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identidades

19/05/2018

Sonhos foram terrenos férteis para o pensamento alegre de Clément Rosset. Houve aquele de uma noite de maio, que deu no livro sobre o desejo. Houve, antes, outro sonho importante, na manhã de 28 de janeiro de 1998. Nele, o próprio Clément Rosset falava para um círculo de conhecidos sobre a diferença entre seu eu oficial, dos documentos, e seu eu “real mas misterioso” – pregando portanto a existência de uma diferença entre a identidade social, falsa, e a identidade pessoal, verdadeira. O espanto de aparecer em seu próprio sonho pregando uma ideia que sempre repudiou foi motivo para, quando acordado, escrever um de seus livros que mais gosto, “Longe de mim“. São apenas 80 páginas, que defendem com clareza e firmeza a alegria de não existir identidade pessoal nenhuma, mas sim – e somente – processos de produção de identidades sempre sociais, muitos e mutantes para cada pessoa, a partir das relações com outras pessoas ou grupos de pessoas.

Nada, então, de unidade. Somos, como disse Montaigne, feitos de “peças remendadas”. O efeito de conjunto é uma ilusão, produto da vontade – verdadeira – de ilusão, desse tipo de ilusão fundamental, em sua tentativa desesperada de criar fundamentos sólidos onde não é possível existir solidez alguma. Tudo ganha a aparência de um filme de terror bem delicado: “A identidade pessoal é algo como uma pessoa fantasma que assombra minha pessoa real, frequentemente próxima mas jamais tangível nem atingível […] Meu fantasma o mais familiar sem dúvida, mas enfim meu fantasma; e um fantasma nunca é mais que um fantasma mesmo se ele o visita sempre e decide algumas vezes a tomar seu lugar”. Quem parece ter personalidade firme, previsível, tem um fantasma dominante, forte ou domesticado, sempre disponível, nos mais variados ambientes, circunstâncias e companhias. Gente talvez confiável, mas sem graça.

Pois identidade de gente normal, de carne e osso, é resultado de apropriação, remix, cut and paste de vários traços psicológicos, memes vindos de fora para colonizar seus (nossos) cérebros. Até virar algo “original”:  “Copie, e se assim copiando você permanecer você mesmo, é que você tem algo a dizer, esse é o conselho que dava Ravel para seus raros alunos. A fórmula parece poder ser tomada em sentido mais amplo e se aplica à psicologia em geral: copie, e se copiando você permanecer você mesmo, é que você conseguiu forjar uma personalidade, algo como a roupagem (pelo menos aparente) de um eu.”

Em determinadas situações é vantajoso ter essa fantasia ou fantasma de personalidade. Porém, nem sempre. Na conferência mexicana “Quem sou eu?”, que veio a fazer parte do livro “Tropiques“, Clément Rosset terminava falando da astúcia de Ulisses, que escapou do ciclope Polifemo dizendo: “eu sou ninguém”. Parece truque, enganação. Não é, apenas: “a trapaça é ao mesmo tempo um triunfo da verdade; pois Ulisses, como todos nós, não é outro, no seu foro íntimo, que ninguém.”

Toda a filosofia de Clément Rosset pode ser considerada um guia para todos nós enfrentarmos esse tipo de verdade radical. Sem empulhação, ou trapaça de outro nível. Com alegria de seguir a verdade. Preciso citar aqui o epitáfio de Martinus von Biberach, que aparece no final de “Longe de mim” (e que apareceu antes em “A força maior“):

Eu venho não sei de onde,

Eu sou não sei quem,

Eu morro não sei quando,

Eu vou não sei para onde,

Eu me espanto de ser tão alegre.

*****

Pulo, espantado e alegre, e sem saber de nada, de Clément Rosset para François Jullien, especialista francês no pensamento chinês, ou especialista no pensamento europeu a partir do pensamento chinês. Eu nunca, em meu foro íntimo, acreditei em identidade pessoal, nunca quis possuir uma, assim como nunca acreditei também em identidade cultural. Por isso fiquei alegre quando encontrei o livro, também de cerca de 80 páginas, “Não há identidade cultural” de François Jullien. Leva as verdades radicais de “Longe de mim” para outro ambiente, talvez mais ressonante diante de debates políticos de agora. Com propostas bem engenhosas para mudar o rumo da conversa…

Vamos ao que interessa. Primeiro, um resumo de todo o resto: “no lugar da diferença invocada, eu proponho abordar as diversas culturas em termos de afastamento; no lugar da identidade, em termos de recursos ou de fecundidade.” Se a diferença trabalha com distinção, classificação, criando mundos fixos, isolados, fechados uns para os outros, com fronteiras nítidas entre si, e regime de produção de sentido autossuficiente, o afastamento incentiva a exploração daquilo que ficou distante, a prospecção do território desconhecido, criando tensão entre o que está separado – é portanto uma figura mais aventureira, que não fica na defensiva. O “entre” que aparece no afastamento é ativo, convidativo. Na diferença identitária, cada um se vira para o seu lado, não se interessa pelo que ficou de fora. Tudo que está fora é uma ameaça. No afastamento, o distante está sempre visível, e atrai a atenção geral.

Difícil a posição afastada, claro. François Jullien lembra: não sabemos pensar o “entre”, aquilo que não é isso nem aquilo, o que não tem “em-si”, o que não tem essência. Os gregos pensaram o “ser” (fica mais bonito ou divertido em francês – a diferença entre “être” e “entre”), tinham horror ao indeterminado (aqui François Jullien simplifica o pensamento grego?) Talvez valha a pena o esforço. Sair do ser, ir para território desconhecido, arriscado. Estamos cercados pelas armadilhas do ser, cada vez mais assombrados por seus problemas bélicos. Como o Ulisses de Clément Rosset: seria outro triunfo da verdade: afinal, cultura vive em constante mudança e transformação: se não muda, se não tem ambiguidade, contradição, morre, desaparece sem deixar saudade.

Cultura é complexa, heterogênea. A simplificação – e a homogeneização forçada – é arma inútil para qualquer batalha, mesmo a mais bem intencionada. É preciso aceitar o desafio da complexidade. François Jullien: “como caracterizar a cultura francesa, fixando sua identidade? Sob a figura de La Fontaine ou de Rimbaud? Sob a figura de René Descartes ou de André Breton? A cultura francesa não é nem uma coisa nem outra, mas ela está, certamente, no afastamento entre as duas: na tensão das duas ou digamos no entre que se abre entre elas. É esse entre aberto entre elas – desmesurado, vertiginoso – que faz a riqueza da cultura francesa, ou diremos seu recurso.” Ou ainda, mais claro e importante: “o que faz a Europa, é que ela é ao mesmo tempo cristã e laica (e mais). É que ela se desenvolve no afastamento entre os dois: no grande afastamento da razão e da religião, da fé e do Iluminismo. No entre os dois, “entre” que não é compromisso, simples intermediário, mas coloca os dois em tensão, fortalecendo um e outro. Daí vem que a exigência de fé é afiada pelo afastamento com a exigência da razão (isso mesmo numa mesma mente: Pascal): daí vem a riqueza e o recurso que faz a Europa ou melhor que “faz Europa”. Diante do qual toda definição de cultura européia, toda abordagem identitária da Europa, não é apenas terrivelmente redutora ou preguiçosa. Mas ela também fragiliza, decepciona e desmobiliza.”

Afastamento não combina com pertencimento, divisão entre o que é meu e seu. Os recursos são criados muitas vezes em um ambiente específico (penso na maioria dos estilos musicais, quase sempre nascidos em cidades bem determinadas, ou mesmo em determinados bairros dessas cidades), mas depois se tornam disponíveis para todos (a house de Chicago nos EUA vai gerar o gqom de Durban na África do Sul e assim por diante). Sim, há necessidade de politicas culturais espertas: “defender os recursos, é prioritariamente ativá-los, mais que compreender esse “defender” apenas no modo amedrontado ou defensivo.” Os recursos param de existir, desaparecem, se não são ativados, promovidos, colocados em circulação.

Tudo tendo em vista a construção de um “comum”: “uma inteligência mútua pode emergir nesse entre tornado ativo.” Não se trata de relativismo fácil, de ignorar relações de poder (que torna todo afastamento ainda mais tenso). É sim a aventura de criação de estratégias ágeis, alertas (contra a inércia): “Nem misturando (confundindo) o diverso das culturas e das formas de inteligência, nem, o que dá no mesmo, o reduzindo a uma versão mais consensual e declarada mais “tolerante”: uma forma cultural é significativa por aquilo que ela produz de afastamento e de singular e, por conseguinte, de inventivo.”

Sendo assim, só resta uma saída: constante invenção.

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extremismo cognitivo

03/01/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 03-09-2010

Cass R. Sunstein é professor de direito em Harvard. Atualmente está de licença pois virou o principal membro da administração de seu amigo presidente Obama para cuidar da elaboração de novos marcos regulatórios que lidam com problemas tão diferentes quanto a taxação de carbono ou a crise habitacional. Não se espante com essas credenciais cascudas: quando encontrar um de seus livros, leia. Sunstein escreve bem, expondo assuntos complexos e polêmicos de forma clara, leve, original. No Brasil, foram lançados recentemente, pela editora Campus, seus “A verdade sobre os boatos“, “Nudge – O empurrão para a escolha certa” (com Richard Taller, como co-autor) e “A era do radicalismo – Entenda por que as pessoas se tornam extremistas“. Nos Estados Unidos, ele publicou também outras obras cujos títulos já mostram sua inclinação pop: “Infotopia“, “República.com 2.0” ou “Por que as sociedades precisam de discordância“.  São quase livros de auto-ajuda para bons governos e para a boa vida em sociedade a partir dos impasses/possibilidades do mundo pós-digital. Ou pelo menos para entender o que parcela influente do atual governo norte-americano pensa.

Já apelidaram o núcleo da filosofia política proposta por Sunstein de “paternalismo libertário” ou “libertarianismo paternalista”. O ponto de partida é a constatação de que as pessoas não são racionais o tempo todo. Fazemos escolhas péssimas, erradas, ou somos induzidos a escolher o que não precisamos, ou o que vai nos prejudicar (por preguiça, por medo de perder dinheiro etc.), com mais frequencia do que desejamos ou podemos admitir. Diante dessa constatação, Sunstein não propõe que as políticas governamentais façam as escolhas certas no lugar das pessoas, mas que deem um “empurrãozinho” para as melhores escolhas. Essas estratégias já são usadas por marqueteiros ou por departamentos de vendas.(Tipo cartão de crédito não solicitado que chega pelo correio como se tivéssemos ganhado um prêmio – temos preguiça de ligar para o cancelamento e acabamos pagando a anuidade…) Mas poderiam ser usadas para o bem comum, como em campanhas anti-dengue ou usos mais racionais de impostos. No livro “Nudge”, há vários exemplos práticos de como isso pode funcionar.

Com menos receitas, mas não com menos material bom para pensar, o livro (presente do meu amigo Ronaldo Lemos) “A era do radicalismo – Entenda por que as pessoas se tornam extremistas” é meu atual favorito. O título em inglês é um pouco diferente, mais abstrato, porém talvez mais preciso quanto a seu conteúdo: “Indo aos extremos – como mentes parecidas unem e dividem”.  De certa forma suas preocupações já tinham sido formuladas em trabalhos anteriores, e giram em torno dos riscos que a ciberbalcanização da internet trazem para a democracia. Na rede, uma das maravilhas é a facilidade de encontrarmos pessoas que pensam como nós, que têm os mesmos nossos interesses, por mais específicos e pouco usuais que sejam esses interesses. Toda maravilha apresenta seus perigos: nesse caso o principal é passarmos a viver em microguetos, sem contato com gente que pense diferente ou que discorde de nossos pontos de vista.

O que Sunstein mostra, a partir de muitos exemplos baseados em pesquisas comportamentais e recentes acontecimentos (como a crise dos bancos e fundos de investimento em 2008), é que quando estamos entre iguais a tendência é que radicalizemos cada vez mais nossas opiniões comuns, perdendo contato de diálogo com quem pensa diferente. O próximo passo é ignorar o diferente, ou tentar exterminá-lo. Todo mundo deve ter percebido algo assim no ar dos tempos atuais. Mesmo nas áreas mais banais. Num site frequentado por indies, os comentários ficam cada vez mais indies-roxos-extremistas, e opiniões divergentes (alguém que admite ter gostado do último clipe da Rihanna…) são esculachadas, quando não censuradas, sem piedade nenhuma, e muitas vezes acompanhadas por linchamentos públicos. Isso aconte em blogs de esquerda, de direita, gays, católicos, ambientalistas, fashionistas, e assim por diante, com divisões cada vez mais esotéricas (como descreve Sunstein: “vivem na câmera de eco de seu próprio design”).

Não há solução fácil para essa situação. Sunstein admite: quando falamos com gente parecida, nos sentimos energizados, é mais fácil partir para a ação, conquistar direitos, combater preconceitos. Se ficamos muito tempo avaliando opiniões contrárias, é provável que acabemos por “relativizar” nossas próprias certezas, ficamos mais tolerantes e respeitosos, mas também podemos nos tornar mais apáticos, indiferentes, passivos. Lembro de “Um sábio não tem idéia“, livro do filósofo francês François Jullien, especialista em China. O sábio chinês se mantém aberto a todas as verdades. Nunca toma partido de nenhuma delas. Resultado: nunca dará um bom governante, pois quem governa não pode incentivar todas as posições e cotidianamente tem que fechar com uma delas.

É portanto uma questão de bom balanço. E de criações de novas ágoras (ou fortalecimento democrático de antigas ágoras, com a televisão ou o jornal) onde grupos diferentes possam se comunicar ou se encontrar, com novos canais de intercomunicação e mediação entre suas fronteiras. Sunstein dá conselhos para os governos: trocar as arquiteturas de controle por arquiteturas da “serendipidade“, que facilitem encontros por acaso. Das surpresas desses encontros não planejados é mais fácil surgir boas novidades que promovam a “diversidade cognitiva”.


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