Posts Tagged ‘ficção científica’

Ursula K. Le Guin

18/10/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 17/10/2014

Ursula K. Le Guin (UKL) fará aniversário de 85 anos na terça-feira. Com o aumento da idade, ela tem a sorte de ver sua obra literária cada vez mais consagrada. E não apenas no quadradinho da ficção científica e “fantasia”, onde já ganhou todos os prêmios mais importantes (seis vezes o Hugo, cinco vezes o Nebula, isso só para citar alguns – a lista completa está no seu detalhado web site). No mês passado recebeu, das mãos de Neil Gaiman, a medalha de “contribuição às letras americanas”, a mais importante honraria concedida pela Fundação Nacional do Livro dos EUA. Tomara que isso incentive mais traduções de seus livros no Brasil.

Em busca rápida nos catálogos das livrarias brasileiras só encontrei com certeza de entrega, e em português, exemplares de “A mão esquerda da escuridão”, da editora Aleph. É pouco, mas talvez seja a melhor introdução para o vasto mundo de UKL. Está certamente na minha lista de leituras preferidas, em qualquer gênero, inclusive antropologia (UKL é filha de Alfred L. Kroeber, um dos fundadores dessa disciplina). Por acaso tem a ver com o tema do texto que publiquei nesta coluna sete dias atrás: as relações de gênero no mundo contemporâneo.

Sim, tenho consciência: a história se passa no “ciclo haniano 93”, “ano ekumênico 1490-97”. Alguns leitores fizeram cálculos e traduziram a data para 4870 depois de Cristo. Porém, segundo a introdução que UKL escreveu para a edição de 1976 desse livro (originalmente de 1969), seu objetivo é realizar um “experimento mental”, não para prever o futuro, mas sim para “descrever a realidade, o mundo atual”. Não se trata de profecia, nem de extrapolação de características do presente tentando imaginar como se desenvolverão daqui a muitos séculos. O mundo imaginário, mentiroso (“o trabalho do romancista é mentir”), coloca o leitor em modo experimental (“quando lemos um romance ficamos loucos”) que abre a possibilidade de penetrar na verdade do agora.

Então, em “A mão esquerda da escuridão”, acompanhamos Genly Ai, emissário de Ekumen, uma federação galática, no primeiro contato oficial e aberto com Gethen, planeta gelado (a decisão de prosseguir ou não com o contato seria, democraticamente, do contatado). Curiosidade maior: os alienígenas são todos andróginos. Só no período de cio, a partir do encontro de um casal, é que, aleatoriamente, cada um deles ganha características sexuais masculinas ou femininas. Sendo assim, toda pessoa pode ser mãe e pai ao longo da vida, vivenciando a realidade tanto como homem tanto como mulher. UKL explica sua estratégia: “isso não significa que estou prevendo que todos seremos andróginos dentro de um milênio, mais ou menos, ou anunciando que deveríamos, ora bolas, ser andróginos. Estou apenas observando, da maneira peculiar, tortuosa e experimental própria da ficção científica que, se você olhar para nós em certos momentos, dependendo de como está o tempo lá fora, já somos andróginos. Não faço previsões, nem passo receitas. Descrevo.”

E descreve muito bem o seu presente. Tanto que não é demérito nenhum dizer que sua descrição é datada. Em vez do futuro, encontramos ali nosso passado, e podemos entender melhor como chegamos até aqui. Genly Ai, o embaixador de 4870, é na verdade o melhor retrato de um homem do final dos anos 1960, perplexo diante da massificação do feminismo. Hoje homens cultos como ele (até pelo sucesso do pensamento antropológico), especialistas na tradução de diferentes pontos de vista, nunca escreveriam, em documentos oficiais, impressões tão machistas sobre outras culturas, como se feminilidade ou masculinidade fossem posições apenas biologicamente determinadas. Mesmo assumindo, como está explícito no primeiro parágrafo de seu relato, que “a Verdade é uma questão de imaginação.”

Por exemplo, seu pensamento sobre um nativo: “o desempenho de Estraven fora feminino, cheio de charme, tato e falta de substância, capcioso e astuto. Seria, na verdade, essa feminilidade suave e dócil que me fazia desgostar e desconfiar dele?” Em outras palavras: no seu entender as mulheres seriam, por natureza, suaves, dóceis, charmosas, capciosas, astutas e – hoje não lemos sem choque – sem substância. Do outro lado, a guerra (o contrário de civilização) e a competitividade seriam características biologicamente masculinas.

Depois de tanto tempo de “desconstrução” (palavra política da moda) feminista já podemos pensar mais como os andróginos alienígenas do que com o emissário antiquado? Este é meu experimento sobre o experimento de “A mão esquerda da escuridão” (livro que ilumina outros aspectos de um tempo de Guerra Fria e misticismo hippie). Faça suas próprias experiências. No aniversário de UKL, dê este presente para você mesmo: viaje para o gelo do planeta Gethen.

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aprendendo a viver sem privacidade

17/08/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 16/08/2013

Semana passada, o presidente Obama anunciou plano para tornar mais transparentes os serviços de espionagem dos EUA. Um documento com “sugestões para um maior equilíbrio entre segurança nacional e liberdades individuais” deve ficar pronto até dezembro. Não será tarde demais? Antes, privacidade na internet era assunto de especialistas; agora caiu na boca do povo. Muita gente perdeu a inocência e deve estar imaginando que não há volta: senha é coisa do passado. Vamos levar a imaginação a sério? Como seria viver sempre em público?

Rudy Rucker – tento sempre divulgar sua ficção científica nesta coluna – é uma das pessoas com imaginação mais fértil no mundo hoje. Ele fez o exercício para nós: seus livros “Postsingular”, de 2007, e “Hylozoic”, de 2009, descrevem mundo onde não há trocas de informações ou mesmo pensamentos privados. A vida fica mais ou menos divertida, mais ou menos democrática? A transparência deixou de ser palavra da moda e virou condição inescapável. Qual a vantagem?

Eis o cenário de Rucker: em “Postsingular”, obviamente, a singularidade – transformação tecnológica que cria a inteligência artificial – já aconteceu. Em 2035, um programador solta na atmosfera – primeiro da Califórnia, é claro – nanomáquinas, chamadas “orphids”. Elas se reproduzem automaticamente, uma em cada milímetro quadrado da Terra, formando grande rede de computação quântica, em comunicação direta com nossos cérebros, que não precisam mais de interface para interagir com bancos de dados e outras pessoas. Consequência: todo mundo pode saber tudo o que os outros seres humanos estão pensando.

Claro que tal situação é também desafio literário. Nas volumosas notas de “Hylozoic” (há ainda, disponível na web, suculento PDF com detalhes sobre a escritura de “Postsingular” – Rucker é militante na quebra de privacidade de seu processo criativo), encontramos o seguinte dilema: “tramas dependem das pessoas iludindo ou surpreendendo umas às outras. Poderia haver intriga num mundo da informação perfeita?” A resposta é um cauteloso “talvez”.  Rucker lembra que, no xadrez entre grandes mestres, capazes de deduzir com precisão o plano de seus oponentes, as partidas podem continuar emocionantes. “Se eu tenho informação perfeita sobre todo mundo na minha vida real, e se eles reciprocamente sabem ler meus pensamentos – mesmo assim alguns desenlaces podem ser imprevisíveis.” Seu raciocínio recorre a conto de fada pós-singular: dois rivais cortejam uma única princesa, conhecem os planos um dos outro e podem acompanhar em tempo real o resultado de suas estratégias na mente da amada; porém, só no último segundo eles e a princesa vão saber realmente quem será o escolhido. Em outras palavras, mais bombásticas (que não sei se seriam aprovadas por Rucker): podem acabar com a privacidade, mas isso não é garantia de uma sociedade sem terrorismo.

Novos terrorismos serão criados. Logo aparecerão inteligências artificiais capazes de “crackear” a rede dos “orphids”, produzindo tipos letais de cibervírus e “malwares”, ou simplesmente bombardeando os cérebros da população com publicidade (inclusive política) não solicitada. Além disso, mesmo com auxílio de “bots”, ninguém poderá prestar atenção em tudo ao mesmo tempo. Teremos ainda que escolher as aventuras sexuais que queremos bisbilhotar. Personagens centrais no enredo de Rucker ganham suas vidas como estrelas de reality show, bem real. Quando alguém espiona suas vidas vê cada ato acompanhado pela marca flutuante do patrocinador.

(Em seu conto mais recente, publicado no final de junho a pedido do Institute for the Future (que anda estudando a “internet das coisas”), Rucker coloca em cena um sapato feminino que dedura o caso extraconjugal que sua dona está tendo. Que sina: além dos governos, nossos objetos vão espionar nossa vida. Imagine a geladeira nos dando choque, e nos denunciando para o plano de saúde, a cada vez que sairmos da dieta médica.)

O sistema político pós-privacidade também é bizarramente curioso. Democracia direta radical. Cada cidadão é obrigado a votar em tudo que o congresso discute. Há dias em que são eleições, plebiscitos e impeachments por segundo. Ninguém consegue fazer mais nada. Ganha quem melhor manipula a opinião pública, que a transparência total não consegue tornar previsível.

Seres alienígenas (eles sempre existem) tentarão acabar com a imprevisibilidade do real. Thuy, a heroína viet-californiana, percebe: “O mundo está agindo como um videogame bunda mole. É quase como se a gente tivesse sido comida pelas nanomáquinas e transformada em ‘sims’.” O mal vence? Não estragarei a surpresa de ninguém. Mas posso garantir: o final é imprevisível.

caixa de vida parte 2

09/06/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 08/06/2012

Recapitulando: na semana passada publiquei o início da apresentação de RudyRucker, um de meus escritores favoritos, cuja obra é problematicamente classificada como ficção científica (FC). Mesmo o autor não sabe como enquadrar sua literatura. A própria trajetória de Rucker aumenta a confusão. No início ele queria ser matemático. Trabalhou como professor ou pesquisador em institutos de matemática, incluindo o da Universidade de Heidelberg. A temporada na Alemanha foi encarada como prêmio de consolação. Rucker já desistira da carreira ao não ser aceito como pós-doutor no Instituto de Estudos Avançados de Princeton, santuário máximo do saber contemporâneo, onde antes teve encontro com Kurt Gödel, sumo sacerdote dos teoremas (ou antiteoremas) mais esotéricos da matemática. Gödel classificou as ideias de Rucker como “muito estranhas” ou “bizarras”. Era um elogio. Para o resto do Instituto, a bizarrice não era suficientemente brilhante.

Comentário sobre a negativa de Princeton: “Meu artigo com Ellentuck [seu orientador, na Universidade de Rutgers] e meu trabalho na tese, embora publicáveis, não eram convincentes o bastante para que eu aterrissasse na posição de um lógico todo-poderoso. Comecei a sentir que os mais altos escalões da realização matemática ficariam inacessíveis para mim.” Ele não se contentava com pouco, nem com Heidelberg (terra de 55 prêmios Nobel, segundo a Wikipedia). Ainda bem: talvez não tivesse continuado a escrever ficção se mantivesse uma vida restrita às universidades, onde sempre continuou trabalhando e mesmo publicando, mais como divulgador do que como criador central. (Nessas reviravoltas da vida, um de seus livros de não-ficção, “O infinito e a mente”, teve suas últimas edições publicadas por Princeton, depois de ter sido lançado nos anos 80 pela editora Bantam, mais conhecida por seu catálogo de FC, incluindo a série “Jornada nas estrelas”.)

O fundamento científico e a curiosidade com relação aos avanços mais radicais da ciência atual são elementos marcantes dos livros de Rucker. Eles se passam em universos com leis diferentes daquelas que governam nossa realidade. Seu método: “Esse é realmente um estilo de pensamento que aprendi como matemático. Você começa com um conjunto de axiomas e vê o que pode deduzir. Engenharia de software procede mais ou menos da mesma maneira. Você cria um pequeno programa e vê o que aparece na tela quando o programa é rodado. Minha escrita de FC é como isso também. Eu faço algumas assunções incomuns sobre meu mundo imaginário, ponho dentro umas poucas personagens, e vejo o que acontece na estória que escrevo.” É o que Rucker chama de transrealismo. Regras: “as personagens devem ser baseadas em pessoas reais”; “o artista transrealista não pode prever a forma final de seu trabalho.” Então nada é pura piração. Tudo começa com a realidade, mas ninguém sabe onde vai parar.

A ficção de estreia de Rucker se chamava “Donuts do espaço-tempo”. Em 1979 começou a planejar “Software”, primeiro lançamento da tetralogia Ware. Ainda usava máquina de escrever. Software era palavra pouco conhecida, retirada de um artigo da revista Scientific American. Rucker só comprou seu primeiro computador em 1985 quando iniciou “Wetware”. Os robôs de “Software” comem o cérebro de seu inventor, para torná-lo imortal. Já em “Wetware”, os robôs começam a construir seres humanos. Os dois livros ganharam o Prêmio Philip K. Dick. Em “Freeware”, humanos e robôs têm relações sexuais, e precisam lidar com raios cósmicos alienígenas.

Esse estilo de maluquice encantou os primeiros cyberpunks. Em 1985, Rucker estava hospedado na casa de Bruce Sterling (que iria lançar “Mirrorshades”, a primeira antologia cyberpunk, no ano seguinte). Outro hóspede era John Shirley, mais um cyberpunk “canônico”. Rucker abriu os olhos uma manhã e se deparou com Shirley bem perto, observando seu rosto. Pego no flagra, ele se explicou: “estava analisando as vibrações do meu mestre.” Gente fina e doida.

Talvez meus livros preferidos de Rucker sejam dois mais recentes, que se passam num universo onde já aconteceu a “singularidade” (difusão explosiva de superinteligências artificiais por toda a realidade). Tanto que o primeiro volume se chama “Postsingular”. Já em “Hylozoic”, sua sequência, os humanos desenvolvem a telepatia generalizada (não existe mais privacidade nenhuma, pois não mais controlamos quem tem acesso a nossos pensamentos), e descobrem que todos objetos, de pedras a guarda-chuvas, são conscientes.

Enquanto escreve sua obra, Rucker também atua como um dos observadores mais perspicazes da nossa tecnocultura. Dá para fazer um jogo “Onde está Rudy Rucker?” para encontrá-los em alguns dos acontecimentos definidores do Zeitgeist. Ele colaborou com a edição da Mondo 2000 (revista que foi a Wired, muito mais radical, antes da Wired), da Semiotext(e) (onde organizou, com Peter Lamborn Wilson, coletânea além-cyberpunk) e do Boing Boing (quando era apenas um fanzine, antes de se tornar o blog mais influente). Trabalhou como programador de softwares (os primeiros a popularizar os autômatos celulares) para a Autodesk. Etc.

Como disse, os livros não foram lançados no Brasil. Mas dá para ter acesso a muitos escritos de Rucker pela internet. Por exemplo: as notas de “Hylozoic” podem ser baixadas em PDF de 385 páginas. É testemunho de uma das mentes mais bacanas do universo em pleno trabalho.

caixa de vida

08/06/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 01/06/2012

Rudy Rucker é um dos meus escritores preferidos. Poucos outros me deram tantas alegrias literárias, ou desafiaram minha imaginação com invenções ficcionais a cada livro mais desconcertantes. Penso que ele gostaria de ouvir essa declaração que classifica sua obra apenas como literatura. Geralmente os elogios que recebe são mais específicos: seus livros já ganharam prêmios importantes, mas quase todos só conhecidos por fãs de ficção científica (FC). Rucker cita o exemplo de Kurt Vonnegut como escritor que escapou do “gueto”, e conquistou respeito de críticos “sérios”, muitos dos quais tratam, quando estão com boa vontade, quem escreve ou lê FC como adolescentes nerds. Ao fazer esse tipo de reclamação em casa, sua mulher cai na gargalhada: “Não é FC? Você está escrevendo sobre robôs e lulas falantes e discos voadores e viagens para a quarta dimensão! Do que você espera que as pessoas chamem seus livros?”

Sylvia Rucker não acalma o marido. Ele quer encontrar legitimidade artística para sua literatura: “Os beats prezavam o gênero como uma forma de arte vanguardista e singularmente americana, um pouco como o jazz. Para mim, é assim como continuo a pensar sobre a FC quando estou escrevendo: como um surrealismo do mercado de massas, como uma literatura experimental, como a ficção de nosso tempo.”

Retirei essas citações de “Nested scrolls”, autobiografia de Rudy Rucker publicada recentemente. Como todos os seus livros, se não me engano, este também não foi publicado no Brasil. O que é sinal de problemas maiores: ninguém sabe direito o que fazer com sua obra, muito maluca até para padrões nada caretas. Rucker reconhece seu descolamento em qualquer lugar: “eu levo meus efeitos para novos níveis de esquisitice, minhas personagens são humanos realistas e sofredores – e não sou muito popular entre típicos fãs de FC.” Os não típicos também ficam inseguros. No prefácio que escreveu para a introdução da “Tetralogia Ware” – quando os alucinantes “Software”, “Wetware”, “Freeware” e “Realware” foram lançados em um só volume -, mesmo William Gibson ficou na defensiva: “A ficção de Rudy [os dois são íntimos e Rucker foi uma espécie de irmão mais velho para os melhores escritores cyberpunks] é provavelmente um pouco forte demais […] para alguns leitores […] O cara é sui generis.” Gibson amarelou. Afinal ele também quer ser considerado um escritor importante. Não deve pegar bem ser associado a companhias muito doidas.

Como não me interessa ser considerado crítico sério, posso elogiar rasgadamente todos meus ídolos (incluindo desenvolvedores de games, artistas de mangá e tantos outros que são habitués desta coluna). Rucker é gênio. Mas concordo com Gibson: um gênio sui generis. Para o leitor avaliar o quilate da maluquice santa do cara, preciso dizer que “Nested scrolls” é mais que autobiografia. Rucker acredita piamente que em pouco tempo poderemos “uploadar” o conteúdo de nossas consciências para a nuvem ciberespacial, e continuaremos vivendo por lá depois que nossos corpos físicos forem para o beleléu. Em outras palavras: seremos imortais. Mesmo agora, com as ferramentas já disponíveis online, há atalhos concretos para a imortalidade virtual.

Rucker criou o conceito de “life box”. Cada pessoa pode começar sua caixa de vida até com um blog, no qual depositaria todas suas recordações, pensamentos, fotos, vídeos, falas. Depois precisaria criar um mecanismo de busca dentro do blog, que é uma forma ainda primitiva de interação com o conteúdo ali disponibilizado, por caminhos não imaginados pelo seu autor. Algumas buscas já são feitas com voz. Logo as respostas também serão falas, imitando a voz do dono daquela “life box”. Tudo ficará parecido com uma conversa, a partir das memórias de alguém que pode até já estar morto. No momento em que novas memórias, post-mortem, forem acrescentadas ao conteúdo “original”, algo bizarro acontecerá: a caixa ganhará uma fagulha de “vida” própria.

“Nested scrolls” foi escrito como uma “life box”, não interativa. Por isso tantos detalhes, do nome de seus professores nas escolas primárias do Kentucky aos piolhos que seus filhos pegaram dos primos décadas depois. Quem não é tiete de Rucker vai ficar até constrangido com tanta intimidade, mesmo tendo oportunidade de conhecer tão profundamente o cotidiano de uma família americana nos últimos 70 anos. Mas quem quiser pode pular a infância e adolescência para chegar logo ao que tem mais interesse geral, a partir da pós-graduação em matemática, com direito até a um encontro com Kurt Gödel (para muitos o ser humano mais inteligente que já existiu). Diante de seu herói matemático, Rucker tem coragem de expor suas especulações sobre os paradoxos da viagem no tempo. Gödel responde: “Essa é uma ideia muito estranha. Uma ideia bizarra.” O pupilo fica orgulhoso. É uma espécie de Prêmio Nobel de bizarrice, vindo justamente do sumo sacerdote de um mundo bem esquisito: “De todas as subculturas exóticas com as quais eu eventualmente me envolvi, os matemáticos ganham a coroa de estranheza – e nem ligue para os hippies, escritores de FC, roqueiros punks, programadores de computador, e cibermalucos de Berkeley.”

Não acredito que o espaço desta coluna já chegou ao fim… Estou destrambelhado, escrevendo pelos cotovelos. Semana que vem: o cyberpunk, a Mondo 2000, os autômatos celulares. Enfim: o melhor de Rudy Rucker só na próxima sexta-feira.

linguagem e/ou pensamento

03/09/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 26/08/2011

China Miéville é escritor com uma missão: quer escrever um livro em cada subgênero literário. Já publicou policial, novela juvenil, steampunk, fantasia e até western. Há um termo guarda-chuva para todas suas experimentações: “new weird” (novo bizarro?), referência à “weird fiction” de escritores maravilhosamente estranhos da virada dos séculos XIX para XX, como H. P. Lovecraft. Miéville – esquisito até no nome, que mistura geografia com acento francês, camuflando sua biografia basicamente britânica – não se incomoda com o rótulo, tendo incentivado sua “viralização” on-line, mesmo com blog chamado “manifesto rejeitomentalista” (e na sua carreira paralela de pensador marxista, foi colaborador de outro blog, o “Tumba de Lênin”). Sua utilização das regras de cada subgênero é nada ortodoxa: todos eles se tornam vítimas do lado negro da força da literatura. Resultam sempre em livros que dão frio na espinha do leitor. O horror, o horror.

“Embassytown” (“Cidade-embaixada”), seu lançamento de 2011 (pelo que consegui pesquisar, nenhuma de suas obras teve publicação brasileira – esta coluna pretende apenas sugerir alguma tradução), dá estranheza para a tradição mais intergaláctica da literatura. O grosso da ação se passa num planeta nos confins do universo, onde humanos convivem com seres absolutamente diferentes. Em geral, mesmo na ala mais ousada da ficção científica, a comunicação com alienígenas é problema de tradução. Depois de um período de aprendizagem, a conversa rola solta, pois as linguagens têm estruturas compatíveis e exprimem emoções parecidas. Vide o ET do filme “Super 8”: a telepatia apenas nos diz que ele não quer nos fazer mal; seu objetivo é voltar para casa. No fundo, apesar das aparências, o alien é gente como a gente. Em Embassytown não: ali nos defrontamos com uma bizarrice radical, e talvez com o incomunicável.

O romance nos coloca diante de seres pra-lá-de-Marrakesh. Só tive impressão de tanta diferença cognitiva ao ler as aventuras dos “pequeninos” do planeta Lusitânia de Orson Scott Card (um de meus autores preferidos, exigindo futura coluna só para ele), que numa fase de suas vidas, depois de rituais ultraviolentos, podem transferir suas consciências para árvores com as quais a troca de informações acontece a partir de batuques nos seus troncos. Os “anfitriões” (“hosts” no original) que vivem ao redor da cidade-embaixada de Miéville têm dois órgãos de emissão sonora. Sua linguagem é resultado da combinação de palavras ditas simultaneamente pelas duas “bocas”. Não adianta treinar dois humanos para falar coisas diferentes ao mesmo tempo. O sentido só se estabelece se os dois sons forem produzidos por uma mesma mente. Aí entram os embaixadores, gêmeos geneticamente idênticos treinados para sintonizar seus pensamentos, formando uma única identidade.

O bizarro não pára por aí, e é além que as coisas ficam deveras interessantes. Os “anfitriões” não sabem mentir, pois não conseguem falar sobre algo que não tenha acontecido na realidade. Essa incapacidade, ou impossibilidade da mentira, revela problema mais sério, que transforma o livro em tratado de linguística alucinada, ou especulação extremista sobre a linguagem. Os “anfitriões” não pensam. Ou melhor: só pensam quando falam, e sua fala é pura referência a objetos ou atos específicos (são concretos como o sertanejo de João Cabral, “incapaz de não se expressar em pedra”). Não existe linguagem separada do mundo, portanto não existe significação, e consequentemente não existe metáfora, polissemia, ambiguidade, ou diferença entre a palavra e o referente. Como – ao viver – não paramos de pensar, e acreditamos no “penso, logo existo”, é absurdo imaginar numa linguagem sem pensamento: ler Embassytown faz nosso cérebro doer. Para não estragar a surpresa da dolorosa leitura, posso adiantar que o livro narra a aquisição não da linguagem, mas do pensamento. É um processo violento. Um personagem diz: a linguagem, com pensamento, é “a continuação da coerção por outros meios”. Outro discorda: “Bobagem. É cooperação.” O narrador tenta concluir: talvez cooperação e coerção não sejam coisas tão contraditórias assim. E aprender a pensar – mesmo o Bem – necessariamente machuca, faz sofrer. Fisicamente.

No planeta dos “anfitriões”, há uma sutil mudança no slogan de William Burroughs, também cantado pela Laurie Anderson: “o pensamento é um vírus vindo do espaço sideral.” Pois linguagem – que nunca comunicou realmente nada – já havia por lá. Faltava a possibilidade da mentira, e da interpretação, e do falar uma coisa querendo dizer outra. Faltava a poesia (não-concreta?) e seu dom de iludir. Por coincidência, ao ler “Embassytown” estava lendo também “O senhor do lado esquerdo” de Alberto Mussa (a “new weird fiction” brasileira?). Lá encontrei a seguinte declaração, definitiva: “Os leigos se impressionam muito com objetos esotéricos, fetiches, ritos e símbolos místicos, imagens demoníacas, animais sacrificados. Ignoram que a verdadeira magia é a fala, a linguagem humana.”

***

Quem respeita a linguagem, respeita também o silêncio. É preciso silenciar de vez em quando para a linguagem tentar recuperar sua potência. Maneira troncha que encontrei para dizer que esta coluna vai se silenciar por um mês. Como dá para perceber, preciso urgentemente de férias. Até a volta (da ambiguidade).


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