Archive for the ‘México’ Category

aqui e agora

20/12/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 19/12/2014

2014 está terminando. Não terei tempo para cumprir outra promessa, a de homenagear vários dos grandes artistas modernos que comemorariam seu centésimo aniversário este ano. Consegui apenas escrever sobre Lina Bo Bardi, Marguerite Duras e Dorival Caymmi. Citei Sun Ra na semana passada. Pouco. Falta muita gente mais, importante demais para a minha vida e para os tempos modernos. Preciso fazer uma escolha. Não posso deixar de escrever sobre Octavio Paz. Mais especificamente sobre seu livro “Os filhos do barro”, reeditado no Brasil recentemente, e que deve ser relido por todo mundo que busca avanços para a produção cultural contemporânea.

Avanços. Estou elogiando a linearidade do tempo, em progresso ou desenvolvimento contínuo na direção do “melhor”? Nada mais distante da minha intenção. Quando li “Os filhos do barro” – que teve sua primeira edição mexicana em 1974 e a brasileira em 1980 – perdi grande parte da minha ingenuidade vanguardista juvenil. Octavio Paz nos surpreende afirmando que “o moderno é uma tradição”. Uma tradição “de ruptura”, de “crítica do passado imediato”, de “negação” – mas nem por isso menos tradicional. Claro: “a sociedade que inventou a expressão a tradição moderna é uma sociedade singular”, diferente de todas as outras que existiram antes ou que continuam a existir acreditando que o melhor aconteceu no passado. Nós, modernos, mesmo os mais apocalípticos, temos esperança num futuro que rompa com erros do passado e do presente. Mas no momento em que a crítica vira uma exigência tradicional ficamos desconfiados: “Aquele que sabe ser pertencente a uma tradição implicitamente já se sabe diferente dela, e esse saber leva-o, tarde ou cedo, a interrogá-la e, às vezes, a negá-la.”

Armadilha? Círculo vicioso? Se somos “diferentes” dos modernos, qual o nosso novo nome, ou como escapar da modernidade? Na época do lançamento de “Os filhos do barro” já se falava em pós-modernidade, mas aquela saída hoje se revela tão datada como sofá pé-de-palito de design Memphis ou capa de vinil new wave. E depois de nossa entrada no ciberespaço, podemos compreender – mixando terror e êxtase – uma profecia de Octavio Paz cujas sutilezas podem ter confundido os leitores dos anos 1970: “Passam-se mais coisas e todas elas passam quase ao mesmo tempo, não uma atrás da outra, mas simultaneamente. Aceleração é fusão: todos os tempos e todos os espaços confluem em um aqui e agora.”

O melhor lugar do mundo? Muita coisa, demais da conta. Passei 2014 lendo – bem lentamente – o tijolo “Miscelánea III” das “Obras completas” de Octávio Paz. Suas mais de 750 páginas reúnem as principais entrevistas concedidas por este grande poeta/pensador/ensaísta mexicano e cosmopolita (existe alguém mais cosmopolita?), de 1953 a 1996. Impossível não se espantar com a abrangência enciclopédica de seus conhecimentos, cada resposta é uma aula sobre assunto diferente, da poesia de Benjamin Péret à filosofia de Giorgio Agamben, passando pelo “I Ching” e pelo Dom Quixote. Apenas uma citação irresistível, de entrevista de 1989, em resposta que comenta as diferenças entre a palavra falada e a palavra escrita: “A palavra falada é aqui e agora, uma conjunção de vozes em um lugar: uma conversação. […] a palavra escrita é pública enquanto que a conversação é privada. Uma das calamidades modernas é haver feito pública a vida privada.”

De volta ao ciberaqui e ciberagora, com cada vez maior confluência de tudo, também do privado com o público. E pulo de assunto, dividindo 100 anos pela metade. Outro dia recebi email do Instituto Moreira Salles que me fez descobrir que a publicação de “A paixão segundo G.H.” completou cinco décadas (na preciosa edição crítica coordenada por Benedito Nunes descubro também que, como quase todos os outros livros de Clarice Lispector, não há originais desta obra). Clarice Lispector inventou outro tempo, ou uma estratégia de relação com o tempo que talvez nos dê pistas para escapar da tradição de ruptura moderna, que deposita todas suas esperanças em vanguardas que indicam o caminho do melhor futuro para as multidões.

Os trechos que sublinhei na minha primeira leitura de “A paixão segundo G. H.” continuam a ser aqueles que mais guiam minha vida até hoje. Fiquei “muito feliz” porque finalmente fui desiludido e nunca mais confiei em sistemas ou projetos que tentavam me vender esperança: “quero encontrar a redenção no hoje, no já, na realidade que está sendo, e não na promessa, quero encontrar a alegria neste instante”.

Mais claro ainda: “Pois prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver, e não apenas a me prometer a vida. E este é o maior susto que eu posso ter. Antes eu esperava. Mas o Deus é hoje: seu reino já começou.”

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a turma do Hall

22/02/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 21/02/2014

Quando soube da morte de Stuart Hall, considerado por muitos – mesmo sem ele gostar do título – “o pai dos Estudos Culturais” e um dos principais teóricos/militantes do multiculturalismo, fui logo procurar meu velho exemplar de “Resistance through rituais”, coletânea de ensaios que editou, com Tony Jefferson, em 1975/76. É um volume fetiche na minha biblioteca, numa edição neozelandesa com cara de datilografada. Essa publicação pioneira foi incentivo importante para meu estudo sobre o baile funk nos anos 1980. Antes dela, pesquisas sobre subculturas juvenis e música pop eram encaradas com preconceito na academia. A orientação de Stuart Hall, no Centro para Estudos Culturais Contemporâneos da Universidade de Birmingham, foi decisiva para que teses sobre rock ou reggae ganhassem respeitabilidade. Uma geração de antropólogos, sociólogos etc. passou a existir seguindo seu exemplo e derrubando fronteiras entre assuntos “nobres” e “periféricos”.

Devemos então perceber a herança de Stuart Hall não apenas em seus escritos, mas na grande diversidade de trabalhos que influenciou e na marcante redefinição do campo de estudos sobre cultura e sociedade proposta em sua carreira. Ele mesmo declarou – em entrevista para Heloísa Buarque de Hollanda e Liv Sovik – que não era autor de livros, mas de textos de intervenção, que depois eram publicados em coletâneas organizadas por outras pessoas. Em “Resistance through rituals” sua posição estava no polo oposto: a do organizador de reunião de textos alheios. Tudo era parte de um circuito intenso de animação de novas ideias.

Folheando agora “Resistance through rituals” me deparo com turma da pesada de autores. Resolvi que minha homenagem para Stuart Hall não deve ser algo nostálgico, lembrando sua trajetória, mas sim uma busca pela internet para descobrir o que seus discípulos vivos estão aprontando hoje. Escolhi três deles, os que foram cruciais para minha formação (e fora da academia, para muitos críticos de música popular) e com quem perdi contato recentemente: Dick Hebdige, Ian Chambers e Simon Frith.

Em “Resistance through rituals”, Dick Hebdige publicou dois artigos, um sobre mods e outro sobre rastas e rude boys. Já estava preparando seu livro mais conhecido, “Subcultura – o significado do estilo” (publicado em 1979; percebo neste instante: será que nunca teve edição brasileira?), que propôs maneira extremamente original (e hoje quase senso comum) de entender a invenção do punk, como bricolagem terminal/caótica da linha evolutiva de todas as tribos juvenis britânicas anteriores, entre elas a dos mods e a dos rude boys. Hoje, Dick Hebdige é professor de Estudos da Mídia na Universidade da California em Santa Barbara, onde pesquisa a integração de autobiografia, crítica e pedagogia. Recentemente publicou capítulos em livros sobre Takashi Murakami, o artista japonês, e Andi Watson, o mais celebrado iluminador de shows de rock (o livro teve prefácio de Thom Yorke).

Ian Chambers, na coletânea organizada por Stuart Hall, é o autor de “Uma estratégia para viver”, abordando a complexa relação entre adolescentes ingleses brancos e música negra de origem primeiro norte-americana e em seguida jamaicana. Em 1985, lançou “Ritmos urbanos”, uma das melhores histórias da música pop de língua inglesa. Desde o final dos anos 1970 mora em Nápoles, Itália, onde comanda o Centro Studi Postcoloniali da universidade mais conhecida pelo simpático apelido L’Orientale. Sua linha de pesquisa atual, aprofundando seu interesse por fronteiras e migrações, reescreve a história do Mediterrâneo, como uma outra modernidade interrompida.

Simon Frith era o que tinha relação mais informal com o Centro de Estudos Culturais Contemporâneos de Birmingham, mas em “Resistance through rituals”, assinou, junto com Paul Corrigan, o artigo “As políticas da cultura juvenil”. Logo após, em 1978, saiu sua “Sociologia do rock”, hoje em todas as bibliografias básicas do gênero. Seu currículo posterior impressiona: livros sobre a performance musical, sobre a relação entre arte e pop, além de muito mais sobre a política do rock. Também foi colunista de jornais como o Observer e o Village Voice, fundou a revista acadêmica (excelente) Popular Music, e é presidente do júri do Mercury, o mais prestigioso prêmio da indústria fonográfica britânica, desde a sua criação em 1992.

Procurando hoje sobre Simon Frith na internet encontrei o anúncio de uma conferência internacional em sua homenagem a ser realizada em abril na Universidade de Edimburgo, com direito a show radical de Fred Frith, Chris Cutler e Tom Arthurs. Certamente a memória de Stuart Hall também será ali celebrada.

zoom back camera!

13/04/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 12/04/2013

Desculpa a explicação talvez desnecessária, mas levo em consideração o fato de haver muita gente que chegou agora de outra galáxia: doodle é aquele enfeite com que o Google comemora data importante. O critério para escolha do que vai ser homenageado é tão misterioso quanto o algoritmo que torna eficiente sua ferramenta de busca. São raros os aniversários “redondos”. Este ano houve doodles celebrando os 119 e 146 anos dos nascimentos de, respectivamente, Victor Brecheret e Rubén Darío. Meu preferido de 2013 foi o que lembrava as 64 primaveras do recorde de pulo a cavalo de Alberto Larreguibel. Tento copiar o Google nesta coluna. Mas não sou tão livre. Prefiro datas com pelo menos um zero. Na semana passada escrevi sobre os 90 anos de Harry Smith. Hoje canto parabéns para os 40 anos de “A montanha sagrada” de Alejandro Jodorowsky.

Na verdade, poderia ser o quinto aniversário, pois seu produtor, brigado com o diretor, proibiu a exibição do filme por quase 35 anos. Isso só aumentou o fascínio que cerca a obra de Jodorowsky. Durante toda minha juventude ouvi falar maravilhas de “A montanha sagrada”, mas só consegui vê-lo quando me transformei no feliz proprietário da caixa de DVDs lançada em 2007 pela ABKCO Films nos EUA. Sei que há DVDs brasileiros lançados pela Silver Screen Collection. Não tenho certeza se incluem os comentários em áudio do diretor que são a principal fonte para o que vou escrever por aqui.

Quando aparecem as primeiras imagens de “A montanha sagrada”, Jodorowsky comenta: “filmei em outra vida”. Realmente, não é só outra vida do diretor, mas outra vida do mundo, que agora parece envergonhado quando se lembra do “desbunde” dos anos 1970, e tenta desqualificar tudo o que aconteceu por ali como ingenuidade. Hoje, somos irônicos demais para não ridicularizar alguém que diz algo como: “queria mudar a humanidade com meus filmes”; ou “acreditava que o cinema era melhor que LSD”. Comentando “El topo”, seu filme anterior, Jodorowsky lança pergunta que denuncia plenamente sua pretensão: “Por que no cinema não haveria algo tão importante quanto um texto sagrado?” Emenda: seu desejo é criar poderosa “aspirina metafísica”. Nestas últimas quatro décadas, fomos doutrinados a querer infinitamente menos da arte (quando muito achamos que ela pode melhorar a vida de alguns garotos da periferia, “se forem salvos do funk”).

Seria impossível, em 2013, alguém levar a sério um roteiro como o de “A montanha sagrada” a ponto de captar centenas de milhares de dólares para sua realização. No entanto, na “outra vida” imersa na fumaça de incensos hippies, até George Harrison queria atuar como o protagonista, que era inspirado no Louco do Tarot. Sua única condição: que fosse cortada cena em que teria a bunda lavada, com foco no limite da proctologia, pelo mago representado pelo diretor. Era mesmo um tempo diferente: Jodorowsky recusou o corte para manter sua integridade artística, e ainda hoje ri pensando no punhadão de dólares que perdeu com essa decisão.

Quem fez o filme não estava ali pela grana. As pessoas – atores, equipe técnica etc. – buscavam uma experiência mística que daria novo rumo para suas vidas e para o universo. Entre elas havia milionários, prostitutas, doidonas que ninguém sabia de onde vinham, o empresário do grupo Sly and The Family Stone (!), galãs do cinema mexicano, xamãs, ou Don Cherry (que compôs a trilha sonora). Era uma turma da pesada, que fazia tudo o que o diretor-guia-espiritual mandava, até viver seus piores pesadelos diante das câmeras – como o travesti nova-iorquino que tinha pavor de aranhas e deixou Jodorowsky colocar dezenas de tarântulas para passear sobre seu corpo.

Os dois terços iniciais de “A montanha sagrada” formam sequência de planos rigorosos, tudo estilizado. O final vira semidocumentário, com a câmera na mão acompanhando o elenco principal passando o maior perrengue para escalar de verdade a maior montanha do México. Quem não quer saber o final do filme que pare de ler agora. Vou entregar tudo. Quando pisaram no topo, os “atores” esperavam a iluminação prometida. Jodorowsky deixa de ser ator, e se revela como diretor do filme. Ele dá a ordem, com fórmula mágica às avessas: “zoom back camera!”. A imagem se distancia e vemos todo o aparato técnico ao redor da cena. Jodorowsky continua: “quebre a ilusão, adeus montanha sagrada, a vida real nos espera”. É como um monge zen batendo com bastão em nossas costas. Uma das grandes cenas do cinema, mesmo aparentemente contra o cinema.

Há momentos em que só penso em atualizar a ordem: “zoom back todas webcams”. Reaprendamos a ver o mundo com os olhos malucos-beleza de 40 anos atrás.

ondinhas

02/03/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 01/03/2013

Café Tacvba tocará pela primeira vez no Rio na quinta-feira. Show obrigatório. Não vou medir as palavras: é a banda mais criativa da história do rock abaixo de El Paso e acima da Terra do Fogo. Recentemente, a revista Rolling Stone dos EUA elegeu “Re”, seu álbum de 1994, como o melhor lançamento de todos os tempos do rock latino. Concordo: o único outro disco que, em minha opinião, poderia ocupar tal posto seria o primeiro dos Mutantes. Ou “El objeto antes llamado disco” (EOALD), editado pelo Café Tacvba no final do ano passado. Todos os críticos, do New York Times ao Página 12, o declaram digno de comparação com “Re”, ou até mais conectado com o futuro.

Hora perfeita para ver a banda ao vivo. Até porque EOALD (repergunto: é o melhor título de disco também de todos os tempos?) foi gravado ao vivo. Porém, como sempre acontece com o Café Tacvba, nada é usual: não se trata de show para grande plateia. Foi ideia tão surpreendente quanto a de Caetano Veloso, que preparou “Zii e zie” em shows e no blog “Obra em progresso”. EOALD levou o público para dentro do estúdio (ou estúdios, montados em Buenos Aires, Santiago, Los Angeles e na Cidade do México), compartilhando o momento mais íntimo da gravação.

Rubén Albarrán – o cantor da banda, antes chamado Juan, Cosme ou Anônimo etc. – esclareceu na carta que acompanha EOALD (dá para ler a íntegra aqui): “Não queremos destruir a intimidade; é a intimidade ampliada para um círculo maior. […] Não somos nem seremos os mesmos na frente do outro.” Agora chegou a nossa vez, aqui no Rio, de descobrir em quem o Café Tacvba vai se transformar, diante de nossa presença “outra”, em círculo ainda mais ampliado. Também não seremos mais os mesmos.

Tomara que dançando possamos copiar a “negrita” do sambinha de “Re”, a que volta para vender peixe frito com limão na “sua costa amada”. Ela saiu pelo mundo acreditando que “tinha que viajar para triunfar, que aqui não há oportunidade, que em outro canto haverá”. Mas nunca esqueceu que “sua cadeira ao caminhar, leva o ritmo do mar.”

O requebrado do mar reaparece em EOALD, justamente na canção que há três semanas é também clipe no Vimeo. Tudo na letra de “Olita de altamar” é diminutivo (ondinha, areinha, caminhinho) em contraste com as imagens: Rubén vestido de pássaro pré-colombiano, cantando diretamente para o oceano, à beira de enorme falésia. Mandei o link para Ernesto Neto, que estava em Berlim. Meu email era um PS para nossa conversa pós-carnavalesca (pós-abundância) sobre o Eldorado. Ele me respondeu entendendo tudo, com observação (“o Eldorado se esconde no mutualismo, na simbiose, no excesso de vida, aprendi isso vendo as esculturas olmecas, astecas, maias”) e poesia: “ondinha de alto mar / ondinha para lá e para cá / quase bossa na onda / Dorival no balançar / ondinha, ondinha / que gostoso te encontrar / ondinha, ondinha / volta logo, macia e devagar”.

Círculo. Volta. Temas impressos na capa cartolina da edição especial de “Re” que meu irmão Herbert deve ter comprado no México. Está escrito, para não deixar dúvida: “repetição / reiteração / reciclagem / resistência”. Há ainda citação do antropólogo G. Bonfil Batalla: “A noção cíclica do tempo está presente na consciência da história: O passado de liberdade, da idade do ouro antes da dominação colonial, não é um passado morto, perdido para sempre, mas sim fundamento da esperança, porque no ciclo do tempo essa idade haverá de voltar.” Eldorado? Carnaval? Futuro? Que o Café Tacvba volte muitas vezes a esta nossa costa amada.

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Falando em México: depois de Café Tacvba minha música mexicana preferida hoje é feita pelo grupo eletrônico 3 Ball MTY. Seu gênero é chamado de tribal e é dançado por gente vestida de cowboy com botas bicudas. O bico é tão grande que dá voltas. Não sei como o baile tribal não vira luta livre de bicos-chicotes. O som é frenético. Para comprovar: tente não requebrar ao som do set do DJ Erick Rincón no Diplo & Friends, o melhor programa de rádio/internet da atualidade, transmitido pela 1Xtra londrina.

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Falando em Diplo: sua gravadora Mad Decent lançou “Harlem shake” em maio de 2012. Na semana passada essa música estreou em primeiro lugar na parada Hot 100 da Billboard americana, que agora contabiliza views do YouTube. Mais interessante: vale a soma das visualizações do clipe oficial e dos outros vídeos antes chamados piratas (pois não tinham, e continuam a não ter, autorização de uso da música como trilha sonora). Assim, a revista principal do business musical legaliza – antes de qualquer legislação – o que se faz fora da lei. E ainda transforma a “ilegalidade” em métrica do sucesso gerador de grana. Quanto mais pirateada mais a música subirá na parada oficial.

PercPan 2010

07/01/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 01-10-2010

Não gosto de quem legisla em causa própria. E de quem utiliza sua coluna para fazer propaganda de seus próprios trabalhos…  Mas o texto hoje é utilidade pública. Este fim de semana em Salvador e no início da semana que vem aqui no Rio, com um show avulso em São Paulo, vai acontecer o festival PercPan. Junto a diretora Beth Cayres e com Carlos Galilea, jornalista do El País e um dos maiores conhecedores da música mundial e brasileira, fiz a curadoria desta edição. Já trabalhei em outros festivais. Sei como uma boa seleção de atrações é fruto de muita batalha, mas também questão de sorte. Depende daquela banda querer vir ao Brasil, aceitar o nosso cachê, nossas datas. A América do Sul nunca é prioridade no mercado de shows. Muitas vezes, fazemos planos perfeitos. No final do processo, chegamos a uma escalação totalmente diferente. Porém, neste PercPan, todos nossos melhores sonhos se tornaram realidade. Apesar de serem nomes desconhecidos do grande público (e é por isso que me sinto na obrigação de escrever este texto – os jornais ainda não publicaram artigos sobre quem vem tocar), não pode haver festival mais bacana, em qualquer lugar do mundo. Se você tem algum interesse por música, por favor – para o seu próprio bem – não perca nenhum show. É oportunidade rara para ver nomes que dificilmente se apresentarão no Brasil novamente.

Não estou exagerando. Sou o maior crítico do que faço, sem piedade: procuro defeitos em tudo. Mas é difícil encontrar algum detalhe que não gosto neste PercPan. Não saberia indicar a melhor noite, ou uma única atração. O conjunto é o mais interessante, a proximidade entre estilos diferentes. Vou passar a fazer comentários específicos sobre cada atração. Quem quiser escutar as músicas antes, tendo que escolher o que vai assistir, pode entrar no site do festival, onde encontrará áudio e vídeo, além de mais informações.

Jon Pareles, o chefe da crítica musical do New York Times, já resumiu de forma provocadora: “A Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou, do Benin, pertence à lista muito pequena das melhores bandas de funk do mundo.” Completo: para mim é tão boa quanto a banda de James Brown no início do anos 70 ou a de Fela Kuti no final da mesma década. Era, até bem pouco tempo, um segredo africano. Foi preciso que um colecionador de vinil tenha visitado Cotonou à procura dos seus ídolos para descobrir que a banda continua na atividade, com a mesma força há quase 50 anos. Foi só em 2009 que fez seus primeiros shows na Europa e em 2010 nos Estados Unidos, para platéias eufóricas. Por aqui, este primeiro show tem significado especial por conta dos fortes laços culturais que unem as histórias do Brasil e do Benin, com tantas trocas no Século XIX (e antes) e poucas recentemente. O público brasileiro vai identificar elementos poderosos de candomblé e tambor de mina logo no início puramente percussivo do show. E depois, quando os instrumentos elétricos atacarem, vai cair num transe afrofunk de sofisticação absoluta.

O Hypnotic Brass Ensemble, de Chicago, é também uma das melhores bandas funk do mundo, apesar de tocar apenas com sopros e bateria. Não importa se toca num palco ou na rua, onde se apresenta sem microfones no meio do povo: seu suingue é irresistível, atraindo cada vez maior legião de fãs. Como os componentes do Gorillaz, que convidaram o Hypnotic para tocar em seu último disco e em sua próxima excursão. O repertório inclui versões para Fela Kuti, Outkast, Jay-Z e até Art of Noise.

Buraka Som Sistema é um coletivo luso-angolano que levou o kuduro, música eletrônica criada nas favelas de Luanda, para os mais influentes festivais do mundo e para fusões com house, dubstep e funk carioca, tendo gravado inclusive um grande sucesso com a nossa Deise Tigrona. O Nortec Collective reúne vários artistas baseados em Tijuana, na problemática fronteira México/EUA. A visão de mundo fronteiriça, inclusive a política de repressão/incentivo à imigração ilegal, influencia sua música, um cruzamento alucinado da eletrônica com o folclórico. O resultado muitas vezes parece um Kraftwerk de sombrero, embriagado pela dose certa de margaritas.

Não sei se a banda gosta desta comparação, mas é boa para atrair público: o Nova Lima está para a música afroperuana assim como o Bajofondo ou o Gotan Project estão para o tango. A combinação de pop e eletrônica com o tradicional é feita com elegância, sem perder a potência dançante jamais.  As Tucanas são mulheres que, em Portugal, misturam tradições musicais de todo mundo lusófono criando novos instrumentos de percussão e batucando também em seus próprios corpos. A Kocani Orkestar faz a festa misturando tradições ciganas e dos Balcãs.

Fui diminuindo os comentários sobre cada atração pois já estou na fronteira do espaço desta coluna. Não se trata de preferência. E ainda nem falei dos convidados brasileiros e dos apresentadores. A complexa fusão big-band-no-candomblé da Orkestra Rumpilezz, as novas big bands paulistanas reunidas no Movimento Elefantes, o pós-samba-duro-rap do EdCity, o carnaval indie do Bloco Cru: todos eles merecem colunas inteiras para comentar seus trabalhos. E os apresentadores são os bateristas Charles Gavin, João Barone e Igor Cavalera. Este último leva seu MixHell para a festa do Caneção.

O festival quer ser o MixCéu.  Bom rebolado, em todos os ritmos!


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