Archive for março \29\UTC 2014

David Runciman

29/03/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 28/03/2014

Os impasses que o Congresso Nacional criou no tortuoso processo de votação do Marco Civil da Internet foram acompanhados por muitos debates nas redes sociais. Vários comentários terminavam assim: “a democracia…” As reticências podiam ser interpretadas de diferentes maneiras. Elas expressavam condenação? Ou escondiam elogio realista, considerando os problemas como parte do jogo democrático? Quem costuma ler minha coluna, já dever ter percebido que gosto de ambiguidade. Mas não neste caso. Tomo posição clara: democracia é valor central, insubstituível, no meu pensamento. Colocá-lo em dúvida é atitude muito perigosa.

Não suporto gente que diz que vivemos em “suposta democracia”. Não estou contente com a situação do país hoje, é claro. Mas temos condições institucionais para combater o que consideramos errado, e melhorar o que já conquistamos. Obviamente, isso dá muito trabalho. (A batalha do Marco Civil, desde sua pioneira redação coletiva, prova que trabalho duro pode dar bons resultados.) Zuenir Ventura foi certeiro – sábado, neste jornal – na identificação de posturas preguiçosas cada vez mais comuns no nosso ambiente atual: a “indignação resignada” e o “inconformismo conformado”, “sem poder de transformação”, ou – pior – com nostalgia da ditadura. Sua percepção: “nas palestras e debates desse concorrido ciclo sobre os 50 anos do golpe, a democracia tem sido muito questionada, principalmente pelos jovens.”

Não é só parcela da juventude brasileira que faz esse tipo de questionamento. A revista The Economist – que desde o “fim da história” muitas vezes parece se comportar como governante do planeta, inclusive pedindo demissões de ministros mundo afora (é mais uma dessas instituições globalizadas que não foram eleitas por ninguém, mas que querem atuar como nossos xerifes) – publicou recentemente ensaio de seis páginas com o título “O que deu errado na democracia”. Tudo termina em receitas para o revigoramento democrático, mas passa até por declarações de professores universitários chineses que – com petulância inflada por crescimento econômico autoritário, não tão atingido pela crise de 2008 (que ainda sacode e União Europeia e desemprega muita gente dos EUA) – agora ganham notoriedade ao declarar que “a democracia está destruindo o Ocidente”.

O ensaio da The Economist não cita David Runciman, mas muitos de seus parágrafos parecem dialogar com as ideias inspiradoras/inovadoras (mesmo sendo volta a Tocqueville) que esse professor de política e “fellow” do Trinity Hall de Cambridge publicou em “The confidence trap”, livro lançado no final de 2013 com o subtítulo “Uma história da democracia em crise da Primeira Guerra ao presente”. Nunca tinha ouvido falar em Runciman. Pesquei seu nome na conversa entre Brian Eno e Danny Hillis que comemorou os 10 anos de seminários da Long Now Foundation, organização que pretende pensar nossos próximos 100 séculos. Eno também indicou “The confidence trap” para a biblioteca que a Long Now está montando com cerca de 3.500 livros para formar um “Manual de civilização”.

Entre as epígrafes do livro de Runciman encontramos Samuel Beckett ordenando: “Tente novamente. Fracasse novamente. Fracasse melhor.” Esse é um bom resumo: a cada capítulo encontramos a história de um “fracasso” da democracia, quando muita gente poderosa anunciava que ela não tinha futuro, ou que algum regime autoritário seria seu futuro. Diante de tantas ameaças, a democracia acaba gerando duas reações oscilantes, cada uma com suas armadilhas: de um lado, a complacência (as lições do passado democrático indicam que no final vamos escapar de mais um aparente beco sem saída; então ninguém precisa batalhar pela transformação); do outro, a impaciência sem noção (a democracia promete mundos e fundos, mas sempre tem problemas de “delivery”, por isso todos seus governos eleitos geram decepção).

Em “The confidende trap”, aprendemos que, no longo prazo, a democracia se fortalece com todas essas crises e queixas, “muddling through” (expressão adorada por Eno, de difícil tradução, pois mistura resolução com trapalhada) todas as ameaças, escapando da derrocada na última hora. Essa capacidade de adaptação diante do imprevisível é uma das vantagens da democracia diante da rigidez do caminho único (e sem críticas internas) das ditaduras. Ainda que, no curto prazo, tudo pareça estar dando errado, numa sucessão de escândalos, no final – até agora – a democracia prevalece. Parabéns a todos nós pelo Marco Civil da Internet. Como sempre na história democrática, não é hora de descansar: continua a luta (primeiro no Senado) para que sua defesa da liberdade seja respeitada e aprimorada.

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Epeli Hau’ofa

22/03/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 21/03/2014

Epeli Hau’ofa virou nome de festival anual e internacional de dança. Quem for para Suva nos próximos dias não pode perder sua primeira edição, que acontece de segunda-feira a sábado no Japan-Pacific ICT Theatre. Não falei onde fica Suva de propósito. Quantos de meus leitores sabem que é a capital de Fiji? Fiji? O nome do teatro dá a dica: Pacífico. Polinésia? Melanésia? Micronésia? Depois nos espantamos com americanos que pensam que Buenos Aires é a sede do governo brasileiro… Já antecipo o troco de quem não dá o braço a torcer: “mas são lugares incomparáveis!” O Brasil é um país continente. Fiji fica na tonga da mironga do cabuletê. “É um arquipélago muito pequeno, sem importância, sem futuro.” É mesmo? Onde você aprendeu isso?

Também não apresentei Epeli Hau’ofa de pirraça. Sua importância é imensa, talvez seja o maior pensador recente no campo dos estudos culturais da Oceania que não é australiana ou neozelandesa. Quando morreu, em 2009, o então vice-presidente de Fiji, Joni Madraiwiwi, publicou artigo no jornal The Fiji Times intitulado: “Muso, mediador e mentor”. No primeiro parágrafo um elogio compartilhado por muitos: “foi o melhor ilhéu do Pacífico de nossos tempos”.

Mais do que isso: Epeli Hau’ofa mudou o significado de “ilhéu do Pacífico”. Seu texto mais citado se chama “Nosso mar de ilhas”. Começa em tom pessoal, confessional, descrevendo um impasse. Como encarar novamente seus alunos para dizer que seus países eram apenas economicamente, socialmente e politicamente inviáveis, condenados a desaparecer vítimas do tsunami de uma globalização que naquela parte do mundo tem início com as viagens do Capitão Cook? Epeli Hau’ofa propõe nova perspectiva: no lugar do pequeno e do isolado, encarar todas aquelas ilhas, ilhotas e atóis como uma grande rede, conectada há muitos séculos, com longa história de trocas cosmopolitas entre muitas culturas que não precisaram esperar pela tecnologia europeia para navegar ousadamente por vastos mares. O oceano deixa de ser percebido como algo separa, deserto: torna-se espaço de ligação e vida social.

A trajetória de Epeli Hau’ofa já é exemplo bem prático dessa maneira de ver o mundo. Nasceu em Papua-Nova Guiné, filho de missionários de origem tongalesa. Estudou em Papua-Nova Guiné, em Tonga, em Fiji, na Austrália, no Canadá. Foi secretário do rei de Tonga, Taufa’ahau Tupou IV, cuidando da documentação do palácio. Foi professor de antropologia e sociologia de outra USP, a University of The South Pacific, mantida por 12 países da região, onde também fundou o Oceania Centre of Arts, Culture and Pacific Studies, que organiza na semana que vem esse novo festival de dança com grupos fijianos, havaianos, neozelandeses, japoneses e até alemães.

O fato de, no Brasil, não conhecermos Epeli Hau’ofa ou de não sabermos quase nada sobre seu querido mar de ilhas deveria nos envergonhar. Não me canso de condenar a evidência de nosso acesso a (ou nossa curiosidade com relação a) pensamentos do “resto” do mundo ser sempre indireto, tendo que fazer escala antes no “primeiro” mundo. Precisamos ainda que universidades, curadores ou prêmios norte-americanos/europeus continuem a fazer suas descobertas para que, servilmente, as informações comecem a circular por aqui. Pena: acabamos reproduzindo em nossos debates uma escala de consagração pobre e uniforme. Isso é ser up-to-date?

Quando, navegando ao acaso, baixei o cartaz do Festival de Dança Epeli Hau’ofa, tive a curiosidade de aumentar o zoom do meu leitor de imagens digitais para observar a lista de patrocinadores/apoiadores. Ao lado do Holiday Inn de Suva, da embaixada dos EUA, há o logo do café Bulaccino e da Mirchi FM. Não sei a razão mas quis conhecer melhor essa rádio. Claro: como toda FM no planeta hoje, sua programação pode ser ouvida ao vivo por streaming. Estranhei só tocar canções de Bollywood. Pura ignorância: não sabia que mais da metade da população de Fiji descende de indianos que chegaram lá há muito tempo, e que isso é fonte de grandes problemas políticos locais. Acabei descobrindo que a Mirchi é apenas uma das estações de um grupo de mídia que tem também a Bula FM, dedicada a músicas que devem ser produzidas localmente, inclusive muito reggae, música ilhéu por excelência.

Com o som do meu computador oscilando entre a Mirchi e a Bula, e folheando virtualmente o The Fiji Times, acabei me dando conta: apesar de toda a descentralização da internet, nosso consumo de mídia continua centralizado. Com tanto jornal no mundo para ler e tanta rádio para ouvir por que a maioria não sai do New York Times e da BBC? Nosso inconsciente, colonizado, não sabem viver sem centros? Prefere o conhecido/pequeno com medo de navegar pela amplidão do oceano?

Betão Aguiar

15/03/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 14/03/2014

Betão Aguiar ficará envergonhado ao ler esta coluna. Ele é tão gente boa (não conheço ninguém que encarne melhor o espírito e a aparência de alguém MUITO gente boa) que prefere encarar seus trabalhos como esforços coletivos para que muito mais gente possa brilhar. Faz isso em diversas frentes: de músico acompanhante (hoje toca baixo nas bandas de Arnaldo Antunes e Baby do Brasil, entre outras) até educador (na Eletrocooperativa, de Salvador, na Fundação Casa Grande, do Cariri cearense, em colégio público na Vila Madalena, de São Paulo – também entre outras -, ensinando a garotada a usar tecnologia para produzir sua própria música). Há cinco anos, Betão está igualmente envolvido com grande empreitada de registro de manifestações artísticas brasileiras, chamada “Mestres navegantes”, certamente acontecimento fundamental na rede que busca reequilibrar a biodiversidade cultural do país hoje. Precisamos acompanhar atentamente seu desenvolvimento.

A qualidade de “Mestres navegantes” já tem reconhecimento internacional. Fiquei alegre, por exemplo, ao encontrar sua “Edição Cariri”, caixa com 10 CDs, em quarto lugar na lista de melhores lançamentos de 2013 do crítico Ben Ratliff, no New York Times. Justificativa: “A ideia é preservar folclore, mas esse é um folclore urgente, suingado, tempestuoso e vívido.” Concordo com os adjetivos. Tenho problemas com substantivos e verbos. Não vejo tanta utilidade na utilização da palavra folclore, que sempre tende a colocar a atividade artística num passado, todo acabado, isolado, que só pode ser preservado para não desaparecer. Prefiro pensar essas músicas, danças e festas como parte integrante da cultura contemporânea, em constante transformação. Projetos como “Mestres navegantes” colocam – de forma carinhosa, respeitosa (o respeito que devemos ter também diante de novidades como a rasteirinha do funk carioca, que por sinal parece tradição do Cariri) e politicamente exigente – essas invenções na nova roda da brincadeira digital. Isso fortalece tanto o que é classificado como folclore quanto para o que é vendido como pop.

Estou, é claro, puxando a tradicional brasa para minha sardinha relativista, sem o Betão autorizar. É que sinto enorme orgulho de ter uma pequeníssima parcela de responsabilidade na gênese do “Mestres navegantes”. No texto de apresentação da caixa “São Luiz do Paraitinga”, primeira edição dessa longa viagem pela musicalidade brasileira, Betão lembra sua participação no “Música do Brasil” (missão “folclórica” que ajudei a produzir nos anos 1990), acompanhando Moraes Moreira (Betão é filho de outro novo baiano, o Paulinho Boca de Cantor – e isso é prova que aquela comunidade hippie produziu filhos muito bacanas), como “algo que me marcou muito e que reconheço como a maior inspiração para a realização deste projeto” ao lado é claro dos registros de Mario de Andrade, Marcus Pereira, A Barca, além do contato pós-tropicalista com maracatus e afoxés. Não exagero: a existência de “Mestres navegantes” justifica plenamente a batalha de “Música do Brasil”, que nunca foi pensado com algo finalizado e sim como incentivo para que outros coletivos caíssem na estrada (com todas as dificuldades e “perigas ver”) fazendo mais gente escutar a riqueza estonteante de invenções brincantes/festivas que nosso país criou e não para de criar, provavelmente nossas mais avançadas criações.

Nesse sentido, tanto “Música do Brasil” como “Mestre navegantes” são correrias contra o tempo perdido, não no sentido de que “precisamos registrar rápido antes que morram” mas sim por haver tão poucos registros anteriores, com qualidade de captação de áudio para tornar possível reconhecer sutilezas sonoras. Por isso o tom caudaloso. “Música do Brasil” foi até modesto em comparação, pois só lançou quatro CDs, além dos programas de TV e do livro de fotografia. “Mestres navegantes – São Luiz do Paraitinga” é formada por 5 CDs; a “Edição Cariri” por mais 10. Demorei anos para escutar tudo com atenção. A Natura, patrocinadora das viagens, enviou as duas caixas para bibliotecas, educadores, ONGs. Mas todo mundo que não tiver acesso ao produto físico pode ouvir/ver todo o material em áudio no Soundcloud e em vídeo no Vimeo. Vale a pena passar horas nessa outra navegação pela internet: garanto que há surpresas para todos os gostos.

Minhas preferências: as congadas do Vale do Paraíba em muitos momentos têm o peso de um bloco afro baiano e as bandas cabaçais do Cariri tocam com a fúria punk de um Gogol Bordello. Espero as próximas edições. Vencedor do edital mais recente do Natura Musical, o “Mestres navegantes” fará sua viagem paraense ainda este ano.

Sonho: algum lugar virtual para abrigar todos os diferentes projetos de registro da biodiversidade musical brasileira, com ferramenta de busca eficiente. Há muita coisa espalhada por aí – material coletado por pesquisadores independentes, por folcloristas, pelos próprios brincantes – com risco de se perder.

Constantin Noica

08/03/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 07/03/2014

Esquerda? Direita? É cada vez mais difícil estabelecer fronteiras entre os dois lados do espectro político. Recentemente, a direita passou a copiar (a esquerda venceu?) as mesmas estratégias de marketing que antes embalavam preferencialmente opiniões de esquerda. Conservadores se vendem como transgressores, rebeldes, gente que pensa nadar contra a maré dominante. Isso combina com a pobreza do debate ideológico atual, onde oponentes se contentam com “paródia da política sectária, com todo mundo reduzindo os argumentos dos outros a caricaturas ridículas para declará-los não apenas errôneos, mas também ‘do mal’ e perigosos” (citação de David Graeber). Tento me manter distante do bate-boca histérico e inútil. Mas ao mesmo tempo procuro novos critérios para saber quem é quem, no meio dessa confusão toda.

Agrada-me especialmente esta declaração de Dimitry Vilensky, do coletivo russo “Chto delat?”: “é importante enfatizar que a pergunta ‘que fazer?’ está claramente identificada com a esquerda. Significa que admitimos que esta ou aquela situação histórica deve ser mudada, mas antes de agir fazemos perguntas e desenvolvemos um campo para a prática intelectual. A política de direita por outro lado normalmente começa com a pergunta ‘quem é o culpado?’.” Ao lado desta dicotomia culpa/ação, que envolve desejos de manutenção/mudança, vejo também cada vez mais sentido em separar o mundo em dois campos: o primeiro se contenta com a indignação (julgando que apenas o mostrar-se indignado é suficiente para apaziguar consciência culpada), o segundo – mais difícil e sem efeitos imediatos de animação das massas – se organiza em torno da busca constante pela invenção (Michel Serres afirma categoricamente: “O único ato intelectual autêntico, é a invenção”).

Outro dia, sem nenhum aviso, vasculhando estante de livraria, encontrei livrinho, intitulado “Diário filosófico”, que veio dificultar ainda mais essa minha caçada por certezas políticas perdidas. Fiquei louco por seu autor, Constantin Noica, de quem nunca ouvira falar antes. Esquerda? Direita? Difícil encontrar resposta. Poucos de seus livros foram publicados fora da Romênia (nesse sentido o Brasil é privilegiado). As escassas informações biográficas aumentam o mistério. Noica fez parte daquela turma romena da pesada, detonadora de ambiguidades/absurdos, que incluía Eliade ou Ionesco. Os comunistas o prenderam aparentemente por ter lançado livro de Cioran. Sua primeira tradução brasileira teve introdução de Olavo de Carvalho. Cada uma dessas pistas é apenas uma quebrada em grande labirinto.

Poucas vezes me deparei com pensamento tão complexo. Os exemplos de “Diário filosófico” fundem qualquer cuca quadradinha. Há a defesa de uma escola onde “não se lenciona nada.” Os jovens “vão até lá para se libertarem da tirania do professorado.” Outra visão maravilhosa, bem “meme”: a língua como “hoste”, que “quer persistir”, como “tudo que existe”, na defesa e no ataque. O francês criou Joana D’Arc (que não fala latim com seus anjos), Racine ou a diplomacia, para “conquistar”. Serres reaparece por aqui: “E quanto resiste uma língua? Quanto pode inventar.”

Isso é só aperitivo. Noica deve ser lembrado neste meu texto como reinventor de outro dualismo, colocando em luta dois modos de militância: de um lado, Abel, o filho pródigo; do outro, Caim, o irmão do filho pródigo. As diferenças se multiplicam, ao infinito. O filho pródigo se perde e se arrepende. Seu irmão se conserva e petrifica o coração. Respectivamente: um segue a ética do devir, a possibilidade de optar (liberdade), desencadeando conflitos, aprendendo com inimigos (eis aí o “substrato epistemológico” do “amai os vossos inimigos” cristão), vivendo com fome; o outro defende a ética do reconhecimento (“manter o mundo no lugar”), das escolhas já feitas (congelamento), lê Cícero e seu elogio da amizade, vive com medo. Noica prefere o filho pródigo?

Não devemos chegar a conclusões apressadas. Noica ama Ésquilo, sobretudo a Oréstia. “Um artista começa de repente do momento em que sabe dar razão a todos.” Egisto, Clitemnestra, Orestes, Apolo, Minerva: todo mundo tem razão. Até as Fúrias declaram: “Agrada-nos ter razão.” Ter razão não é ser dono da verdade. “Dogmáticos têm verdades mais que filósofos, mas não têm filosofia, porque não têm vida.”

Então quem concentra mais vida, o filho pródigo ou seu irmão? Noica sai por uma tangente deliciosa: “Porque sou eu mesmo o irmão, que procura, pela escola, a reconciliação com o mundo, com os filhos que vêm, com os filhos que saem para o mundo.” Lembre-se: é a escola onde nada se leciona. Estou biruta em farejar nessas palavras o programa para uma esquerda refundada, fazedora/inventora, não reclamona? O mundo precisa seguir adiante.

David Graeber

01/03/2014

texto publicado na minha coluna no Segundo Caderno do Globo em 28/02/2014

David Graeber: há anos, esse nome ocupa o topo da lista de assuntos sobre os quais preciso escrever urgentemente nesta coluna. Como dá para perceber, meu sentido de urgência é dilatado, seguindo a moda slow. Fiquei ainda mais relax quando Caetano e Wisnik recomendaram um dos livros de Graeber, o “Debt”, aqui no Segundo Caderno. Ganhei tempo para outros autores também cruciais na compreensão de nossos tempos acelerados. Esta semana, porém, Julian Dibbell me enviou link do texto que Graeber acaba de publicar na revista The Baffler. É a coisa mais alegre que li nos últimos tempos. Combina perfeitamente com votos de bom carnaval para geral.

Primeiro faço apresentação pouco detalhada. Talvez Graeber seja mais conhecido como inventor do slogan “nós somos os 99 %”, que ganhou mundo a partir do Occupy Wall Street. Como bom anarquista, ele contesta a autoria, afirmando ter sido criação coletiva. De qualquer maneira, foi ali no calor dos surpreendentes protestos que suas ideias deixaram de circular apenas entre antropólogos e militantes anticapitalistas para atingirem público mais amplo. Antes disso, Graeber fora notícia menor quando Yale não renovou seu contrato de professor, gerando suspeitas de perseguição política. Hoje, ensina na London School of Economics.

Minha vontade, anterior à leitura do texto da Baffler, era indicar um livrinho – apenas 105 páginas – de Graeber chamado “Fragmentos de uma antropologia anarquista”. Seria igualmente uma maneira de propagandear o catálogo da Prickly Paradigm Press, pequena editora de Chicago, especializada no lançamento de panfletos ousados de antropólogos como Marshall Sahlins, Bruno Latour ou Eduardo Viveiros de Castro.

“Fragmentos” é curto, mas cheio de boas ideias para pensar. Por exemplo: é estupidez considerar que, fora os gregos, quase a totalidade das sociedades humanas não tenha sido capaz de inventar o sistema de votação que por sua vez levaria à criação da democracia. Em assembleias as pessoas de qualquer cultura sabiam que poderiam levantar os braços e contar contras/a favor. Risco evidente: abrir espaço para “maiorias” oprimirem “minorias”. Combatendo isso, a opção mais difundida no tempo e no espaço foi a “decisão por consenso”, processo novamente experimentado em movimentos como o Occupy Wall Street.

Sou cínico como Diógenes. Por isso tendo a concordar com o comentário mordaz de Steven Shaviro em sua resenha sobre “Fragmentos”: “não vejo muita diferença entre ter que obedecer às ordens odiosas e estúpidas emitidas por idiotas sem noção (o modelo leninista, bem como o do Estado e o corporativo), e ter que se sentar em reuniões por horas a fio, enquanto os mesmos idiotas sem noção fazem objeções e qualificações intermináveis ​​para que tudo seja trabalhado antes da reunião poder chegar a um fim. É uma tortura de qualquer maneira”. Mas reconheço que fico comovido com a definição militantemente antiviolenta de anarquismo proposta por Graeber: “os meios devem ser consoantes com os fins; não se pode criar liberdade através de meios autoritários; de fato, tanto quanto possível, devemos, na nossa relação com nossos amigos e aliados, encarnar a sociedade que queremos criar.” E em outro parágrafo encontro a descrição para o melhor trabalho intelectual: “observar aqueles que estão criando alternativas viáveis, tentar perceber quais são as implicações mais gerais daquilo que (já) fazem, e então oferecer ideias de volta, não como receitas, mas como contribuições, possibilidades – como dádivas.”

Tudo sensato, a ponto de poder ser acusado de ingênuo. Então minha confissão mais verdadeira: gosto mesmo é dos momentos em que Graeber fica piradinho e vai para fora da casinha decorada com bandeiras negras anarquistas. O título do artigo da Baffler é: “Qual o sentido se não podemos nos divertir?” Começa com uma indagação: os animais (mesmo lagartas, ou formigas) brincam? Para o pensamento científico dominante, é escandalosa a proposta de atribuir aos bichos, incluindo macacos saltitantes, algo além do que trabalho/luta pela sobrevivência. E assim por diante: mesmo nossos genes são egoístas e agem como capitalistas calculando gastos e lucros. Não há lugar para o prazer pelo prazer. Não há lugar para a festa. Apenas na mente humana, átomos/moléculas/neurônios dão um “salto” e produzem consciência capaz de, de vez em quando, deixar o trabalho e cair na brincadeira. Ninguém explica essa “emergência”. Meu resumo antislow (leia o artigo inteiro!): Graeber sugere que os próprios elétrons brincam. É a estrela bailarina de Nietzsche em escala subatômica. Ideia dádiva totalmente brincante: a realidade, em seu fundamento mais hardcore, adora a folia.


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