Ursula K. Le Guin

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 17/10/2014

Ursula K. Le Guin (UKL) fará aniversário de 85 anos na terça-feira. Com o aumento da idade, ela tem a sorte de ver sua obra literária cada vez mais consagrada. E não apenas no quadradinho da ficção científica e “fantasia”, onde já ganhou todos os prêmios mais importantes (seis vezes o Hugo, cinco vezes o Nebula, isso só para citar alguns – a lista completa está no seu detalhado web site). No mês passado recebeu, das mãos de Neil Gaiman, a medalha de “contribuição às letras americanas”, a mais importante honraria concedida pela Fundação Nacional do Livro dos EUA. Tomara que isso incentive mais traduções de seus livros no Brasil.

Em busca rápida nos catálogos das livrarias brasileiras só encontrei com certeza de entrega, e em português, exemplares de “A mão esquerda da escuridão”, da editora Aleph. É pouco, mas talvez seja a melhor introdução para o vasto mundo de UKL. Está certamente na minha lista de leituras preferidas, em qualquer gênero, inclusive antropologia (UKL é filha de Alfred L. Kroeber, um dos fundadores dessa disciplina). Por acaso tem a ver com o tema do texto que publiquei nesta coluna sete dias atrás: as relações de gênero no mundo contemporâneo.

Sim, tenho consciência: a história se passa no “ciclo haniano 93”, “ano ekumênico 1490-97”. Alguns leitores fizeram cálculos e traduziram a data para 4870 depois de Cristo. Porém, segundo a introdução que UKL escreveu para a edição de 1976 desse livro (originalmente de 1969), seu objetivo é realizar um “experimento mental”, não para prever o futuro, mas sim para “descrever a realidade, o mundo atual”. Não se trata de profecia, nem de extrapolação de características do presente tentando imaginar como se desenvolverão daqui a muitos séculos. O mundo imaginário, mentiroso (“o trabalho do romancista é mentir”), coloca o leitor em modo experimental (“quando lemos um romance ficamos loucos”) que abre a possibilidade de penetrar na verdade do agora.

Então, em “A mão esquerda da escuridão”, acompanhamos Genly Ai, emissário de Ekumen, uma federação galática, no primeiro contato oficial e aberto com Gethen, planeta gelado (a decisão de prosseguir ou não com o contato seria, democraticamente, do contatado). Curiosidade maior: os alienígenas são todos andróginos. Só no período de cio, a partir do encontro de um casal, é que, aleatoriamente, cada um deles ganha características sexuais masculinas ou femininas. Sendo assim, toda pessoa pode ser mãe e pai ao longo da vida, vivenciando a realidade tanto como homem tanto como mulher. UKL explica sua estratégia: “isso não significa que estou prevendo que todos seremos andróginos dentro de um milênio, mais ou menos, ou anunciando que deveríamos, ora bolas, ser andróginos. Estou apenas observando, da maneira peculiar, tortuosa e experimental própria da ficção científica que, se você olhar para nós em certos momentos, dependendo de como está o tempo lá fora, já somos andróginos. Não faço previsões, nem passo receitas. Descrevo.”

E descreve muito bem o seu presente. Tanto que não é demérito nenhum dizer que sua descrição é datada. Em vez do futuro, encontramos ali nosso passado, e podemos entender melhor como chegamos até aqui. Genly Ai, o embaixador de 4870, é na verdade o melhor retrato de um homem do final dos anos 1960, perplexo diante da massificação do feminismo. Hoje homens cultos como ele (até pelo sucesso do pensamento antropológico), especialistas na tradução de diferentes pontos de vista, nunca escreveriam, em documentos oficiais, impressões tão machistas sobre outras culturas, como se feminilidade ou masculinidade fossem posições apenas biologicamente determinadas. Mesmo assumindo, como está explícito no primeiro parágrafo de seu relato, que “a Verdade é uma questão de imaginação.”

Por exemplo, seu pensamento sobre um nativo: “o desempenho de Estraven fora feminino, cheio de charme, tato e falta de substância, capcioso e astuto. Seria, na verdade, essa feminilidade suave e dócil que me fazia desgostar e desconfiar dele?” Em outras palavras: no seu entender as mulheres seriam, por natureza, suaves, dóceis, charmosas, capciosas, astutas e – hoje não lemos sem choque – sem substância. Do outro lado, a guerra (o contrário de civilização) e a competitividade seriam características biologicamente masculinas.

Depois de tanto tempo de “desconstrução” (palavra política da moda) feminista já podemos pensar mais como os andróginos alienígenas do que com o emissário antiquado? Este é meu experimento sobre o experimento de “A mão esquerda da escuridão” (livro que ilumina outros aspectos de um tempo de Guerra Fria e misticismo hippie). Faça suas próprias experiências. No aniversário de UKL, dê este presente para você mesmo: viaje para o gelo do planeta Gethen.

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