um mundão assim. Infinito, como Guimarães Rosa dizia ser o Sertão.

PS: Como se não bastasse tanta abundância daqui, não paro de escutar a Hala 96 FM, rádio sudanesa. Incrível como não toca nada que eu não goste. Quando ouço algo que, nos primeiros acordes, não bate bem, já sei que é jingle.

outras identidades

20/05/2018

Quando o Orkut apareceu, como brincadeira anti identidade, eu trocava o texto da minha descrição pessoal frequentemente. Este aqui foi o que ficou publicado por mais tempo:

“Detesto do fado. Detesto o sebastianismo e a filosofia portuguesa. Detesto o Papa, os militares, os romances de Camilo. Detesto o Wagner, o Cristo-Rei e a Elizabeth Taylor. Detesto os sonetos de Florbela e as praias do Algarve. Detesto o bispo de Braga, as iscas de bacalhau, o Ulisses de Joyce, a senhora Tatcher. Detesto o Almada Negreiros, os ranchos folclóricos, os travestis, as majorettes, os pupilos do exército. Detesto o exibicionismo, o sentimentalismo, o surrealismo e o caldo galego. Detesto a poesia barroca, a arquitectura do Taveira, o Pedro Almodóvar, os pastorinhos de Fátima. Detesto a poesia do Ginsberg, o carnaval carioca. Detesto a pintura do Rubens e os acrósticos. Detesto o Retrato de Dorian Gray, o Andy Warhol, a loiça de Caldas. Detesto a Madonna. Detesto os castelos da Baviera. Detesto anedotas. Detesto jantar com mais de uma pessoa.”

Amigos ficaram espantados. Alguns acreditaram, mesmo com tantas referências lusitanas, que era mesmo a lista de meus gostos, ou desgostos, pessoais, refletindo minha identidade.

Poderia ter continuado com a sequência:

“Então de que é que gosta?

De framboesas. Do Mozart. Do Moby Dick. Do Walt Whitman. Das infantas de Velázquez. Gosto das Geórgicas e da Ilíada. De cerejas, de gatos e do Miguel. Gosto de Florença e Praga e Oxford. Gosto dois oiros e dos vermelhos de Rembrandt, das naturezas-mortas de Morandi. Gosto de Li Bai e da canção única de Meendinho. Gosto de Andrei Tarkovsky, dos versos de Pessanha, de Cesário. Gosto de espirituais negros. Gosto da sombra dos plátanos e das ilhas gregas. Gosto de muros brancos, de praças quadradas. Gosto dos madrigais de Monteverdi, da Casa sobre a Cascata de Frank Lloyd Wright. Das Variações Goldberg. Das Iluminations. Gosto do deserto, dos coros alentejanos. Gosto de minha mãe e de Virgínia Woolf. Da Via Ápia. Gosto dos esquilos do Central Park e das dunas de Long Island no inverno. Gosto de um verso do Cesariny: Conto os meus dias, tangerinas brancas. Gosto do aroma do feno e de Schumann. Gosto do cheiro dos corpos quando se amam. Hoje, não gosto de mais nada.”

Claro, não sou eu. Meus gostos são bem diferentes. Na verdade, o que me chamou a atenção, o que me atrai e me espanta nessas palavras, é a força do detesto e do gosto. A certeza (talvez um pouco quebrada pelo “hoje”, da frase final). Não sou tão firme assim. Aliás, não saberia ou seria capaz fazer lista semelhante. Meus gostos mudam a todo instante. E mesmo num único instante, não são convictos. Como a minha identidade pessoal remendada, mutante, instável. Gosto e não gosto das mesmíssimas coisas ao mesmo tempo (raro detestar), mantenho distância de absolutos, faço exercícios para me manter afastado de dogmatismos.

Mas continuo gostando dessa lista, anos depois do desaparecimento do Orkut. Leio toda ela como poesia (tenho meus versos preferidos: “Gosto de muros brancos, praças quadradas”), até porque são palavras de um dos poetas que mais admiro. Retirei esses trechos do livro “Rosto precário”, que reúne as entrevistas de Eugénio de Andrade.

Tive a sorte de entrevistar Eugénio de Andrade, na sua cidade do Porto, para o programa Além-Mar. Ele escolheu alguns de seus poemas para ler diante de nossa câmera. No final, fez questão de me entregar um livro para trazer para o Brasil com dedicatória para Maria Bethânia.

copiei Eugénio de Andrade em outras coisas, além de me apropriar com total afastamento da sua lista de gostos. Entre seus poemas, este aqui tem o poder de sempre me comover:

Deste jardim o que levo comigo

é um ramo de bambu para servir

de espelho ao resto dos meus dias.

Seu título é “Jardim de Lou Lim Ieoc”, lugar deslumbrante, que fica em Macau. Ali gravamos fado e um imigrante angolano lendo trecho de “Sobrados e mucambos” sobre os jardins chineses. Dali, copiando Eugénio de Andrade, levei comigo um ramo de bambu que me serve de espelho marcando páginas de “Rosto precário”.

Copiar é bom. Faz bem. Ajuda a dissolver nosso ego na matéria em movimento (aqui copio Fausto Fawcett). Tenho também que copiar a Maria da canção da Timbalada: existe letra melhor, mais alegre? E eu disse que não tenho opiniões firmes… Quod erat demonstrandum…

PS: lembrei disso tudo pois, ainda copiando Eugénio de Andrade, estou lendo  maravilhado, Poesia, de Mario Cesariny, o das “tangerinas brancas”, lançamento de 2017 da Assírio & Alvim. Volto a Mário Cesariny qualquer hora destas.


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