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carnavais

14/02/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 13/02/2015

No início dos anos 1980, durante o carnaval, eu circulava sempre pela Rio Branco, para me misturar aos desfiles do Cacique de Ramos e do Bafo da Onça. Fausto Fawcett, na mesma década, cantava/ordenava a dissolução de egos na matéria em movimento. Não havia nem superego que resistisse ao movimento browniano daquela multidão que ocupava nossa avenida central. Em questão de segundos, todos seus quilômetros eram preenchidos por um único corpo pulsante misturando jaguares e índios arquetípicos. Anos depois, aquela coisa toda – como por um milagre – foi desaparecendo. Eu insistia em voltar para a Cinelândia, mas o ambiente era triste. Gatos pingados fantasiados não conseguiam produzir sensação de folia. Quem é muito jovem não acredita quando conto que houve anos em que o carnaval no Rio tinha clima de “Adeus, batucada”.

Hoje, novos blocos, cada vez mais gigantescos, reconquistaram as ruas, para surpresa geral. Não foi obra de política pública de “resgate” do carnaval popular de rua. Tudo aconteceu como um experimento de ciência do caos, fora das previsões das autoridades mais “antenadas”. Foi como rebelião do inconsciente carioca, que não se conformou com a obrigação de ter que viajar para Salvador ou Recife se quisesse brincar na rua durante os feriados carnavalescos. Seguimos o grito de guerra do Cacique: “vou festejar”. Aqui mesmo.

Bela lição para quem estuda ou promove a cultura: ainda bem que o mundo é imprevisível. Festa é vontade mutante. Ninguém sabe onde, quando e como vai aparecer ou desaparecer. (Talvez como tudo na vida, mas na festa essa característica geral é mais evidente.) Nenhum MBA vai enquadrá-la em modelo de negócio estável. É possível apenas aproveitar o embalo, eterno enquanto dura.

Sonho com uma rede global de carnavais, uma organização das nações unidas da folia. Seria a atualização Século XXI de um efeito colateral da imposição do catolicismo por colonizadores lusitanos. Pensei nisso quando passei um carnaval em Goa, na Índia (uma das músicas que faz mais sucesso no seu desfile ainda é “Mamãe eu quero”). Tive contato também com manifestações carnavalescas em Malaca, na Malásia (era uma espécie de entrudo, com o povo que fala cristão – ou kristang, ou papiá kristang, idioma crioulo descendente do português com estrutura gramatical do malaio – fazendo batalha de baldes d’água na rua), e na Guiné Bissau (o maior carnaval africano – ver algumas imagens no episódio do Navegador, programa da GloboNews, na próxima segunda-feira). Todos: locais em que Portugal deixou suas marcas malucas. Tanto em Goa, quanto em Bissau há um fenômeno curioso: indianos fantasiados de indianos, africanos fantasiados de africanos, como se a festa fosse a única ocasião em que podem ser quem “verdadeiramente” são (e então percebemos que tudo é mesmo fantasia e que “verdade é uma ilusão”, ou ao contrário, dependendo do contexto).

Claro que seria justo ter o português como língua oficial da ONU foliã. Mas não poderia ser o único. Há carnavais em Veneza, na Alemanha. E há o carnaval de Trinidad e Tobago, com seu filho, no meio de cada ano, em Notting Hill, Londres, Inglaterra. É a maior folia do Caribe, a grande festa do calypso, hoje soca (corruptela de soul-calypso, filha da união do calypso com o funk). Essa apropriação do pop dos EUA revigorou a tradição festiva de Trinidad e Tobago, que cresce a cada ano e se mantém única, “tipicamente” local. Assim como o reggae foi incorporado ao carnaval de Salvador transformando-se em samba-reggae, que é baiano demais. Sempre escrevo: identidade nunca pode ser pensada como algo estático, acabado. Ou frágil, a ponto de qualquer ameaça externa, ou mudança mais decisiva, condená-la à extinção. Os carnavais são laboratórios que testam e expandem os limites das tradições. Como se identidade fosse uma grande brincadeira (e não é?). Como se o mundo fosse terminar na quarta-feira.

Quando a soca se tornou muito popular, pensei que steel bands – orquestras com aquelas panelas de aço, deliciosa invenção de Trinidad e Tobago – poderiam desaparecer. Mas elas continuam lá, criativas e magníficas. Essa constatação não quer dizer que boas tradições não correm riscos de extinção. Afirmo apenas que a dinâmica é incontrolável. A melhor política de preservação não é garantia de eternidade. Eterno Deus Mu-dança.

Os instrumentos das steel bands foram novidade um dia (assim como os surdos das escolas de samba), mais recente do que parece. Quem pode saber se no próximo século um dos melhores carnavais do planeta não acontecerá na Suiça e na Áustria, com bandas de hang, o novíssimo instrumento de percussão (criado depois de 2000) tocado com maestria pelo percussionista dos shows da Bjork, Manu Delago?

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Dorival Caymmi e a medicina da alma

07/06/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06/06/2014

Ainda é tempo de celebrar o centenário de Dorival Caymmi. Gilberto Gil, na canção “Buda nagô”, afirma que Dorival é, entre muitas outras coisas, índio. Então faço um remix Gil & Jorge. Pego “todo dia era dia de índio” e decreto: “todo dia é dia de Dorival”. Deveríamos acordar sempre, todo dia, não só em 2014, cantando Dorival.

Participei de entrevista com Dorival quando ele fez 80 anos. Havia redes no cenário. Chegando ao local da gravação, Dorival comentou, incomodado: “sempre pensam que vivo deitado numa rede.” Não vivia: ele passou grande parte de sua vida como cidadão de apartamento de Copacabana. Contradição? Só na cabeça de quem o imaginava isolado em aldeia de pescadores sem contato com a modernidade. Volto a “Buda nagô”: “Dorival é impar / Dorival é par”.

Por um período, eu passava frequentemente na calçada de seu prédio de Copacabana. Era muito bom encontrá-lo na janela, olhando o movimento da rua cosmopolita, com a atitude de quem estava numa pacata cidade do interior. Aquela visão iluminava meu dia. Fazia questão de cumprimentá-lo (“oi Dorival”), como se Copacabana fosse Itapuã, nos anos 1940. Tudo para ver, com os olhos bem abertos, a Copacabana do presente. O título do livro de Antonio Risério sobre Dorival é “Caymmi: uma utopia de lugar”. Encontrar Dorival na janela tinha o efeito de medicina para minha alma: transformava Copacabana, com sua beleza e seu caos, em utopia imediata.

Dorival é grego, é romano. Suas canções podem ser ouvidas como máximas de Epicuro, como cartas de Sêneca. Nada disso é garantia de felicidade geral, eu sei. E reaprendi essa lição trágica em cada página de “Medicina da alma – artes do viver e discursos terapêuticos”, livro precioso do filósofo (e também iniciado nos mistérios do samba) Paulo Henrique Fernandes Silveira. Pré-socráticos, platônicos, epicuristas, estóicos, céticos, cínicos: aquele momento do pensamento humano foi pródigo em experimentações com “pharmakon” (veneno/remédio) de todas as espécies. Paulo Henrique mostra como filósofos tentam ocupar o lugar do “therapeutés” (palavra que significa “aquele que trata ou cuida de outrem, mas também aquele que cultua os deuses”). Adianto logo a conclusão: “Independente das divergências entre as várias escolas, certos princípios norteiam as ‘therapeíai’ de que tratamos aqui. Talvez o mais importante seja a busca da autossuficiência (‘autárkeia’).” Dorival sereno na janela de Copacabana era a imagem mais justa dessa autossuficiência, como uma antena transmitindo tranquilidade para o mundo.

Na entrevista dos 80 anos, ao escutar a pergunta “quando fica triste, o que faz para recuperar a alegria?” ele respondeu “eu nunca fico triste”. Insistimos: “mas quando a tristeza vem lá longe?” Bem melhor que Prozac (será que algum psiquiatra ainda receita Prozac? saiu de moda?): “tomo água”. E começou a elogiar o azul do plástico das garrafas de água mineral, e depois o azul do papel que antigamente embrulhava as maçãs nas barracas das feiras livres. Não era um devaneio tolo. Havia bom humor budista ali, de contato radical com a realidade.

Exercício para guerreiro de Chögyam Trungpa: “Para começar, temos de olhar a realidade doméstica: as facas, os garfos, os pratos, o telefone, a lavadora, as toalhas – as coisas triviais. Nelas não há nada de místico ou de extraordinário, mas, sem um vínculo com as situações triviais, cotidianas, sem examinarmos a vida diária, nunca encontraremos nenhum senso de humor, nenhuma dignidade ou, em última instância, nenhuma realidade.” Porém, isso tem mais a ver com trecho de carta de Sêneca, que trata da futilidade de planejar o futuro: “Como fugiremos dessa inquietação? De um único modo: não deixando a vida depender do futuro, reconduzindo-a sobre ela mesma. […] Como a inconstância e as mudanças do acaso poderiam perturbar aquele que permanece estável na instabilidade?”

Permanecer estável na instabilidade. Ímpar/par. Lição da medicina da alma greco-romana. Lição de Dorival Caymmi, um dos melhores brasileiros de todos os tempos (incluindo os vindouros), cantando suas canções perfeitas, bebendo água azul, na janela de seu apartamento de Copacabana, dando outro rumo para a agitação da realidade.

*****

Ilan Waisberg, artista plástico que também faz trabalhos de cibermarcenaria (lembram canções de Dorival?), ao ler minha coluna (sobre o erro) da semana passada, gentilmente me mandou a seguinte citação de seu grande mestre Montaigne (Dorival francês?): “Sinto-me muito mais orgulhoso da vitória que obtenho sobre mim quando, no ardor mesmo do combate, deixo-me curvar sob a força do argumento de meu adversário do que me sinto gratificado pela vitória que obtenho sobre ele devido a sua fraqueza.” Palavras do lado bom da força.

Bruno Carvalho

05/04/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 04/04/2014

Bruno Carvalho, professor em Princeton, acaba de criar novo epíteto para o Rio de Janeiro. Além de maravilhosa e partida, agora a cidade pode ser chamada de porosa, termo que propõe interpretação original para um velho problema: a coexistência de uma cultura/autoimagem definida pela mistura com a disparidade socioeconômica evidente/brutal. “Cidade porosa” é o título de seu livro publicado no final de 2013 pela editora da Universidade de Liverpool. Deveria ter tradução imediata, pois é leitura essencial para enfrentarmos melhor as transformações urbanísticas que vão se acelerar até as Olimpíadas. Precisamos escolher bem que rumo dar para nossa porosidade.

“Cidade porosa” pode ser descrito com mais precisão como história detalhada, surpreendente e deliciosa de um bairro carioca, a Cidade Nova, desde sua criação a partir da chegada da família real portuguesa no Brasil até a destruição da Praça Onze para a passagem da Avenida Presidente Vargas. Cito alguns endereços daquela área. A casa da Tia Ciata ficava no 117 da Visconde de Itaúna, bem perto do Iuguend Bund, clube para a juventude israelita que ocupava o número 203 da mesma rua. A biblioteca judaica Bialik dividia a mesma casa com a gafieira Kananga do Japão. Bruno Carvalho – que chegou a conhecer, como conta no livro, o casal Pinduca e Celi, ele afrodescendente, ela filha de judeus russos – lembra que na maioria das cidades do mundo um endereço frequentemente revela a origem étnica de seus habitantes (quando morei em Chicago sabia que até numa mesma avenida, ao mudar de quarteirões bem determinados, eu saía de uma pequena Croácia, atravessava uma Rússia ortodoxa e encontrava uma Índia tâmil). Na Cidade Nova isso seria impossível. A Praça Onze era ao mesmo tempo o centro da Pequena África e da vida “Ashkenazi” carioca, isso para não falar dos pontos de encontro dos ciganos, imigrantes portugueses e italianos, ou da babel linguística criada (em fantasia ou realidade) pelas prostitutas do Mangue. Tudo prova de maior porosidade, que marcava a vida da cidade como um todo.

Porém, cuidado: todos sabem que estamos em terreno minado. Bruno Carvalho lança mão do conceito de porosidade justamente para evitar armadilhas como as conotações celebratórias de termos como miscigenação ou sincretismo. Ou mesmo, mais em voga, hibridismo: “Toda religião ou forma musical, por exemplo, pode ser entendida como composta por elementos heterogêneos, não importa quão puras elas pareçam ao olhar dos praticantes. Isso não quer dizer, evidentemente, que todas as religiões ou formas musicais possam ser consideradas porosas.” Mas importante: a porosidade não é necessariamente algo desejável ou positivo. José Miguel Wisnik dá o mote: é ao mesmo tempo um veneno e um remédio. Formas culturais porosas podem sustentar desigualdades e injustiças. O modo poroso de vida tem complexidade estonteante: “mistura e divisão aqui são como dois lados de uma mesma moeda.”

Que sina, a do Rio de Janeiro. Querendo simplificar as coisas, em nome do progresso, muitos urbanistas criaram planos (ou pior, impuseram a realização de planos) para acabar com a confusa porosidade de seus bairros e espaços públicas. A Avenida Presidente Vargas tinha esse objetivo: abrir via reta, a mais larga possível, para o futuro passar à força (e o futuro naquela época era uma frota de automóveis) acabando com territórios “pantanosos” (havia manguezais sim, mas as condições sanitárias da Cidade Nova podiam em vários períodos ser consideradas mais “arejadas” que as de outras partes da cidade tidas como menos “doentias”). Muitas vezes, os resultados dessas experiências são opostos aos esperados. Bruno Carvalho cita o texto “Ponte e porta” de Georg Simmel: uma ponte pode separar mais do que conectar; uma porta conecta e separa no mesmo ato. Na história carioca, a moderna Avenida, que parecia tão integradora, mais dividiu do que juntou/misturou ou fez circular.

Uma das qualidades de “Cidade porosa” é justamente ter uma escritura de máxima porosidade, que junta e mistura o que disciplinas diferentes tentam separar. Saímos de uma festa cigana, acompanhamos a perambulação de personagem de Machado de Assis, pegamos um bonde como João Pinheiro Chagas (que depois seria o primeiro primeiro-ministro português), encontramos romance esquecido (só teve duas edições) de Graça Aranha, pulamos atrás de um rancho italiano dos irmãos Baroni, acompanhamos as filmagens de Orson Welles na Praça Onze. Tudo isso para chegarmos num lugar mais segregado? Que nada, sou otimista: a leitura atenta do livro de Bruno Carvalho nos dá boas lições para o bom uso dos poros resistentes desta cidade.

Arrastão!

07/12/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06/12/2013

Parece que o espectro que ronda nossa cidade maravilhosa não é o do comunismo (anunciado por Marx e Engels naquela primeira frase enigmática de seu “Manifesto”), mas sim o do arrastão. Mês passado, ele reapareceu de sunga branca, fazendo búú nas praias (que, para infelicidade de alguns, não são tão chiques quanto as de Mônaco, mesmo em frente ao Fasano). Eu pensei: já vi esse filme trash antes, e não era cena do Gasparzinho. Voltando à minha filosofia marxista customizada: a história se repete em farsa da farsa da farsa, ad infinitum, como no loop eterno da instalação “Ão” de Tunga, com trecho repetido de “Night and Day” (não confundir com a saltitante “Day’n’Nite” de Kid Cudi) servindo de trilha sonora para passeio onde não há luz no fim do túnel (meu primeiro contato com sua película rastejante foi nos anos 1980 em galeria de Ipanema; hoje está exposta no Inhotim).

Recapitulando: em 1992, também no perigosíssimo Arpoador, houve tumulto animado, durante domingo de muito sol. No dia seguinte as manchetes dos jornais berravam irresponsáveis: Arrastão! Eu me arrependo de ter escrito artigo para o Jornal do Brasil tentando explicar que aquilo não fora assalto “serial” e em massa, mas sim (os dados policiais já confirmavam: quase ninguém roubado) a reencenação, nas areias escaldantes, de conflitos dançantes entre turmas de favelas diferentes que costumavam acontecer em baile funk. Resultado: os ataques se voltaram contra o funk. Quase todos os bailes de clube (Mackenzie, Cassino Bangu etc.) foram fechados. Deu origem a um atraso enorme na vida cultural da cidade, pois o desenvolvimento de sua nova música eletrônica teve que acontecer malocado em favelas patrulhadas por “comandos” cada vez mais armados. O poder público, com ajuda da imprensa, foi coinventor do “proibidão”.

21 anos depois, agora, depois do feriado da Consciência Negra, abro os jornais e as manchetes estão histéricas novamente: Arrastão! Parece flashback de viagem de droga muito ruim. Foi arrastão mesmo? Não importa: até o consulado dos EUA emitiu alerta falando em “roubos de massa”. Qual será o próximo bode expiatório? Qual será o próximo “proibidão”? Por que essa compulsão na “reincidência” interpretativa, que já se provou equivocada anteriormente?

O autosubversivo Albert O. Hirschman, um dos maiores pensadores do Século XX (ele teve ilustres discípulos/amigos brasileiros, que poderiam lucrar com doses mais generosas de autosubversão também), fez comentário absolutamente inspirador (no final de sua obra-prima “As paixões e os interesses” – que acaba de ter nova edição americana, com prefácio de Amartya Sen e posfácio de seu biógrafo Jeremy Alderman) sobre a máxima de Santayana: “aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo”. Essas palavras são tão citadas (recentemente foram inspiração para vários textos da Batalha das Biografias) que passamos a acreditar que fatos históricos se repetem mesmo.

Para Hirschman, a máxima tem maior probabilidade de “aplicar-se rigorosamente à história das ideias do que à história dos fatos”. Sua explicação, deliciosa: “Esta última, como sabemos, quase nunca se repete, porém, circunstâncias vagamente similares, ocorridas em dois diferentes e talvez distantes momentos do tempo, podem facilmente dar origem a pensamentos-respostas idênticos e identicamente imperfeitos se o episódio intelectual anterior for esquecido.” Na minha humilde opinião, foi isso que mais uma vez aconteceu com o tal arrastão. Fatos diferentes (e talvez somente espectrais), circunstâncias diferentes, mas desencadeando o mesmo pensamento-resposta, que educadamente podemos considerar “imperfeito”.

Sou cada vez mais cético (incluindo convicto relativismo fora de moda). Por isso fiquei comovido com a profissão de fé no valor da História que multidões externaram na Batalha das Biografias. Senti até uma ponta de inveja, a mesma que entristece meu coração quando, diante do delírio de torcida de time de futebol, percebo que nunca vou dar aqueles urros/pulos de felicidade.

Fui formado por livros errados, na idade errada.  Entre eles: “O inventário das diferenças”, com aula inaugural de Paul Veyne no Collège de France. Ali aprendi coisas horríveis que viraram bandeiras inconvenientes. Exemplo: “uma cultura está bem morta quando a defendem em vez de inventá-la.” Ou (crianças, tapem seus ouvidos!): “a verdade não é o mais elevado dos valores do conhecimento”, pois “é mais importante ter ideias do que conhecer a verdade”. Pior ainda: “a História é feita para divertir os historiadores, é tudo.” Que sina: não consigo nem ter raiva ou piedade daqueles que acreditam no espectro do arrastão.

gentileza total

31/08/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 30/08/2013

Minha coluna entra de férias hoje. Por isso este anúncio adiantado: sexta-feira que vem é dia de o Rio de Janeiro comemorar os dez anos de A Gentil Carioca. Vai ter festa obrigatória na encruzilhada! Mais especificamente, ali onde provavelmente – séculos atrás – era a entrada para a sede da Irmandade de São Jorge, entre as quatro esquinas formadas pelo encontro das ruas Luiz de Camões e Gonçalves Ledo (um poeta português e um articulador maçom da independência brasileira – por coincidência a Gentil foi inaugurada um dia antes do 7 de Setembro), por trás da Praça Tiradentes, perto (dentro?) do comércio pop do Saara.

A galeria ocupará um segundo prédio, com visão direta para sua Parede Gentil (a que é sempre renovada por murais de arte efêmera), com muitas outras atividades: exposições – começando por Cosmococas – no segundo andar, e uma Aldeia Carioca – para todos nós índios urbanos – no primeiro. Porém, como afirmam seus criadores Marcio Botner, Laura Lima e Ernesto Neto, o mais importante sempre acontecerá “entre” os dois edifícios, no meio da rua e do “redemoinho” criativo que a galeria acelera gentilmente.

Escrevi galeria. É pouco. Poderia corrigir para “centro cultural”, mas continuaria uma denominação empobrecedora. As atividades e os projetos da Gentil são híbridos, também “entre” muitas categorias. Nesse sentido têm a ver com outras iniciativas que sustentam muitas ondas boas da cidade hoje. Cito o Cachaça Cinema Clube (que fez 11 anos agora em agosto), a La Cucaracha! (é uma loja? é uma galeria de toy art? é uma editora de quadrinhos? etc.?), o Plano B, o Audio Rebel, a Comuna, o CEP 20.000 (pai de toda a nova geração? Aproveito para dar as boas-vindas para o “bar” Subúrbio Alternativo, de Brás de Pina, com shows de metal também na rua). Cada um bem diferente do outro, com “modelos de negócios” diversos, mas todos resultados da vontade e do trabalho de gente que faz (abrindo espaços onde tudo é precário), e não fica reclamando esperando acontecer.

A Gentil Carioca surgiu num momento de total crise institucional na cena das artes plásticas da cidade. Galerias fechadas, o MAM moribundo, a RioArte seria extinta em breve (acabando com exposições no Sérgio Porto etc.) – tudo desanimador. Marcio, Laura e Neto inauguraram o que ninguém (no mercado e no governo) acreditava possível: galeria-ponto-de-encontro-e-festas-espaço-educativo-e-mais, administrado por artistas, no centro “decadente” (onde colecionadores nunca tinham pisado). Não há nada semelhante, com todas essas múltiplas características, no mundo. Mesmo assim, a experiência completa uma década, sobrevivendo com recursos próprios (é uma instituição comercial, que vive com dinheiro da venda de trabalhos dos artistas por ela representados), e sempre testando novas possibilidades, lançando novas sementes.

Por exemplo: a Abre-Alas, exposição coletiva realizada todos os anos na época do carnaval, com seleção de artistas que começaram a enviar portfólios para o endereço da Gentil. Já teve nove edições e se transformou numa das principais plataformas para novos nomes nas artes brasileiras. Ou a Camisa Educação que lança camisetas idealizadas por diferentes artistas (51 até agora) com o tema educação, uma ação simbólica que procura estimular o debate sobre políticas públicas educativas para além dos especialistas.

Outra atividade/atitude pioneira da Gentil foi sua participação em feiras de arte internacionais, como a Art Basel ou a Frieze, indicando caminho para outras galerias (bem mais tradicionalmente comerciais) brasileiras. É também aprendizado, que tem função pública, podendo ser compartilhado por muito mais gente: como funciona o grande mercado de arte mundial – e como novos artistas brasileiros podem aproveitar o interesse pela arte do ex-resto-do-mundo, sem virar exotismo BRICs.

Dito tudo isso, encerro com o que mais me alegra/revigora: A Gentil Carioca soube inventar um território para celebração tanto da arte quanto da vida no Rio. Na próxima sexta-feira, mais uma vez teremos aula boa de festa. Muitos motivos para ir ao Centro: da escultura bolo de Edmilson Nunes à performance de Jarbas Lopes com lavagem da encruzilhada.

***

Que maravilha o disco “MISTURA7” de Gian Correa. Na minha sempre exaltada opinião, já pode ser classificado como um dos melhores da história da música instrumental brasileira. (Viva também o Movimento Elefantes!) O violão de sete cordas sai do acompanhamento e passa a comandar uma experiência de vanguarda com quarteto de saxofones e pandeiro. São Paulo já aponta o futuro do samba pop e do funk carioca. Agora também consolida seu lugar central na renovação constante do choro.


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