Rede Sarah

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 27/02/2015

O doutor Campos da Paz faleceu há pouco mais de um mês. Precisamos continuar a homenageá-lo. Para isso, nada melhor do que aprender com os ensinamentos de sua rica trajetória de vida. Sabemos que saúde pública é um dos principais problemas do Brasil. Nenhum programa nessa área deve ser inventado sem levar em consideração a história, as batalhas e as conquistas da Rede Sarah, criação muito original do doutor Campos. Falo de dentro, sem distanciamento: hoje sou conselheiro dessa instituição. É uma grande honra poder contribuir para seu trabalho, garantia de melhores condições de vida para muitos brasileiros, e que inspira outras experiências de medicina em vários outros países, tanto pobres como ricos. Para entender a razão para essa minha convicção vou tentar resumir o caminho bem pessoal que me aproximou, no pior momento de minha vida, da Rede Sarah e do doutor Campos.

Muitos leitores devem lembrar que há 14 anos meu irmão Herbert sofreu um grave acidente, no qual perdi minha cunhada Lucy. Naquele período de tristeza avassaladora, um conforto foi receber generosas ofertas de ajuda, tanto de amigos próximos quanto de desconhecidos. Havia a necessidade de fazer escolhas de tratamentos para dois tipos de lesão, a medular e a cerebral. As opções eram radicalmente díspares. Hoje consigo até rir quando penso no seguinte dilema quase político: houve convites para ir para Cuba e para Miami. Como tomar a decisão? Gosto de estudar: mergulhei em livros e em revistas médicas procurando a fronteira do conhecimento nessas áreas.

Ainda bem que as neurociências já estavam vivendo momento de popularização. Em capítulo de António Damásio encontrei a descrição de um problema que imaginei ter a ver com o que estava vivendo em casa. Nem pensei duas vezes: fiz uma busca na internet e consegui o endereço eletrônico de Damásio. Estava tão desesperado que mandei imediatamente email para ele, na cara de pau, explicando a situação. Para minha surpresa, logo recebi sua resposta, com indicação do nome de médico de Iowa que poderia me orientar melhor. Várias mensagens adiante, um conselho: não havia motivos para tratamento longo e/ou custoso fora do Brasil. Era importante para a melhora a permanência perto da família. O tal médico de Iowa terminava sua correspondência comigo indicando o nome de uma das maiores especialistas em reabilitação neuropsicológica do mundo: Lúcia Willadino Braga, hoje presidente da Rede Sarah.

Tomei coragem novamente e escrevi para a doutora Lúcia. Li tudo o que podia sobre a Rede Sarah. Outros pacientes me alertaram inclusive para me preparar para um eventual encontro com o doutor Campos. Ele seria duro, não tentaria nos seduzir com falsas promessas de cura. Acompanhei a internação do Herbert no Sarah Brasília. No andar onde ficam os pacientes com lesão cerebral convivi com sofrimentos que não imaginava suportáveis por nenhum ser humano, tudo agravado pela desigualdade social brasileira. Uma vizinha de leito tinha viajado, enfrentando dores extremas, de canoa e kombi, partindo de localidade remota da Amazônia. Era um panorama terrível do Brasil. Mas ao mesmo tempo estávamos ali reunidos em hospital público, recebendo um tratamento de excelência, que antes eu não tinha ideia que existia no país.

Quando escrevo tratamento de excelência, não estou pensando em luxo. Hoje, há uma tendência no serviço hospitalar privado que confunde qualidade com aparência de hotel cinco estrelas. As pessoas fingem não perceber como isso encarece de forma desnecessária os tratamentos. Na Rede Sarah tudo é digno, e de ponta, mas nada é ostentação. Muitas soluções, como prédios construídos para aproveitar luz e ventilação naturais, foram produtos da parceria criativa entre o doutor Campos e o arquiteto Lelé. Não entendo a razão para objetos inventados nas oficinas da Rede Sarah não sejam adotados em outras casas de saúde. Como aquelas camas, leves e de design lindo, bem diferentes daqueles monstrengos eletrônicos importados, que devem custar pequenas fortunas, além de consumir energia e manutenção difícil. (O pior é que vejo muita gente acreditando que hospital bom tem que ter esse tipo de cama cara. Até quando vamos ignorar ou desprezar as boas soluções criadas por aqui?)

Tive o privilégio de conviver com o doutor Campos nas reuniões do Conselho. Ele estava na cadeira de rodas, com aparelho de respiração. Mas falava animado dos livros que queria escrever. Sabia que agora tinha tempo, pois preparou equipe brilhante para continuar a missão da Rede Sarah. O tempo foi curto. Mas sei que um livro está pronto e que a qualidade do atendimento da Rede Sarah permanecerá como sua melhor lição.

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