mais e melhores nanolistas

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 26/12/2014

Sou fã de listas de melhores do ano. Como já escrevi várias vezes, hoje a abundância é maior problema que a escassez para a produção cultural planetária. Muita coisa boa, muitos canais para distribuição de novidades, mas pouco tempo para escutar/ler/ver tudo. Por isso precisamos de filtros confiáveis. As melhores listas de melhores do ano são produzidas por pessoas que acompanham de perto a movimentação de determinado segmento artístico, vasculhando todos os cantos da rede à procura do mais brilhante, e assim nos poupam o trabalho de fazer o mesmo. Só posso agradecer sua atuação generosa, transformando todos meus dezembros em época de descobertas.

Tenho minha lista das melhores listas de melhores do ano. Exemplo: o número de dezembro da Art Forum, a revista mais influente da arte contemporânea. Como eu poderia viver sem a lista de melhores filmes segundo John Waters, ou a lista de melhores exposições  (etc. – este ano mistura Lygia Clark com as danças de Sharon Eyal e Anna Teresa de Keersmaeker) segundo Daniel Birnbaum? A seção de música é feita por pessoas diferentes a cada ano. Agora temos as listas de Kathleen Hanna, Shintaro Sakamoto, Matthew Higgs, Wu Tsang e George Lewis. Não fique envergonhado se não conhece esses nomes. Os discos/performances que estão em suas listas são ainda mais esotéricos. E, por isso, necessários. Assim conheci Mamman Sani (seu “Taaritt” é saudado como “melhor disco já feito”) e “Circuitos úmidos: a era dourada dos sintetizadores na Ásia do Leste”.

Também não consigo passar sem a edição especial da “MIT Technology Review” que reúne suas listas bem curiosas: as “50 companhias mais inteligentes”; as “10 tecnologias revolucionárias”; e – para mim a mais esperada – os 35 “inovadores com menos de 35 anos”, que sempre me revela gente novinha com ideias incriveis. Como Tak-Sing Wong, que se inspira em plantas carnívoras para a criação de novos materiais.

Meu amor por listas se estende também para aquelas que não precisam ser publicadas necessariamente no final do ano. Como a “NewUrope100”, recente criação da revista “Visegrad/Insight” (Visegrad é a aliança de quatro países da Europa do Leste: Polônia, República Tcheca, Hungria e Eslováquia), apresentando 100 pessoas “desafiadoras” de países com os quais temos pouco contato cultural direto. Foi ali que ouvi falar do arquiteto urbanista nipo-tcheco Osamu Okamura  ou li entrevista ciberinspiradora com Toomas Hendrik Ilves, presidente (sempre com gravata borboleta) da Estônia.

E claro: gosto de ver o resultado de várias premiações. Porém, desenvolvi meu próprio “modo de usar” para lidar com elas. Prefiro as que têm várias categorias. Recomendo: preste atenção naquelas que recebem menos destaque. É ali que as melhores surpresas podem acontecer. Funciona assim: no Jabuti de 2014, encontrei a dica para uma das minhas mais interessantes leituras do ano entre os dez finalistas da categoria Ciências Exatas, Tecnologia e Informática. Trata-se de “Ciência do futuro e futuro da ciência – redes e políticas de nanociência e nanotecnologia no Brasil”, de Jorge Luiz dos Santos Junior, um lançamento da editora da UERJ e da FAPERJ com o qual eu poderia nunca ter me deparado, até porque foi difícil encontrá-lo nas livrarias (acabei comprando meu exemplar na Leonardo da Vinci).

Trata-se de estudo pioneiro de um cientista social/economista sobre as políticas brasileiras de ciências exatas de ponta no Brasil. Os termos nanotecnologia e nanociências (as que lidam com dimensões para lá de minúsculas) só aparecem em documentos oficiais brasileiros, mesmo em órgãos como o CNPq e a CAPES, no início deste século, mas no decorrer dos anos seguintes foram lançados vários programas para incentivar a formação de pesquisas em universidades e empresas nacionais. Qual o resultado?

O pano de fundo para a análise de Jorge Luis dos Santos Junior é a invenção de uma política industrial brasileira, principalmente dos anos 1950 em diante. Antes os governos, quando tratavam de ciência, imaginavam um país apenas “celeiro do mundo”. Mas tabelas apresentadas no livro denunciam uma situação ainda precária. Importamos mais alta tecnologia e exportamos (crescimento cada vez mais acelerado desde 2007) mais produtos não industriais. Em 2010 a China fez 742 pedidos de patentes, o Brasil 59.

Fico sempre cheio de dedos quando trago esses assuntos para o Segundo Caderno. Mas como Jorge Luiz dos Santos Junior mostra, as implicações culturais e sociais da nanotecnologia são tremendas, e geralmente deixamos que decisões importantes sejam tomadas por especialistas e pequenos grupos em nome de todos nós. Ficam aqui meus votos para que mudemos de atitude em 2015. Não há escolha. O mundo é cada vez mais complexo. É preciso atenção e força com relação a tudo.

 

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