Posts Tagged ‘YouTube’

legal e ilegal

15/06/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 14/06/2013

Francesco “Phra” Barbaglia, mais conhecido como Crookers (se não me engano no início era uma dupla e depois virou nome artístico de um homem só), é um dos principais produtores/DJs de música animada para  as pistas de dança contemporâneas. Conheci seu trabalho em 2007 quando participou da série de discos “Funk Mundial”, arquitetada pelo teutolusotropicalista Daniel Haaksman. Sua “Soca Ali Baba” era a mistura perfeita do tamborzão com a house mais tribal, tudo embalado pela alta energia comercial da disco music italiana. De lá pra cá, sua fama só cresceu, tanto que é procurado por músicos iniciantes do mundo inteiro para dar opinião sobre seus trabalhos. Crookers resolveu criar a Ciao Records para lançar seleção do material que recebe por email.

Na entrevista para o site MTV Iggy que anunciava os primeiros lançamentos dessa gravadora, não consegui descobrir qual é seu modelo de negócios. Muitas respostas pareciam mesmo colocar em cheque a necessidade de uma indústria fonográfica: “os artistas na verdade ganham dinheiro com apresentações ao vivo. Essa é minha percepção, talvez eu esteja errado, mas você não ganha dinheiro com um disco – faz o disco para ir para a estrada e tocar seu disco.” Se é assim, talvez a Ciao Records funcione mais como agência para novos artistas, participando da receita dos shows. Não sei. Crookers pode também não saber: está fazendo uma experiência, como muitos outros de seus colegas.

Uma resposta parece ser a consequência lógica mais interessante desse ambiente experimental: “Quanto mais pessoas conhecem a música de um artista, melhor para ele. Se sua música atinge um grande público por causa do YouTube, é bom para você, porque agora pode sair com esse disco em excursão. A liberdade para publicar na rede tudo que quer é metade boa, metade ruim. Quando você ficou trabalhando por um ano, e tem uma estratégia de marketing para o lançamento, e então alguém vaza seu álbum, isso realmente lhe deixa furioso. Mas fora isso, sites como o YouTube são ótimos para descobrir música. Eu adoro. Como dono de gravadora, posso dizer honestamente que não ligo. Eu mesmo publico as músicas de meus contratados no YouTube. E você pode ganhar algum dinheiro com isso. Não é muito, mas ganha pois você tem os direitos.”

É curioso esse pensamento – combinando o tempo todo com uma prática com cara de voo cego – aparentemente contraditório (ou totalmente contraditório) que oscila entre as defesas da liberdade e da restrição com relação aos direitos. Segundo as legislações atuais de direito autoral e/ou copyright da maioria dos países do mundo, ninguém pode publicar qualquer obra de qualquer autor em qualquer lugar (não importa se é mídia “tradicional” ou não) sem a autorização, de preferência autenticada em contrato, desse autor e/ou do detentor dos direitos dessa obra (editora, herdeiros etc.). Para deixar claro: publicar uma música do Crookers no YouTube sem autorização do Crookers é ilegal. O que o Crookers disse na entrevista é que não liga para a ilegalidade. Mais: que esse tipo de ilegalidade pode ser benéfico para suas músicas e sua carreira. E ao mesmo tempo lembra: o artista pode ganhar até dinheiro com a publicação não-autorizada de suas obras.

Como eu disse na semana passada: a tecnologia está inventando – na marra – sua própria lei, que se torna prática generalizada, mesmo contra a lei oficial. Tentarei explicar como isso acontece, usando o exemplo de “Harlem shake”, que foi primeiro lugar na parada Hot 100 da Billboard na semana em que essa revista – que é a mais importante para a medição/publicidade do sucesso musical comercial oficial nos EUA – passou a contabilizar visualizações no YouTube para determinar a hierarquia dos hits. O número total de views de “Harlem shake” somava aqueles do vídeo oficial, publicado por seu autor e sua gravadora, com os milhares de outros de vídeos piratas, publicados – sem a autorização explícita do autor – por gente que se filmou fazendo a coreografia dessa música. Quando ouvimos falar que “Gangnam style” ganhou mais de 1 milhão de dólares do YouTube, temos que saber: muito desse dinheiro vem de anúncios veiculados em vídeos que para a lei oficial seriam considerados piratas.

Vivemos então uma situação ambígua, onde uma empresa determina a nova legalidade. É uma gambiarra tecnológica, feita às pressas. Que controle externo podemos ter sobre o número de visualizações? Temos que acreditar no YouTube? Eu que não tenho pressa nenhuma, voltarei novamente a este assunto semana que vem.

PS: Sobre privacidade na rede: assino (com gargalhada sombria) mais uma vez embaixo de tudo que Chris Matyszczyk escreve neste link. Outra leitura obrigatória.

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continuidade

23/02/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 07/01/2011

Ano novo. Governo novo. Descobriremos aos poucos o que há de continuidade e ruptura com o governo anterior. A maioria dos brasileiros votou pela continuidade de várias políticas públicas. Porém, são outras pessoas no poder. Divergências sempre vão existir, e é absolutamente saudável que existam. Por exemplo: em suas primeiras entrevistas, a nova ministra da cultura, Ana de Hollanda (muito bom ver uma mulher com sua história no comando do MinC), sugeriu a necessidade de revisão de projetos da gestão Gil/Juca. Ficam já claras diferenças no modo como encara a questão dos direitos autorais e sua adequação para a cultura digital. Vamos ver como a polêmica será conduzida daqui para frente e como o novo MinC dialogará com outras áreas do governo, que certamente manterão o tradicional apoio do PT ao software livre, fundamento imprescindível (justamente por sua maneira inovadora de lidar com os direitos autorais, sem nunca propor sua abolição) de vários projetos de inclusão digital de importância decisiva para a nova administração. A presidente Dilma declarou, em campanha: “quero ser presidente da inclusão social, mas também quero ser presidente da inclusão digital”.

Minha posição sobre o assunto é conhecida. Escrevi vários textos sobre direitos autorais, inclusive uma edição anterior desta coluna (09/07/2010), da qual cito o seguinte trecho: “Em artigo publicado há poucas semanas no Observer, John Naughton – professor da Open University britânica – afirma: ‘nossas leis de copyright estão agora tão risivelmente fora de contato com a realidade que estão caindo em descrédito. Ela precisam urgentemente serem reformadas para se tornarem relevantes para as circunstâncias digitais. O problema é que nenhum de nossos legisladores parece compreender isso, então isso não vai acontecer tão cedo.’ Temos oportunidade e legisladores [no Brasil] para fazer isso acontecer em breve. Por que não aproveitar? Por que se preocupar com intrigas pequenas, quando é possível fazer algo grande? Ou continuo esperando demais do Brasil?” Há, no próprio MinC, um excelente acúmulo de reflexão sobre o tema dos direitos autorais, levando em consideração a complexidade do problema e vários pontos de vistas conflitantes. Isso não pode ser esquecido agora, em busca de uma solução mais rápida e simples.

Pois não há soluções simples. O desafio digital é muito novo. Todos os dias aparecem utilizações surpreendentes da internet. Maneiras inéditas para se fazer cultura são inventadas e logo se transformam em motores da criatividade popular. Há poucas semanas (24/12/2010), aqui mesmo no Segundo Caderno, meu ídolo Leandro Sapucahy anunciava um novo projeto: “Muitos fãs pegam minhas músicas, juntam imagens, montam clipes e põem no YouTube. ‘Polícia e bandido’, por exemplo, tem dez clipes. Por causa dos meus dois primeiros discos, recebi muita música com temática parecida, porque achavam que ia gravar outro assim. Só que eu já estava em outro momento. Farei então um site. Selecionei 12 canções, vou recortar, pegar um minuto e meio de cada, escolher um grupo de garotos e cada um vai fazer um clipe e botar na rede. As músicas ficarão inéditas em disco.” Não sei se está claro para todo mundo, mas, para a Lei do Direito Autoral que temos agora, fãs não podem – sem autorização – pegar músicas dos outros para fazer clipes. Leandro Sapucahy poderia processar quem fez os clipes, ou o próprio YouTube por exibir esses clipes sem sua autorização. Mas o uso não-autorizado lhe deu ideia para um excelente projeto. Essa prática de fãs fazendo clipes é hoje tão comum, e tantos artistas a incentivam (pois os clipes viram divulgação para seus trabalhos), que a sociedade como um todo tolera o “desvio da lei”, contribuindo assim para o descrédito da legislação como um todo. Não existe democracia com lei desacreditada. Por isso a necessidade de uma revisão da lei, possibilitando (se as partes assim desejarem) a legalização do que hoje já é parte integrante e central da cadeia criativa contemporânea.

No site pessoal da agora ministra Ana de Hollanda há uma página para vídeos. O que encontramos por lá é material “do” YouTube, com recursos de “embedding” (quando “pedaços” de um site aparecem “dentro” de outros – prática também não prevista na Lei do Direito Autoral atual). A legislação atual é nebulosa. Não deixa claro o que podemos ou não publicar online, em que sites e em que circunstâncias.  Os vídeos são publicados com a melhor das intenções, para homenagear ídolos e divulgar seus trabalhos. Muitos artistas acabam aceitando que as coisas hoje aconteçam assim, sem apoio de uma lei clara. Por isso estamos todos (fãs, artistas etc.) desprotegidos, agindo no lusco-fusco de um arcabouço legal caduco. Precisamos de nova lei para nos proteger, também não criminalizando o que não consideramos crime, e encontrando maneiras ágeis de autorizar práticas comuns, sem atravancar os novos processos criativos já adotados pela maioria, e que podem ser de interesse de muitos artistas.

Claro: nada disso é contra os direitos de ninguém. Um autor vai ser sempre detentor dos direitos sobre suas criações. Ninguém pode “abrir mão” de seus direitos. Um autor, justamente por ser detentor direitos de suas obras, poderá, se quiser, autorizar previamente alguns usos dessas obras, facilitando por exemplo a criação dos clipes que fortaleceram os sambas e a carreira de Leandro Sapucahy.

nova cibercultura infantil

24/12/2010

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 11/06/2010

 

Há um mês, nunca tinha ouvido falar de Greyson Chance. Eu, a torcida do Flamengo, o planeta inteiro. Tudo bem: sua família e o pessoal da escola, na cidade de Edmond, Oklahoma, já deviam ter notado seu talento. Hoje, tudo mudou. Se você passou as últimas semanas praticando ecoterrorismo no planeta Pandora, talvez não saiba do que falo. Vou resumir. No dia 28 de abril foi publicado um vídeo no YouTube documentando a apresentação de Greyson, 12 anos, sexto ano, tocando piano e cantando Paparazzi da Lady Gaga em show do colégio. O vídeo é precário, mas o som é suspeitamente bom – dá para ouvir que o garoto canta bem. No dia 11 de maio, quando Ellen DeGeneris, apresentadora de TV, viu o vídeo (seguindo, diz a lenda, recomendação de email enviado para sua produção pelo irmão de Greyson), sua performance ainda era modesta: cerca de 10 mil pageviews. 24 horas depois, o menino já tinha feito sua primeira viagem de avião e gravava entrevista para o Ellen Show, interrompida por telefonema da própria Lady Gaga, super-afetuosa, mesmo diante de uso não-autorizado de sua música. Daí para frente a reação-celebridade-instantânea foi explosiva: atualmente são mais de 30 milhões de pageviews só no YouTube – e outros vídeos, com composições próprias, vão pelo mesmo caminho. Depois de boatos de um contrato com a Interscope (gravadora de Lady Gaga), Ellen DeGeneris anunciou a criação de seu próprio selo fonográfico que terá como primeiro lançamento o disco de Greyson Chance.

 

Chance. Gosto desse sobrenome. Sou fã de um outro cantor, bem menos fofo, chamado James Chance, que gravou, entre outras pérolas, a sintomática I Don’t Want to Be Happy. Chance significa acaso. Mas o que há realmente de acaso na história de Greyson Chance? Isso importa? Ainda sabemos distinguir o espontâneo do fabricado, a autenticidade da manipulação? A distinção tem alguma utilidade? Mesmo se tudo fosse espontaneamente autêntico, não poderíamos, sem simplificação brutal ou ingenuidade, entender esse sucesso como comprovação da vitória das novas mídias contra a coitadinha da mídia tradicional. Para começar: a ascensão está baseada num cover de Lady Gaga, ela fenômeno de massas que é resultado de uma campanha de marketing violentíssima produzida pela velha indústria. No ano passado, eu moderei o blog do Vem Com Tudo, quadro do Fantástico – comandado por Regina Casé – que parodiava a tendência dos caçadores de tendências, e era bombardeado por comentários irritantes de supostos fãs da Lady Gaga, que pareciam todos pagos para ser fãs (mas que acabaram produzindo fãs verdadeiros…) O vídeo de Greyson Chance estava no YouTube, mas foi só depois de aparecer na TV, ultimamente sempre diagnosticada como “sem salvação” (justamente por causa do YouTube), que virou fenômeno viral. E assim por diante, revelando uma tabelinha caprichada – talvez por acaso – entre o centralizado e o descentralizado, o broadcast e o de-muitos-para-muitos.

 

Acho que gosto também de Greyson Chance. Ele precisa controlar um tique nervoso que o faz balançar o cabelo pós-emo de forma sutil mas levemente inquietante. Precisa também ser menos natural em suas aparições públicas. Fico desconfiado de gente de 12 anos que se sente tão em casa dando entrevista em auditório de TV, como se tivesse estudado para isso com um batalhão de assessores de políticos. A maioria dos pré-adolescentes que conheço só tem dois vocábulos: parada e caraca. Greyson não: Lady Gaga “é uma grande inspiração pois amo sua individualidade e a maneira com que ela atrela isso ao seu talento.” Wow! Parece que ele estava se preparando para ser a capa da Caras por toda a vida. Mas tem gente que é naturalmente assim. Como o Justin Bieber

 

Justamente: Greyson tem sido chamado do novo Justin Bieber. A comparação me encantou: era a web se referindo à própria web, o mundo novo ancorado na sua novidade, sem precisar do tal mundo real. Claro: a comparação poderia ser feita com personagens mais, na falta de palavra melhor, concretas. Greyson seria o novo irmão dos Jonas, a nova Miley Cirus, o novo aluno da escola de High School Musical, de Glee ou da turma de Isa TKM. Estaria sempre em milionária companhia: se tem alguma coisa que a mídia centralizada/tradicional/velha ainda faz muito bem é produzir esses fenômenos de consumo quase infantis, totalmente multimidias. Compre o DVD, o álbum de figurinhas, a roupa, a pasta de dente, o biscoito, a boneca etc. etc. – e pense que sua vida depende disso, desse comprar desvairado, dessa necessidade padronizada, dessa emoção tão nanofabricada.

 

Não acreditava tanto na potência poética desses produtos até que fui obrigado a levar minhas sobrinhas ao show de despedida do Rebelde. De repente me vi no meio de um mar de meninas que choravam sem parar, totalmente desamparadas, perdidas, sozinhas no mundo, como se estivessem num funeral, como se aquela fosse uma escola de educação sentimental, no curso “como lidar com a Perda”. Fui tomado por uma tristeza absoluta, metafísica, a mesma que despedaçou meu coração quando vi Tristão e Isolda pela primeira vez. Só que a ópera não estava no palco, e sim na platéia. Que importa se o ponto de partida daquela emoção coletiva tão fulminante é a rapa-de-tacho de uma aventura comercialesca mexicana? Poucas vezes na vida presenciei algo tão intenso. Essa criançada pós-virtual e esses marqueteiros estão brincando com fogo, fogo muito provavelmente sagrado.

 


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