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pessoas e conteúdos

21/07/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 20/07/2012

Já passou o bombardeio literário? Fico sempre bem impressionado com a repercussão da FLIP na imprensa. É um dos poucos eventos culturais – junto com as Fashion Weeks e o Rock in Rio – que sai dos segundos para os primeiros cadernos, disputando espaço e urgência editorial com as notícias mais importantes do dia. Considero divertido encontrar Jennifer Egan e Teju Cole, ou Carlito Azevedo homenageando Carlos Drummond de Andrade, entre inauguração pré-sal de Dilma Rousseff ou reunião de Angela Merkel para conter a crise do Euro.

Esse acompanhamento “em cima da hora” das palestras é antecedido, durante meses a fio, por muitas entrevistas exclusivas com convidados. Os anúncios das confirmações de cada escritor também ganham as manchetes. Até hoje, uma busca pelo meu nome na internet vai encontrar entre os primeiros resultados, e repetido em centenas de sites, o press-release da minha participação, em mesa secundária, na FLIP 2010. É a união entre trabalho de assessoria de imprensa impecável com receptividade extraordinária por parte dos jornalistas.

Amor eterno enquanto dura? Neste ano de 2012, notei um esfriamento no namoro FLIP-imprensa, que por pouco não virou momento tenso para discutir a relação. A participação de várias estrelas literárias foi descrita como “morna” ou “pálida”. Só me acalmei quando a Folha de S. Paulo decretou que a edição foi salva “aos 45 do 2º tempo”. O jornal reatou o romance com manchete bem assanhadinha na sua geralmente sisuda primeira página: “Com debates divertidos, Flip empolga no último dia”. (Vinha logo abaixo de “Novo presidente do Egito restaura Parlamento”.)

Divertido? Empolga? Fique tranquilo, não vou passar aqui sermão em jornalista e público que vão a encontros literários em busca de entretenimento. Não vou esbravejar contra a “lógica do consumo” que tomou conta da cobertura e da atitude da plateia mesmo em eventos de Alta Cultura. Sou contraditório (esse é meu bordão): gosto de Guy Debord e também do espetáculo. Porém, preciso defender com unhas e dentes o nosso direito ao morno, ao pálido, e – radicalizando – ao chato. Alguns dos espetáculos mais marcantes da minha vida, ou alguns livros que mais amei, foram de uma chatice avassaladora – e só atravessando vastos desertos de tédio (pois sou muito disciplinado) consegui perceber suas belezas. Se a chamada Alta Cultura perder essa permissão de nos entediar, muitas obras primas da Humanidade deixarão de ser criadas.

Também preciso defender os escritores malas. É muita crueldade exigir que, além de escrever bem, tenham talento para divertir ou esquentar plateias impacientes, com déficit de atenção ou com hiperatividade só controlada com muita ritalina. Ficou chato, não está a fim de enfrentar a chatice? Navegue pela internet do seu smartphone, mas mantenha um ouvido ligado no palco: quem sabe daqui a vinte minutos o escritor morno não solte uma frase brilhante de poucos caracteres e perfeitamente retuitável?

Sempre que participo de palestras, penso em Elizabeth Costello, personagem ranzinza de J. M. Coetzee. Suas falas públicas são desastrosas. Mesmo seu filho admite: “Não é o métier dela, a argumentação. Ela não deveria estar ali.” Mas os convites continuam, até para participar de ciclos de debates em cruzeiros marítimos. É uma escritora famosa e o mundo tem uma quantidade assombrosa e crescente de feiras literáriase eventos de “pensamento”, criando um mercado enorme que precisa ser alimentado com mais e mais atrações. O escritor aceita os convites insistentes. Dizer não a todos eles seria tão difícil quanto – para usar lugar comum em artigos sobre a FLIP – andar de salto alto nas ruas de Paraty. (Antônio Prata sugeriu, em coluna na Folha, que escritores emburrados, blasés e que não respondem “educadamente às perguntas que lhes fazem” deveriam ser tragados por um alçapão. Recomendo a mesma punição para algumas plateias, que poderiam procurar diversão alhures. Estou em dia raro de defesa de poderosos e eruditos: os escritores também voaram meio mundo, e o público muitas vezes os recebe com perguntas imbecis, que tiram qualquer um do sério. Cito novamente o filho da Elizabeth Costello: “palestras públicas atraem malucos e pirados como um cadáver atrai moscas.”)

Mesmo assim, com tanta demanda, talvez as Elizabeths Costellos do mundo (e esse tipo de maluco) tenham seus dias contados. Eventos tipo TED já nos acostumaram com conferências de 10 minutos todas embaladas por imagens velozes no power point e performances impecáveis/ensaiadas de palestrante transformado em show-man, com tiradas bem-humoradas, indignadas ou politicamente incorretas (é isso que esquenta o público) emitidas com timing perfeito. Ler demora, é chato: o grande público quer um resumo divertido.

Ou quer apenas um ponto de encontro badalado, para ver e ser visto, e depois ter assunto para comentar no Facebook. O Facebook parece ser destino e modelo para tudo (é o condomínio fechado que engoliu a cidade). Como bem identificou meu amigo José Marcelo Zacchi, hoje diretor do IETS (e uma das pessoas que mais gosto de copiar): essa rede social se tornou tão poderosa por apostar que a desculpa para interagir (FLIP, show de pagode etc.) é secundária. O que o povo quer é interação. A rede de pessoas toma o lugar da rede dos conteúdos – o que pode ser frustrante pra quem gosta de conteúdo, “mas é inegavelmente humano até o fim.”

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radicalizar Gilberto Freyre

31/12/2010

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 13-08-2010

Recebi os convites ao mesmo tempo: para  escrever esta coluna semanal e para participar da homenagem a Gilberto Freyre na Flip 2010. Pensei que era ótima oportunidade de – como dizia a Nardja Zulpério, saudosa personagem teatral interpretada por Regina Casé, citando no palco a maneira neoconcreta de falar da “empregada do Guel” – “matar dois coelhos com uma caixa d’água só”. Gilberto (é assim que seus estudiosos o chamam, apenas com a intimidade do primeiro nome) sempre funcionou em minha vida como uma enorme caixa d’água, onde em momentos cruciais encontrei substância de sobra para matar a sede de inspiração, geralmente na antropologia. Minha tese de doutorado, sobre o mistério do samba, girava em torno de seu encontro com Pixinguinha e de seu elogio da mestiçagem. Mas agora estava à procura de um outro Gilberto, aquele que tinha escrito nos jornais, com frequencia espantosa, durante quase sete décadas de sua vida, desde a adolescência até seus 87 anos. Como ele conseguiu, no meio de tantos outros afazeres e com tal desenvoltura, realizar tal façanha? Haveria algum truque para a longevidade, e contra de falta de assunto (paranoia de toda coluna), periodista?

O contato com seus artigos de jornal está hoje facilitado pelo trabalho generosíssimo da Biblioteca Virtual Gilberto Freyre, que já tornou disponível via internet uma quantidade enorme de textos que eram impossíveis de serem encontrados sem viagens para várias bibliotecas físicas, aquelas do antigo mundo real, sobretudo as localizadas em Pernambuco. Na web, é rapidinho (imagino que Gilberto adoraria essa gíria que transforma nossa pressa obsessiva atual em atividade carinhosamente diminutiva) fazer pesquisas por palavras, identificando cruzamentos entre escritos de épocas diferentes e revelando como determinadas idéias se mantiveram constantes no decorrer de sua carreira.

Que o leitor/pesquisador não se engane. As idéias fixas de Gilberto não dão nenhuma monotonia para a leitura de seus artigos. Pelo contrário: elas são o motor gerador de surpresas, paradoxos, mudanças, contradições. O autor de Casa Grande e Senzala fugia dos sistemas fechados e das conclusões óbvias como um vampiro – não os sanguinariamente corretos da saga Crepúsculo – foge da cruz. Seus livros nunca apresentam capítulos conclusivos, ou teses acabadas e definitivas. Casa Grande e Senzala, que muitas vezes foi criticado – por quem não se concedeu o prazer de sua leitura – como a descrição de um paraíso tropical, termina de repente, de forma abrupta, com a enumeração de dezenas de doenças e verminoses que infernizavam a vida dos negros no Brasil. Isso não era uma saída fácil, em cima do muro ou para chocar a audiência. Era uma determinação metodológica, única forma de poder pensar – sem leviandade – o que há de difícil e complexo na cultura, sobretudo em terras tropicais.

Muita gente falava que Casa Grande e Senzala teria inventado o mito da democracia racial. Reli o livro, com atenção redobrada, e não encontrei a expressão “democracia racial” em nenhuma de suas páginas. Agora, sem esse alvo fácil,  todo mundo ataca a idéia, essa sim tipicamente freyreana, de “equilíbrio de antagonismos” quase como se fosse sinônimo de “democracia racial”. Nada pode estar mais longe do pensamento de Gilberto: equilíbrio não seria resolução ou fusão dos antagonismos. A tendência para o equilíbrio vive em luta constante com várias tendências antagônicas. Sem trégua, sem final feliz, sem conclusão. Gilberto é “mal-resolvido” sim: por convicção, pois não existe resolução útil para os problemas que quis estudar. A realidade é que é mal-resolvidíssima.

A defesa constante do contraditório, do diverso, do não definido e do inconcluso está presente nos textos de Gilberto desde os seus primeiros artigos de jornal, enunciadas de forma muitas vezes deliciosamente petulante, e sempre com estilo impecável e esperto. Escrevendo sobre o livro História da Civilização, de seu mentor Oliveira Lima, Gilberto não se intimida e anuncia as bases bem-humoradas e movediças de seu projeto intelectual, de poligamia com muitas maneiras de ver/viver a vida: “Há no livro do Sr. Oliveira espantosas afirmativas em tom categórico. São poucas felizmente. […] As opiniões definitivas… É perigoso ter opiniões definitivas. Perigoso, porém fácil. É mais fácil formar uma opinião que fazer um laço na gravata. […] A verdade anda sempre de Paris. É rebelde à monogamia.”

Sábio e saboroso conselho para um principiante colunista. A tentação de ter opiniões definitivas, de preferência indignadas (como disse uma vez Contardo Calligaris: a indignação é a forma mais barata de inteligência…), são estupidamente fáceis, e fazem tanto sucesso… O complexo, muitas vezes, é impopular, não levanta as massas, não parece lógico… Gilberto não tinha simpatia pela lógica, descrita como “gelo resvaladio sobre cuja superfície não ouso patinar” (Diário de Pernambuco, 03-08-1924, ainda não digitalizado pela Biblioteca Virtual Gilberto Freyre). Citei tudo isso na minha fala na Flip. Lancei um desafio: vamos radicalizar Gilberto? Sim, o “elogio da mestiçagem” foi usado muitas vezes para negar o racismo existente no Brasil. Precisamos desconectar esse orgulho de ser mestiço de tudo que há de reacionário em seu passado, transformando-o em nossa arma mais poderosa, radical e original de combate ao racismo. Para começar: reler Gilberto. Com outros olhos, sem preconceitos. Como opiniões sempre renovadas, sem conclusões.

ver também: ainda Giberto Freyre – “a vidas às claras”


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