Archive for junho \28\UTC 2011

Kevin Kelly

28/06/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 17-06-2011

Kevin Kelly fará 60 anos em 2012. Fiquei surpreso ao descobrir sua idade. Até então lia seus textos como parábolas de um guru milenar, tipo Yoda, que “viveu” 900 anos. Estranho: Kelly escreve sobre o que há de mais novo, com o entusiasmo (e até ingenuidade) jovem. Não sei o que me levava à ideia de antiguidade, talvez um tom de sabedoria calma que envolve seus textos longos (mesmo os posts de seus blogs parecem não ter fim), lembrando ensinamentos religiosos, desses reveladores das profundezas sagradas do real e do virtual. Isso fica bem evidente em seu livro lançado no final de 2010, o tratado “O que a tecnologia quer”, no qual o mundo técnico é descrito – mesmo com linguagem pop – quase como a natureza em Spinoza – isto é, quase como Deus. Porém, não existe nada de místico ali. Tudo é explicado como fenômeno mundano, não mais mágico do que a produção da vida.

Nunca tinha tido curiosidade para investigar sua biografia, coisa que fiz apenas quando me sentei para escrever esta coluna. Agora entendo melhor a impressão que me causava, fora de todos os rótulos imagináveis. No seu site pessoal, encontramos logo a informação de que não tem nenhum diploma universitário. Ganhou a vida como fotógrafo por quase uma década, viajando pela Ásia e terminando como editor da newsletter dos helicópteros Bell no Irã (!). Nesse mesmo ano iraniano, visitou Jerusalém, onde teve uma conversão religiosa. Até hoje é cristão. Cruzou os Estados Unidos de bicicleta, escreveu livro de haikais, lançou uma revista para andarilhos. Só nos anos 80 encontrou com outra figura yodesca, Stewart Brand, mestre de todos os pensadores ciberculturais que mantêm seu coração hippie, mesmo sob todas as tentações robóticas.

Brand estava deixando a direção editorial da Whole Earth Review, revista que tem origem nos catálogos “do-it-yourself” dos anos 60 californianos e rompeu as próximas décadas como Bíblia contracultural, extremamente influente (há uma exposição sobre sua história em cartaz, até julho, no Museu de Arte Moderna de Nova York). Kelly surgiu como substituto ideal, e ficou no comando da publicação até o final dos anos 80, documentando toda a popularização da cibercultura e elaborando a “ideologia” libertária que deu rumo aos anos pioneiros da internet, mesmo em seu lado mais delirante, quando parecia que mergulharíamos na realidade virtual e seríamos felizes para sempre, com anarquismo – às vezes individualista, às vezes comunitarista – triunfante. Ainda tenho guardado vários números, inclusive o que trazia na capa o dossiê “O corpo está obsoleto?” Praticamente o mais interessante da pauta da revista Wired dos anos 90, da qual não por acaso Kelly foi editor executivo, está por ali, em semente. Hoje, com muitos dos artigos ainda sendo digitalizados e publicados na internet, dá para ver que nosso futuro ainda está ancorado naquelas páginas, girando em torno daquela turma, a turma de Stewart Brand e Kevin Kelly.

Essa turma experimentou as possibilidades da vida on-line antes mesmo que o acesso à internet fosse realidade fora de poucos departamentos de universidades americanas, com a criação – em 1985 – do The WELL, braço ciberespacial da Whole Earth, que funcionava basicamente como um fórum com listas de discussões sobre vários assuntos queridos dos tecnohippies. Um pouco antes, em 1984, organizou uma Conferência Hacker (talvez a primeira com esse nome) reunindo muitos pioneiros do mundo da computação pessoal, hoje frequentadores do “jantar dos bilionários” promovido pelo site Edge, já cantado em verso e prosa aqui nesta coluna. Kelly viveu esse tempo como um de seus principais e mais entusiasmados articuladores, promotores, agitadores. Continua com o mesmo espírito, até hoje, mesmo quando observa seu filho de 14 anos jogando videogame.

Seus principais livros são “Fora de controle”, “Novas regras para uma nova economia” e “O que a tecnologia quer”. O primeiro, lançado em 1994 (um calhamaço que agora está disponível online, de graça), tinha como subtítulo “A nova biologia das máquinas, dos sistemas sociais e do mundo econômico”, e já anunciava o papel cada vez mais central de Darwin e dos estudos pós-darwinianos em nosso novo século. “Nova economia” foi lançado na euforia Wired, pré-primeira-bolha, quando o ciberespaço parecia sem limites. Mesmo com tudo que aconteceu depois, ainda pode dar boas lições para tantas empresas apegadas ao mundo centralizado e centralizador do passado. “O que a tecnologia quer” tem pinta de mais ousado, de obra que vai demorar décadas para ser digerida, que nem seu autor sabe exatamente qual seu real significado.

Acompanhei a pesquisa e escritura desse livro através do blog The Technium, mantido por Kelly desde a época em que era apenas uma ideia embrionária até hoje, meses depois do livro lançado, mantido como obra em progresso. Foi uma experiência de transparência intelectual radical, sem segredos para aumentar vendas, incorporando comentários dos leitores. Mesmo tendo lido quase tudo antes, continuo a descobrir novidades no produto “acabado”, paralelo, em papel, com cheiro do que a tecnologia aparentemente deixou de querer. Pois nem a tecnologia pode prever o que vai querer daqui a pouco. Ela vai inventando/renovando o que quer a medida que evolui. Não muito diferente de nossos humanos quereres.

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Divino

18/06/2011

texto publicado em minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 10-06-2011

Neste domingo, por outra coincidência festiva de 2011 (que já juntou o Sábado de Aleluia com o dia de São Jorge), vai haver folias do Divino e quadrilhas para Santo Antônio em todo o Brasil. Sempre que observo o calendário das festas brasileiras fico impressionado. Já declarei que fazer festa é nosso maior talento nacional. Fui – irresponsavelmente – até bem mais além e dei a seguinte sugestão maluca: o Brasil poderia se especializar em festa, fazer só festa na vida. Quem estivesse triste viria para cá, cairia na gandaia e voltaria para o seu país alegríssimo da silva, deixando por aqui seus iuans, rublos e rúpias (ainda nos interessam dólares e euros?) com os quais criaríamos uma potente economia da festa non-stop, que por sua vez nos daria lugar assegurado em qualquer conselho de segurança (sem alegria não há verdadeira segurança). Quem disse que fazer festa não dá trabalho? Teríamos empregos de sobra, mas com todo mundo ganhando a vida na flauta de pífano. Deixaríamos trabalhos chatos para os outros…

Todo ano surge festa nova no Brasil, e muitas assumem dimensões “dromos”. Samba dá no sambódromo, boi-bumbá dá no bumbódromo e assim por diante, pois atrás vem gente dançando em bloco gigantesco. Gosto de citar o exemplo da festa do carneiro ao vinho. Já ouviu falar em Peabiru? É cidade paranaense, que inventou esse festejo, que quase dobra a população da cidade todo ano. Impossível dizer qual festa vai vingar, virar tradição. Algumas tradições desaparecem, outras renascem (com ou sem apoio oficial), com dinamismo sempre surpreendente. O caso da Festa do Divino é muito bom para pensar, sobretudo quando se fala em preservação de patrimônios imateriais. No Século XIX, era a maior festa do Rio de Janeiro (ver o livro Império do Divino, de Martha Abreu, para excelente história dessa manifestação popular), realizada durante um mês no Campo de Santana. Hoje, praticamente desapareceu. O carnaval tomou seu lugar como celebração maior carioca. O gosto pela festa migrou de uma data para a outra, e nem por isso o Rio perdeu sua identidade. Identidade muda constantemente, e talvez se fortaleça com as mudanças.

O Festa do Divino migrou também, geograficamente. Em alguns lugares, cresceu, em meio a muitas alianças com outras folias e crenças. Como no Maranhão, onde o Divino tem fortes conexões com o Tambor de Mina, a religião afro-brasileira local. Ou como em Goiás: a cidade de Trindade realiza uma das maiores festas do Centro-Oeste, com tudo de mais novo que há no catolicismo pós-carismático brasileiro. Mesmo em meio a tantas variantes (é preciso lembrar a tradição mais caiçara, daqui do lado, em Paraty), a coincidência da véspera de Santo Antônio de Lisboa e do dia de Pentecostes me fez lembrar de suas raízes (aéreas e mutantes, com certeza) lusitanas. Mais especificamente voltei aos textos do meu grande mestre Agostinho da Silva, português que tantos bons presentes deu ao Brasil, inclusive um plano de “fuga para frente” (expressão de Waly Salomão) que poderia muito bem orientar a história de nosso futuro.

A Festa do Divino ocupou lugar central no pensamento de Agostinho da Silva, em sua vertente mais utópica (ou realista, depende do gosto do freguês/leitor/discípulo). Preciso citar suas palavras, que poderão ser lidas como uma reza neste domingo, pedindo ao Espírito Santo uma nova ideia de desenvolvimento para o Brasil e o mundo: “O dia em que se celebra o Espírito Santo era o dia em que o povo português dizia aquilo que queria. Sabem o que ele queria nesse dia? Que todas as crianças fossem de tal modo livres e desenvolvidas que pudessem dirigir o mundo pela sua inteligência, pela sua imaginação, não propriamente por saberem aritmética ou ortografia, mas por serem eles próprios, porque eram os pequenos, as crianças que deviam dar ao mundo e aos homens, o exemplo do que devia ser a vida. E em segundo lugar eles diziam que a vida devia ser gratuita, que ninguém tinha que pagar para viver e que trabalhar para viver. Que tendo a vida sido dada de graça, era inteiramente absurdo, passar o resto da vida a ganhá-la. E eles então achavam que a vida um dia há de ser de graça para toda a gente. E ainda uma coisa extremamente importante. Iam à cadeia da terra e abriam as portas para que todos os presos saíssem, para que ninguém mais passasse a vida amuralhado e encerrado entre grades; que viesse para a vida e na vida se retemperasse e na vida renascesse para ser aquilo que devia ser. Era uma anistia talvez. Um sinal de que um dia o crime desaparecerá do mundo…”

***

Pensei em Agostinho da Silva, em como ele esteve sempre a frente de seu tempo, ao ler a entrevista que Herman Daly, economista ambiental, deu recentemente para a revista Seed. Ele diz que o Banco Mundial ficou alegre ao constatar que vários países cresceram 7% ao ano por 25 anos. Se isso continuar a acontecer a economia mundial vai quintuplicar até 2033. Chegando lá, o mundo estará satisfeito ou desejaremos mais crescimento? Ou é crescimento pelo crescimento? Agostinho da Silva imaginava que o mundo já estaria rico o suficiente para uma deliciosa bolsa-família universal. Só trabalharia quem quisesse trabalhar, por prazer. Quantas hidroelétricas vamos ter que construir até que isso aconteça? Só o Espírito Santo poderá nos sossegar?

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11/06/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 03-06-2011

Uma das armas mais poderosas da cultura da escassez, antes da abundância proporcionada pelos meios digitais, foi o segredo. Como o acesso às informações era difícil e caro, e sua distribuição monopólio de poucos canais de comunicação (ciosos de manter artificialmente um alto nível de raridade, para garantir preços também elevados num regime de muita procura e “pouca” oferta, onde poucos produziam e muitos só podiam consumir), as pessoas escondiam suas “fontes” a sete chaves, ganhando respeitabilidade por serem as primeiras a saber das coisas, prestígio “exclusivo” logo convertido em grana e/ou poder. Lembro de jornalistas de cultura no Brasil que criaram fama não pela originalidade de suas reportagens mas apenas por terem acesso privilegiado a revistas internacionais que não chegavam às nossas bancas, e cujos nomes eram mantidos na surdina. Havia estratégia parecida para o monopólio do sucesso entre as equipes de baile funk até final dos anos 80. Os discos – antes de haver funk carioca – eram todos importados, comprados a peso de ouro num mercado precário e paralelo. Quem descobria um sucesso raspava o selo do vinil para as equipes concorrentes não descobrirem o nome da música. A mesma coisa acontecia entre os sound systems da Jamaica pré-reggae, com discos de rhythm and blues importados de Nova Orleans.

Hoje, tudo isso seria impossível. Ouvimos falar de uma nova banda que algum hipster diz que vai ser a “next cool thing” no Cazaquistão e em poucos cliques já podemos ver o seu concerto da noite de ontem que tinha na platéia apenas dois caçadores de tendências japoneses. Vivemos um tempo de transparência cada vez mais impositiva e perturbadora (vide os efeitos do WikiLeaks), onde os instantes que separam a “descoberta” da “massificação” não são suficientes para ninguém tirar onda (“eu falei antes disso”), muito menos para ganhar dinheiro com isso ou emplacar a matéria na capa da revista. Marshall McLuhan, em 1974, comentando o escândalo Watergate, já decretava: “Nenhuma forma de segredo é possível na velocidade elétrica. Seja no mundo das patentes, no mundo da moda, no mundo político. O padrão se torna claro uma milha antes que qualquer pessoa possa falar qualquer coisa sobre ele. Na velocidade elétrica tudo está sob efeito do raio X. […] Não é possível mais o monopólio de conhecimento que muitas pessoas cultas tinham até poucos anos atrás. Isso não é mais possível sob condições elétricas. Tanto na vida profissional quanto na vida privada.”

A nova situação tem outras consequências interessantes. Para continuar usando o exemplo das equipes de som: se todos os DJs podem ter acesso simultâneo às mesmas músicas, milhões de músicas, então vale mais sua seleção, sua “curadoria”, separando aquilo que realmente vale a pena no meio da avalanche de novidades. As novas tendências também ficam por aí dando sopa para todos os jornalistas – o que importa não é o furo, mas o tratamento para o fenômeno, a maneira original de apresentá-lo para os leitores, conectando-o ao (ou destacando-o do) fluxo ininterrupto de “últimos gritos”. E num mundo da abundância, onde há tantos bons DJs quanto jornalistas, o valor vira função não da raridade, da exclusividade (pois mesmo para o muito caro, há cada vez mais bilionários), mas da atenção que seu “produto” (ainda que esse produto seja apenas selecionar outros produtos) pode ganhar num mundo abarrotado de coisas disputando “consumidores” também famintos de atenção e assim por diante, ao infinito. Precisamos então pagar para gente que preste atenção por nós, para que não percamos nada que realmente possa nos interessar, e também possa mudar nossas vidas, como dizem que até uma boa canção – ou um perfume – é capaz.

Por isso acho que as revistas têm longo futuro. Elas prestam atenção por nós, poupando nosso tempo. O que é escasso não é mais a informação, ou o acesso à informação; o que é raro hoje é tempo para prestar atenção. Sendo assim, uma revista pode escolher caminhos variados para ser bem-sucedida. Um deles é cobrir um determinado segmento da oferta das “coisas”. Gosto por exemplo da Giant Robot (fui até na festa de seu primeiro aniversário, em Los Angeles, 1995), a melhor fonte de informação sobre cultura pop asiática fora da Ásia. Tento ler também todos os números da Bidoun, com campo de cobertura mais abstrato, que talvez possa ser definido por um cosmopolitismo experimentalmente moderno quase sempre de origem árabe, mas não necessariamente islâmico. Já falei aqui na coluna também da The Wire, leitura essencial para quem precisa de música aventureira.

Outra possibilidade é um olhar mais generalista, para o qual tudo de interessante interessa. Veja o caso da 032c, revista semestral de língua inglesa editada em Berlim, que está completando 10 anos de atividade. Foram portanto 20 números, o último deles ainda se encontra em bancas e livrarias cariocas que costumam vender revistas importadas. Nas suas páginas, os suspeitos de sempre, poderosos do mundo da arte contemporânea: Rem Koolhaas, Juergen Teller, Hedi Slimane, Hans-Ulrich Obrist, sempre eles. Mas tudo com olhar animado, que nos faz acreditar que vivemos no mais criativo dos mundos possíveis. Além disso, o dossiê sobre Rei Kawakubo, da Comme des Garçons e uma das pessoas mais inteligentes do planeta, deve ser lido como um grande tratado sobre o que realmente merece nossa atenção.

honestidade

10/06/2011

texto publicado no caderno Mais! da Folha de S. Paulo em 06-09-2009

Governos de vários países estão criando leis para que suas alfândegas possam apreender computadores com softwares, músicas e filmes “piratas”. Estou tranquilo: não há nada não autorizado em meus hard disks. Mesmo canções: escuto aquelas que seus autores disponibilizaram livremente na rede. Ou pago por imagens, sons, textos, códigos quando avalio que o preço é justo. Caso contrário, parto para outra: há uma abundância de material interessante para se baixar legalmente e de graça por aí.

O problema é que, cada vez mais, tenho me sentido punido – ou tratado como otário – justamente ao agir dentro da lei, e mesmo depois de pagar para ter acesso a determinados bens protegidos por leis que dizem defender criadores/autores/ artistas.

Para entender o patético do meu empenho na honestidade, vale a pena narrar um episódio recente, cheio de lições morais bem contemporâneas.

Vladimir Jankélévitch foi filósofo e também pianista. Numa de suas melhores entrevistas, as respostas eram dadas tanto pela fala quanto por interpretações de obras de seus compositores favoritos: Debussy, Fauré, Ravel. Tenho uma transcrição de suas palavras, interrompidas por trechos de partituras, publicada em livro nos anos 80 [“Vladimir Jankélévitch”, em francês, ed. La Manufacture, 1986].

Meu exemplar está com páginas soltas de tanto que foi relido. Volto sempre a momentos como aquele em que Jankélévitch declara que gosta mais da luminosidade de Tolstói do que dos subsolos de Dostoiévski: “Estar em plena luz, na evidência, na presença total, quando as coisas estão imóveis no ar do meio-dia, é lá que o mistério é mais perturbador”.

Ou a resposta sobre a nostalgia: “O tempo revela o charme das coisas sem charme. É por isso que o tempo é poeta. Só os poetas e pintores são capazes de conhecer de imediato o charme do presente. […] Utrillo pintava um poste ou um muro num subúrbio sórdido… e isso fazia sonhar. O que os poetas e pintores sabem traduzir no presente, o tempo o traduz para nós que não somos nem pintores nem poetas. É o tempo que é poeta para nós”.

Queria comprar uma nova edição do livro. Procurei nas lojas da internet: acho que está esgotado. Lembrei que a entrevista tinha sido gravada originalmente para o rádio. Conseguir uma cópia do arquivo sonoro seria fenomenal. A conversa começa com Jankélévitch afirmando que seu meio de expressão é o oral (“meu negócio não é a escritura”). O áudio apresentaria também seu piano. Fui então parar no site do Instituto do Audiovisual (INA) francês, que anda digitalizando e vendendo o acervo das TVs e rádios públicas como a France Culture. Só havia trechos da entrevista que procurava. Descobri que o que foi publicado no meu livro era um remix de várias entrevistas.

Como resultado da busca, encontrei o vídeo da edição de “Apostrophes”, com Jankélévitch (não) respondendo à pergunta “para que servem os filósofos?”. Resolvi baixar para ver o programa completo. Custava 5 euro (R$ 13). Caro para algo que, se não me engano, foi pago pelo dinheiro público francês há décadas. Mas sei que o trabalho de digitalização e disponibilização desse tipo de acervo não é barato, nem simples.

Resolvi colaborar. Fiz meu cadastro e a compra. Sempre receamos passar dados para novos sites, que não sabemos se são realmente seguros. É questão de confiança: esperamos que seus administradores vão ter cuidado com as informações. Mas mesmo tendo fornecido até o número do cartão de crédito, logo descobrimos que o INA não confia no comprador.

Não tinha sido informado (ok, não li com atenção os termos de uso) de que precisaria baixar outro programa para ver o vídeo já pago. Resultado: novo cadastro em outro site desconhecido e a obrigação de instalar um programa no qual também precisamos confiar (temos mesmo a certeza de que o programa não vai transmitir informações de nosso computador para sua empresa?). E, depois disso tudo, antes de ver o vídeo ainda somos obrigados a ultrapassar uma mensagem policial nos ameaçando com o aviso de que o arquivo contém uma marca d´água digital que nos identificaria caso seja utilizado ilegalmente. Somos tratados todos como potenciais bandidos, como piratas de vídeos filosóficos.

Não vi a entrevista, indignado. A mesma indignação moral que me causou outra compra também motivada por Jankélévitch. Na entrevista-remix de meu livro despedaçado, ele conta que chora ouvindo música, e que as lágrimas sempre acompanham qualquer audição de “L´enfant et les sortilèges”, de Ravel.

Outro dia, numa das poucas lojas de discos que nos restam, deparei com uma nova gravação dessa obra, com a Filarmônica de Berlim conduzida por Simon Rattle. Comprei, apesar do preço extorsivo (três vezes mais do que no exterior). Estou virando quase uma central de filantropia para modelos de negócios artísticos decadentes.

Na capa, dizia ser um OpenDisc: “Insira este CD no seu computador para acessar o EMI Classics Club. Acesse material bônus, sessões de escuta exclusivas e mais”. Claro: o acesso não é imediato, apesar do preço que pago pelo CD físico. É preciso fazer o cadastro, é preciso concordar com a política de privacidade e termos de uso sinistros. O “disc” não tem nada de “open”. Como ninguém lê esses contratos, vou transcrever aqui algumas passagens. Tudo começa aparentemente “do bem”:

“O OpenDisc respeita sua privacidade. Para atendê-lo(a), precisamos coletar algumas informações pessoais. Nós nos preocupamos em proteger essas informações. Veja abaixo nossos compromissos em seu favor”.

Para ver os compromissos – “em nosso favor”–, precisamos clicar em vários links. Com que finalidade as informações são coletadas? “Essas informações são essenciais para nós, bem como para o artista e para a gravadora, para que forneçamos para você serviços com qualidade e que o conheçamos melhor.” E ainda: “Ocasionalmente, usaremos suas informações pessoais para convidá-lo(a) a participar de pesquisas e concursos para medir a sua satisfação”.

Papo furado. Quem disse que eu quero ser conhecido melhor ou convidado para qualquer coisa? CEP e data de nascimento não são necessários para o serviço de ver vídeos e ouvir música. Eles me obrigam a me tornar conhecido, arquivando meus dados. É o preço que pago para ter acesso ao material que me foi propagandeado como “bônus” ou “aberto”.

A política de privacidade, que na realidade impõe a abdicação da minha privacidade, diz também que minhas informações não serão fornecidas para terceiros, mas podem ser enviadas às subsidiárias da gravadora em todo o mundo. Eu tenho que confiar nessas subsidiárias todas, que nem sei quais são. E a recíproca não é exatamente verdadeira. Sou tratado com extrema desconfiança: tanto que não posso reproduzir, “em qualquer meio”, o conteúdo a que tiver acesso.

Desisti de ter acesso. Como desconfiam de mim, vou desconfiar também. Não sou ingrato. Pelo contrário: tenho enorme gratidão pelos momentos de intensa alegria e iluminação cultural que me foram proporcionados pelo trabalho das grandes gravadoras. Acho que as gravadoras também deveriam me agradecer: fui consumidor ideal, comprei milhares de discos (e comprei o mesmo disco várias vezes: em vinil, em CD…), ajudei a divulgar a carreira de muitos artistas etc. Mas tudo tem limite.

É pena ver uma história de criação tão rica terminando de modo tão mesquinho, com o público sendo tratado tão mal, até por políticas de privacidade tapeadoras. Quem paga é feito de bobo. Essas políticas parecem querer nos ensinar que a honestidade “não compensa”.

Será muito difícil perceber que tudo isso é suicídio comercial, é perda de credibilidade total? Volto à filosofia moral de Vladimir Jankélévitch. No seu livro “O mal”, ele identifica uma gradação da malvadeza. A falta é um acidente, uma negligência: pode acontecer com todo mundo. Já o vício “é o movimento da falta, continuado e tornado crônico” – o vício está para a falta assim como a paixão para a emoção momentânea. Mas ainda pode ter cura.

Já a méchanceté (maldade, ruindade…) é o baixo absoluto, o zênite do mal, uma “qualificação do caráter”, algo que toma conta da totalidade da pessoa. Aí não tem mais jeito… Diante da cultura digital, muitas empresas já cometeram muitas faltas, se tornaram viciadas nessas faltas e por isso estão se transformando em marcas (brands, encarnações etc.) da maldade, afastando mesmo quem se empenha em seguir todas as regras.

Ler Jankélévitch deveria ser obrigatório para seus diretores e advogados. Começando com os livros “A má consciência” e “A mentira” até chegar, quem sabe, no “Tratado das Virtudes”, que está completando 60 anos de sua primeira publicação.

indignado

04/06/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 27-05-2011

Interessante perceber a coincidência, quando abri os jornais do dia 18: na Folha de S. Paulo, Marcelo Coelho escreveu brilhantemente sobre a moda do politicamente incorreto e, aqui no Segundo Caderno, Francisco Bosco lançou seu manifesto “tô fora” [leitura online só para assinantes] contra a busca desesperada, cada vez dominante em certo debate de ideias nacional, por polêmicas. Há tempos eu planejava um texto semelhante, comentando o mesmo fenômeno, pois considero os sucessos tanto do “politicamente incorreto” quanto das “polêmicas” sintomas de um problema mais profundo e triste.

Já esbarrei nesse assunto quando citei outra coluna da Folha, de Contardo Calligaris: “Ora, a indignação é a forma mais barata de inteligência: ela substitui a complexidade pela irritação dos humores.” Claro, conheço também o sucesso que o livro francês “Indignai-vos”, de Stéphane Hessel, tem feito mundo afora. E sei que, no Brasil, há motivos de sobra para ficarmos indignados. Mas indignação não basta por si só, nem pode ser pensada como finalidade da ação política/moral. Ela só faz sentido se for o início da ação, que crie soluções e novas maneiras de transformar o mundo. Quem abre o Twitter, ou quem lê cartas de leitores dos jornais, pensa que o Brasil é terra de indignados. Mas isso não quer dizer politização. A indignação brasileira atual muitas vezes é apenas o exercício da maledicência. Um jogo bobo: sou mais corajoso, nado contra a maré, pois falo mal de todo mundo. E tudo fica como era antes.

Há cada vez mais seminários e mesas redondas no Brasil. Muitos organizadores são bem-intencionados. Contudo, o espírito denunciado por Francisco Bosco (ele citou a seguinte recomendação de um mediador: “Podem polemizar, detesto mesas em que há consenso, em que todos dizem a mesma coisa”) realmente anda impedindo que os debates de tornem produtivos, ou mesmo surpreendentes. Ninguém discute nada, ou aprofunda nenhuma “questão”. A moda é a do show indignado: o expositor abusa do estilo bombástico já testado com outras palestras, falando mal de qualquer “poderoso”. A platéia adora. O efeito é catártico. Apaziguador. Bater palmas é suficiente, dever cumprido. Não é preciso fazer mais nada, além dessa manifestação barulhenta de indignação “solidária”. Então bater palmas funciona, no final das contas, como lavar as mãos: o que vem daqui para frente não tem nada a ver conosco, é coisa para os políticos decidirem e cuidarem por nós. A indignação se torna o caminho mais fácil. Ninguém quer saber de discursos complexos, argumentações entediantes para se acompanhar, levando em conta pontos de vistas diferentes. O público fica contente com slogans pseudorevolucionários, com tiradas engraçadas, com frases destemperadas, do contra. A simplificação dá conta do nosso negócio, é o curto-e-grosso que nos satisfaz.

Assim se explica o sucesso tanto do politicamente correto quanto do politicamente incorreto. Os dois simplificam o mundo. Os incorretos viram Dom Quixotes lutando contra moinhos de ventos transformados em monstros pelas suas próprias cartilhas pretinhas básicas. Inventaram o mito de que o mundo é dominado pelo politicamente correto, e assim sua cruzada fica mais heróica. Francisco Bosco identifica outro mito que justifica muita indignação pré-fabricada: “parte-se do princípio que existe uma prática cordial no debate intelectual brasileiro.” Então multiplicam-se os indignados anticordialidade dominante. É uma estratégia de marketing: faz sucesso em blogs e em cadernos culturais que acham que polêmica vende jornal, ou atrai visitantes. Algumas frases do texto de Marcelo Coelho foram tão retuitadas (autocrítica?) que já se tornaram ditados populares contemporâneos. Por exemplo: “Ser ‘politicamente incorreto’, no Brasil de hoje, é motivo de orgulho. Todo pateta com pretensões à originalidade e à ironia toma a iniciativa de se dizer ‘incorreto’.” Não é possível ser mais preciso. Apenas acrescentaria: muitas vezes os corretos também pensam que o mundo é dominado por incorretos, e querem contrariar o espírito dominante. Contrariar para fazer sucesso (“só para contrariar”), ser querido, ser amado, ser fofinho (há muita fofura indignada por aí).

Onde tudo isso começou? Seria fácil dizer: Paulo Francis. Mas ele também era uma consequência, não a “causa”- mesmo com efeitos duradouros. Somos sim geração formada, direta ou indiretamente, por Paulo Francis – ou pior, pela caricatura de si mesmo que Paulo Francis inventou em seus últimos anos de colunista. Era divertido: esperar seu próximo texto para descobrir quem seria o espinafrado da vez. Até que aquilo ficou muito óbvio, e talvez por isso mesmo virou padrão, produção em série jornalistas e blogueiros que acham charmoso não gostar de nada que acontece no Brasil, que ganham fama e tietes por serem indignados com tudo que faz sucesso em nosso país, que deveria para sempre não ter jeito – se desse certo, do que iriam reclamar? Deve ser muito triste viver num lugar que não nos interessa em nada. Em seus textos, viramos tristes trópicos de verdade, cheio de exilados espirituais, que me dão enorme pena pois nenhum deles é capaz de construir carreiras sólidas nos lugares que veneram (e deve ser horrível ser condenado a viver num lugar onde tudo é “lamentável”). Nem Paulo Francis conseguiu ser colaborador do New York Review of Books. Isso alimenta mais raiva. Mais indignação e maledicência. Como Francisco Bosco: tô fora. Nesta coluna falo bem do que acho bom, do que quero que dê certo (“não tenho tempo a perder”). Totalmente pós-indignação.


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