Archive for dezembro \31\UTC 2010

radicalizar Gilberto Freyre

31/12/2010

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 13-08-2010

Recebi os convites ao mesmo tempo: para  escrever esta coluna semanal e para participar da homenagem a Gilberto Freyre na Flip 2010. Pensei que era ótima oportunidade de – como dizia a Nardja Zulpério, saudosa personagem teatral interpretada por Regina Casé, citando no palco a maneira neoconcreta de falar da “empregada do Guel” – “matar dois coelhos com uma caixa d’água só”. Gilberto (é assim que seus estudiosos o chamam, apenas com a intimidade do primeiro nome) sempre funcionou em minha vida como uma enorme caixa d’água, onde em momentos cruciais encontrei substância de sobra para matar a sede de inspiração, geralmente na antropologia. Minha tese de doutorado, sobre o mistério do samba, girava em torno de seu encontro com Pixinguinha e de seu elogio da mestiçagem. Mas agora estava à procura de um outro Gilberto, aquele que tinha escrito nos jornais, com frequencia espantosa, durante quase sete décadas de sua vida, desde a adolescência até seus 87 anos. Como ele conseguiu, no meio de tantos outros afazeres e com tal desenvoltura, realizar tal façanha? Haveria algum truque para a longevidade, e contra de falta de assunto (paranoia de toda coluna), periodista?

O contato com seus artigos de jornal está hoje facilitado pelo trabalho generosíssimo da Biblioteca Virtual Gilberto Freyre, que já tornou disponível via internet uma quantidade enorme de textos que eram impossíveis de serem encontrados sem viagens para várias bibliotecas físicas, aquelas do antigo mundo real, sobretudo as localizadas em Pernambuco. Na web, é rapidinho (imagino que Gilberto adoraria essa gíria que transforma nossa pressa obsessiva atual em atividade carinhosamente diminutiva) fazer pesquisas por palavras, identificando cruzamentos entre escritos de épocas diferentes e revelando como determinadas idéias se mantiveram constantes no decorrer de sua carreira.

Que o leitor/pesquisador não se engane. As idéias fixas de Gilberto não dão nenhuma monotonia para a leitura de seus artigos. Pelo contrário: elas são o motor gerador de surpresas, paradoxos, mudanças, contradições. O autor de Casa Grande e Senzala fugia dos sistemas fechados e das conclusões óbvias como um vampiro – não os sanguinariamente corretos da saga Crepúsculo – foge da cruz. Seus livros nunca apresentam capítulos conclusivos, ou teses acabadas e definitivas. Casa Grande e Senzala, que muitas vezes foi criticado – por quem não se concedeu o prazer de sua leitura – como a descrição de um paraíso tropical, termina de repente, de forma abrupta, com a enumeração de dezenas de doenças e verminoses que infernizavam a vida dos negros no Brasil. Isso não era uma saída fácil, em cima do muro ou para chocar a audiência. Era uma determinação metodológica, única forma de poder pensar – sem leviandade – o que há de difícil e complexo na cultura, sobretudo em terras tropicais.

Muita gente falava que Casa Grande e Senzala teria inventado o mito da democracia racial. Reli o livro, com atenção redobrada, e não encontrei a expressão “democracia racial” em nenhuma de suas páginas. Agora, sem esse alvo fácil,  todo mundo ataca a idéia, essa sim tipicamente freyreana, de “equilíbrio de antagonismos” quase como se fosse sinônimo de “democracia racial”. Nada pode estar mais longe do pensamento de Gilberto: equilíbrio não seria resolução ou fusão dos antagonismos. A tendência para o equilíbrio vive em luta constante com várias tendências antagônicas. Sem trégua, sem final feliz, sem conclusão. Gilberto é “mal-resolvido” sim: por convicção, pois não existe resolução útil para os problemas que quis estudar. A realidade é que é mal-resolvidíssima.

A defesa constante do contraditório, do diverso, do não definido e do inconcluso está presente nos textos de Gilberto desde os seus primeiros artigos de jornal, enunciadas de forma muitas vezes deliciosamente petulante, e sempre com estilo impecável e esperto. Escrevendo sobre o livro História da Civilização, de seu mentor Oliveira Lima, Gilberto não se intimida e anuncia as bases bem-humoradas e movediças de seu projeto intelectual, de poligamia com muitas maneiras de ver/viver a vida: “Há no livro do Sr. Oliveira espantosas afirmativas em tom categórico. São poucas felizmente. […] As opiniões definitivas… É perigoso ter opiniões definitivas. Perigoso, porém fácil. É mais fácil formar uma opinião que fazer um laço na gravata. […] A verdade anda sempre de Paris. É rebelde à monogamia.”

Sábio e saboroso conselho para um principiante colunista. A tentação de ter opiniões definitivas, de preferência indignadas (como disse uma vez Contardo Calligaris: a indignação é a forma mais barata de inteligência…), são estupidamente fáceis, e fazem tanto sucesso… O complexo, muitas vezes, é impopular, não levanta as massas, não parece lógico… Gilberto não tinha simpatia pela lógica, descrita como “gelo resvaladio sobre cuja superfície não ouso patinar” (Diário de Pernambuco, 03-08-1924, ainda não digitalizado pela Biblioteca Virtual Gilberto Freyre). Citei tudo isso na minha fala na Flip. Lancei um desafio: vamos radicalizar Gilberto? Sim, o “elogio da mestiçagem” foi usado muitas vezes para negar o racismo existente no Brasil. Precisamos desconectar esse orgulho de ser mestiço de tudo que há de reacionário em seu passado, transformando-o em nossa arma mais poderosa, radical e original de combate ao racismo. Para começar: reler Gilberto. Com outros olhos, sem preconceitos. Como opiniões sempre renovadas, sem conclusões.

ver também: ainda Giberto Freyre – “a vidas às claras”

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resgatando o meme

30/12/2010

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06-08-2010

Quem ri, superior, dos gerúndios das operadoras de telemarketing não deve observar atentamente os vicios da própria fala ou escrita. É ruim, não é mole, ninguém escapa: grupos diferentes, com mais frequencia do que se pode imaginar, sucumbem a diferentes modismos de linguagem, que aparecem sorrateiramente e conquistam nossos cérebros com a força de uma virose, daquelas que poderiam nos derrubar na cama com febre alta. Porém, sob esses ataques linguísticos, na maioria das vezes, nem percebemos que estamos doentes. Achamos sempre que nossa saúde é inabalável, que temos controle sobre nosso palavreado, que tudo que dizemos é fruto de uma personalidade original, que se exprime como nenhuma outra. Na realidade, macaqueamos uns aos outros o tempo todo, de forma absolutamente incontrolável.

Veja o caso do “resgate”. Uma vez, irritado com o número de vezes que a palavra resgate aparecia nos títulos das matérias de um caderno cultural, mandei email para o editor, pedindo compostura. Na resposta, reconhecendo os exageros, havia a promessa de providências imediatas. Mas nada aconteceu. Toda semana leio, em letras garrafais, que fulano resgatou isso, que tal peça vai resgatar aquilo, que o DVD de sicrano apresentará um resgate importantíssimo. Acho que todo mundo acha chique, ou solene, ou inteligente, dizer que está resgatando alguma coisa. Já fiz até campanha na TV, dizendo que deveríamos voltar a usar resgate apenas em caso de acidentes. Mas não adiantou bulufas. A virose resgateira é bem mais poderosa que meus apelos.

Quando faço a comparação com doença, não estou sendo totalmente imprudente. Lembro de um livro de Dan Sperber, antropólogo francês, intitulado La contagion des idées, que tentava  – de forma ainda tímida e inconclusiva – propor uma teoria para a transmissão e replicação de determinados pensamentos, e formas de exprimir esses pensamentos, entre indivíduos e culturas. Poderia pegar mais pesado, apelando para os fundamentos genéticos do ser humano, e declarando que tudo isso, mesmo o resgate, estaria previsto numa mutação maluca de nosso DNA, ou de nossos genes egoístas que produziram nossos corpos, e todas as espécies vivas, só para se reproduzir mais “viralmente“. Então como Richard Dawkins, o sacerdote dessa religião hardcore do egoismo genético, falaria também dos “memes“, unidades mínimas de informação do mundo das idéias, que também só pensam, não apenas em beijar como no funk do MC Leozinho, mas também, como um gene, em se reproduzir, usando todo tipo de arma tóxica para colonizar novos cérebros humanos. Segundo essa crença sinistra, quando passamos uma idéia adiante estamos apenas sendo seus servos, zumbis hospedeiros do seu exército de reprodução.

Contudo, ao sugerir isso, eu estaria apenas sendo órgão reprodutor do idéia de meme – o meme do meme é uma das epidemias mais poderosas que circula na internet agora, e quando escrevi o parágrafo anterior acabei contaminando os cérebros dos leitores que me acompanharam até aqui, que vão inevitavelmente se transformar em papagaios meméticos, disseminando o vírus em suas conversas, espalhando a moda, mesmo quando a tentativa for atacá-la. E, triste notícia, não existe vacina contra idéias. Para evitar a contaminação teríamos que nos isolar hermeticamente do convívio social. Sem epidemia memética não há vida social, e a vida social pressupõe ataques constantes e ininterruptos de memes monstruosos.

Como disse, ninguém escapa. A vulnerabilidade aos memes não é função de menor ou maior sofisticação intelectual. Gente intelectualmente muito sofisticada também é vítima, o tempo todo, de novos vírus linguistico-fashionistas. Apenas sua propagação é mais sutil e camuflada. Exemplo? Conte o número de vezes que o verbo “operar” aparece em textos recentes de filósofos, cientistas sociais, críticos literários – e não apenas brasileiros: o modismo é totalmente globalizado. “O pensamento de Gilberto Freyre opera o resgate do racismo…” O pior é quando se “opera pela lógica” disso ou daquilo. E não pode haver xingamento mais cruel do que dizer que alguma coisa “opera pela lógica do mercado”. O engraçado é que as pessoas falam isso com seriedade sacerdotal.

E as malditas “questões pontuais”? Quem ainda aguenta ler, em textos de ONGs, que o autor vai “enumerar apenas algumas questões pontuais”? Há também cada vez mais “conceito” no mundo. Essa palavra escapou de debates mais acadêmicos e virou figurinha fácil em qualquer reunião para decidir qualquer coisa: qual o conceito do projeto? Até campanha de publicidade de amaciante de roupa para a Classe D e E tem que ter um conceito. O cliente adora, principalmente se o conceito “empoderar” o consumidor. Ou, obviamente, se “alavancar” as vendas…

As epidemias de memes não operam segundo nenhuma lógica conhecida… Se alguém descobrir essa lógica, ficará mais rico que o Eike Batista. Um novo vírus – por exemplo, a mania de “pontuar” os discursos – pode ter surgido num seminário do Lacan, e depois ter ganhado os corações e mentes do Baixo Gávea. Um verbo, como o “alavancar”, pode ter iniciado sua atividade viral num livro para doutrinar CEOs, foi adotado de forma irônica por uma estrela da FLIP e aí já foi: vamos alavancar nossa relação, meu amor? Ou será melhor, antes, como precaução, desenhar o seu conceito? Eu sei, essa parada de relação é muito “complicada”… Mas tudo é “válido” na vida!

Cingapura e consumo

30/12/2010

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 30-07-2010

Para a maioria dos turistas que pretende conhecer a Ásia, Cingapura é apenas um aeroporto, local de troca de aviões para destinos classificados como mais autênticos. Eu, com minha incurável alergia a tudo que se vende como tradicional, e acreditando piamente que não existe nada culturalmente puro no mundo, penso que consigo descobrir melhor a “verdadeira” Ásia, e o nosso futuro bric-asiático, no trajeto entre Potong Pasir e Yio Chu Kang, estações do metrô cingapuriano, do que em aldeia do Laos ou mosteiro do Butão. Apesar do país ser uma ilha minúscula, nunca esgotarei meu interesse pelas maneiras múltiplas como suas identidades vão se renovando velozmente, no encontro entre várias etnias e modernidades ocidentais-orientais. O fascínio poderia ser puramente econômico, aliado à crítica de seu modelo político: afinal como não ficar curioso com a experiência vertiginosa de uma ex-colônia britânica, com maioria da população miserável na sua independência de 1965, para a nação que mais cresceu em 2010 e ocupa o topo da lista de competitividade global, isso em regime de partido único, com pena de morte, e que até proíbe a entrada de chiclete em suas alfândegas? Mas não me interesso tanto por esses números e por essas leis e sim como as pessoas vão inventando maneiras sutis e criativas de viver suas vidas nas ruas, negociando diferenças, para muito além, ou aquém, da globalização autoritária.

Cingapura é um porto, é uma quebrada, ponto de encontro entre povos muito distintos uns dos outros. O país tem quatro idiomas oficiais, com escritas radicalmente variadas. No metrô, os anúncios são feitos em mandarim, malaiotâmil, inglês. Programas de televisão são legendados às vezes em ideogramas chineses e alfabeto indiano, ao mesmo tempo. Estive por lá na Semana Santa deste ano e pude, no espaço de poucos quarteirões, ouvir uma ladainha tâmil na Igreja de Nossa Senhora de Lourdes, ver o ensaio de uma orquestra chinesa na porta de um templo taoísta que se preparava para o Qing Ming, festival dos mortos chineses, acompanhar uma procissão – com sopros e percussão excelentes – dentro do templo de Vishnu, e ainda ver show de metal islâmico/malaio num parque. Não conheço outro lugar onde essas grandes religiões se mantenham tão vivas e próximas.

Mas há outra religião importante na cidade, com até maiores templos: o consumismo e os shopping centers. Não existe rua no mundo como Orchard Road. É tudo que a avenida das Américas quer ser quando crescer: um shopping atrás do outro, com todas as grifes mais poderosas lado a lado – inclusive a mesma grife com lojas vizinhas, como a Louis Vuitton do Ngee Ann City e do Ion Orchard – de uma vitrina você pode ver a outra. Isso para não falar da Hermès, da Gucci, da Prada, da Miu Miu, todas ao alcance da vista, mas de exploração inesgotável e crescimento espantoso. O Ion Orchard foi um dos quatro grandes shoppings inaugurados do final de 2009 para cá, agora todos com ciberparedes que à noite se transformam em novas fontes luminosas ou decoração de Natal permanentes. Não dá para não se perguntar: isso tudo é sustentável? Há clientes suficientes no mundo todo para bancar essa farra cara?

Nada contra shoppings, pelo contrário.  Gosto de comércio de rua, mas adoro shoppings, e acho cafona quem fala mal de shopping para parecer superior às massas (pronto, falei!) Porém, não posso deixar de me espantar com as proporções que o fenômeno ganhou sob o calor equatorial da Orchard Road. Claro que é uma vantagem ar condicionado, mas friozinho artificial não explica tudo. Na imensa livraria Kinokuniya – com suas infindáveis prateleiras de livros e revistas japoneses, chineses e americanos – encontrei parte da resposta para minhas indagações. O consumo é obsessão interna, bem explicada no livro A Vida não é Perfeita sem Compras, do sociólogo Chua Beng Huat, título que foi extraído de discurso do primeiro ministro Goh Chok Tong no Dia da Independência. Não pense que é puxa-saquismo oficial. O livro contém uma das mais espertas reflexões críticas sobre a cultura do consumo que já li, mostrando como a globalização ganha sentidos diferentes em diferentes países, e para diferentes grupos de sua população. Num lugar tão obviamente multicultural como Cingapura, que por longos anos incentivou cada etnia a cultivar as tradições de seus países de origem (originando então várias novas tradições inventadas), esses sentidos ganham complexidade estonteante.

Chua Beng Huat estuda desde como a roupa tradicional cheongsam se transformou em vestido de gala para mulheres chinesas, ao contrário do desaparecimento da kebaya para as malaias, até como as lojas do McDonald’s viraram pontos de encontros jovens por causa da característica do ensino público local de espalhar os alunos em diversas escolas da cidade não por local de moradia, mas por notas. Entendemos também porque a influência cultural japonesa é mínima, apesar do poderio econômico nipônico no país, ou quais são as razões do sucesso dos filmes de Taiwan.

Queria indicar esse livro para alguma editora brasileira. É parte de campanha antiga: pelo estabelecimento de links diretos entre pensamentos de vários lugares do mundo sem necessidade de mediação do primeiro mundo. É também para celebrar a maturidade da crítica em Cingapura. O país sabe: para crescer mais a economia precisa ser criativa. Não há criatividade sem crítica.

Malcolm McLaren

28/12/2010

texto publicado na minha coluna no Segundo Caderno do Globo em 23-07-2010

Lembrança é cruel: atrai mais lembrança.  Desde que escrevi sobre Johannesburgo na coluna da semana passada, não parei de pensar na África. Tive a sorte de conhecer várias cidades africanas, que me proporcionaram experiências incríveis, fontes de algumas das melhores e piores recordações que carregarei pelo resto da vida. Estive em Praia, Dacar, Lagos, Maputo, Bissau, Luanda, isso para falar só de capitais. Visitei também Kinshasa, quando era capital da vida noturna do continente, além de sede da ditadura terrível de Mobutu Sese Seko. Em jantar na casa de um diplomata, eu comentava meu fascínio diante do ambiente, contrastante com o clima político desastroso, de festa constante do Matonge, bairro musical da cidade, insinuando que não deveria haver lugar mais animado no mundo. O mordomo – sim, há mordomos no mundo diplomático, e eles podem se intrometer em conversas dos patrões… – ao ouvir meus elogios, desdenhou: “você fala isso pois não conhece Cartum.” Tive que me recolher a minha ignorância. Desde aquele  momento, Cartum ocupa lugar mítico no meu imaginário. Um dia ainda verei a folia dos bailes sufis nos seus desertos periféricos.

Na falta de Cartum, continuo a venerar aquele lado rumba de Kinshasa, que talvez não exista mais. Assim como aquele país não se chama mais Zaire. Tempos distantes. Na época, na minha mochila de viagem, não podia faltar um walkman. Será que os garotos de hoje em dia sabem o que é um walkman? Como fita cassete é a moda um tanto boba e retrô  do momento talvez seja novamente chique ter esses aparelhos. Os meus sempre tinham rádio, e eu gravava a programação FM e AM dos lugares que visitava. Tenho ainda o registro de um programa político de Brazzaville, a capital da República do Congo, separada de Kinshasa pelas águas do Congo. O regime político na outra margem do rio era comunista, ou uma vertente africana do comunismo. O programa era doutrinário, feito para dar às massas um gosto de Revolução e patriotismo. A música de fundo dava tons afro para o discurso verbal. Tinha algo de moderno também, como se buscasse indicar um futuro glorioso e negro para o mundo. Mas algo parecia estranho, não sabia bem o quê. De repente, a iluminação punk: identifiquei a música. Era uma das faixas do Duck Rock, o disco sensacional – um dos melhores de todos os tempos, segundo minha humilde opinião – de Malcolm McLaren, que apresentou o pop africano e o hip hop para muita gente, na contramão de um momento em que o bacana era ser gótico e triste.

Contei essa história para o próprio Malcolm McLaren, anos depois. É óbvio, ele vibrou ao ouvi-la pois sempre se pensou como um ladrão, e adorava ser roubado também. Malcolm roubou ritmos zulus, e ainda fez um coral zulu louvá-lo cantando “i’m a sex pistol man”: nada melhor do que ter sua música roubada por um regime comunista africano. Isso é que é metaroubo.

Meu encontro com Malcolm McLaren não foi menos absurdo. Tudo começou com um telefonema da Regina Casé, dizendo que tinha sido convidada para um jantar em homenagem ao sex pistol man na casa do adido cultural francês no Rio (o que seria do nosso mundo sem diplomatas e mordomos?), pois estava lançando seu disco “Paris”. Regina sabia que Malcolm era um dos meus grandes heróis e me deu de presente a oportunidade de tietá-lo.

Provavelmente por sermos seus maiores fãs no jantar, quando fomos nos despedir, pois eu queria ir ao lançamento de um livro de Hermínio Bello de Carvalho, ele disse que iria sair conosco. Há prova: uma foto na livraria Timbre, no Shopping da Gávea: eu, Hermínio, Regina, Malcolm e Paulinho da Viola! Isso é uma das coisas que mais gosto de fazer na vida: juntar gente diferente. Mas colocar lado a lado o príncipe da pureza do samba e o ladrão detonador da impureza punk, isso vai ser difícil de superar.

Malcolm morreu este ano. No texto em sua homenagem, publicado na revista Art Forum, Greil Marcus escreve o que considero ser o mais sério elogio que se pode emitir sobre qualquer pessoa: “ele fez coisas que transformaram o mundo num lugar mais interessante.” Mesmo quem nunca ouviu falar seu nome, vive de alguma maneira sob sua influência. Sem o punk, golpe de mestre de Malcolm, não haveria quase tudo de mais emblemático da arte contemporânea, de Blade Runner a Damien Hirst, passando pela última coleção da Givenchy e por qualquer rave. Não forma, nem conteúdo, mas sensibilidade. Estamos imersos na sensibilidade punk até bem mais que o pescoço ou o cabelo moicano arrepiado.

Uma das mais interessantes obras deixadas por Malcolm foi seu programa de governo, lançado em 1999, quando ameaçou se candidatar à prefeitura de Londres. Eram 16 propostas, todas aparentemente dementes, mas que ainda hoje nos desafiam plenas de bons sentidos. Gosto particularmente da idéia do carnaval na Oxford Street, da arquitetura feita por sem-tetos, de artesãos nas grande cadeias de lojas, de transporte por carros elétricos ou a cavalo, de democracia eletrônica e bares dentro das bibliotecas. Hoje, neste ambiente eleitoral chocho, mas não só no Brasil, a maioria quase absoluta dos políticos banca o bom moço, e não fala nada polêmico, tentando concordar sempre com todas as pesquisas de opinião, mesmo contraditórias. Há raríssimas propostas realmente surpreendentes, capazes de nos tirar do lugar comum certinho e produzir alguma mudança boa. Malcolm McLaren vai fazer muita falta.

urbanidade africana

28/12/2010

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 16-07-2010

Muita gente apostou que a Copa 2010, por ter sido realizada num país africano, seria o caos. As previsões preconceituosas indicavam explosão da criminalidade, com todos os turistas como vítimas, sobretudo em Johannesburgo, ainda classificada como “anticidade” mesmo por jornalistas brasileiros. Porém, campeão anunciado, os resultados em termos de violência foram insignificantes. Na falta de notícias piores, até a maconha da amiga de Paris Hilton foi celebrizada como escândalo internacional. A África do Sul conseguiu uma vitória simbólica: no imaginário global o continente negro já ocupa outro lugar, menos estereotipado. “A Fifa se vê aliviada”? Os efeitos não são apenas de mão única. Como disse Danny Jordaan, executivo da Copa, para o New York Times: “Não houve só as pessoas vindo aqui para descobrir a África do Sul. Houve os sul-africanos descobrindo a si mesmos.” O ex-presidente Thabo Mberi também afirmou que o evento pode ser interpretado como “uma declaração para nós mesmos de que temos a capacidade de mudar.” Os encontros entre culturas diferentes, quando bem realizados, têm esta capacidade: transformam, para melhor, o modo como nos vemos e como os outros nos veem.

Visitei Johannesburgo em 1997, três anos depois das primeiras eleições livres pós-Apartheid. Estava vindo de Moçambique, onde participara da filmagens de Além-Mar, série de televisão sobre lugares do mundo onde se fala o português. Tive um dia de folga. Todos os membros da equipe quiseram conhecer os animais do Kruger Park. Eu, que não tenho muita curiosidade com relação a feras rurais, resolvi descansar sozinho na selva urbana. A oportunidade era rara: sabia que Jozi, como seus habitantes típicos carinhosamente chamam a cidade, estava hospedando uma bienal de arte contemporânea.

Fiquei num hotel perto do aeroporto. Deixei minha bagagem no quarto e sai imediatamente para pegar um táxi, que me levaria ao local de uma das exposições, no centro da cidade. Quando mostrei o endereço para o taxista zulu, ele me olhou assustado, dizendo que eu não deveria ir lá de jeito nenhum, pois seria assaltado na certa. Ou pior: seria espancado, sequestrado, e iria acordar amordaçado num barraco de Botswana, país vizinho. Minha resposta: “eu me garanto: vivo no Rio, cidade perigosíssima!” O senhor cedeu aos meus temerários desejos de arte esquisita. Mas vi que sua preocupação era sincera, tanto que não me deixou sair do carro antes de até a porta do museu para se assegurar que havia realmente uma exposição acontecendo dentro do edifício. Passei algumas horas entre obras de arte, mas na saída resolvi arriscar ainda mais, passeando pelos arredores como o único “branco” (nunca quis ser branco, mas ali não tinha como convencer ninguém da minha condição mestiça) naquelas ruas. Depois de vários quarteirões entrei numa loja de discos, onde tive conversa ótima com os donos congoleses (eles ficaram encantados quando souberam que eu conhecia Kinshasa, onde tinha visto os grandes criadores da rumba zairense ao vivo), mas não encontrei nenhum disco de kwaito, a música que descobrira no rádio do táxi e era tão nova que não tinha discos à venda (e preciso declarar: uma cidade que produziu músicas tão excelentes quanto o kwaito e a mbaqanga não pode de maneira alguma ser uma anticidade). Fui então aconselhado a sair daquele bairro imediatamente. Obedeci.

Ainda bem que estive na Bienal. A exposição tem ainda hoje importância crescente, quase mítica. Acabou com a ideia de que a África só tem arte tradicional ou folclórica, revelando dezenas de novos criadores tão modernos quanto Hélio Oiticica ou Jeff Koons. A curadoria catapultou o nome do nigeriano Okwui Enwezor para a lista de mais poderosos da arte contemporânea, levando-o a comandar, anos depois, uma edição muito importante da Documenta de Kassel. Talvez essa Bienal tenha sido um dos motivos, mesmo indireto, que levaram o arquiteto Rem Koolhaas a fazer um grande estudo sobre a urbanidade de Lagos, megalópole da Nigéria que passou a ser vista como o “futuro” das cidades do mundo todo. A visão de Koolhaas por sua vez serviu de incentivo para novas pesquisas urbanísticas em cidades da África, feita por africanos e estrangeiros, que trazem algumas das ideias mais interessantes originais do pensamento de hoje, em qualquer área. Gosto especialmente dos escritos de Achille Mbembe, sobre a “superfluidez” de Johannesburgo, e de Abdoumaliq Simone, sobre a “espectralidade” de Douala. Mas indico com entusiasmo absoluto qualquer coisa que Filip de Boeck publica sobre Kinshasa, radicalizando ainda mais as ideias de Simone (corpos e pessoas, e não edifícios, como infraestrutura – pois infraestrutura não-humana ali é miragem) e propondo uma análise das cidades como “arquiteturas do verbo”. Tomara que esse afro-pessoal passe um dia no Brasil para estudar nossas metrópoles, também produtoras de precariedade e desigualdade radicais, e ao mesmo tempo de misteriosa e resistente vitalidade cultural. Gosto sempre de olhares estrangeiros que possam desafiar nossos próprios olhares, combatendo a preguiça de refletir sobre o novo de maneira nova.

NOTÍCIAS DO OVERMUNDO: Sou sempre bem surpreendido por cada música lançada pelo MC Priguissa, de Natal. Sua base é o ragga eletrônico jamaicano, mas cheio de outras bossas: reggaeton, embolada, funk carioca, e agora também carimbó e guitarrada. Confira neste link. Lançamentos da Coletivo Records, que mapeia as ecléticas novidades da produção musical potiguar.


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